Foi no Brasil, na cidade de Natal, que aconteceu este discurso simples, genuíno e frontal, perante as autoridades que ficaram sem palavras...
Foi no Brasil, mas também aqui, em Portugal, a Escola Pública sofre com idêntica falta de investimento, com a precaridade do vínculo dos professores que não só não veem respeitada a sua nobre e importante função, mas também não possuem as condições adequadas a um ensino de qualidade.
Para que melhor se entenda a emotividade do discurso desta jovem professora, talvez seja bom saber que no Brasil a proporção do salário de um professor para um deputado é de 1 para 30, e que p.e. dentro das regras em que se movem, os professores brasileiros estão proibidos de se alimentar nas cantinas escolares, pois isso é considerado desvio de bens.
Penso que política, na sua mais pura natureza, é isto que esta professora faz: Falar dos problemas concretos da Pólis, não de meras abstrações, ou de estatísitcas, onde as pessoas são menos importantes que os números.
E uma política corajosa, pois fala cara a cara com quem tem o poder para mudar as coisas e não o faz, porque a verdade é que quer no Brasil, quer em Portugal a Educação não é, de facto, uma prioridade!
Vale a pena ver! Esta jovem professora é um exemplo, para os seus colegas, para os seus alunos e, no fundo, para todos nós!
Nasceu em Viseu em 1930 e foi muito jovem para o Brasil, onde iniciou uma carreira de cantora e... por lá ficou
O auge da sua popularidade no país irmão teve-o em 1955 onde destronou a então famosissima Angela Maria como Rainha da Rádio. No ano seguinte seria a vez de passar o ceptro a Doris Monteiro.
Esteve nos primórdios da Bossa Nova e cantou todos os principais compositores do Brasil da sua época.
Chama-se Vera Lúcia e é praticamente desconhecida no país que a viu nascer... Nem mesmo na sua época aurea o nosso país lhe prestou grande atenção, apesar de ter chegado a gravar alguns fados.
Assumida, naturalmente, como cantora brasileira, penso que não será tarde para chamar a atenção para esta voz simpática, que apesar de ter as suas raizes na nossa Beira, é bem caracteristica da música brasileira dos anos 50, aqui numa das primeiras composições de António Carlos Jobim (1959).
Tenho desde sempre uma verdadeira paixão por esta voz e por esta canção...
A força da interpretação de um poema belo, denso e fortíssimo e o arrebatamento da sua voz imensa e expressiva, colocam Elis num patamar a que muito poucas cantoras do mundo conseguem subir.
Deixo aqui a canção interpretada ao vivo e o poema, que certamente todos conhecem, mas que acredito que a maior parte dos que por aqui passarem gostarão de voltar a ver e a ouvir...
COMO OS NOSSOS PAIS (Belchior)
Não quero lhe falar, Meu grande amor, Das coisas que aprendi Nos discos...
Quero lhe contar como eu vivi E tudo o que aconteceu comigo.
Viver é melhor que sonhar Eu sei que o amor É uma coisa boa Mas também sei Que qualquer canto É menor do que a vida De qualquer pessoa...
Por isso, cuidado meu bem Há perigo na esquina Eles venceram e o sinal Está fechado prá nós Que somos jovens...
Para abraçar seu irmão E beijar sua menina, na rua, É que se fez o seu braço, O seu lábio e a sua voz...
Você me pergunta Pela minha paixão Digo que estou encantada Como uma nova invenção.
Eu vou ficar nesta cidade Não vou voltar pro sertão Pois vejo vir vindo no vento Cheiro de nova estação Eu sei de tudo na ferida viva Do meu coração...
Já faz tempo Eu vi você na rua Cabelo ao vento Gente jovem reunida Na parede da memória Essa lembrança É o quadro que dói mais...
Minha dor é perceber Que apesar de termos Feito tudo o que fizemos Ainda somos os mesmos E vivemos Ainda somos os mesmos E vivemos Como os nossos pais...
Nossos ídolos Ainda são os mesmos E as aparências Não enganam não
Você diz que depois deles Não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer Que eu tô por fora Ou então Que eu tô inventando...
Mas é você Que ama o passado E que não vê
É você Que ama o passado E que não vê Que o novo sempre vem...
Hoje eu sei Que quem me deu a idéia De uma nova consciência E juventude Tá em casa Guardado por Deus Contando vil metal...
