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domingo, fevereiro 05, 2012

The Star is Back...

Drogas, álcool, dramas passionais, escândalos financeiros, maridos homossexuais, um talento excepcional… Bom… Judy Garland voltou…




Não voltou através da série de filmes Andy Hardy que eu vi na minha infância e que estiveram para os adolescentes de então, como a Partridge Family esteve para as gerações seguintes, ou mais tarde o Fame, ou actualmente o Glee, que tanto sucesso vai fazendo junto dos teenagers!




Voltou através da peça de Peter Quilter “O fim do Arco Íris”! E claro, que a receita de sucesso é precisamente a mesma que fez do filme sobre Edith Piaf um campeão de bilheteira: Acentuam-se os sinais de decadência física e mental, realçam-se as mudanças extremas de humor, estimula-se no espectador o sentimento de compaixão e coloca-se um conjunto de canções magníficas, que não deixam ninguém indiferente!

Explorada cruelmente durante toda a sua vida,  serve agora de galinha dos ovos de ouro para empresários teatrais de todo o mundo! É a sina de Garland mesmo após a sua morte!

Estreada primeiro em Sidney há já seis anos, foi-o mais recentemente em Londres e depois em mais de 30 cidades de todo o mundo, incluindo Lisboa desde a semana passada. Tem sido um êxito em toda a parte. Na Broadway estreará em Março com a atriz protagonista da capital inglesa.


Não vi ainda a peça e não vou portanto pronunciar-me sobre ela. Apenas realço o facto de que em Londres, Sidney, Madrid ou Rio de Janeiro as atrizes escolhidas para protagonista serem bastante experiente e com uma idade aproximada à da personagem, ao passo que em Lisboa a escolhida por La Féria é a jovem cantora e atriz Vanessa com cerca de 30 anos! E confesso, que esta aposta arriscada me faz sentir bastante curioso…!

Mas do que trata a peça? O enredo é completamente ficcionado, tomando como base a estadia de Judy Garland na capital britânica, seis meses antes de morrer! Estava-se no final de 1968, e as cenas passam-se num quarto do Savoy, onde efetivamente esteve hospedada e no Talk of the Town onde se apresentou!

Nessa altura Judy já estava bastante doente, com um cancro no fígado e mantinha-se dependente de vários medicamentos e do álcool. Mantinha igualmente inalterada a sua energia em palco e a sua vontade de viver.

 Entram nela três personagens: Duas reais, a de Judy e a do seu noivo e futuro marido Mickey Deans (um gerente de um bar gay de Nova Iorque, muito mais jovem que a cantora) e uma personagem ficcionada, a do pianista homossexual Anthony Chapaman.

Aliás, a relação de Judy com o mundo gay não aparece na peça por acaso, já que é uma das características mais marcantes da sua vida e da sua carreira. A comunidade gay idolatrava-a e três dos seus maridos eram homossexuais (o último inclusivé, com quem contraiu matrimónio apenas 3 meses antes de falecer).



Com Vicente Minnelli, o seu segundo marido, o casamento acabou quando Judy se apercebeu, durante as filmagens do filme "O Pirata dos meus sonhos" que o marido estava mais interessado em Gene Kelly do que nela. Este facto, levou-a à primeira tentativa de suicidio!



Com Mark Herron, que foi o promotor de uma complicada digressão pela Austrália, ela arriscou o casamento, mesmo sabendo que ele, na altura,  vivia com outro homem. O matrimónio acabou quando ela o apanhou na cama com o jardineiro e correu atrás dele de facalhão em punho! Judy tinha azar quer com os maridos, quer com os empregados!



Mas a história de casamentos com gays na familia já era antiga pois o seu pai, também ator e cantor, era igualmente homossexual e por causa dessa situação foi mesmo obrigado a sair com a mulher e filhas da terra onde viviam para evitar um escândalo de grandes proporções!

E se este tipo de situações já era antigo na família, a tradição manteve-se para as gerações mais novas, um "protegido" de Judy, o cantor e compositor de sucesso Peter Allen, também homossexual, acabou por tornar-se no primeiro marido da sua filha Liza Minnelli...

Entretanto, regressemos à sua apresentação na prestigiada “Talk of The Town” (que não era nenhuma boite de quinta categoria, como refere o programa da peça aqui em Lisboa) e que era aguardada pelo público londrino com enorme expetativa pois, devido ao seu estado de saúde, tanto poderia corresponder a apenas uma noite, como prolongar-se pelas cinco semanas previstas.

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E, de facto, Judy, após uma gloriosa noite de estreia, com Ginger Rodgers e Zsa Zsa Gabor a assistir entusiasmadas, conseguiu cumprir integralmente o seu contrato e ainda fazer uma digressão pela Suécia e pela Dinamarca, até Março de 1969 !

Judy, que morreria em 22 de Junho de 1969 de uma dose excessiva de um medicamento para dormir chamado Seconal, apesar de doente e precocemente envelhecida, conseguia ainda arrebatar o público.

É de uma das suas atuações no TALK OF THE TOWN o seguinte registo audio:


  

Judy Garland foi lançada pela sua mãe aos 3 anos na vida artística e aos dez anos surpreendeu Louis B. Mayer e toda a MGM com o seu timbre já de mulher adulta e enorme amplitude vocal!

Sua mãe aceitou um contrato em que Judy era paga miseravelmente, mesmo quando dava milhões de dólares a ganhar aos Estúdios.

O seu salário no Feiticeiro de Oz era pouco superior ao valor que era pago aos donos do cãozinho Tótó que era seu companheiro no filme e na série de nove filmes Andy Hardy nunca ultrapassou os 350 dólares semanais!

A MGM e a mãe dominavam a sua vida por completo, fazendo-a trabalhar como uma escrava e obrigando-a a tomar anfetaminas para emagrecer, o que fazia com que tivesse que tomar depois barbituricos para dormir, e de madrugada estimulantes para que acordasse e conseguisse trabalhar sem descanso mais de14 horas por dia!

Ao contrário das restantes estrelas da MGM, Judy mais talento do que beleza e Louis Mayer chamava-lhe a "corcundinha". Era também mais gordinha do que deveria, por isso apertavam-na com cintas e  ligaduras para que parecesse mais esbelta.

Foi assim aliás que filmou o "Feiticeiro de OZ" e alguns outros filmes. Para além de lhe prejudicarem a saúde para sempre, eventualmente por ignorância, provocaram-lhe deliberadamente danos irreversíveis na sua autoestima, para mais facilmente a controlarem.

Ora, para além desta loucura de vida para uma criança, a partir de certa altura Louis B. Mayer, que tinha habitualmente na sua cama Lana Turner e Deanna Durbin, com a conivência da sua própria mãe de Judy, fazia-lhe um insistente e chantageante assédio sexual, que ao não ter tido sucesso, levou o dono da MGM a fazer tudo para que a vida dela fosse um inferno, pondo inclusive os seus amigos da Máfia a invadir-lhe a casa e fazer-lhe constantes ameaças de morte.

Aos 18 anos e com este terrível ambiente, Judy optou por abandonar a sua mãe, casando com David Rose, bastante mais velho do que ela, o que momentaneamente a fez sentir-se mais segura.



Contudo, um ano depois, ao ficar grávida, Louis Mayer, a sua mãe e até o seu próprio marido, impuseram-lhe que fizesse um aborto para não prejudicar o ritmo de trabalho a que estava obrigada contratualmente!

Judy sentiu-se então mais sozinha do que nunca e terá ficado traumatizada para sempre! O casamento acabou, tal como o relacionamento com a sua mãe e, juntamente com as drogas de que dependia, veio o álcool… para ficar!



Tendo passado a vida encerrada em estúdios a filmar ou preparar cenas ou concertos, toda a sua vida financeira era dirigida por terceiros.

