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domingo, janeiro 22, 2012
Etta James partiu
A poucos dias de completar 74 anos Jamesetta Hawkins, mais conhecida por Etta James faleceu.
Padecia de Alzheimer há cerca de dois anos e no final do ano passado foi-lhe diagnosticada uma forma de leucemia muito agressiva.
Nascida em Los Angeles, começou a cantar aos 5 anos na Igreja Batista frequentada pela sua ama e aí foi adquirindo treino vocal.
Nunca conheceu o seu pai e a sua mãe, que era pródiga em se ir apaixonando por vários homens, foi deixando-a entregue a sucessivas amas que felizmente perceberam os seus dotes vocais e lhe proporcionaram o contacto com o mundo da música.
Aos 14 anos formou um grupo musical amador "The Peaches" que, ao fim de algum tempo, conseguiu gravar um disco que surpreendentemente viria, em 1955, a chegar ao primeiro lugar do top de R&B, com a canção "Dance with me, Henry", a qual 30 depois, seria de novo relançada ao ser incluída na banda sonora de "Regresso ao Futuro".
Nessa mesma altura acabaria, ainda adolescente, por seguir os passos da sua progenitora, tendo-se igualmente tornado mãe solteira.
Isso, contudo não a impediria de continuar a cantar tendo em 1960 assinado um contrato com a editora Chess Records e obtido um enorme sucesso com a canção "At Last", que passou a ser um "tema obrigatório" nas festas de casamento e de noivado nos Estados Unidos!
Vêmo-la aqui, cantando esta canção, numa das suas últimas atuações:
Entretanto em 2008 no filme Cadillac Records, que conta a história da ascenção e queda da "Chess Records", Etta James aparece retratada por Beyoncé, havendo contudo no argumento uma série de inexatidões que muito desagradaram à cantora que apesar disso, nessa altura, se conteve nos comentários.
No entanto a "gota de água" surgiu quando a mesma Beyoncé foi convidada para a festa de investidura de Barak Obama para interpretar a canção que o Presidente revelou ser a sua preferida: "At Last"!
Aí a polémica estalou com Etta James, em público e em várias ocasiões a não poupar nem o Presidente Americano, nem Beyoncé dizendo que nem um nem outro prestavam e... outras coisas bem piores...!
O que nem o público, nem a imprensa sabiam é que nessa altura Etta James já estava seriamente afetada pela doença de Alzheimer. No entanto Beyoncé, que estava a par da situação, as únicas respostas que lhe deu publicamente foi continuar a cantar as suas canções, homenageando-a sempre que possível!
Etta James que ganhou cerca de 30 prémios, entre os quais seis Grammys, teve uma vida complexa e dificil!
O uso de drogas levou-a algumas vezes até à prisão e a entradas e saídas consecutivas de centros de reabilitação!
Foi contudo, uma das cantoras de jazz mais populares de sempre nos Estados Unidos, tendo gravado a maior parte dos standards do jazz e do R&B e chegando mesmo a gravar um CD nos últimos meses de vida, já bastante debilitada. Esse disco "The Dreamer" é a sua despedida assumida, um verdadeiro canto do cisne, onde se percebem quer as suas qualidades, quer as fragilidades impostas pela sua saúde! Foi posto à venda em Agosto passado!
Aqui vai uma das canções desse disco de que mais gosto:
Se Bryan Adams terá exagerado quando disse que Etta tinha a melhor voz do mundo, o certo é que ela e o seu repertório influenciaram vários cantores quer nos Estados Unidos, quer no Reino Unido: De Janis Joplin a Christina Aguilera, de Rod Stewart a Amy Winehouse, Joss Stone e Adele.
Mas, o mais curioso é que, apesar de todo o reconhecimento pelos seus pares, a sua projecção à escala mundial, fora dos Estados Unidos e fora dos círculos do jazz, só aconteceu em meados da década de noventa devido a... um anúncio da Coca-Cola Diet:
Mas o melhor mesmo é ouvir a canção completa, que penso eu ser a melhor forma de homenagear esta grande cantora que agora nos deixou:
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sexta-feira, janeiro 20, 2012
Elis - Cadeira Vazia
Passaram ontem 30 anos que Elis nos deixou. A sua cadeira ficou para sempre vazia!
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domingo, janeiro 15, 2012
Os novos tenores
Quando se fala em tenores a maioria das pessoas tem ainda muito presentes na memória Pavarotti, Carreras e Domingo!
A geração que se lhes seguiu apesar da sua qualidade e prestígio no mundo operático ficou ainda na sombra daqueles 3 nomes, que serão difíceis esquecer.
Falo, por exemplo, de José Cura, Marcelo Alvarez, Roberto Alagna e Rolando Villazon que, por razões várias, não conseguiram a projeção dos anteriores!
Chegou entretanto uma nova geração que possui as qualidades vocais e interpretativas para chegar ao “grande público” tal como os “três tenores” conseguiram.
Para já, esses “jovens” já se consagraram nos palcos das principais salas de Ópera do Mundo. Veremos o que o futuro tem reservado às suas carreiras e ao contributo que elas conseguirão dar à divulgação deste género musical!
Deixo aqui os nomes dos que estão a conseguir maior notoriedade, algumas breves notas biográficas sobre eles e, mais importante ainda, vídeos com atuações, onde se poderá avaliar a qualidade das suas vozes!
Começo pelo mais jovem, Joseph Calleja, que nesta semana completará 34 anos!
De origem maltesa, começou a cantar aos 16 anos e aos 21 anos já tinha vencido dois concursos de canto internacionais. O seu CD “O tenor maltez” lançado há seis meses chegou ao segundo lugar dos discos mais vendidos na Alemanha e ao primeiro lugar da US Billboard Classical Traditional.
Quer pela crítica europeia, quer pela norte-americana é considerado um dos mais promissores tenores do século XXI, causando uma impressão tal que chegam a considerá-lo como o sucessor dos legendários tenores Björling, Gigli, e inclusive de Caruso!
Seguidamente refiro o italiano Vittório Grigolo, talvez o mais mediático de todos os cantores da sua geração, que completará no próximo mês 35 anos.
A sua notoriedade, em abono da verdade, deve-se mais ao facto de ter sido um dos elementos fundadores do agrupamento Il Divo que entretanto abandonou, do que à sua superioridade vocal face aos restantes.
Iniciou-se a cantar aos quatro anos e aos nove anos, numa consulta de oftalmologia, enquanto esperava, ao ouvir alguém cantar noutro apartamento do edifício, resolveu brindar todos os pacientes do consultório com a sua versão da Avé Maria de Schubert, deixando toda a gente boquiaberta, incluindo o pai do oftalmologista que se encontrava presente e que lhe conseguiu uma audição para o coro infantil da Capela Sistina, tendo-se desde logo tornado seu solista!
O seu estilo de actuação (os críticos chegam a dizer que parece um cachorro irrequieto em busca permanente de atenção), o seu primeiro álbum (In the Hands of Love) feito no estilo Pop/Opera, o ar de artista rock que exibe no dia-a-dia e a sua participação em corridas de automóveis são características que lhe tem trazido alguma notoriedade, mas as suas capacidades vocais incomuns naturalmente que também têm ajudado e têm sobretudo contribuído para dissipar o habitual preconceito que existe no mundo da Ópera perante este tipo de ecletismo.
Entretanto, se da sua apresentação e sucesso nos principais palcos do mundo (foi o tenor mais jovem que alguma vez pisou o alla Scala de Milão) tem resultado uma opinião unânime sobre as suas potencialidades, é verdade também que é comum a ideia de que ainda tem que amadurecer mais um pouco para chegar ao seu melhor…
Refiro agora o único dos cantores que já tive oportunidade de ver ao vivo (quase há dez anos), trata-se de Juan Diego Florez.
Tendo completado na semana passada 39 anos de idade, este cantor natural do Perú, começou muito jovem por se interessar pela música ligeira e pela música tradicional do seu País. Contudo, ainda adolescente tornou-se membro e solista do Coro Nacional do Perú.
Aos 20 anos partiu para os Estados Unidos onde estudou com Marilyn Horne e participou em produções estudantis, tendo-se estreado 3 anos depois profissionalmente em Itália.
Pavarotti, extasiou-se de tal forma com a sua voz que o considerava como o seu sucessor natural.
Florez, com a sua interpretação “Ah mes amis” da La Fille du Régiment de Donizetti, terminou com mais de setenta anos de tradição de não encores no “alla Scala” de Milão, ao conseguir os nove dificílimos Dós de peito que essa ária exige, que foram seguidos de uma prolongada ovação do público e exigência de regresso ao palco.
Ele mais tarde repetiria este feito no Metropolitan Opera House em 2008, o primeiro cantor a quem foi exigido um encore desde 1994.
Refiro que já em 2003 ele nos havia maravilhado em São Carlos com esta e outras das suas interpretações.
Por último, trago aqui um cantor cuja voz acho extrordinária a todos os níveis. Trata-se do cantor alemão Jonas Kaufmann.
Com 42 anos de idade e tendo passado já por vários problemas de saúde, primeiro na própria voz em 1995, e mais recentemente de ordem oncológica, foi considerado em 2011 o cantor do ano nos Estados Unidos.
Possui uma amplitude de voz que simultâneamente tem a sombra e a profundidade dos barítonos, mas com a extensão que lhe permite chegar às notas mais agudas, sendo por isso mesmo considerado por muitos como o sucessor natural de Plácido Domingo, que é, aliás, um dos seus mais entusiasticos admiradores.
Começou os seus estudos musicais aos 8 anos e, após se ter formado em Matemática, aos 24 iniciou a sua carreira profissional na Ópera, tendo percorrido a partir daí os principais palcos do mundo, com um reportório que vai de Verdi a Wagner, demonstrando uma versatilidade que, de facto, também só é comparável à de Domingo.
Espero que esta minha seleção de árias tenha sido interessante e esclarecedora do meu entusiasmo por estes novos excelentes representantes do canto lírico!
A geração que se lhes seguiu apesar da sua qualidade e prestígio no mundo operático ficou ainda na sombra daqueles 3 nomes, que serão difíceis esquecer.
Falo, por exemplo, de José Cura, Marcelo Alvarez, Roberto Alagna e Rolando Villazon que, por razões várias, não conseguiram a projeção dos anteriores!
Chegou entretanto uma nova geração que possui as qualidades vocais e interpretativas para chegar ao “grande público” tal como os “três tenores” conseguiram.
Para já, esses “jovens” já se consagraram nos palcos das principais salas de Ópera do Mundo. Veremos o que o futuro tem reservado às suas carreiras e ao contributo que elas conseguirão dar à divulgação deste género musical!
Deixo aqui os nomes dos que estão a conseguir maior notoriedade, algumas breves notas biográficas sobre eles e, mais importante ainda, vídeos com atuações, onde se poderá avaliar a qualidade das suas vozes!
Começo pelo mais jovem, Joseph Calleja, que nesta semana completará 34 anos!
De origem maltesa, começou a cantar aos 16 anos e aos 21 anos já tinha vencido dois concursos de canto internacionais. O seu CD “O tenor maltez” lançado há seis meses chegou ao segundo lugar dos discos mais vendidos na Alemanha e ao primeiro lugar da US Billboard Classical Traditional.
Quer pela crítica europeia, quer pela norte-americana é considerado um dos mais promissores tenores do século XXI, causando uma impressão tal que chegam a considerá-lo como o sucessor dos legendários tenores Björling, Gigli, e inclusive de Caruso!
Seguidamente refiro o italiano Vittório Grigolo, talvez o mais mediático de todos os cantores da sua geração, que completará no próximo mês 35 anos.
A sua notoriedade, em abono da verdade, deve-se mais ao facto de ter sido um dos elementos fundadores do agrupamento Il Divo que entretanto abandonou, do que à sua superioridade vocal face aos restantes.
Iniciou-se a cantar aos quatro anos e aos nove anos, numa consulta de oftalmologia, enquanto esperava, ao ouvir alguém cantar noutro apartamento do edifício, resolveu brindar todos os pacientes do consultório com a sua versão da Avé Maria de Schubert, deixando toda a gente boquiaberta, incluindo o pai do oftalmologista que se encontrava presente e que lhe conseguiu uma audição para o coro infantil da Capela Sistina, tendo-se desde logo tornado seu solista!
O seu estilo de actuação (os críticos chegam a dizer que parece um cachorro irrequieto em busca permanente de atenção), o seu primeiro álbum (In the Hands of Love) feito no estilo Pop/Opera, o ar de artista rock que exibe no dia-a-dia e a sua participação em corridas de automóveis são características que lhe tem trazido alguma notoriedade, mas as suas capacidades vocais incomuns naturalmente que também têm ajudado e têm sobretudo contribuído para dissipar o habitual preconceito que existe no mundo da Ópera perante este tipo de ecletismo.
Entretanto, se da sua apresentação e sucesso nos principais palcos do mundo (foi o tenor mais jovem que alguma vez pisou o alla Scala de Milão) tem resultado uma opinião unânime sobre as suas potencialidades, é verdade também que é comum a ideia de que ainda tem que amadurecer mais um pouco para chegar ao seu melhor…
Refiro agora o único dos cantores que já tive oportunidade de ver ao vivo (quase há dez anos), trata-se de Juan Diego Florez.
Tendo completado na semana passada 39 anos de idade, este cantor natural do Perú, começou muito jovem por se interessar pela música ligeira e pela música tradicional do seu País. Contudo, ainda adolescente tornou-se membro e solista do Coro Nacional do Perú.
Aos 20 anos partiu para os Estados Unidos onde estudou com Marilyn Horne e participou em produções estudantis, tendo-se estreado 3 anos depois profissionalmente em Itália.
Pavarotti, extasiou-se de tal forma com a sua voz que o considerava como o seu sucessor natural.
Florez, com a sua interpretação “Ah mes amis” da La Fille du Régiment de Donizetti, terminou com mais de setenta anos de tradição de não encores no “alla Scala” de Milão, ao conseguir os nove dificílimos Dós de peito que essa ária exige, que foram seguidos de uma prolongada ovação do público e exigência de regresso ao palco.
Ele mais tarde repetiria este feito no Metropolitan Opera House em 2008, o primeiro cantor a quem foi exigido um encore desde 1994.
Refiro que já em 2003 ele nos havia maravilhado em São Carlos com esta e outras das suas interpretações.
Por último, trago aqui um cantor cuja voz acho extrordinária a todos os níveis. Trata-se do cantor alemão Jonas Kaufmann.
Com 42 anos de idade e tendo passado já por vários problemas de saúde, primeiro na própria voz em 1995, e mais recentemente de ordem oncológica, foi considerado em 2011 o cantor do ano nos Estados Unidos.
Possui uma amplitude de voz que simultâneamente tem a sombra e a profundidade dos barítonos, mas com a extensão que lhe permite chegar às notas mais agudas, sendo por isso mesmo considerado por muitos como o sucessor natural de Plácido Domingo, que é, aliás, um dos seus mais entusiasticos admiradores.
Começou os seus estudos musicais aos 8 anos e, após se ter formado em Matemática, aos 24 iniciou a sua carreira profissional na Ópera, tendo percorrido a partir daí os principais palcos do mundo, com um reportório que vai de Verdi a Wagner, demonstrando uma versatilidade que, de facto, também só é comparável à de Domingo.
Espero que esta minha seleção de árias tenha sido interessante e esclarecedora do meu entusiasmo por estes novos excelentes representantes do canto lírico!
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domingo, janeiro 01, 2012
Feliz Ano Novo
Enquanto que a RTP nos brinda com o prenúncio do que irá ser 2012 para os portugueses, transmitindo uma coisa onde aparece um senhor de capachinho chamado Tony Carreira, pergunto-me a mim próprio porque é que uma estação de serviço público que quer apostar na música ligeira portuguesa não mostra algo feito pelo André Sardet, pelo Amor Electro, pelos Mesa, pelo Rodrigo Leão… etc, etc,etc…
Entretanto, enquanto que Elisabete Matos se prepara para dentro de poucos minutos entrar no palco do São Carlos, pergunto-me igualmente porque é que a cantora lírica com maior projecção no mundo não é suficientemente divulgada ao público português!
Do mesmo modo também me questiono porque as únicas vozes líricas que alguma vez foram escolhidas para a fase final do mais importante Concurso de canto do mundo, o Cardiff Singers of the World, são também ausentes permanentes do serviço público de televisão: Falo de Ana Paula Russo (aqui cantando "una voce poco fa")
e de Dora Rodrigues (aqui interpretando a ária que apresentou no próprio concurso "Meine Lippen sie kussen so heiss")!
Pergunto-me, sabendo qual seja a resposta, mas mesmo assim deixo aqui a questão que há alguns anos me deixava perplexo, mas que hoje em dia me deixa simplesmente desiludido e com vontade de emigrar!
Termino, é claro, desejando a todos um 2012 com muita saúde, já que desejar um bom ano à maioria dos portugueses é quase anedótico, porque todos já sabemos que o ano irá ser possívelmente ainda pior do que as nossas programações televisivas têm sido!
Entretanto, enquanto que Elisabete Matos se prepara para dentro de poucos minutos entrar no palco do São Carlos, pergunto-me igualmente porque é que a cantora lírica com maior projecção no mundo não é suficientemente divulgada ao público português!
Do mesmo modo também me questiono porque as únicas vozes líricas que alguma vez foram escolhidas para a fase final do mais importante Concurso de canto do mundo, o Cardiff Singers of the World, são também ausentes permanentes do serviço público de televisão: Falo de Ana Paula Russo (aqui cantando "una voce poco fa")
e de Dora Rodrigues (aqui interpretando a ária que apresentou no próprio concurso "Meine Lippen sie kussen so heiss")!
Pergunto-me, sabendo qual seja a resposta, mas mesmo assim deixo aqui a questão que há alguns anos me deixava perplexo, mas que hoje em dia me deixa simplesmente desiludido e com vontade de emigrar!
Termino, é claro, desejando a todos um 2012 com muita saúde, já que desejar um bom ano à maioria dos portugueses é quase anedótico, porque todos já sabemos que o ano irá ser possívelmente ainda pior do que as nossas programações televisivas têm sido!
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sexta-feira, outubro 01, 2010
FRANGO
Vou partir dentro de poucas horas para uma breve estadia na cidade de Valência, a terceira cidade de Espanha.
E estando aqui tão perto é para mim estranho que não seja mais conhecida no nosso País aquela que é considerada a “voz de Valência”. Falo de Francisco, de seu nome completo Francisco González Sarriá. Uma voz verdadeiramente excepcional.