Minha dor é perceber Que apesar de termos Feito tudo, tudo, Tudo o que fizemos Nós ainda somos Os mesmos e vivemos
Ainda somos Os mesmos e vivemos
Ainda somos Os mesmos e vivemos Como os nossos pais...
Em 1987, na cidade de São Paulo, um grupo de amigos, todos com sólida formação musical, costumava reunir-se, nas tardes de sábado, para fazer o que mais gostavam: tocar Jazz.
Numa altura em que a moda era o rock eles não tinham qualquer pretensão em profissionalizar-se tocando standards de jazz.
Contudo, resolveram testar a sua aceitação pelo público e conseguiram marcar uma apresentação numa segunda-feira de Inverno, num pequeno bar de São Paulo, chamado “Espaço OFF”.
Só nessa altura resolveram baptizar o grupo, dando-lhe o nome de Nouvelle Cuisine.
A repercussão desta sua primeira apresentação foi tal que, na segunda-feira seguinte, o pequeno bar estava repleto de críticos e de produtores musicais.
Poucos dias depois estavam a assinar um contrato com a Warner e a editar o primeiro disco, com a ajuda de um maestro vindo de Los Angeles de propósito para trabalhar com eles.
O disco chamado apenas “Nouvelle Cuisine” foi recebido entusiasticamente pela crítica e foi, no escasso mercado de jazz, um verdadeiro sucesso de vendas.
O reconhecimento da sua excepcional qualidade permitiu que a editora aceitasse para o segundo disco, que se veio a chamar “Slow Food”, a introdução de canções em português, novas sonoridades e mesmo o acompanhamento de uma orquestra sinfónica.
Permitiu-lhes igualmente ter a colaboração de Gal Costa (numa canção chamada Notas) e de Caetano Veloso que compôs para eles a canção Luzes.
Ao assistir a uma das suas apresentações, o grande trompetista Wynton Marsalis considerou-os o melhor grupo de jazz fora dos Estados Unidos e juntou-se a eles para uma jam session, que considerou inesquicivel.
O prestigio e sucesso dos Nouvelle Cuisine foram-se mantendo, essencialmente no círculo restrito do jazz e da critica, Contudo, a sua notoriedade no público em geral viria a acontecer de forma algo imprevista em 1988.
Numa noite, no auditório do MASP (o principal museu de São Paulo,) os Nouvelle Cuisine, para surpresa do público, levaram uma jovem desconhecida para cantar em dueto com o vocalista Carlos Fernando Nogueira. A canção era “Bess you is my woman now” da Ópera Porgy and Bess.
A moça era linda, tinha uma voz belíssima e pouco depois viria a gravar o seu primeiro disco em 1989, onde esta colaboração com os Nouvelle Cuisine não ficou esquecida. Chama-se a moça Marisa Monte
Deixo aqui o vídeo desse trabalho conjunto sobre o tema de Gershwin esperando que gostem tanto dele, quanto eu!
Actualmente, após a saída de dois dos seus elementos fundadadores, entre os quais Carlos Fernando Nogueira, o Nouvelle Cuisine transformou-se em Nouvelle.
Carlos Fernando iniciou uma carreira a solo, tendo editado um CD (1994) em parceria com o músico Toninho Horta sobre canções de Chico Buarque
Hoje os Nouvelle têm como vocalista a cantora Estela Cassilati e continuam a ser uma referência de qualidade, embora tal como antes para um público minoritário.
Vale a pena conhecer os antigos Nouvelle Cuisine, que em 1992 foram considerados o melhor grupo de MPB, e os actuais Nouvelle, que infelizmente estão pouco presentes nas nossas lojas e, pior ainda, completamente ausentes das nossas rádios.
Venho hoje dar nota que iremos ter na capital portuguesa, entre outros, três espectáculos vindos do país irmão e que merecem alguma atenção:
O primeiro a chegar será a peça “O Homem Inesperado” da já consagrada autora francesa Yasmina Reza.
De hoje até 3 de Maio o casal de actores Nicete Bruno e Paulo Goulart estarão entre nós no Teatro Tivoli representando uma peça que foi já sucesso nos palcos das principais cidades do mundo.
A peça traz-nos a história de uma mulher que inesperadamente tem, numa viagem de comboio entre Paris e Frankfurt, como companheiro de viagem, o seu escritor predilecto.