Primeiro pela sua mãe, que se aproveitou ao máximo do dinheiro de Judy e depois pelos seus maridos..

Muito do que ganhou escapou assim ao seu controle, o que fez com que fosse apanhada de surpresa pelas autoridades fiscais, a meio da década de 50, com uma divida de muitas centenas de milhares de dólares relativos a impostos não pagos em 1951 e 1952, anos que se seguiram à tumultuosa separação entre Garland e  Minnelli.

Nessa altura, quem geriu as suas finanças foi David Begelman, que era seu agente artístico e de outras figuras importantes do showbusiness americano como por exemplo Marilyn Monroe, Woody Allen, Richard Burton, Peter Sellers, Gregory Peck, Henry Fonda e Rock Hudson.

Veio-se a saber posteriormente que fora Begelman que desviara o seu dinheiro e que inclusive lhe extorquiu largos milhares de dólares dizendo-lhe que a Máfia possuía fotos da cantora a entrar inconsciente para o Hospital. Essas fotos seriam enviadas para os jornais, caso Judy não pagasse o valor que pretendiam!

 Também esse dinheiro foi parar à conta de Begelman, sendo a chantagem da Máfia uma pura invenção sua em que Judy, credulamente, acreditou!

Estes factos, aliados ao prejuízo comercial do filme “A Star is Born” em que resolveu investir financeiramente (apesar da crítica o considerar uma obra-prima do cinema) tornou-a cada vez mais instável psicologicamente e vulnerável aos medicamentos e à bebida.


Os concertos quer nos Estados Unidos quer em Londres e os discos, acabaram por ser a sua principal fonte de sobrevivência! Quando em 1964 lhe foi oferecido pela CBS o contrato mais valioso de sempre da televisão americana, de 24 milhões de dólares, para fazer várias temporadas de um show televisivo semanal, Judy pensou que os seus problemas ficariam resolvidos.



No entanto, apesar do show ser magnifico e ter ganho um Emmy para o melhor programa musical da televisão, a partir de certa altura não conseguiu manter as audiências iniciais, pois a concorrente NBC, lançou precisamente no mesmo horário a série Bonanza! A consequência disso foi o cancelamento do Judy Garland Show logo no final da primeira temporada!.

 

Para Judy Garland este foi mais um golpe nas suas finanças e foi sobretudo um golpe profundo do na sua já muito débil  auto-estima!

E para isso contribuíram igualmente as dificuldades que ía encontrando no mundo do cinema!

Depois de, ao fim de 15 anos, se ter libertado das amarras que a prendiam à MGM, nos anos seguintes, apesar de ser contratada para vários filmes acabaria por ser substituída devido a problemas derivados ao consumo excessivo dos medicamentos!

Apesar disso, os seus poucos trabalhos no cinema acabariam por ser reconhecidos com duas nomeações para os Oscars, que contudo nunca viria a ganhar:

Em 1954 com “A Star is Born” (com o qual ganhou no entanto um Globo de Ouro para melhor atriz)!





E em 1961 com “Julgamento de Nuremberga”!



O avançar da idade, o que para as atrizes faz escassear os papéis no cinema, e o facto de ser pública a sua dependência de medicamentos e de álcool foram-se tornando motivos de desinteresse e desconfiança dos realizadores…

Conta Patty Duke uma das protagonistas da película “O Vale das Bonecas”, que Judy foi contratada pela 20th Century Fox para esse filme pois, não só algumas personagens eram inspiradas em vários aspetos da sua vida, mas também porque o papel que lhe estava destinado era feito exatamente à sua medida de atriz e cantora, Foi portanto uma imposição do Estúdio, o que não agradou nada ao realizador Mark Robson.

No entanto, como Robson não podia dizer que não ao Estúdio, segundo Patty Duke, teve para com Judy um comportamento de absoluto desrespeito : Durante os testes de filmagem e de guarda-roupa mandava-a estar no Estúdio às 6h30 da manhã e punha à sua disposição todo o tipo de bebidas e nenhuma comida. Acabava por só a chamar ao começo da noite, quando tinha a certeza de que ela já teria bebido para além da conta!

Ao fim de algum tempo Judy deixou de aparecer todas as madrugadas e sempre que ele percebia que ela não estava, chamava-a de forma a que todos se apercebessem da sua ausência! Acabou por ser despedida por não respeitar os horários e substituída por Susan Hayward.

Logo no início deste post fiz uma referência a série juvenil Glee onde aparece uma personagem homossexual, cuja foto apresento a seguir e, a esse propósito, volto a reportar-me a alguns factos que estão intrinsecamente ligados à vida de Judy Garland


 Se Judy tinha problemas com os Estúdios de cinema, a verdade é que no campo musical ela tinha imenso sucesso que fazia encher as salas de concerto e vender os seus discos. Tinha no entanto que defrontar-se com críticas ferozes da direita conservadora, que afirmava que os seus espetáculos estavam sempre cheios de homossexuais ou, como dizia William Goldman, no seu livro “The Season”: “de rapazes com ar delicado vestindo calças muito justas”!!!

A revista Time criticou-a duramente, pois devido a esse facto considerava os espetáculos de Judy  impróprios para famílias!



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Em entrevista à CBS ela teve que se defender dessa acusação dizendo apenas que cantava para pessoas, fossem elas o que fossem.

Contudo, a partir daí resolveu passar a atuar também em night-clubs gay, numa época em que a homossexualidade era violentamente reprimida pela polícia!



E foi num desses locais que veio a conhecer o seu quinto marido! Talvez por essa atitude amistosa face aos homossexuais,  a expressão “amigo de Dorothy” tornou-se nos anos 60 o nome de código que substituía a expressão “homossexual”.

Dorothy era, como se sabe, a personagem interpretada por Judy no Feiticeiro de Oz, onde cantava a célebre canção “Somewhere over the rainbow”. E do mesmo modo as cores do arco íris (rainbow) vieram a tornar-se a imagem símbolo daquela comunidade!

Em simultâneo, aquando das rusgas a esses bares, sob o pretexto de venderem bebidas sem autorização (o município não lhes concedia licença de venda para bebidas alcoólicas) os gerentes, ao ser-lhes pedida a identificação, afirmavam sempre chamar-se “Judy Garland”.

 

Judy de quem John Kennedy foi um amigo constante, recebia inúmeros telefonemas do Presidente que invariavelmente lhe pedia que cantasse algo e foi desde criança até à sua morte um dos talentos musicais mais marcantes do século XX.

A sua vida terminou de uma forma triste e muito precocemente e, como se percebeu desde logo, deixou um  vazio imenso



 

Milhares de pessoas mobilizaram-se para as cerimónias fúnebres, prestando-lhe uma homenagem e que parou Nova Iorque e que depois culminou na chamada rebelião gay de Stonewall!




Feito o funeral e colocado o seu corpo numa campa provisória (uma gaveta aberta com o caixão exposto ao tempo), ficaria abandonada mais de um ano até que o jornal National Enquirer noticiou o assunto que se tornou um escândalo público.

Filhos e marido fizeram comunicados: Os filhos pensaram que o marido trataria do túmulo de Judy e o marido, que se queixava de não ter dinheiro, afirmava-se convencido de que os filhos já teriam tratado do assunto!

Finalmente, depois deste embaraço público da família, o corpo de Judy acabou por ser transladado para um túmulo definitivo, simples mas decente!