As versões mais populares e conseguidas dos Hinos da Comunidade de Valência e das festas da cidade as “Fallas” estão na sua voz.
Não será apenas Francisco que é pouco conhecido em Portugal, o mesmo acontece com a maioria dos intérpretes espanhóis que infelizmente desde os anos 70 deixaram de passar nas nossas rádios e televisões.
Bom, mas a verdade é que mesmo em Espanha Francisco, apesar de ser muito conhecido e prestigiado, não é propriamente um artista comercializável.
Vindo de uma família muito pobre e tendo uma voz poderosíssima o seu caminho artístico iniciou-se na música ligeira, quando seria óbvio que estava talhado para uma carreira no canto lírico.
Acabou assim por lhe acontecer o inevitável, no mundo da música popular:
Foi quase sempre um peixe fora de água, com poucos autores capazes de escrever para a sua voz. Uma voz que, infelizmente, para editoras, autores e boa parte do público parece ter surgido já fora tempo!
Vejamo-lo aqui no inicio da sua carreira, com pouco mais de 20 anos e uma voz excepcionalmente madura para a sua idade, numa altura em que já usava o seu nome próprio “Francisco” como nome artístico, isto após ter iniciado a sua carreira sob o nome de FRANGO, nome retirado das iniciais do seu nome próprio e do seu apelido paterno.
Apesar de não conseguir ser popular junto do público da sua própria idade e de vender poucos discos, em regra acabava por vencer todos os concursos para cantores, sendo igualmente o único artista a ganhar por duas vezes o Festival da OTI…. O que, diga-se de passagem, não é propriamente uma credencial de peso.
Remeteu-se pois a cantar versões de canções de outros artistas, normalmente bem escolhidas, mas tendo com isso sucessos limitados, em segunda mão, digamos assim.
Quando, após anos de estudo com Monserrat Caballé, tornou-se num dos seus alunos preferidos, acedendo então ao canto lírico, ao lado da própria Caballé em vários recitais por toda a Espanha.
Contudo,o preconceito do meio operático e do respectivo público, nunca deu as oportunidades necessárias a este cantor que vinha da música ligeira, fechando os olhos às suas qualidades.
Este acolhimento frio retirou-lhe a vontade de prosseguir por esse caminho, aonde apenas ocasionalmente faz incursões.
É um daqueles casos de artista que levará toda a vida a ser considerado como uma promessa para um futuro que nunca mais chega. Um artista com muito prestígio, que é aplaudido de pé sempre que actua, mas que não vende, nem é considerado como estando na música ligeira ou no campo clássico…
Acontece... Já aconteceu com outros cantores, desde Claudio Villa em Itália a Luis Piçarra em Portugal e é um desperdício!
Deixo estes dois vídeos, onde as suas qualidades como cantor são por demais óbvias e merecedoras de serem divulgadas no nosso País:
E até à segunda quinzena de Outubro!
E estando aqui tão perto é para mim estranho que não seja mais conhecida no nosso País aquela que é considerada a “voz de Valência”. Falo de Francisco, de seu nome completo Francisco González Sarriá. Uma voz verdadeiramente excepcional.