Apesar de sozinhos no mesmo compartimento, nenhum se atreve a entabular conversa com o outro e apenas vamos sabendo o que o vai fluindo no pensamento de cada um.
Pensam na vida, nos sonhos realizados e desfeitos e das alegrias e tristezas que a existência comporta e pensam no companheiro de viagem, tentando desvendar que pessoa verdadeiramente estará na sua frente.
Vamos percorrendo, com as personagens, os anseios de dois seres, já com muitos anos de vida, e que se encontram ambos à beira da solidão.
Segundo rezam as crónicas de São Paulo e do Rio de Janeiro as interpretações dos actores estão à altura da sensibilidade e da qualidade do texto.
Trata-se de uma tarefa algo complicada, pois este é um texto que serviu já grandes actores: Alan Bates protogonizou-o em Londres e Nova Iorque e Phillipe Noiret em Paris.
Veremos o que nos traz este nosso conhecido casal de simpáticos actores, que aos 76 anos vêm fazer uma aposta arriscada a Lisboa, já que não está a haver qualquer promoção publicitária do seu espectáculo.
Com grande curiosidade também aguarda-se a chegada do musical de Chico Buarque Gota d’Água, que percorrerá o país, apresentando-se no CCB de 6 a 9 de Maio.
Gota D'Água" tem a actriz Izabella Bicalho como protagonista.
O nome Izabella Bicalho pode não dizer muito aos espectadores portugueses, mas aos que eram criança nos idos anos 80 lembrar-se-ao dela como a Narizinho do Sítio do Picapau Amarelo.
Entretanto Izabella cresceu e tornou-se, segundo as criticas do lado de lá do Atlântico, numa actriz magnifica e numa excelente cantora.
Cito agora o JN de 16 de Março último:
“A origem deste musical remonta a 1975, quando Chico Buarque e Paulo Pontes adaptaram a tragédia "Medeia", de Eurípedes, à realidade brasileira, dominada pela censura federal e repressão ideológica.
Com uma grande carga poética, o espectáculo emocionou na altura a crítica e o público, tornando-se um grande sucesso no Brasil.
Passados 30 anos, o espectáculo foi apresentado numa abordagem contemporânea, com novos arranjos musicais, tendo recebido vários prémios no país, tendo estreado no Rio de Janeiro em 2007.
Nesta nova versão, a personagem feminina, Joana, é uma mulher batalhadora que vive nos subúrbios de uma grande cidade brasileira, a Vila do Meio-Dia, e que um dia é abandonada pelo marido, que a troca por uma mulher muito mais jovem e rica, filha de Creonte.
Enquanto a mulher fica destroçada pela dor da traição, Jasão, o ex-marido, vive dias de felicidade ao lado de Alma, desfrutando do sucesso do samba "Gota D'Água", que não pára de passar nas rádios da cidade”
Entretanto para quem conhece Medeia, é sabido que a história acabará por ter um final extremamente dramático. Final que se repete nesta Gota d’Água.
Em 1975 a peça foi protagonizada pela grande Bibi Ferreira. Agora teremos Izabella Bicalho, e ao deixar aqui algumas imagens do espectáculo, perceber-se-á que a escolha da antiga “Narizinho” foi igualmente notável, apesar do som e da imagem obtidos por telemóvel serem infelizmente pouco adequados.
Por último gostaria de assinalar o regresso a Lisboa de Edson Cordeiro, que no próximo dia 14 de Maio estará de novo em Lisboa, desta vez no auditório dos Oceanos.
Cordeiro que continua a ser um sucesso em todas as suas apresentações terá desta vez como acompanhantes o terceto de jazz Klazz Brothers.
Para quem não conhece este contratenor brasileiro, direi que ele é perfeitamente eclético, indo da canção popular brasileira à Ópera, passando pelo Jazz.
Raramente Edson Cordeiro deixa os espectadores indiferentes.
Deixo aqui uma sua interpretação de uma ária da Ópera Rei Artur de Purcell, filmada o ano passado num espectáculo realizado em Berlim. Espero que gostem!
Um cidadão, nascido em 1956, amante de cidades e de uma vivência de cidadania sã!
Adepto da Liberdade, minha e de todos os outros.
Adepto do respeito, para mim e para todos os outros!
Crente que a utopia vale a pena e que lutar por ela é ganhar tempo!