Espero que apesar do aproveitamento desta figura trágica, mas fascinante, que foi Judy Garland a peça de teatro “O Fim do Arco-Iris” lhe faça a devida justiça!

domingo, janeiro 22, 2012

Etta James partiu

A poucos dias de completar 74 anos Jamesetta Hawkins, mais conhecida por Etta James faleceu.
Padecia de Alzheimer há cerca de dois anos e no final do ano passado foi-lhe diagnosticada uma forma de leucemia muito agressiva. Nascida em Los Angeles, começou a cantar aos 5 anos na Igreja Batista frequentada pela sua ama e aí foi adquirindo treino vocal. Nunca conheceu o seu pai e a sua mãe, que era pródiga em se ir apaixonando por vários homens, foi deixando-a entregue a sucessivas amas que felizmente perceberam os seus dotes vocais e lhe proporcionaram o contacto com o mundo da música. Aos 14 anos formou um grupo musical amador "The Peaches" que, ao fim de algum tempo, conseguiu gravar um disco que surpreendentemente viria, em 1955, a chegar ao primeiro lugar do top de R&B, com a canção "Dance with me, Henry", a qual 30 depois, seria de novo relançada ao ser incluída na banda sonora de "Regresso ao Futuro". Nessa mesma altura acabaria, ainda adolescente, por seguir os passos da sua progenitora, tendo-se igualmente tornado mãe solteira. Isso, contudo não a impediria de continuar a cantar tendo em 1960 assinado um contrato com a editora Chess Records e obtido um enorme sucesso com a canção "At Last", que passou a ser um "tema obrigatório" nas festas de casamento e de noivado nos Estados Unidos! Vêmo-la aqui, cantando esta canção, numa das suas últimas atuações: Entretanto em 2008 no filme Cadillac Records, que conta a história da ascenção e queda da "Chess Records", Etta James aparece retratada por Beyoncé, havendo contudo no argumento uma série de inexatidões que muito desagradaram à cantora que apesar disso, nessa altura, se conteve nos comentários. No entanto a "gota de água" surgiu quando a mesma Beyoncé foi convidada para a festa de investidura de Barak Obama para interpretar a canção que o Presidente revelou ser a sua preferida: "At Last"! Aí a polémica estalou com Etta James, em público e em várias ocasiões a não poupar nem o Presidente Americano, nem Beyoncé dizendo que nem um nem outro prestavam e... outras coisas bem piores...! O que nem o público, nem a imprensa sabiam é que nessa altura Etta James já estava seriamente afetada pela doença de Alzheimer. No entanto Beyoncé, que estava a par da situação, as únicas respostas que lhe deu publicamente foi continuar a cantar as suas canções, homenageando-a sempre que possível! Etta James que ganhou cerca de 30 prémios, entre os quais seis Grammys, teve uma vida complexa e dificil! O uso de drogas levou-a algumas vezes até à prisão e a entradas e saídas consecutivas de centros de reabilitação! Foi contudo, uma das cantoras de jazz mais populares de sempre nos Estados Unidos, tendo gravado a maior parte dos standards do jazz e do R&B e chegando mesmo a gravar um CD nos últimos meses de vida, já bastante debilitada. Esse disco "The Dreamer" é a sua despedida assumida, um verdadeiro canto do cisne, onde se percebem quer as suas qualidades, quer as fragilidades impostas pela sua saúde! Foi posto à venda em Agosto passado! Aqui vai uma das canções desse disco de que mais gosto: Se Bryan Adams terá exagerado quando disse que Etta tinha a melhor voz do mundo, o certo é que ela e o seu repertório influenciaram vários cantores quer nos Estados Unidos, quer no Reino Unido: De Janis Joplin a Christina Aguilera, de Rod Stewart a Amy Winehouse, Joss Stone e Adele. Mas, o mais curioso é que, apesar de todo o reconhecimento pelos seus pares, a sua projecção à escala mundial, fora dos Estados Unidos e fora dos círculos do jazz, só aconteceu em meados da década de noventa devido a... um anúncio da Coca-Cola Diet: Mas o melhor mesmo é ouvir a canção completa, que penso eu ser a melhor forma de homenagear esta grande cantora que agora nos deixou:

sexta-feira, janeiro 20, 2012

Elis - Cadeira Vazia

Passaram ontem 30 anos que Elis nos deixou. A sua cadeira ficou para sempre vazia!

quinta-feira, janeiro 12, 2012

A dignidade dos professores perante a indiferença das autoridades

Foi no Brasil, na cidade de Natal, que aconteceu este discurso simples, genuíno e frontal, perante as autoridades que ficaram sem palavras...

Foi no Brasil, mas também aqui, em Portugal,  a Escola Pública sofre com idêntica falta de investimento, com a precaridade do vínculo dos professores que não só não veem respeitada a sua nobre e importante função, mas também não possuem as condições adequadas a um ensino de qualidade.

Para que melhor se entenda a emotividade do discurso desta jovem professora, talvez seja bom saber que no Brasil a proporção do salário de um professor para um deputado é de 1 para 30, e que p.e. dentro das regras em que se movem, os professores brasileiros estão proibidos de se alimentar nas cantinas escolares, pois isso é considerado desvio de bens.

Penso que política, na sua mais pura natureza, é isto que esta professora faz: Falar dos problemas concretos da Pólis, não de meras abstrações, ou de estatísitcas, onde as pessoas são menos importantes que os números.

E uma política corajosa, pois fala cara a cara com quem tem o poder para mudar as coisas e não o faz, porque a verdade é que quer no Brasil, quer em Portugal a Educação não é, de facto, uma prioridade!


Vale a pena ver! Esta jovem professora é um exemplo, para os seus colegas, para os seus alunos e, no fundo, para todos nós!

domingo, janeiro 01, 2012

Feliz Ano Novo

Enquanto que a RTP nos brinda com o prenúncio do que irá ser 2012 para os portugueses, transmitindo uma coisa onde aparece um senhor de capachinho chamado Tony Carreira, pergunto-me a mim próprio porque é que uma estação de serviço público que quer apostar na música ligeira portuguesa não mostra algo feito pelo André Sardet, pelo Amor Electro, pelos Mesa, pelo Rodrigo Leão… etc, etc,etc…

Entretanto, enquanto que Elisabete Matos se prepara para dentro de poucos minutos entrar no palco do São Carlos, pergunto-me igualmente porque é que a cantora lírica com maior projecção no mundo não é suficientemente divulgada ao público português!



Do mesmo modo também me questiono porque as únicas vozes líricas que alguma vez foram escolhidas para a fase final do mais importante Concurso de canto do mundo, o Cardiff Singers of the World, são também ausentes permanentes do serviço público de televisão: Falo de Ana Paula Russo (aqui cantando "una voce poco fa")



e de Dora Rodrigues (aqui interpretando a ária que apresentou no próprio concurso "Meine Lippen sie kussen so heiss")!



Pergunto-me, sabendo qual seja a resposta, mas mesmo assim deixo aqui a questão que há alguns anos me deixava perplexo, mas que hoje em dia me deixa simplesmente desiludido e com vontade de emigrar!

Termino, é claro, desejando a todos um 2012 com muita saúde, já que desejar um bom ano à maioria dos portugueses é quase anedótico, porque todos já sabemos que o ano irá ser possívelmente ainda pior do que as nossas programações televisivas têm sido!

domingo, novembro 27, 2011

FADO



Obtido o reconhecimento do Fado como Património Imaterial da Humanidade, encaro este género musical, que não é particularmente rico, como algo que todos os portugueses sentem, com maior ou menor intensidade, enquanto elemento de pertença cultural ao nosso País, mesmo que não gostem de o ouvir.

Quando era muito jovem sentia-me tão distante do Fado, quanto o Fado me parecia próximo de um regime político que eu não conseguia respeitar nem suportar.

Contudo, ao crescer, apercebi-me que o Fado era bem mais do que um instrumento utilizado por um regime opressivo para anestesiar as consciências, era algo que estava muito fundo na nossa cultura e forma de estar!

Assim, comecei a olhá-lo de uma outra forma, quando ouvi as inesquecíveis interpretações de Amália sobre a lírica de Camões e quando, ainda adolescente, me vi a milhares de quilometros de casa, num outro continente! Aí a recordação de alguns fados fez-me entender melhor a minha origem e que marcas culturais eu trazia comigo!