As versões mais populares e conseguidas dos Hinos da Comunidade de Valência e das festas da cidade as “Fallas” estão na sua voz.
Não será apenas Francisco que é pouco conhecido em Portugal, o mesmo acontece com a maioria dos intérpretes espanhóis que infelizmente desde os anos 70 deixaram de passar nas nossas rádios e televisões.
Bom, mas a verdade é que mesmo em Espanha Francisco, apesar de ser muito conhecido e prestigiado, não é propriamente um artista comercializável.
Vindo de uma família muito pobre e tendo uma voz poderosíssima o seu caminho artístico iniciou-se na música ligeira, quando seria óbvio que estava talhado para uma carreira no canto lírico.
Acabou assim por lhe acontecer o inevitável, no mundo da música popular:
Foi quase sempre um peixe fora de água, com poucos autores capazes de escrever para a sua voz. Uma voz que, infelizmente, para editoras, autores e boa parte do público parece ter surgido já fora tempo!
Vejamo-lo aqui no inicio da sua carreira, com pouco mais de 20 anos e uma voz excepcionalmente madura para a sua idade, numa altura em que já usava o seu nome próprio “Francisco” como nome artístico, isto após ter iniciado a sua carreira sob o nome de FRANGO, nome retirado das iniciais do seu nome próprio e do seu apelido paterno.
Apesar de não conseguir ser popular junto do público da sua própria idade e de vender poucos discos, em regra acabava por vencer todos os concursos para cantores, sendo igualmente o único artista a ganhar por duas vezes o Festival da OTI…. O que, diga-se de passagem, não é propriamente uma credencial de peso.
Remeteu-se pois a cantar versões de canções de outros artistas, normalmente bem escolhidas, mas tendo com isso sucessos limitados, em segunda mão, digamos assim.
Quando, após anos de estudo com Monserrat Caballé, tornou-se num dos seus alunos preferidos, acedendo então ao canto lírico, ao lado da própria Caballé em vários recitais por toda a Espanha.
Contudo,o preconceito do meio operático e do respectivo público, nunca deu as oportunidades necessárias a este cantor que vinha da música ligeira, fechando os olhos às suas qualidades.
Este acolhimento frio retirou-lhe a vontade de prosseguir por esse caminho, aonde apenas ocasionalmente faz incursões.
É um daqueles casos de artista que levará toda a vida a ser considerado como uma promessa para um futuro que nunca mais chega. Um artista com muito prestígio, que é aplaudido de pé sempre que actua, mas que não vende, nem é considerado como estando na música ligeira ou no campo clássico…
Acontece... Já aconteceu com outros cantores, desde Claudio Villa em Itália a Luis Piçarra em Portugal e é um desperdício!
Deixo estes dois vídeos, onde as suas qualidades como cantor são por demais óbvias e merecedoras de serem divulgadas no nosso País:
E até à segunda quinzena de Outubro!
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quarta-feira, agosto 25, 2010
Recordando "Dores de Cotovelo" Transatlânticas
Estou sem computador e simultaneamente de partida para férias. Contudo não queria partir sem deixar algo neste meu pequeno espaço… Hoje trago apenas umas breves e simples lembranças dos meus tempos de infância.
O pretexto foi-me dado por um dos canais da Fox que utilizou recentemente um pequeno separador musical onde se ouvia apenas a seguinte frase:“ Que eu quero passar com a minha dor”!
Ora isso trouxe-me à memória muita coisa sobre os primórdios das minhas recordações sobre música.
Essa frase é o segundo verso de uma canção chamada a “Flor e o Espinho” escrita em 1957 por Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito e que viria a ser um imenso sucesso no Brasil, 8 anos mais tarde, pela voz da “divina” Elizeth Cardoso.

“Tire o seu sorriso do caminho, Que eu quero passar com a minha dor” . São os versos, muito bem conseguidos, do começo desta canção que passou completamente despercebida em Portugal, apesar de ter vindo a ser cantada por dezenas e dezenas de cantores brasileiros, podendo-se considerar um verdadeiro standard musical do País Irmão.
A voz que se ouvia na Fox era a de Paulinho Moska:
Contudo, a primeira vez que eu ouvi esta canção foi através de Nora Ney, igualmente uma ilustre desconhecida em Portugal.
As razões deste desconhecimento são muito simples:
Apesar de ter um imenso sucesso no Brasil e de, no inicio dos anos 50, ter criado uma canção que chegou a ser ouvida até à exaustão nas rádios portuguesas: “Ninguém me Ama”; Nora era militante do Partido Comunista Brasileiro, o que portanto não era aceitável para a censura nacional.
Assim, a canção só foi escutada aqui, um pouco mais tarde, pela versão, também magnifica, de Dolores Duran e o sucesso foi extraordinário!
Para além de comunista, Nora Ney era uma mulher bonita, elegante e extremamente sofisticada o que a tornava ainda mais perigosa para os nossos censores.

Fazendo-lhe agora a devida justiça, vejamo-la cantando a canção que criou e que teve mais tarde uma verdadeira projecção global, através de inúmeras versões, desde a da italiana Mina à mundialmente famosa de Nat King Cole.
Esta canção escrita pelo “grande” António Maria, em 1952 foi um dos primeiros sucessos de Nora Ney e integrava-se num estilo muito em moda na época: o da chamada canção de “dor de cotovelo”!
Este estilo prestava-se quer a obras de muita qualidade, quer a produtos verdadeiramente Kitch, mas que nem por isso deixavam de ter sucesso.
Algumas vezes para ajudar a obter um efeito mais seguro, utilizava-se o estilo do bolero ou o do tango, o que tornava a “dor de cotovelo” ainda mais pungente… e vendável!
E eu recordo-me muito bem que, nessa linha, vinda também do Brasil, invadiu as nossas rádios uma canção sem grandes pretensões de qualidade, que durante meses foi ouvida de manhã à noite e que depois em Portugal, como sempre acontece, se viria a perder na poeira do tempo:
Refiro-me ao bolero “Faz-me Rir”, canção interpretada por Edith Veiga, que depois a foi repetindo em quase todos os discos que veio a gravar, como se de um talismã se tratasse.
Esta cantora, depois de uma curta carreira, casou e afastou-se da vida artística (temporáriamente, no seu caso), tal como aconteceu com outra cantora que, do lado de cá do Atlântico, interpretava também canções de amores dramáticos, culpas doentias e valentes dores cotovelares e que curiosamente também ficaria associada essencial, mas injustamente, a uma única canção: “Vocês Sabem Lá”.
Falo naturalmente de Maria de Fátima Bravo, que infelizmente quando se retirou,muito jovem, fê-lo de forma definitiva.
Ora na mesma altura em que Edith Veiga perdia as estribeiras com o bolero “Faz-me Rir”, a Maria de Fátima Bravo carregada de culpas, perdia a vergonha e confessava as suas galderices com o tango “Eu sou Pecadora”:
Mas, voltemos a Nora Ney, cujo verdadeiro nome não ajudava muito a quem, na época, se quisesse afirmar no meio artístico.
Iracema era o seu nome de baptismo e começou por fazer carreira cantando apenas em inglês standards do jazz, já que a sua voz, muito grave, de contralto estava completamente fora dos cânones da época!
Disse-se sempre aliás que mais do que uma cantora Nora Ney era uma “diseuse”, contudo talvez essa carácterística fosse uma das chaves do seu sucesso, que foi enorme, tendo sido pioneira em muitas coisas no panorama musical brasileiro:
Foi a primeira brasileira a cantar Rock, foi a que primeiro gravou composições de António Carlos Jobim e foi também a primeira a pisar os palcos da Europa de Leste, incluindo os da antiga União Soviética….
O facto de ser comunista e de a partir de 1964, com a ditadura militar, se ter exilado durante oito anos, terá tido nisso, decerto, alguma importância, contudo lá que foi a primeira a conseguir esse feito, ninguém o pode negar….
Entretanto, no Brasil, Nora Ney será sempre recordada por ter dado voz às mais interessantes composições de António Maria e Fernando Lobo, dentro do estilo da tal “dor de cotovelo”, como esta que a seguir poderemos ouvir:
Dor de cotovelo que em Portugal teve também imensos seguidores, mas dos quais hoje não irei falar, pois julgo ser mais interessante recordar a par de Nora Ney, a voz magnifica e inesquecível de Maria de Fátima Bravo, que cantava, com a sua voz esplêndida, essa dor ao jeito português.
Se uma encontrava razões de preconceito para os seus desencontros amorosos, a outra, depois de ter confessado anteriormente as suas “cabeçadas”, já não se importava mais com o que a sociedade preconceituosa pudesse falar dela:
Enfim, apesar da ironia, com que falo deste género musical, devo dizer que, conforme os anos vão passando, melhor vou reconhecendo que ele era um excelente espelho dos constrangimentos sociais da época, sobretudo para a mulher, quase sempre a maior vítima de discriminações de classe e de preconceitos religiosos.
E, do mesmo modo, confesso que cada vez mais agradáveis ao meu ouvido se vão tornando estas canções, que estão indiscutivelmente ligadas às memórias da minha infância.
Por ser demasiado conhecida, não quis colocar aqui directamente a interpretação original, pela Fátima Bravo, do “Vocês sabem Lá” da dupla Nóbrega e Sousa e Jerónimo Bragança, os quais, aliás, tive o prazer de conhecer pessoalmente.
Mas, clicando neste espaço, poderão escutar este belo símbolo de da dor de cotovelo nacional, na sua versão original de 1958. Uma das melhores, senão talvez a melhor das canções desse género, feitas no nosso País, cantada por uma voz que era sem dúvida excepcional!
Nóbrega e Sousa, a propósito desta canção chegou a confessar-me, meio a brincar, meio a sério, que o seu sucesso foi tão grande e que havia tanta gente a cantá-la tão mal que já nem sequer a conseguia ouvir…
Não se referia decerto ao caso da versão que aqui trago para terminar, como simples curiosidade.
Em meados dos anos 60, Mirene Cardinalli gravou-a, tendo sido na altura editada em vinil, nunca o tendo sido depois em CD.
Como se sabe Mirene perderia a vida em 1969, aos 27 anos de idade e para mim, depois da versão original, esta é, apesar dos fracos arranjos orquestrais, a mais conseguida de todas as versões feitas após Maria de Fátima Bravo.
Por isso mesmo, desejo deixá-la aqui, para que não se perca no esquecimento.
Espero não ter sido demasiado chato com estas memórias antigas e parto, sem dor… e sem computador, para férias!!!!
O pretexto foi-me dado por um dos canais da Fox que utilizou recentemente um pequeno separador musical onde se ouvia apenas a seguinte frase:“ Que eu quero passar com a minha dor”!
Ora isso trouxe-me à memória muita coisa sobre os primórdios das minhas recordações sobre música.
Essa frase é o segundo verso de uma canção chamada a “Flor e o Espinho” escrita em 1957 por Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito e que viria a ser um imenso sucesso no Brasil, 8 anos mais tarde, pela voz da “divina” Elizeth Cardoso.

“Tire o seu sorriso do caminho, Que eu quero passar com a minha dor” . São os versos, muito bem conseguidos, do começo desta canção que passou completamente despercebida em Portugal, apesar de ter vindo a ser cantada por dezenas e dezenas de cantores brasileiros, podendo-se considerar um verdadeiro standard musical do País Irmão.
A voz que se ouvia na Fox era a de Paulinho Moska:
Contudo, a primeira vez que eu ouvi esta canção foi através de Nora Ney, igualmente uma ilustre desconhecida em Portugal.
As razões deste desconhecimento são muito simples:
Apesar de ter um imenso sucesso no Brasil e de, no inicio dos anos 50, ter criado uma canção que chegou a ser ouvida até à exaustão nas rádios portuguesas: “Ninguém me Ama”; Nora era militante do Partido Comunista Brasileiro, o que portanto não era aceitável para a censura nacional.
Assim, a canção só foi escutada aqui, um pouco mais tarde, pela versão, também magnifica, de Dolores Duran e o sucesso foi extraordinário!
Para além de comunista, Nora Ney era uma mulher bonita, elegante e extremamente sofisticada o que a tornava ainda mais perigosa para os nossos censores.

Fazendo-lhe agora a devida justiça, vejamo-la cantando a canção que criou e que teve mais tarde uma verdadeira projecção global, através de inúmeras versões, desde a da italiana Mina à mundialmente famosa de Nat King Cole.
Esta canção escrita pelo “grande” António Maria, em 1952 foi um dos primeiros sucessos de Nora Ney e integrava-se num estilo muito em moda na época: o da chamada canção de “dor de cotovelo”!
Este estilo prestava-se quer a obras de muita qualidade, quer a produtos verdadeiramente Kitch, mas que nem por isso deixavam de ter sucesso.
Algumas vezes para ajudar a obter um efeito mais seguro, utilizava-se o estilo do bolero ou o do tango, o que tornava a “dor de cotovelo” ainda mais pungente… e vendável!
E eu recordo-me muito bem que, nessa linha, vinda também do Brasil, invadiu as nossas rádios uma canção sem grandes pretensões de qualidade, que durante meses foi ouvida de manhã à noite e que depois em Portugal, como sempre acontece, se viria a perder na poeira do tempo:
Refiro-me ao bolero “Faz-me Rir”, canção interpretada por Edith Veiga, que depois a foi repetindo em quase todos os discos que veio a gravar, como se de um talismã se tratasse.
Esta cantora, depois de uma curta carreira, casou e afastou-se da vida artística (temporáriamente, no seu caso), tal como aconteceu com outra cantora que, do lado de cá do Atlântico, interpretava também canções de amores dramáticos, culpas doentias e valentes dores cotovelares e que curiosamente também ficaria associada essencial, mas injustamente, a uma única canção: “Vocês Sabem Lá”.
Falo naturalmente de Maria de Fátima Bravo, que infelizmente quando se retirou,muito jovem, fê-lo de forma definitiva.
Ora na mesma altura em que Edith Veiga perdia as estribeiras com o bolero “Faz-me Rir”, a Maria de Fátima Bravo carregada de culpas, perdia a vergonha e confessava as suas galderices com o tango “Eu sou Pecadora”:
Mas, voltemos a Nora Ney, cujo verdadeiro nome não ajudava muito a quem, na época, se quisesse afirmar no meio artístico.
Iracema era o seu nome de baptismo e começou por fazer carreira cantando apenas em inglês standards do jazz, já que a sua voz, muito grave, de contralto estava completamente fora dos cânones da época!
Disse-se sempre aliás que mais do que uma cantora Nora Ney era uma “diseuse”, contudo talvez essa carácterística fosse uma das chaves do seu sucesso, que foi enorme, tendo sido pioneira em muitas coisas no panorama musical brasileiro:
Foi a primeira brasileira a cantar Rock, foi a que primeiro gravou composições de António Carlos Jobim e foi também a primeira a pisar os palcos da Europa de Leste, incluindo os da antiga União Soviética….
O facto de ser comunista e de a partir de 1964, com a ditadura militar, se ter exilado durante oito anos, terá tido nisso, decerto, alguma importância, contudo lá que foi a primeira a conseguir esse feito, ninguém o pode negar….
Entretanto, no Brasil, Nora Ney será sempre recordada por ter dado voz às mais interessantes composições de António Maria e Fernando Lobo, dentro do estilo da tal “dor de cotovelo”, como esta que a seguir poderemos ouvir:
Dor de cotovelo que em Portugal teve também imensos seguidores, mas dos quais hoje não irei falar, pois julgo ser mais interessante recordar a par de Nora Ney, a voz magnifica e inesquecível de Maria de Fátima Bravo, que cantava, com a sua voz esplêndida, essa dor ao jeito português.
Se uma encontrava razões de preconceito para os seus desencontros amorosos, a outra, depois de ter confessado anteriormente as suas “cabeçadas”, já não se importava mais com o que a sociedade preconceituosa pudesse falar dela:
Enfim, apesar da ironia, com que falo deste género musical, devo dizer que, conforme os anos vão passando, melhor vou reconhecendo que ele era um excelente espelho dos constrangimentos sociais da época, sobretudo para a mulher, quase sempre a maior vítima de discriminações de classe e de preconceitos religiosos.
E, do mesmo modo, confesso que cada vez mais agradáveis ao meu ouvido se vão tornando estas canções, que estão indiscutivelmente ligadas às memórias da minha infância.
Por ser demasiado conhecida, não quis colocar aqui directamente a interpretação original, pela Fátima Bravo, do “Vocês sabem Lá” da dupla Nóbrega e Sousa e Jerónimo Bragança, os quais, aliás, tive o prazer de conhecer pessoalmente.
Mas, clicando neste espaço, poderão escutar este belo símbolo de da dor de cotovelo nacional, na sua versão original de 1958. Uma das melhores, senão talvez a melhor das canções desse género, feitas no nosso País, cantada por uma voz que era sem dúvida excepcional!
Nóbrega e Sousa, a propósito desta canção chegou a confessar-me, meio a brincar, meio a sério, que o seu sucesso foi tão grande e que havia tanta gente a cantá-la tão mal que já nem sequer a conseguia ouvir…
Não se referia decerto ao caso da versão que aqui trago para terminar, como simples curiosidade.
Em meados dos anos 60, Mirene Cardinalli gravou-a, tendo sido na altura editada em vinil, nunca o tendo sido depois em CD.
Como se sabe Mirene perderia a vida em 1969, aos 27 anos de idade e para mim, depois da versão original, esta é, apesar dos fracos arranjos orquestrais, a mais conseguida de todas as versões feitas após Maria de Fátima Bravo.
Por isso mesmo, desejo deixá-la aqui, para que não se perca no esquecimento.
Espero não ter sido demasiado chato com estas memórias antigas e parto, sem dor… e sem computador, para férias!!!!
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quarta-feira, julho 21, 2010
Fez anos em Março e eu esqueci-me!
Ontem, ao ler os comentários ao último post do blog Tertúlias, apareceram referências muito interessantes a uma das minhas cantoras favoritas, fazendo-me perceber que estava obviamente em falta com ela, pois deixara passar em claro uma efeméride muito especial da sua vida.
Assim, decidi falar já hoje dessa magnifica voz, que é considerada a última das grandes cantoras do verismo e decerto a que maior longevidade teve na sua carreira.
Falo-vos de Magda Olivero, que completou em 25 de Março passado o seu centésimo aniversário e cujo nome vi pela primeira vez nos jornais, aquando da sua estreia no Metropolitan de Nova Iorque em 1975.

Fiquei naturalmente curioso!
A sua aparição no exigente MET parece que não foi fácil, apesar de Magda ser um nome mundialmente conhecido, foi precisa uma insistência enorme da então jovem vedeta da Ópera Joan Sutherland, para que a administração daquela sala aceitasse apresentar uma Flora Tosca de 65 anos.
Os jornais de então relataram que o público nova-iorquino acabou por ficar verdadeiramente estupefacto e rendido ao canto de Magda.
Existe actualmente no youtube um excerto do som dessa sua actuação no MET que comprova a qualidade da sua actuação e a consequente reacção do público!
Relatou na altura o crítico Harold C. Schonberg do New York Times:
Cantoras como Olivero têm a capacidade de, apenas com uma expressão do seu rosto ou com um único olhar, fazer com que o espectador sentado no ponto mais longínquo da sala se aperceba de toda a densidade que a obra pretende transmitir.
Fez-se história naquela noite, em que apesar da idade Olivero deu-nos uma Tosca surpreendentemente doce, sensual e feminina. Vocalmente, foi ainda mais excepcional do que seria imaginável. Contida quando era preciso, dramática quando era necessário, a sua voz representa bem mais do que a sua capacidade como cantora, representa a suprema arte do canto. “
Ao longo do tempo fui sabendo mais algumas coisas sobre o passado glorioso de Magda Olivero, comprando alguns discos e, sempre que possível, apanhar mais notícias sobre a sua manutenção em actividade! Actividade que dura praticamente até aos dias de hoje.
Embora retirada dos palcos profissionalmente aos 71 anos, continuou a ser solicitada para cantar em Igrejas perto da sua residência e em pequenos saraus particulares.
Dez anos depois de se retirar, aos 81 anos, era assim a sua Avé Maria de Gounoud:
Mais dez anos passados, aos 91 anos de idade, podemos voltar a vê-la aqui cantando como solista numa igreja de Milão, durante a missa que assinalou a passagem do 25º aniversário da morte de Maria Callas.
A carreira desta cantora excepcional iniciou-se em 1933, tendo sido considerada pelo compositor Francesco Cilea a melhor de todas as protagonistas da sua Adriana Lecouvreur, já que segundo todos os que a tiveram oportunidade de a ver ao vivo, tratava-se de uma cantora que para além de transmitir todas as notas da partitura e todos os sentimentos inscritos no libreto, conseguia conjugá-los de tal forma que a ficção posta no palco se transformava num vendaval de sensações para o espectador.
Ela é hoje, com os seus magníficos 100 anos, plenos de vigor e lucidez (o ano passado ainda deu uma pequena conferência e cantou uma pequena ária em público) o único elo vivo que liga aos compositores do inicio do século XX, já que trabalhou directamente com Mascagni, Franco Alfano e Riccardo Zandonai, para além de Cilea, é claro.
Interrompeu a carreira de 1940 a 1950, devido ao seu casamento, mas retomou-a de novo a pedido de Cilea, que já bastante doente desejava voltar a ver a sua Ópera com a sua cantora de eleição.
Tendo tido uma carreira recheada de sucessos, viveu o seu auge numa época em que todas as atenções mediáticas se voltavam para Maria Callas e, esporadicamente, para a sua rivalidade daquela com Renata Tebaldi.
Foi, apesar disso, no mundo da Ópera, considerada uma verdadeira Diva, que tal como Callas era excelente quer como cantora, quer como actriz.
Do mesmo modo foi intérprete, nos palcos de todo o mundo, de muitas das mais disputadas obras do repertório operático: La bohème, La fanciulla del West, La traviata, La Wally, Madame Butterfly, Manon Lescaut, Mefistofele, e Turandot, foram algumas delas.
Afirmava ter um principio básico, que era o de não imitar ninguém e se errasse, corrigiria o erro por si, com o seu próprio estilo… com uma excepção... ao fazer a Traviata inspirava-se sempre em Greta Garbo e se o tenor que lhe calhava para o papel de Alfredo não correspondia exactamente ao perfil que desejava, bastava-lhe fantasiar com o actor Robert Taylor e a “química” ficava garantida.
Termino esta homenagem simples a esta grande cantora com um pequeno vídeo que preparei com uma ária famosa da Ópera Gianni Schicchi, que foi exactamente a primeira Ópera em que participou.
Assim, decidi falar já hoje dessa magnifica voz, que é considerada a última das grandes cantoras do verismo e decerto a que maior longevidade teve na sua carreira.
Falo-vos de Magda Olivero, que completou em 25 de Março passado o seu centésimo aniversário e cujo nome vi pela primeira vez nos jornais, aquando da sua estreia no Metropolitan de Nova Iorque em 1975.