Percebi então que o Fado fazia indelevelmente parte das minhas raízes! Não sou, apesar disso, um adepto fervoroso deste género musical, mas não deixo de reconhecer a sua importância e, em muitos casos, a sua elevação estética e gosto mesmo muito de alguns fados embora ache outros, talvez a maioria, algo de muito pobre e chato (como diz o célebre “Marinheiro Americano” da magnifica Hermínia Silva) e até mesmo patético!



E se gosto de alguns fados é porque nesses encontro um apelo emocional muito interessante, mais pelo génio de alguns dos seus intérpretes (Amália e Carlos do Carmo, principalmente) e pela inovação que conseguiram impor, do que pela manutenção da suas tradições mais puristas, que tenderiam a levá-lo à mumificação!



É que na verdade existem, desde que Amália começou a quebrar tradições, não se limitando às melodias tradicionais e mesmo à sua lingua materna, duas formas de olhar o Fado bem diversas!



Nesta distinção da UNESCO não consigo perceber pois o que é que exactamente ganhou, se a corrente minoritária que vê o Fado enquanto género musical que evolui, se a corrente maioritária nos meios fadistas que pretende ver o Fado como peça histórica conservada em formol, se simplesmente a enorme qualidade técnica que houve na elaboração deste projecto.

Seja como for, a equipa que o elaborou é merecedora das maiores felicitações!

Quanto ao Fado em si, creio que não ficará nem melhor nem pior, talvez consiga entretanto mais algumas linhas na Imprensa internacional dos próximos dias e haja mais alguns amantes de World Music curiosos sobre ele! Uns gostarão, outros não, como é natural!



Penso que esta candidatura pretendeu sobretudo dar ânimo ao ego nacional, mais do que obter qualquer coisa de substancial, mas a vida é mesmo assim... Os mexicanos que também obtiveram o reconhecimento dos seus Mariachis fizeram entrar na sala um grupo de músicos que exibiram a sua arte, os portugueses, que não tinham músicos na sala puseram o telemóvel de António Costa com o “toque” do “Estranha Forma de Vida” que estava carregado! Estranha, a nossa forma de vida, mas que afinal se tornou Património Imaterial da Humanidade!

terça-feira, maio 18, 2010

Heranças

Em Setembro de 2008 coloquei aqui um post sobre Piaf, tendo dito então que haveria ainda mais para dizer, quer sobre dela, quer também por causa dela.

Nessa altura, num dos comentários que me fizeram, o da sempre simpática Verdinha do “je vois la vie en vert”, fui alertado para um dueto, gravado no programa de televisão francês “DUETOS IMPOSSÍVEIS” onde se conjugavam as vozes de Piaf, com a da jovem, mas já consagrada Isabelle Boulay, em “Non Je Ne Regrette Rien”



Esta observação veio exactamente de encontro ao ângulo de abordagem, que desde essa altura tinha pensado para a minha segunda incursão sobre o tema Edith Piaf.

É que na verdade Edith Piaf elevou-se a um estatuto tal que, aquando do seu desaparecimento, ficou um vazio que todos lamentaram e que muitos tentaram (em vão) preencher.

Quem pegaria então na herança artística de Edith Piaf?

Bom, mas ao falarmos da "herança" de Piaf, é inevitável falar de um dos aspectos mais polémicos do final da sua vida, o do eventual apetite pela sua outra herança, a material.

Piaf, na juventude, tivera uma filha, Marcelle, que faleceu com meningite aos dois anos de idade. Isto significaria portanto que o seu segundo marido, aparecido numa altura em que já era óbvia a doença fatal de Piaf, se tornaria o herdeiro legítimo de todos seus bens.

Falo de Theo Sarapo, cujo verdadeiro nome era Theophanis Lamboukas





Theophanis Lamboukas



Um ano antes da sua morte Edith conhecera e casara com Theo, um jovem de origem grega, com menos 20 anos que ela. E o mínimo que se disse na altura é que se tratava de um casal “inesperado”.




Para a maioria do público, este casamento era visto sobretudo como um “golpe do baú” dado por um jovem a uma senhora famosa, com idade para ser sua mãe. Uma mulher doente e carente a quem a vida e a saúde tinham envelhecido acentuadamente.

Para os amigos da cantora a coisa ainda parecia mais séria, pois estavam perfeitamente convencidos que aquele casamento não tinha qualquer sentido.

E isto porque Theophanis Lamboukas, que era um talentoso cabeleireiro parisiense, era não só muito mais jovem que ela, mas também por ser conhecida a sua homossexualidade.

É que, apesar de ser um homem discreto quanto à sua vida intima, Lamboukas tivera, durante algum tempo, um envolvimento intimo com o secretário da própria Edith Piaf, Claude Figus, que era claramente um homossexual assumido. E isso era sabido pela própria Piaf e por todo o seu círculo de amigos!





Piaf entre Theo e Claude Figus

Este casamento surpreendente, realizado de acordo com o rito ortodoxo grego, atraiu todas as atenções e todas as dúvidas, até mesmo as da própria Edith que, segundo confidenciou mais tarde a sua amiga e colaboradora Danielle Bonel, na própria manhã do casamento se questionava sobre se deveria levar o casamento adiante, já que temia que todos se fossem rir dela, achá-la uma velha patética, ao casar com um rapaz, tão jovem e tão inesperadamente diferente!


Piaf com Danielle Bonel, sua governanta e amiga por mais de 20 anos


Bonel ter-lhe-á dito que deveria seguir o seu coração e para não se importar com o que os outros pensassem dela. Isso bastou-lhe!

O casamento realizou-se no meio de uma imensa curiosidade pública e, pouco depois, todos os que a rodeavam viriam a perceber que aquele casamento foi o melhor que poderia ter acontecido a Piaf naquela fase da sua vida.

Face às criticas que ouvia sobre o seu estranho casamento, Piaf ía dizendo com humor: “Estão-me sempre a criticar por eu aparecer tantas vezes despenteada, pois bem, caso-me agora com um cabeleireiro e não quero saber de mais nada”

Theophanis Lamboukas, a quem ela passou a chamar de Theo Sarapo (Sarapo em termos fonéticos corresponde à expressão grega “Eu amo-te”), não terá sido o amor romântico da sua vida, mas foi para ela um grande amigo, que a amou verdadeiramente e nele ela sentiu o pai, o irmão e o filho, que gostaria de ter tido!

Theo, foi de facto, tudo o que ela precisava em termos de afecto, carinho e conforto no penoso último ano da sua vida.

Claro que à semelhança do que fez com Ives Montand e Moustaky com quem viveu e com Aznavour que foi seu motorista, ela quis transformar Theo num artista!

Ela reconheceu nele vocação quer para cantor, quer para actor, até porque ele próprio na adolescência tentara iniciar uma carreira de cantor concorrendo a vários concursos musicais da época!

Assim, Piaf fez com que o jovem tivesse aulas de canto e de representação, o que lhe valeu alguns pequenos papéis no cinema.

Para além disso, daí em diante levou-o consigo para cantar em dueto, em quase todos os seus espectáculos em que actuou.

Um dos seus compositores e amigos Michel Emer fez de propósito para esse efeito uma canção que se tornou um enorme sucesso: “A quoi ça sert l’amour.”



Foi um casamento curto, Piaf faleceria em Outubro de 1963, precisamente no dia em que completava um ano de matrimónio com Theo, devido a complicações sérias do seu cancro de fígado!

A herança material que Theo Sarapo recebeu acabou por ser 7 milhões de francos de dívidas!

Dívidas devidas essencialmente a quebras de contrato, que por razões de saúde Edith não pôde cumprir, e derivadas da manutenção de cuidados que nunca deixaram de lhe ser prestados, por uma equipa de colaboradores que nunca quis dispensar.