Na verdade o interesse jornalístico de então centrava-se no facto desta cantora se apresentar naquela sala, com a Tosca, numa idade em que a maior parte das cantoras já estão retiradas, ou quando muito no ocaso da carreira. Magda tinha então 65 anos.
Fiquei naturalmente curioso!
A sua aparição no exigente MET parece que não foi fácil, apesar de Magda ser um nome mundialmente conhecido, foi precisa uma insistência enorme da então jovem vedeta da Ópera Joan Sutherland, para que a administração daquela sala aceitasse apresentar uma Flora Tosca de 65 anos.
Os círculos musicais de Nova Iorque mobilizaram-se então para ver o que poderia ser uma de duas coisas, ou fenómeno artístico ou um embaraçoso desastre! E, portanto, fosse como fosse, algo assim na principal sala da cidade seria imperdível.
Os jornais de então relataram que o público nova-iorquino acabou por ficar verdadeiramente estupefacto e rendido ao canto de Magda.
Existe actualmente no youtube um excerto do som dessa sua actuação no MET que comprova a qualidade da sua actuação e a consequente reacção do público!
Relatou na altura o crítico Harold C. Schonberg do New York Times:
“O público gritou e aplaudiu freneticamente, fazendo com que o Maestro Jan Behr mandasse parar a orquestra. Ela teve que se aproximar do centro do palco e durante 20 minutos as palmas e os “Brava” não cessaram. Foi uma das maiores ovações a que o Metropolitan assistiu em toda a sua história!
Cantoras como Olivero têm a capacidade de, apenas com uma expressão do seu rosto ou com um único olhar, fazer com que o espectador sentado no ponto mais longínquo da sala se aperceba de toda a densidade que a obra pretende transmitir.
Fez-se história naquela noite, em que apesar da idade Olivero deu-nos uma Tosca surpreendentemente doce, sensual e feminina. Vocalmente, foi ainda mais excepcional do que seria imaginável. Contida quando era preciso, dramática quando era necessário, a sua voz representa bem mais do que a sua capacidade como cantora, representa a suprema arte do canto. “
Lembro-me de ter lido na imprensa portuguesa um relato deste tipo sobre esta récita, não me recordando sinceramente qual a fonte donde provinha. Contudo, foi dos tais casos que me fez, a partir desse momento, querer acompanhar e saber mais sobre esta cantora.
Ao longo do tempo fui sabendo mais algumas coisas sobre o passado glorioso de Magda Olivero, comprando alguns discos e, sempre que possível, apanhar mais notícias sobre a sua manutenção em actividade! Actividade que dura praticamente até aos dias de hoje.
Embora retirada dos palcos profissionalmente aos 71 anos, continuou a ser solicitada para cantar em Igrejas perto da sua residência e em pequenos saraus particulares.
Dez anos depois de se retirar, aos 81 anos, era assim a sua Avé Maria de Gounoud:
Mais dez anos passados, aos 91 anos de idade, podemos voltar a vê-la aqui cantando como solista numa igreja de Milão, durante a missa que assinalou a passagem do 25º aniversário da morte de Maria Callas.
A carreira desta cantora excepcional iniciou-se em 1933, tendo sido considerada pelo compositor Francesco Cilea a melhor de todas as protagonistas da sua Adriana Lecouvreur, já que segundo todos os que a tiveram oportunidade de a ver ao vivo, tratava-se de uma cantora que para além de transmitir todas as notas da partitura e todos os sentimentos inscritos no libreto, conseguia conjugá-los de tal forma que a ficção posta no palco se transformava num vendaval de sensações para o espectador.
Ela é hoje, com os seus magníficos 100 anos, plenos de vigor e lucidez (o ano passado ainda deu uma pequena conferência e cantou uma pequena ária em público) o único elo vivo que liga aos compositores do inicio do século XX, já que trabalhou directamente com Mascagni, Franco Alfano e Riccardo Zandonai, para além de Cilea, é claro.
Interrompeu a carreira de 1940 a 1950, devido ao seu casamento, mas retomou-a de novo a pedido de Cilea, que já bastante doente desejava voltar a ver a sua Ópera com a sua cantora de eleição.
Cilea morreria infelizmente antes da estreia do espectáculo, mas de novo Olivero voltou a aos palcos, recomeçando a sua actividade com esse papel, em 1951.
Tendo tido uma carreira recheada de sucessos, viveu o seu auge numa época em que todas as atenções mediáticas se voltavam para Maria Callas e, esporadicamente, para a sua rivalidade daquela com Renata Tebaldi.
Foi, apesar disso, no mundo da Ópera, considerada uma verdadeira Diva, que tal como Callas era excelente quer como cantora, quer como actriz.
Devido à sua longa carreira, teve como nenhuma outra, a oportunidade de cantar com várias gerações de grandes cantores, de Gigli a Gobbi, de Del Monaco a Corelli, passando por Plácido Domingo, por exemplo…..
Do mesmo modo foi intérprete, nos palcos de todo o mundo, de muitas das mais disputadas obras do repertório operático: La bohème, La fanciulla del West, La traviata, La Wally, Madame Butterfly, Manon Lescaut, Mefistofele, e Turandot, foram algumas delas.
Afirmava ter um principio básico, que era o de não imitar ninguém e se errasse, corrigiria o erro por si, com o seu próprio estilo… com uma excepção... ao fazer a Traviata inspirava-se sempre em Greta Garbo e se o tenor que lhe calhava para o papel de Alfredo não correspondia exactamente ao perfil que desejava, bastava-lhe fantasiar com o actor Robert Taylor e a “química” ficava garantida.
Termino esta homenagem simples a esta grande cantora com um pequeno vídeo que preparei com uma ária famosa da Ópera Gianni Schicchi, que foi exactamente a primeira Ópera em que participou.
Espero que gostem tanto quanto eu!
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terça-feira, maio 18, 2010
Heranças
Em Setembro de 2008 coloquei aqui um post sobre Piaf, tendo dito então que haveria ainda mais para dizer, quer sobre dela, quer também por causa dela.
Nessa altura, num dos comentários que me fizeram, o da sempre simpática Verdinha do “je vois la vie en vert”, fui alertado para um dueto, gravado no programa de televisão francês “DUETOS IMPOSSÍVEIS” onde se conjugavam as vozes de Piaf, com a da jovem, mas já consagrada Isabelle Boulay, em “Non Je Ne Regrette Rien”
Esta observação veio exactamente de encontro ao ângulo de abordagem, que desde essa altura tinha pensado para a minha segunda incursão sobre o tema Edith Piaf.
É que na verdade Edith Piaf elevou-se a um estatuto tal que, aquando do seu desaparecimento, ficou um vazio que todos lamentaram e que muitos tentaram (em vão) preencher.
Quem pegaria então na herança artística de Edith Piaf?
Bom, mas ao falarmos da "herança" de Piaf, é inevitável falar de um dos aspectos mais polémicos do final da sua vida, o do eventual apetite pela sua outra herança, a material.
Piaf, na juventude, tivera uma filha, Marcelle, que faleceu com meningite aos dois anos de idade. Isto significaria portanto que o seu segundo marido, aparecido numa altura em que já era óbvia a doença fatal de Piaf, se tornaria o herdeiro legítimo de todos seus bens.
Falo de Theo Sarapo, cujo verdadeiro nome era Theophanis Lamboukas

Theophanis Lamboukas
Um ano antes da sua morte Edith conhecera e casara com Theo, um jovem de origem grega, com menos 20 anos que ela. E o mínimo que se disse na altura é que se tratava de um casal “inesperado”.

Para a maioria do público, este casamento era visto sobretudo como um “golpe do baú” dado por um jovem a uma senhora famosa, com idade para ser sua mãe. Uma mulher doente e carente a quem a vida e a saúde tinham envelhecido acentuadamente.
Para os amigos da cantora a coisa ainda parecia mais séria, pois estavam perfeitamente convencidos que aquele casamento não tinha qualquer sentido.
E isto porque Theophanis Lamboukas, que era um talentoso cabeleireiro parisiense, era não só muito mais jovem que ela, mas também por ser conhecida a sua homossexualidade.
É que, apesar de ser um homem discreto quanto à sua vida intima, Lamboukas tivera, durante algum tempo, um envolvimento intimo com o secretário da própria Edith Piaf, Claude Figus, que era claramente um homossexual assumido. E isso era sabido pela própria Piaf e por todo o seu círculo de amigos!

Piaf entre Theo e Claude Figus
Este casamento surpreendente, realizado de acordo com o rito ortodoxo grego, atraiu todas as atenções e todas as dúvidas, até mesmo as da própria Edith que, segundo confidenciou mais tarde a sua amiga e colaboradora Danielle Bonel, na própria manhã do casamento se questionava sobre se deveria levar o casamento adiante, já que temia que todos se fossem rir dela, achá-la uma velha patética, ao casar com um rapaz, tão jovem e tão inesperadamente diferente!
Piaf com Danielle Bonel, sua governanta e amiga por mais de 20 anos
Bonel ter-lhe-á dito que deveria seguir o seu coração e para não se importar com o que os outros pensassem dela. Isso bastou-lhe!
O casamento realizou-se no meio de uma imensa curiosidade pública e, pouco depois, todos os que a rodeavam viriam a perceber que aquele casamento foi o melhor que poderia ter acontecido a Piaf naquela fase da sua vida.
Face às criticas que ouvia sobre o seu estranho casamento, Piaf ía dizendo com humor: “Estão-me sempre a criticar por eu aparecer tantas vezes despenteada, pois bem, caso-me agora com um cabeleireiro e não quero saber de mais nada”
Theophanis Lamboukas, a quem ela passou a chamar de Theo Sarapo (Sarapo em termos fonéticos corresponde à expressão grega “Eu amo-te”), não terá sido o amor romântico da sua vida, mas foi para ela um grande amigo, que a amou verdadeiramente e nele ela sentiu o pai, o irmão e o filho, que gostaria de ter tido!
Theo, foi de facto, tudo o que ela precisava em termos de afecto, carinho e conforto no penoso último ano da sua vida.
Claro que à semelhança do que fez com Ives Montand e Moustaky com quem viveu e com Aznavour que foi seu motorista, ela quis transformar Theo num artista!
Ela reconheceu nele vocação quer para cantor, quer para actor, até porque ele próprio na adolescência tentara iniciar uma carreira de cantor concorrendo a vários concursos musicais da época!
Assim, Piaf fez com que o jovem tivesse aulas de canto e de representação, o que lhe valeu alguns pequenos papéis no cinema.
Para além disso, daí em diante levou-o consigo para cantar em dueto, em quase todos os seus espectáculos em que actuou.
Um dos seus compositores e amigos Michel Emer fez de propósito para esse efeito uma canção que se tornou um enorme sucesso: “A quoi ça sert l’amour.”
Foi um casamento curto, Piaf faleceria em Outubro de 1963, precisamente no dia em que completava um ano de matrimónio com Theo, devido a complicações sérias do seu cancro de fígado!
A herança material que Theo Sarapo recebeu acabou por ser 7 milhões de francos de dívidas!
Dívidas devidas essencialmente a quebras de contrato, que por razões de saúde Edith não pôde cumprir, e derivadas da manutenção de cuidados que nunca deixaram de lhe ser prestados, por uma equipa de colaboradores que nunca quis dispensar.
Sarapo tentou manter a questão da herança de dívidas em segredo, propondo-se pagá-las até ao último cêntimo. Contudo o segredo não se manteve por muito tempo, já que apenas dois meses após a morte de Piaf, mais precisamente na véspera de Natal de 1963, o tribunal mandou despejar Theo Sarapo da casa de ambos.
É apenas nessa altura que a opinião pública começa a olhar para Sarapo de forma diferente, percebendo, através do luto sentido e prolongado que ele manteve e do modo digno como ele lidava com as dificuldades e até com a crueldade que lhe era imposta pela situação, que aquele rapaz não era afinal o oportunista que a imprensa e o público tinham imaginado.
Veio-se a saber depois, que ele próprio tinha uma fortuna pessoal considerável, dado a sua família possuir uma cadeia de salões de beleza, bastante lucrativa e que portanto nunca precisou do dinheiro de Piaf para nada!
Passado algum tempo Theo volta a gravar, com uma voz mais perfeita do que a que apresentara ao lado de Piaf, não tendo contudo conseguido ir mais longe na sua carreira já que, em Agosto de 1970, morre num aparatoso acidente de automóvel, em que é projectado para a berma de uma estrada à saída da pequena cidade de Panazol, onde agoniza, até ser levado ao hospital, sendo aí dado como falecido. Tinha 34 anos!
Theo está sepultado no Pére Lachaise partilhando o mesmo túmulo com Piaf e a sua pequena filha Marcelle!
Obviamente, que se em vida a questão da herança de Piaf foi alvo de muita controvérsia devido ao seu casamento com Theo, depois da sua morte, tornou-se incontornável falar-se da sua herança artística, ou seja, sobre quem poderia dar continuidade à chamada “chanson realiste”!
Com o desaparecimento de Piaf, muitos sentiram a necessidade de preencher esse vazio.
Os meios intelectuais desejavam que surgisse alguém com o mesmo carisma, a mesma expressividade dramática de Piaf.
Surgia então um nome de uma jovem muito talentosa, que tal como Piaf fora amiga de Jean Cocteau (o escritor morreu no mesmo dia em que Piaf faleceu, exactamente ao ter conhecimento da morte da artista).
No entanto, essa jovem conhecida artisticamente por Gribouille (o seu nome verdadeiro era Marie-France Gaîté) , pela sua própria personalidade detestava ser comparada com quem quer fosse e muito menos viver à sombra de um mito da canção francesa. Infelizmente, também não viveu muito! Em 1968, com apenas 26 anos partiu vítima de uma mistura fatal de medicamentos e álcool!
Havia também a opinião dos compositores que haviam escrito para Piaf.
Margueritte Monot havia falecido pouco tempo antes de Piaf e Charles Dumont, que inicialmente não gostava de Piaf, tivera em tempos uma canção guardada na gaveta que, a dada altura, decidiu entregar a uma jovem chamada Rosalie Dubois.
Essa canção chamava-se “Non Je Ne Regrette Rien”. Contudo, Rosalie teve um grave acidente de automóvel, pouco antes de poder gravar a canção, e os amigos de Dumont e Piaf acabaram por convencê-los a encontrar-se e a canção acabou por ser entregue a Piaf, tornando-se Dumont um dos seus autores de referência.
Retirada provisoriamente dos palcos Rosalie haveria de regressar, ter alguns sucessos, mas o certo é que ninguém acabou por ver nela a desejada sucessora de Piaf, nem mesmo o próprio Charles Dumont, que entretanto acabou por fazer outras escolhas.
Mas o que pensava o público, que era afinal quem mais sentia a falta de Piaf!
Estava-se numa época em que os concursos para jovens talentos já eram moda e neles inevitavelmente apareciam sempre candidatas a novas Piaf.
Houve duas que sobressaíram, quer num concurso promovido pela editora Barclay (estranhamente inspirado nas apostas das corridas de cavalos), quer sobretudo num famoso concurso televisivo de 1965, o Tele Dimanche!
Uma, vinda do sul de França, que conhecia o reportório de Piaf de trás para a frente. Tinha uma voz espantosa, mas ficou em segundo lugar no concurso. Chamava-se e chama-se Mireille Mathieu e o agente artístico Johnny Stark , que assistiu a esse concurso, percebeu que ela poderia ser mais do que um remake de Piaf, podia ser ela mesma e ter um grande sucesso!
Fê-la gravar um disco e apesar dos críticos a considerarem uma cantora provinciana, ela conseguiu logo nesse seu primeiro trabalho, vender mais de um milhão de cópias e tornar-se mesmo um sucesso internacional.
A canção principal desse disco chamava-se Mon Credo:
Entretanto, se Mireille ficou em segundo lugar, em primeiro ficou uma outra jovem, também especialista, desde criança, em cantar as canções de Piaf e que nas tardes de domingo deixava impressionados com a sua bela voz os membros da Associação de Amigos de Edith Piaf, entretanto criada para homenagear a sua memória.
Georgette Lemaire, cujo timbre parecia uma reencarnação de Piaf era o nome dessa jovem, para quem Charles Dumont veio depois a compor.
Georgette não viria a ter projecção internacional, mas tinha uma rivalidade imensa com Mireille Mathieu e um enorme sucesso em França que lhe valeria, mais tarde, ser objecto de homenagens e reconhecimentos especiais por parte do Estado Francês, pelas mãos de Jack Lang e de François Miterrand.
Entretanto, no final dos anos 60 aparece uma outra jovem chamada Betty Mars, cujas semelhanças vocais com Piaf eram ainda mais impressionantes.
Em 1972 ela e Georgette apresentaram-se no concurso nacional francês para a escolha da canção para a Eurovisão. Dessa vez foi Georgette que foi preterida em favor de Betty. A canção chamava-se Come Comedie (clicar AQUI para ver o vídeo).
Devido à semelhança extraordinária da sua voz com a de Edith Piaf, Betty Mars é escolhida como a voz da jovem Piaf, para interpretar as canções nunca gravadas pela “Môme” no filme “Piaf” de Guy Cazaril (1974), dobrando a voz da actriz Brigitte Ariel.
Betty Mars tinha aspirações legitimas, já que tinha uma voz excelente e era uma mulher lindíssima! Acabou por nunca ser aceite como ela própria, aparecendo aos olhos do público e da crítica como uma Piaf fora de tempo.
Enquanto foi novidade encheu salas em França e mesmo em Las Vegas, depois acabou por lhe restar cantar em pequenos bares. O facto de ter uma voz idêntica à de Piaf, acabou por ser a origem do seu sucesso e do seu declínio. Tendo entrado em depressão, acabou, com pouco mais de 40 anos por saltar do janela do seu apartamento para a morte.
Para além de todas as gravações que editou, que infelizmente não foram muitas, encontra-se no youtube, o som inédito de uma actuação ao vivo desta cantora, que me parece ser ilustrativa das suas qualidades e das suas parecenças com Piaf.
Mas, para além das possíveis sucessoras, afinal nunca encontradas, a vida e a carreira de Piaf deram origem a profissionais que se dedicam quase exclusivamente a explorar o seu repertório. Como é o caso da francesa Raquel Bitton e da canadiana Claudette Dion (a irmã mais velha de Céline), ambas fazendo sucesso no outro lado do Atlântico, apesar de possuirem um talento pouco mais do que mediano.
Em toda a parte do mundo há sempre alguém que canta o repertório de Piaf. Desde as mais prestigiadas artistas a perfeitas desconhecidas.
Piaf deu origem também a vários filmes e a espectáculos magníficos, sendo para mim o melhor de todos o criado pela extraordinária Bibi Ferreira, que não procura em nenhum momento ser uma imitadora ou uma herdeira de Piaf.
Bibi, aliás, é tão magnifica como Piaf… Basta conhecê-la… E, se após este post imenso, ainda restar alguém com vontade de passar por aqui, um dia destes Bibi será a figura a tratar por este espaço! É inevitável!
Entretanto, em Portugal também há e houve lugar para se tentar ser Piaf.
Perdoe-me a excelente Wanda Stuart que agora vai desempenhando esse papel, mas eu não gostaria de deixar de referir que a RTP ganhou um prémio internacional em 1993/1994 no Festival de Montreux, com um concerto de uma cantora portuguesa chamada Ariane, totalmente dedicado a Piaf.
Trata-se de uma cantora com mais de 30 anos de carreira e a quem não foram dadas todas as oportunidades que merecia.
Recentemente gravou um CD intitulado Libertad, onde apresenta dois temas de Piaf. Apesar de em vários momentos o sotaque a trair um pouco, tem uma voz que merece atenção:
FINALMENTE, julgo que faz sentido perguntar o pensaria Edith Piaf de tudo isto?
Ela também tinha as suas preferências musicais e talvez seja nessas preferências que se encontra a resposta óbvia para saber quem lhe sucedeu como simbolo da música francesa!
Sucedeu, não no lugar que Piaf deixou vazio para sempre, mas no prestigio e na qualidade que asseguraram a continuidade do interesse da canção francesa através do mundo!
Conta a sua amiga Danielle Bonel, que a acompanhou nas últimas semanas de vida, no seu retiro da Riviera, que Piaf já bastante doente, ouvia repetidamente os mesmos discos, todos eles do mesmo artista! Tinha-os todos, aliás! Emocionava-se a ouvi-lo e simultaneamente sentia-se mais confortada!
É com uma canção desse artista, que penso ter elevado a canção francesa ao mesmo patamar em que Piaf a deixou, que hoje termino! Chamava-se ele Jacques Romain Georges Brel!
Nessa altura, num dos comentários que me fizeram, o da sempre simpática Verdinha do “je vois la vie en vert”, fui alertado para um dueto, gravado no programa de televisão francês “DUETOS IMPOSSÍVEIS” onde se conjugavam as vozes de Piaf, com a da jovem, mas já consagrada Isabelle Boulay, em “Non Je Ne Regrette Rien”
Esta observação veio exactamente de encontro ao ângulo de abordagem, que desde essa altura tinha pensado para a minha segunda incursão sobre o tema Edith Piaf.
É que na verdade Edith Piaf elevou-se a um estatuto tal que, aquando do seu desaparecimento, ficou um vazio que todos lamentaram e que muitos tentaram (em vão) preencher.
Quem pegaria então na herança artística de Edith Piaf?
Bom, mas ao falarmos da "herança" de Piaf, é inevitável falar de um dos aspectos mais polémicos do final da sua vida, o do eventual apetite pela sua outra herança, a material.
Piaf, na juventude, tivera uma filha, Marcelle, que faleceu com meningite aos dois anos de idade. Isto significaria portanto que o seu segundo marido, aparecido numa altura em que já era óbvia a doença fatal de Piaf, se tornaria o herdeiro legítimo de todos seus bens.
Falo de Theo Sarapo, cujo verdadeiro nome era Theophanis Lamboukas