Sarapo tentou manter a questão da herança de dívidas em segredo, propondo-se pagá-las até ao último cêntimo. Contudo o segredo não se manteve por muito tempo, já que apenas dois meses após a morte de Piaf, mais precisamente na véspera de Natal de 1963, o tribunal mandou despejar Theo Sarapo da casa de ambos.

É apenas nessa altura que a opinião pública começa a olhar para Sarapo de forma diferente, percebendo, através do luto sentido e prolongado que ele manteve e do modo digno como ele lidava com as dificuldades e até com a crueldade que lhe era imposta pela situação, que aquele rapaz não era afinal o oportunista que a imprensa e o público tinham imaginado.

Veio-se a saber depois, que ele próprio tinha uma fortuna pessoal considerável, dado a sua família possuir uma cadeia de salões de beleza, bastante lucrativa e que portanto nunca precisou do dinheiro de Piaf para nada!

Passado algum tempo Theo volta a gravar, com uma voz mais perfeita do que a que apresentara ao lado de Piaf, não tendo contudo conseguido ir mais longe na sua carreira já que, em Agosto de 1970, morre num aparatoso acidente de automóvel, em que é projectado para a berma de uma estrada à saída da pequena cidade de Panazol, onde agoniza, até ser levado ao hospital, sendo aí dado como falecido. Tinha 34 anos!

Theo está sepultado no Pére Lachaise partilhando o mesmo túmulo com Piaf e a sua pequena filha Marcelle!




Obviamente, que se em vida a questão da herança de Piaf foi alvo de muita controvérsia devido ao seu casamento com Theo, depois da sua morte, tornou-se incontornável falar-se da sua herança artística, ou seja, sobre quem poderia dar continuidade à chamada “chanson realiste”!

Com o desaparecimento de Piaf, muitos sentiram a necessidade de preencher esse vazio.

Os meios intelectuais desejavam que surgisse alguém com o mesmo carisma, a mesma expressividade dramática de Piaf.

Surgia então um nome de uma jovem muito talentosa, que tal como Piaf fora amiga de Jean Cocteau (o escritor morreu no mesmo dia em que Piaf faleceu, exactamente ao ter conhecimento da morte da artista).

No entanto, essa jovem conhecida artisticamente por Gribouille (o seu nome verdadeiro era Marie-France Gaîté) , pela sua própria personalidade detestava ser comparada com quem quer fosse e muito menos viver à sombra de um mito da canção francesa. Infelizmente, também não viveu muito! Em 1968, com apenas 26 anos partiu vítima de uma mistura fatal de medicamentos e álcool!



Havia também a opinião dos compositores que haviam escrito para Piaf.

Margueritte Monot havia falecido pouco tempo antes de Piaf e Charles Dumont, que inicialmente não gostava de Piaf, tivera em tempos uma canção guardada na gaveta que, a dada altura, decidiu entregar a uma jovem chamada Rosalie Dubois.

Essa canção chamava-se “Non Je Ne Regrette Rien”. Contudo, Rosalie teve um grave acidente de automóvel, pouco antes de poder gravar a canção, e os amigos de Dumont e Piaf acabaram por convencê-los a encontrar-se e a canção acabou por ser entregue a Piaf, tornando-se Dumont um dos seus autores de referência.

Retirada provisoriamente dos palcos Rosalie haveria de regressar, ter alguns sucessos, mas o certo é que ninguém acabou por ver nela a desejada sucessora de Piaf, nem mesmo o próprio Charles Dumont, que entretanto acabou por fazer outras escolhas.



Mas o que pensava o público, que era afinal quem mais sentia a falta de Piaf!

Estava-se numa época em que os concursos para jovens talentos já eram moda e neles inevitavelmente apareciam sempre candidatas a novas Piaf.

Houve duas que sobressaíram, quer num concurso promovido pela editora Barclay (estranhamente inspirado nas apostas das corridas de cavalos), quer sobretudo num famoso concurso televisivo de 1965, o Tele Dimanche!

Uma, vinda do sul de França, que conhecia o reportório de Piaf de trás para a frente. Tinha uma voz espantosa, mas ficou em segundo lugar no concurso. Chamava-se e chama-se Mireille Mathieu e o agente artístico Johnny Stark , que assistiu a esse concurso, percebeu que ela poderia ser mais do que um remake de Piaf, podia ser ela mesma e ter um grande sucesso!

Fê-la gravar um disco e apesar dos críticos a considerarem uma cantora provinciana, ela conseguiu logo nesse seu primeiro trabalho, vender mais de um milhão de cópias e tornar-se mesmo um sucesso internacional.

A canção principal desse disco chamava-se Mon Credo:



Entretanto, se Mireille ficou em segundo lugar, em primeiro ficou uma outra jovem, também especialista, desde criança, em cantar as canções de Piaf e que nas tardes de domingo deixava impressionados com a sua bela voz os membros da Associação de Amigos de Edith Piaf, entretanto criada para homenagear a sua memória.

Georgette Lemaire, cujo timbre parecia uma reencarnação de Piaf era o nome dessa jovem, para quem Charles Dumont veio depois a compor.

Georgette não viria a ter projecção internacional, mas tinha uma rivalidade imensa com Mireille Mathieu e um enorme sucesso em França que lhe valeria, mais tarde, ser objecto de homenagens e reconhecimentos especiais por parte do Estado Francês, pelas mãos de Jack Lang e de François Miterrand.



Entretanto, no final dos anos 60 aparece uma outra jovem chamada Betty Mars, cujas semelhanças vocais com Piaf eram ainda mais impressionantes.

Em 1972 ela e Georgette apresentaram-se no concurso nacional francês para a escolha da canção para a Eurovisão. Dessa vez foi Georgette que foi preterida em favor de Betty. A canção chamava-se Come Comedie (clicar AQUI para ver o vídeo).

Devido à semelhança extraordinária da sua voz com a de Edith Piaf, Betty Mars é escolhida como a voz da jovem Piaf, para interpretar as canções nunca gravadas pela “Môme” no filme “Piaf” de Guy Cazaril (1974), dobrando a voz da actriz Brigitte Ariel.

Betty Mars tinha aspirações legitimas, já que tinha uma voz excelente e era uma mulher lindíssima! Acabou por nunca ser aceite como ela própria, aparecendo aos olhos do público e da crítica como uma Piaf fora de tempo.

Enquanto foi novidade encheu salas em França e mesmo em Las Vegas, depois acabou por lhe restar cantar em pequenos bares. O facto de ter uma voz idêntica à de Piaf, acabou por ser a origem do seu sucesso e do seu declínio. Tendo entrado em depressão, acabou, com pouco mais de 40 anos por saltar do janela do seu apartamento para a morte.

Para além de todas as gravações que editou, que infelizmente não foram muitas, encontra-se no youtube, o som inédito de uma actuação ao vivo desta cantora, que me parece ser ilustrativa das suas qualidades e das suas parecenças com Piaf.



Mas, para além das possíveis sucessoras, afinal nunca encontradas, a vida e a carreira de Piaf deram origem a profissionais que se dedicam quase exclusivamente a explorar o seu repertório. Como é o caso da francesa Raquel Bitton e da canadiana Claudette Dion (a irmã mais velha de Céline), ambas fazendo sucesso no outro lado do Atlântico, apesar de possuirem um talento pouco mais do que mediano.

Em toda a parte do mundo há sempre alguém que canta o repertório de Piaf. Desde as mais prestigiadas artistas a perfeitas desconhecidas.

Piaf deu origem também a vários filmes e a espectáculos magníficos, sendo para mim o melhor de todos o criado pela extraordinária Bibi Ferreira, que não procura em nenhum momento ser uma imitadora ou uma herdeira de Piaf.