Theophanis Lamboukas
Um ano antes da sua morte Edith conhecera e casara com Theo, um jovem de origem grega, com menos 20 anos que ela. E o mínimo que se disse na altura é que se tratava de um casal “inesperado”.

Para a maioria do público, este casamento era visto sobretudo como um “golpe do baú” dado por um jovem a uma senhora famosa, com idade para ser sua mãe. Uma mulher doente e carente a quem a vida e a saúde tinham envelhecido acentuadamente.
Para os amigos da cantora a coisa ainda parecia mais séria, pois estavam perfeitamente convencidos que aquele casamento não tinha qualquer sentido.
E isto porque Theophanis Lamboukas, que era um talentoso cabeleireiro parisiense, era não só muito mais jovem que ela, mas também por ser conhecida a sua homossexualidade.
É que, apesar de ser um homem discreto quanto à sua vida intima, Lamboukas tivera, durante algum tempo, um envolvimento intimo com o secretário da própria Edith Piaf, Claude Figus, que era claramente um homossexual assumido. E isso era sabido pela própria Piaf e por todo o seu círculo de amigos!

Piaf entre Theo e Claude Figus
Este casamento surpreendente, realizado de acordo com o rito ortodoxo grego, atraiu todas as atenções e todas as dúvidas, até mesmo as da própria Edith que, segundo confidenciou mais tarde a sua amiga e colaboradora Danielle Bonel, na própria manhã do casamento se questionava sobre se deveria levar o casamento adiante, já que temia que todos se fossem rir dela, achá-la uma velha patética, ao casar com um rapaz, tão jovem e tão inesperadamente diferente!
Piaf com Danielle Bonel, sua governanta e amiga por mais de 20 anosBonel ter-lhe-á dito que deveria seguir o seu coração e para não se importar com o que os outros pensassem dela. Isso bastou-lhe!
O casamento realizou-se no meio de uma imensa curiosidade pública e, pouco depois, todos os que a rodeavam viriam a perceber que aquele casamento foi o melhor que poderia ter acontecido a Piaf naquela fase da sua vida.
Face às criticas que ouvia sobre o seu estranho casamento, Piaf ía dizendo com humor: “Estão-me sempre a criticar por eu aparecer tantas vezes despenteada, pois bem, caso-me agora com um cabeleireiro e não quero saber de mais nada”
Theophanis Lamboukas, a quem ela passou a chamar de Theo Sarapo (Sarapo em termos fonéticos corresponde à expressão grega “Eu amo-te”), não terá sido o amor romântico da sua vida, mas foi para ela um grande amigo, que a amou verdadeiramente e nele ela sentiu o pai, o irmão e o filho, que gostaria de ter tido!
Theo, foi de facto, tudo o que ela precisava em termos de afecto, carinho e conforto no penoso último ano da sua vida.
Claro que à semelhança do que fez com Ives Montand e Moustaky com quem viveu e com Aznavour que foi seu motorista, ela quis transformar Theo num artista!
Ela reconheceu nele vocação quer para cantor, quer para actor, até porque ele próprio na adolescência tentara iniciar uma carreira de cantor concorrendo a vários concursos musicais da época!
Assim, Piaf fez com que o jovem tivesse aulas de canto e de representação, o que lhe valeu alguns pequenos papéis no cinema.
Para além disso, daí em diante levou-o consigo para cantar em dueto, em quase todos os seus espectáculos em que actuou.
Um dos seus compositores e amigos Michel Emer fez de propósito para esse efeito uma canção que se tornou um enorme sucesso: “A quoi ça sert l’amour.”
Foi um casamento curto, Piaf faleceria em Outubro de 1963, precisamente no dia em que completava um ano de matrimónio com Theo, devido a complicações sérias do seu cancro de fígado!
A herança material que Theo Sarapo recebeu acabou por ser 7 milhões de francos de dívidas!
Dívidas devidas essencialmente a quebras de contrato, que por razões de saúde Edith não pôde cumprir, e derivadas da manutenção de cuidados que nunca deixaram de lhe ser prestados, por uma equipa de colaboradores que nunca quis dispensar.
Sarapo tentou manter a questão da herança de dívidas em segredo, propondo-se pagá-las até ao último cêntimo. Contudo o segredo não se manteve por muito tempo, já que apenas dois meses após a morte de Piaf, mais precisamente na véspera de Natal de 1963, o tribunal mandou despejar Theo Sarapo da casa de ambos.
É apenas nessa altura que a opinião pública começa a olhar para Sarapo de forma diferente, percebendo, através do luto sentido e prolongado que ele manteve e do modo digno como ele lidava com as dificuldades e até com a crueldade que lhe era imposta pela situação, que aquele rapaz não era afinal o oportunista que a imprensa e o público tinham imaginado.
Veio-se a saber depois, que ele próprio tinha uma fortuna pessoal considerável, dado a sua família possuir uma cadeia de salões de beleza, bastante lucrativa e que portanto nunca precisou do dinheiro de Piaf para nada!
Passado algum tempo Theo volta a gravar, com uma voz mais perfeita do que a que apresentara ao lado de Piaf, não tendo contudo conseguido ir mais longe na sua carreira já que, em Agosto de 1970, morre num aparatoso acidente de automóvel, em que é projectado para a berma de uma estrada à saída da pequena cidade de Panazol, onde agoniza, até ser levado ao hospital, sendo aí dado como falecido. Tinha 34 anos!
Theo está sepultado no Pére Lachaise partilhando o mesmo túmulo com Piaf e a sua pequena filha Marcelle!
Obviamente, que se em vida a questão da herança de Piaf foi alvo de muita controvérsia devido ao seu casamento com Theo, depois da sua morte, tornou-se incontornável falar-se da sua herança artística, ou seja, sobre quem poderia dar continuidade à chamada “chanson realiste”!
Com o desaparecimento de Piaf, muitos sentiram a necessidade de preencher esse vazio.
Os meios intelectuais desejavam que surgisse alguém com o mesmo carisma, a mesma expressividade dramática de Piaf.
Surgia então um nome de uma jovem muito talentosa, que tal como Piaf fora amiga de Jean Cocteau (o escritor morreu no mesmo dia em que Piaf faleceu, exactamente ao ter conhecimento da morte da artista).
No entanto, essa jovem conhecida artisticamente por Gribouille (o seu nome verdadeiro era Marie-France Gaîté) , pela sua própria personalidade detestava ser comparada com quem quer fosse e muito menos viver à sombra de um mito da canção francesa. Infelizmente, também não viveu muito! Em 1968, com apenas 26 anos partiu vítima de uma mistura fatal de medicamentos e álcool!
Havia também a opinião dos compositores que haviam escrito para Piaf.
Margueritte Monot havia falecido pouco tempo antes de Piaf e Charles Dumont, que inicialmente não gostava de Piaf, tivera em tempos uma canção guardada na gaveta que, a dada altura, decidiu entregar a uma jovem chamada Rosalie Dubois.
Essa canção chamava-se “Non Je Ne Regrette Rien”. Contudo, Rosalie teve um grave acidente de automóvel, pouco antes de poder gravar a canção, e os amigos de Dumont e Piaf acabaram por convencê-los a encontrar-se e a canção acabou por ser entregue a Piaf, tornando-se Dumont um dos seus autores de referência.
Retirada provisoriamente dos palcos Rosalie haveria de regressar, ter alguns sucessos, mas o certo é que ninguém acabou por ver nela a desejada sucessora de Piaf, nem mesmo o próprio Charles Dumont, que entretanto acabou por fazer outras escolhas.
Mas o que pensava o público, que era afinal quem mais sentia a falta de Piaf!
Estava-se numa época em que os concursos para jovens talentos já eram moda e neles inevitavelmente apareciam sempre candidatas a novas Piaf.
Houve duas que sobressaíram, quer num concurso promovido pela editora Barclay (estranhamente inspirado nas apostas das corridas de cavalos), quer sobretudo num famoso concurso televisivo de 1965, o Tele Dimanche!
Uma, vinda do sul de França, que conhecia o reportório de Piaf de trás para a frente. Tinha uma voz espantosa, mas ficou em segundo lugar no concurso. Chamava-se e chama-se Mireille Mathieu e o agente artístico Johnny Stark , que assistiu a esse concurso, percebeu que ela poderia ser mais do que um remake de Piaf, podia ser ela mesma e ter um grande sucesso!
Fê-la gravar um disco e apesar dos críticos a considerarem uma cantora provinciana, ela conseguiu logo nesse seu primeiro trabalho, vender mais de um milhão de cópias e tornar-se mesmo um sucesso internacional.
A canção principal desse disco chamava-se Mon Credo:
Entretanto, se Mireille ficou em segundo lugar, em primeiro ficou uma outra jovem, também especialista, desde criança, em cantar as canções de Piaf e que nas tardes de domingo deixava impressionados com a sua bela voz os membros da Associação de Amigos de Edith Piaf, entretanto criada para homenagear a sua memória.
Georgette Lemaire, cujo timbre parecia uma reencarnação de Piaf era o nome dessa jovem, para quem Charles Dumont veio depois a compor.
Georgette não viria a ter projecção internacional, mas tinha uma rivalidade imensa com Mireille Mathieu e um enorme sucesso em França que lhe valeria, mais tarde, ser objecto de homenagens e reconhecimentos especiais por parte do Estado Francês, pelas mãos de Jack Lang e de François Miterrand.
Entretanto, no final dos anos 60 aparece uma outra jovem chamada Betty Mars, cujas semelhanças vocais com Piaf eram ainda mais impressionantes.
Em 1972 ela e Georgette apresentaram-se no concurso nacional francês para a escolha da canção para a Eurovisão. Dessa vez foi Georgette que foi preterida em favor de Betty. A canção chamava-se Come Comedie (clicar AQUI para ver o vídeo).
Devido à semelhança extraordinária da sua voz com a de Edith Piaf, Betty Mars é escolhida como a voz da jovem Piaf, para interpretar as canções nunca gravadas pela “Môme” no filme “Piaf” de Guy Cazaril (1974), dobrando a voz da actriz Brigitte Ariel.
Betty Mars tinha aspirações legitimas, já que tinha uma voz excelente e era uma mulher lindíssima! Acabou por nunca ser aceite como ela própria, aparecendo aos olhos do público e da crítica como uma Piaf fora de tempo.
Enquanto foi novidade encheu salas em França e mesmo em Las Vegas, depois acabou por lhe restar cantar em pequenos bares. O facto de ter uma voz idêntica à de Piaf, acabou por ser a origem do seu sucesso e do seu declínio. Tendo entrado em depressão, acabou, com pouco mais de 40 anos por saltar do janela do seu apartamento para a morte.
Para além de todas as gravações que editou, que infelizmente não foram muitas, encontra-se no youtube, o som inédito de uma actuação ao vivo desta cantora, que me parece ser ilustrativa das suas qualidades e das suas parecenças com Piaf.
Mas, para além das possíveis sucessoras, afinal nunca encontradas, a vida e a carreira de Piaf deram origem a profissionais que se dedicam quase exclusivamente a explorar o seu repertório. Como é o caso da francesa Raquel Bitton e da canadiana Claudette Dion (a irmã mais velha de Céline), ambas fazendo sucesso no outro lado do Atlântico, apesar de possuirem um talento pouco mais do que mediano.
Em toda a parte do mundo há sempre alguém que canta o repertório de Piaf. Desde as mais prestigiadas artistas a perfeitas desconhecidas.
Piaf deu origem também a vários filmes e a espectáculos magníficos, sendo para mim o melhor de todos o criado pela extraordinária Bibi Ferreira, que não procura em nenhum momento ser uma imitadora ou uma herdeira de Piaf.
Bibi, aliás, é tão magnifica como Piaf… Basta conhecê-la… E, se após este post imenso, ainda restar alguém com vontade de passar por aqui, um dia destes Bibi será a figura a tratar por este espaço! É inevitável!
Entretanto, em Portugal também há e houve lugar para se tentar ser Piaf.
Perdoe-me a excelente Wanda Stuart que agora vai desempenhando esse papel, mas eu não gostaria de deixar de referir que a RTP ganhou um prémio internacional em 1993/1994 no Festival de Montreux, com um concerto de uma cantora portuguesa chamada Ariane, totalmente dedicado a Piaf.
Trata-se de uma cantora com mais de 30 anos de carreira e a quem não foram dadas todas as oportunidades que merecia.
Recentemente gravou um CD intitulado Libertad, onde apresenta dois temas de Piaf. Apesar de em vários momentos o sotaque a trair um pouco, tem uma voz que merece atenção:
FINALMENTE, julgo que faz sentido perguntar o pensaria Edith Piaf de tudo isto?
Ela também tinha as suas preferências musicais e talvez seja nessas preferências que se encontra a resposta óbvia para saber quem lhe sucedeu como simbolo da música francesa!
Sucedeu, não no lugar que Piaf deixou vazio para sempre, mas no prestigio e na qualidade que asseguraram a continuidade do interesse da canção francesa através do mundo!
Conta a sua amiga Danielle Bonel, que a acompanhou nas últimas semanas de vida, no seu retiro da Riviera, que Piaf já bastante doente, ouvia repetidamente os mesmos discos, todos eles do mesmo artista! Tinha-os todos, aliás! Emocionava-se a ouvi-lo e simultaneamente sentia-se mais confortada!
É com uma canção desse artista, que penso ter elevado a canção francesa ao mesmo patamar em que Piaf a deixou, que hoje termino! Chamava-se ele Jacques Romain Georges Brel!
domingo, março 14, 2010
Jean Ferrat