Bibi, aliás, é tão magnifica como Piaf… Basta conhecê-la… E, se após este post imenso, ainda restar alguém com vontade de passar por aqui, um dia destes Bibi será a figura a tratar por este espaço! É inevitável!

Entretanto, em Portugal também há e houve lugar para se tentar ser Piaf.

Perdoe-me a excelente Wanda Stuart que agora vai desempenhando esse papel, mas eu não gostaria de deixar de referir que a RTP ganhou um prémio internacional em 1993/1994 no Festival de Montreux, com um concerto de uma cantora portuguesa chamada Ariane, totalmente dedicado a Piaf.

Trata-se de uma cantora com mais de 30 anos de carreira e a quem não foram dadas todas as oportunidades que merecia.

Recentemente gravou um CD intitulado Libertad, onde apresenta dois temas de Piaf. Apesar de em vários momentos o sotaque a trair um pouco, tem uma voz que merece atenção:



FINALMENTE, julgo que faz sentido perguntar o pensaria Edith Piaf de tudo isto?

Ela também tinha as suas preferências musicais e talvez seja nessas preferências que se encontra a resposta óbvia para saber quem lhe sucedeu como simbolo da música francesa!

Sucedeu, não no lugar que Piaf deixou vazio para sempre, mas no prestigio e na qualidade que asseguraram a continuidade do interesse da canção francesa através do mundo!

Conta a sua amiga Danielle Bonel, que a acompanhou nas últimas semanas de vida, no seu retiro da Riviera, que Piaf já bastante doente, ouvia repetidamente os mesmos discos, todos eles do mesmo artista! Tinha-os todos, aliás! Emocionava-se a ouvi-lo e simultaneamente sentia-se mais confortada!

É com uma canção desse artista, que penso ter elevado a canção francesa ao mesmo patamar em que Piaf a deixou, que hoje termino! Chamava-se ele Jacques Romain Georges Brel!

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Uma voz com "classe"

Um jovem cantor de origem francesa chamado Tristan, lançou na passada segunda-feira, 1 de Fevereiro, um álbum de canções em inglês, com o título "On a human scale"!

A ele voltarei no final deste post.

Entretanto, devo dizer que uma das coisas que na música mais me desperta a curiosidade é a incursão de cantores por linguagens musicais que estão fora das suas origens e a diluição de fronteiras entre géneros musicais!

Vejamos um exemplo muito curioso: Vinicius de Moraes pegou na cantata de Bach - Jesus bleibet meine Freude (BWV 147) e fazendo uns versos belíssimos, transformou-a numa marchinha chamada “Rancho das Flores”.

Marchinha essa que foi um sucesso incrível no Brasil, no início dos anos 60, primeiro através do Grupo Coral dos Bombeiros Fulminenses e depois na voz do cantor Luiz Cláudio.

Podemos ouvi-la aqui numa gravação recente de um outro coro de bombeiros cariocas:



Ora, pouco tempo depois deste “atrevimento” que, segundo um crítico da época, assassinou o pobre Johan Sebastian Bach, mas pôs o multidões a cantar a poesia de Vinicius, estava o poeta em Paris com Baden Powel, quando o produtor e poeta Eddy Marnay, amigo de ambos e fascinado com a nova música brasileira, transformou os versos originais de Vinicius numa homenagem ao Rio e deu-os uma jovem cantora francesa em inicio de carreira, que gravou essa marchinha com o nome de “L’enfant aux cymbales”.



Estava-se em 1962 e a jovem cantora chamava-se Frida Boccara!

Frida estava no começo da sua carreira, a qual se tinha iniciado logo com um sucesso enorme através da canção “Cherbourg avait raison”, onde revelava uma maturidade vocal e interpretaviva incomum para alguém com apenas 20 anos de idade.

Para o já muito experimentado e célebre produtor Eddy Marney, Frida Boccara viria logo desde esse momento a tornar-se a sua cantora de eleição!



Frida Boccara, que as pessoas da minha geração conhecem sobretudo por ter ganho um Festival da Eurovisão em 1969, era francesa, nascida em Casablanca, oriunda de uma família de judeus italianos.

Começou muito jovem a estudar música e a preparar-se para uma carreira de soprano lírico, tendo completado os seus estudos musicais no conservatório de Paris!

Frida, no entanto, viria a optar pela chamada música ligeira.

Contudo, ao longo da sua carreira, sempre manifestou essa tendência, que eu tanto aprecio, de esbater as fronteiras entre os vários géneros musicais. E abordou-os quase todos, do clássico à chanson realliste, do jazz ao folclore, procurando sempre ter o maior cuidado nos arranjos orquestrais, o que se tornou uma marca distintiva da sua obra.

Tal como o maestro Fernando Lopes Graça dizia em jeito de brincadeira, para além de só haver dois tipos de música, a boa e a má, a música clássica é simplesmente a que tem “classe”.

Os gostos são subjectivos, mas para mim Frida Boccara sempre foi uma cantora que escolheu um repertório de “classe” e que o interpretou com “classe”!

E foi exactamente a qualidade que demonstrou desde o início do seu percurso artistico que levou a que, ainda muito jovem, fosse convidada pelo já consagrado George Brassens para os seus concertos, que em 1964 esgotaram durante meses a prestigiada sala Bobino de Paris e que acabariam por ficar célebres na história da música francesa.

Na altura duas jovens estrelas despontavam no panorama musical de Paris, Dalida e Frida Boccara!

Contudo, enquanto que Dalida era uma presença frequente nas rádios portuguesas, nessa época eu não ouvira ainda falar Frida, mas algum tempo depois, em 1968, tive a grata surpresa de conhecer esta belíssima voz exactamente com a canção que viria a ser a marca de referência de toda a sua carreira: “ Cent Mille Chansons”



Registe-se no entanto, como curiosidade, que "Cent Mille Chansons" não é uma criação sua, mas sim da fantástica cantora brasileira Maysa Matarazzo, que deu voz a esse tema na banda sonora original do filme “Le repôs du Guerrier” de 1962, realizado por Roger Vadim e com Robert Hossein e Brigitte Bardot como protagonistas.

Fosse pela formação clássica que adquiriu, fosse por simples gosto, Frida Boccara foi das primeiras cantoras ligeiras a cantar compositores clássicos: Vivaldi, Haendel, Rossini, Corelli, Telemann, Granados, Mozart, Bach, Brahms, Elgar, Smetana e Villalobos, fazem parte do seu repertório.



Tendo cantado em 7 linguas diferentes, a verdade é que a grande notoriedade internacional lhe veio sobretudo com a vitória no Festival da Eurovisão de 1969, onde terá cantado uma das mais belas canções de sempre da história daquele concurso musical.

Longamente aplaudida nesse Festival por um público completamente aturdido pela beleza surpreendente de “Un jour, un enfant” e pela interpretação extraordinária de Frida, a canção francesa viria necessariamente ofuscar a canção que tivesse a infelicidade de se lhe seguir, o que no caso foi precisamente a azarada canção portuguesa chamada “Desfolhada", apesar da força e da fantástica interpretação da cantora portuguesa Simone de Oliveira.



“Un jour, un enfant” seria entretanto editada em disco single com uma outra canção belíssima que, curiosamente, passou completamente despercebida nas rádios, mas que em minha casa rodou quase até à exaustão vynilica!!!!!

Chama-se essa canção “Belle du Luxembourg” e considero-a imperdível.



Frida Boccara editou dezenas de discos até ao início da década de 80, alguns deles em edições exclusivas para Espanha, Brasil e Estados Unidos, tendo-se retirado no inicio dessa década, numa altura em que os gostos musicais e a predominância do disco-sound não deixavam muito espaço para o tipo de música ela que gostava de fazer!

Por isso mesmo, apesar do prestígio e da qualidade que todos lhe reconheciam, passou a ser uma artista pouco interessante para as editoras discográficas.

Aliás, como ela referiu numa das últimas entrevistas que deu em 1989, o problema era não só de dinheiro como de mentalidades.

De dinheiro pois, quer nas televisões, quer nas produções de espectáculos, não se pretendia gastar com uma orquestra para um bom acompanhamento ao vivo. Ou se arranjava um pequeno conjunto ou um play-back!

De mentalidades, pois o que se pretendia era criar vedetas através de clips televisivos e não fazer crescer artistas que se apresentassem ao vivo com o devido acompanhamento.

Ela que era admiradora confessa de Michael Jackson, George Michael e de Barbra Streisand afirmava então não ter possibilidades de arranjar meios como os que eles possuiam para fazer espectáculos ao vivo e simultâneamente fazer clips.

Por isso, para ela continuar teria que deixar de ser a Frida Boccara que ela era. Seria preferivel então ficar por ali e aparecer apenas de vez em quando em ocasiões especiais em que todas as condições estivessem reunidas!

Frida, que viria a falecer em 1996 na sequência de uma infecção pulmonar, tornava todas as músicas em que tocava em verdadeiros clássicos, dando a conhecer algumas pérolas escondidas, como a canção "Doorgaan" do cantautor holandês Ramses Shaffy, um homem com uma vida tão rica, quanto atribulada, falecido no final do ano passado e infelizmente muito pouco conhecido fora dos Países Baixos



Frida Boccara já não está entre nós, mas deixou-nos a sua música belíssima que a mim me dá sempre um prazer imenso recordar. E deixou um filho, que também se dedica à música e que se chama Tristan! Tristan Boccara!

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Do esquecimento à popularidade

A história da sofredora Griselda incluída por Bocaccio no seu Decameron deu origem a duas Óperas no século XVIII, primeiramente de Scarlatti e depois de Vivaldi.

Vivaldi, que era um sacerdote era também compositor e foi exactamente através de Griselda para ganhou finalmente a respeitabilidade de que merecia junto das elites suas contemporâneas.



Eventualmente esse estatuto demorou pois ele terá começado por escrever peças infantis e, segundo os seus críticos, músicas demasiado populares.

De facto foi um criador musical extremamente prolífico, não constituindo a sua actividade sarcedotal qualquer óbice, já que conseguira dispensa de celebrar missa devido à sua aparente fragilidade física, derivada da asma.

Fragilidade essa que entretanto não o impediu de ter inúmeras amantes, uma das quais Anna Giro, um mezzo-soprano, para quem escreveu exactamente o papel de Griselda, e que era jocosamente conhecida pela l’Annina del Prete rosso (Vivaldi era ruivo).




Após a sua morte, na miséria, como aconteceu com muitos dos génios da música, aos 62 anos, foram precisos quase 150 anos para que, já no século XX, a sua obra viesse a ser de novo tocada e o seu talento devidamente reconhecido, quer como criador de música, quer devido ao seu papel para a definição da estrutura de concertos e sinfonias.

Se as suas Quatro Estações se tornaram há muitos anos um dos clássicos da música erudita, só mais recentemente a sua Griselda se tornou popular, particularmente devido a uma das suas árias: "Agitata da due venti"



Embora esta ária tenha vido a ser cantada por inúmeras cantoras, quer mezzos, quer sopranos, ao longo das últimas décadas, só após a mezzo-soprano Cecília Bartoli a ter incluído nos seus recitais é que ela se tornou verdadeiramente uma ária popular.

Mais uma vez um intérprete pode fazer toda a diferença. E neste caso fez decisivamente!

Claro que há quem critique bastante Bartoli, quer pela sua postura em palco que dizem ser mais própria de uma cantora rock do que de uma cantora lírica, quer pelo facto de ter dado uma visão demasiado pessoal a esta peça, tornando-a eventualmente demasiado “agitata”!

Vejamos então o que fez em 1986 grande Monserrat Caballé com esta ária, que é por si só um assombroso exercício de virtuosismo de coloratura , plena de “legatos” e “stacatos” dificilímos! Seguidamente, veremos Bartoli!

Eis então a versão da soprano Monserrat:



E agora a da mezzo Bartoli, quase 30 anos depois:

segunda-feira, janeiro 04, 2010

O melhor de França através do Brasil

Hoje ao mostrar duas versões da mesma canção venho também trazer dois nomes de cantores/compositores que já nos deixaram, mas cuja obra perdura através dos tempos.

Marcel Mouloudji, nascido em Paris em 1922, tinha ascendência argelina e foi um homem multifacetado. Cantor, escritor e actor, foi combatente da resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial e um militante activo da esquerda francesa, quer apoiando as lutas laborais no seu país, quer envolvendo-se nas principais causas internacionais pela liberdade e pela democracia, como foi o caso da luta contra a ditadura chilena.

Contudo alguns dos seus actos valeram-lhe a hostilidade de boa parte do público e das autoridades francesas, sendo ostracizado e as suas canções censuradas por mais de uma década, quando no próprio dia em que as tropas francesas foram derrotadas em Dien Bien Phu ele interpretou num espectáculo público a canção anti-militarista de Boris Vian “Le Deserteur”.

Passado o Maio de 68 e tendo fundando a sua própria editora retomou na plenitude a sua actividade de cantor, sendo hoje considerado, muito justamente, como um dos nomes mais prestigiados da música francesa.

Mouloudji faleceu aos 70 anos em 1992 e é dele uma das canções de que eu mais gosto: “Un jour tu verras”, canção que ele criou em 1954.



Ao mesmo tempo que Mouloudji nos dava esta bela canção, do outro lado do Atlântico aquando de uma reunião social em casa da familia Matarazzo em São Paulo, um produtor musical, Roberto Corte Real, ao ouvir cantar a jovem Maysa ficou não só impressionado com a extraordinária qualidade da sua voz, mas também com o bom gosto das escolhas musicais que ela fazia, que iam muito para além da música brasileira e passavam pelo jazz, pela música hispânica e pela canção francesa.

Tendo-a convidado para gravar um disco, Maysa estreou-se apenas com músicas cantadas em português. No entanto num disco posterior, gravado em 1957, incluiu já canções em inglês e francês, sendo exactamente “Un jour tu verras” uma das músicas por ela escolhida.

Existem versões desta canção por vários cantores, de Juliette Greco a Dianne Reeves, de Nana Mouskouri a Michel Delpech, contudo ao ouvir Maysa a sensação com que eu fico é a de que Mouloudji encontrou nela a voz ideal, a voz que dá a versão “definitiva” desta canção (com o senão de duas ou três pequenas falhas na dicção da vogal “e”, sem o que eu juraria estar perante uma cantora de língua materna francesa).

Espero que gostem tanto desta bela canção como eu, que a considero uma das minhas “músicas de cabeceira”, numa das mais belas vozes de sempre, que infelizmente nos deixou cedo demais, em 1977, mas que para mim permanece, através do seu vasto e excelente repertório, bem viva.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Cadeira Vazia

No passado dia 26 de Novembro Mariza esteve em directo, na Rede Globo, em entrevista no Programa do Jô!

Nesse programa interpretou uma canção criada em 1950 pelo grande cantor brasileiro Francisco Alves e que mais tarde, pela voz de Elza Soares e sobretudo pela de Elis Regina, ficaria para sempre imortalizada.

Chama-se essa canção "Cadeira Vazia"!

Aparentemente, de acordo com o decorrer da entrevista, essa sua interpretação terá sido um improviso!

Contudo, todos sabemos que em televisão os improvisos, são normalmente ensaiados, mas o que é certo é que, improviso ou não, a dada altura Mariza perdeu-se na partitura, mas simultaneamente demonstrou que não é por acaso que é a melhor sucedida das cantoras portuguesas, na actualidade!

Para mim, que tenho acompanhado com alguma curiosidade a sua carreira e as críticas que ela levanta junto dos mais tradicionalistas do fado (a que se pode chamar mais propriamente despeito), ela teve com esta interpretação de "Cadeira Vazia" uma verdadeira prova de fogo, que ultrapassou brilhantemente, apesar dos precalços pelo meio.

Termino pois com música a duas vozes e, naturalmente, com esta "Cadeira Vazia"! Primeiro com Mariza, no referido programa de Jô Soares:




E depois com a insuperável Elis Regina, que começa esta canção limpando as lágrimas da sua emoção, após ter interpretado magistralmente uma das mais intensas obras de Chico Buarque: "Atrás da Porta".

Não consigo pois resistir a colocar aqui as duas canções, exactamente na sequência em que foram apresentadas em 1980, pela saudosa "Pimentinha":

Atrás da porta


Cadeira Vazia

quarta-feira, novembro 04, 2009

Judith Durham - uma voz que atravessou gerações

O nome de The Seekers pertenceu a um conjunto famoso nos meus tempos de infância e adolescência



Sempre me maravilhei com voz belíssima da vocalista Judith Durham, pois ela pegava em certas canções e conseguia elevá-las, no meu modesto entender, a um nível de beleza e elegância insuperáveis. Vejam por exemplo o que ela fez com Skyline Pidgeon de Elton John:




Os Seekers eram um jovem grupo australiano, que a meio da década de 60 foi tentar a sorte em Londres e foi tão bem sucedido que uma estadia prevista inicialmente para poucas semanas se transformou numa permanência de quase dois anos.

Não rivalizavam com os Beatles, embora fossem seus contemporâneos e alternassem com eles no primeiro lugar dos TOPs.

Os The Seekers tinham um estilo próprio, um público próprio de todas as idades, sem excepção!




Judith Durham, contudo, tinha os seus próprios planos de vida e de carreira e acertou pacificamente com os seus colegas uma separação amigável no Verão de 1968.

Foi feito um concerto de despedida em Londres, em 7 de Julho desse ano, com os seus maiores sucessos e quem a ele assistiu recorda-se de os acordes de “I’ll never find another you” e “The Carnival is Over”, serem acompanhados por um imenso coro de suspiros e do choro de um público inconsolável!

O conjunto desfez-se, um dos elementos Keith Potger formou os New Seekers, que alcançaram igualmente enorme sucesso nos anos 70 no Reino Unido e Judith partiu para a Austrália, onde cumpriu um dos seus maiores sonhos, casar-se com o músico e compositor Ron Edgeworth.



Judith iniciou então uma carreira calma e discreta, voltando à sua paixão de juventude pelo Jazz e por alguns clássicos de sempre, como este “Climb Every Mountain” que no inicio dos anos 70 o meu pai me deu a ouvir e que eu nunca mais esqueci.



Mas como a vida raramente consegue ser uma eterna bonança, em 1990 Judith e o marido sofreram um terrivel acidente de automóvel que os atirou para uma cama de hospital durante largos meses.

Esse acidente fê-la naturalmente repensar toda a sua vida e levou-a a convidar os antigos membros do seu grupo para que se reunissem de novo.

A antiga amizade e o desejo de voltarem a reviver os antigos tempos levaram-nos de bom grado a reiniciar as suas aparições públicas pela Austrália, quando inesperadamente Judith teve a notícia que o seu marido possuía uma doença degenerativa motora, que em Portugal conhecemos por ELA.

E assim o regresso dos Seekers não pôde ser exactamente o que todos haviam sonhado, pois Judith optou por ficar à cabeceira do marido, que acabaria por sucumbir no espaço de dois anos!

Este facto levou-a a tornar-se na principal doadora e impulsionadora de uma Associação de Apoio e Investigação de Doenças Neurológicas Motoras, ocupando com ela boa parte do seu tempo.

Voltaria mais tarde aos palcos com os seus amigos de sempre e durante mais alguns anos mantiveram-se juntos encantando plateias australianas, britânicas e americanas.



Judith ainda mantém uma belíssima voz e do concerto comemorativo dos seus 60 anos, realizado no imenso Royal Festival Hall em Londres em 2004, foi feito um DVD magnifico, que infelizmente só através da Amazon consegui adquirir!

Deixo no entanto, para encerrar este meu testemunho sobre Judith Durham, imagens de um concerto em Sidney, em que aos 65 anos de idade apresentou uma das suas canções mais populares de sempre: “The Carnival is Over”, canção que curiosamente só a sua teimosia fez com que fosse gravada no já longínquo ano de 1965.

Trata-se de uma melodia do folclore russo, que os restantes elementos dos Seekers se recusavam a gravar por não a considerarem interessante. Ainda bem que ela os convenceu, até porque esta canção se tornou simbólica para o povo australiano e é usada para encerramento dos principais eventos sociais, desportivos e musicais.

Em 2000 estava prevista a sua apresentação no encerramento dos Jogos Olímpicos de Sidney e tal só não aconteceu porque Judith partiu um tornozelo poucos dias antes.

Nessa altura a organização do jogos recorreu a um grupo coral e o assunto resolveu-se. Contudo meses mais tarde para o encerramento dos Jogos Paralimpicos, também em Sidney foi mesmo Judith numa cadeira de rodas que a interpretou.

Termino pois com as imagens mais recentes de Judith, de Março deste ano, como homenagem e recordatória de uma voz magnifica que felizmente, através dos seus discos, me acompanha há décadas:


sexta-feira, outubro 30, 2009

Eva Cassidy, vencer para além da morte

Para mim é sempre um prazer vir aqui falar das minhas preferências musicais.

O meu gosto muito pessoal por vozes femininas não poderia deixar de passar por Eva Cassidy!



A sua carreira foi muito curta, tal como a sua vida. Faleceu no final de 1996, com apenas 33 anos de idade!

Até à sua morte o conhecimento dos seus trabalhos era apenas restrito localmente, na zona de Washington. Dois anos mais tarde, um título de um importante jornal de Boston diria dela: “Após a morte, uma voz única toca os corações de um mundo que nunca a viu cantar”

De facto, Eva nunca conseguiu encontrar uma editora discográfica que a aceitasse tal como ela era e, muito embora reconhecessem o seu talento, achavam-na pouco comercial, quer nas suas composições próprias, quer nas versões que fazia de temas de outros cantores.

Ela ía do folk ao jazz, passando pela pop, dando-lhe o seu cunho pessoal que não cabia em nenhuma catalogação pré-concebida pelas empresas discográficas.





Contudo, tal como em muitas outras situações, a morte da jovem cantora veio a despertar o interesse comercial dos produtores musicais e a partir de algum material gravado particularmente e do CD que ela própria produziu no ano em que faleceu, editou-se uma colectânea que vendeu mais de um milhão de cópias nos Estados Unidos e Reino Unido.

Interpretações suas são agora utilizadas como temas de séries da TV e graças às possibilidades técnicas actuais, Norah Jones e Katie Melua já editaram duetos virtuais com Eva Cassidy, num aproveitamento nem sempre muito feliz, diga-se de passagem!



No segundo semestre de 1996 foi-lhe diagnosticado um melanoma num estado avançado e com inúmeras metastases. Foi-lhe recomendado um tratamento quimico bastante agressivo sob pena de não conseguir viver mais do que 4 meses.

Acreditando que o tratamento a poderia salvar submeteu-se a ele, alimentando naturais esperanças. Afinal ainda era tão nova e tinha tanto para dar! O tratamento não foi para ela senão um agravar do seu sofrimento e, no final, nem 4 meses chegou a sobreviver!

Teve um fim trágico esta moça calma, envergonhada, mas muito firme nas suas convicções, sem compromissos fúteis com interesses comerciais.



Eva Cassidy é hoje finalmente reconhecida como uma das grandes vozes da musica popular americana dos finais do século XX para grande satisfação das editoras!