Morreu ontem um dos meus cantores favoritos! Tinha quase oitenta anos!
Foi um cantor políticamente empenhado, mas também um autor/compositor de belíssimas e inesquecíveis canções de amor, como esta com um poema de Louis Aragon !
O seu empenhamento político ligado ao ideário comunista foi sempre lúcido embora se perceba a sua origem por razões de pura afectividade.
Vivendo a sua família perto de Versalhes, o seu pai, de origem judia, foi deportado pelos ocupantes alemães para Auchwitz, e Jean que conseguiu escapar devido à ajuda da resistência comunista, ficou escondido e à sua guarda desde os 11 anos até ao final da Guerra!
O seu apoio ao Partido Comunista Francês, do qual nunca foi militante, era empenhado mas liberto de amarras, sendo muitas vezes crítico quer daquela organização política francesa, quer das acções sovieticas.
Outra das suas mais belas canções "Camarade" constitui uma crítica notória à invasão da República Checoslovaca em 1968, pelas tropas do Pacto de Varsóvia.
Após uma longa doença oncológica, Jean Ferrat descansa agora em Paz!
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quarta-feira, janeiro 13, 2010
Do esquecimento à popularidade
A história da sofredora Griselda incluída por Bocaccio no seu Decameron deu origem a duas Óperas no século XVIII, primeiramente de Scarlatti e depois de Vivaldi.
Vivaldi, que era um sacerdote era também compositor e foi exactamente através de Griselda para ganhou finalmente a respeitabilidade de que merecia junto das elites suas contemporâneas.

Eventualmente esse estatuto demorou pois ele terá começado por escrever peças infantis e, segundo os seus críticos, músicas demasiado populares.
De facto foi um criador musical extremamente prolífico, não constituindo a sua actividade sarcedotal qualquer óbice, já que conseguira dispensa de celebrar missa devido à sua aparente fragilidade física, derivada da asma.
Fragilidade essa que entretanto não o impediu de ter inúmeras amantes, uma das quais Anna Giro, um mezzo-soprano, para quem escreveu exactamente o papel de Griselda, e que era jocosamente conhecida pela l’Annina del Prete rosso (Vivaldi era ruivo).

Após a sua morte, na miséria, como aconteceu com muitos dos génios da música, aos 62 anos, foram precisos quase 150 anos para que, já no século XX, a sua obra viesse a ser de novo tocada e o seu talento devidamente reconhecido, quer como criador de música, quer devido ao seu papel para a definição da estrutura de concertos e sinfonias.
Se as suas Quatro Estações se tornaram há muitos anos um dos clássicos da música erudita, só mais recentemente a sua Griselda se tornou popular, particularmente devido a uma das suas árias: "Agitata da due venti"

Embora esta ária tenha vido a ser cantada por inúmeras cantoras, quer mezzos, quer sopranos, ao longo das últimas décadas, só após a mezzo-soprano Cecília Bartoli a ter incluído nos seus recitais é que ela se tornou verdadeiramente uma ária popular.
Mais uma vez um intérprete pode fazer toda a diferença. E neste caso fez decisivamente!
Claro que há quem critique bastante Bartoli, quer pela sua postura em palco que dizem ser mais própria de uma cantora rock do que de uma cantora lírica, quer pelo facto de ter dado uma visão demasiado pessoal a esta peça, tornando-a eventualmente demasiado “agitata”!
Vejamos então o que fez em 1986 grande Monserrat Caballé com esta ária, que é por si só um assombroso exercício de virtuosismo de coloratura , plena de “legatos” e “stacatos” dificilímos! Seguidamente, veremos Bartoli!
Eis então a versão da soprano Monserrat:
E agora a da mezzo Bartoli, quase 30 anos depois:
Vivaldi, que era um sacerdote era também compositor e foi exactamente através de Griselda para ganhou finalmente a respeitabilidade de que merecia junto das elites suas contemporâneas.

Eventualmente esse estatuto demorou pois ele terá começado por escrever peças infantis e, segundo os seus críticos, músicas demasiado populares.
De facto foi um criador musical extremamente prolífico, não constituindo a sua actividade sarcedotal qualquer óbice, já que conseguira dispensa de celebrar missa devido à sua aparente fragilidade física, derivada da asma.
Fragilidade essa que entretanto não o impediu de ter inúmeras amantes, uma das quais Anna Giro, um mezzo-soprano, para quem escreveu exactamente o papel de Griselda, e que era jocosamente conhecida pela l’Annina del Prete rosso (Vivaldi era ruivo).

Após a sua morte, na miséria, como aconteceu com muitos dos génios da música, aos 62 anos, foram precisos quase 150 anos para que, já no século XX, a sua obra viesse a ser de novo tocada e o seu talento devidamente reconhecido, quer como criador de música, quer devido ao seu papel para a definição da estrutura de concertos e sinfonias.
Se as suas Quatro Estações se tornaram há muitos anos um dos clássicos da música erudita, só mais recentemente a sua Griselda se tornou popular, particularmente devido a uma das suas árias: "Agitata da due venti"

Embora esta ária tenha vido a ser cantada por inúmeras cantoras, quer mezzos, quer sopranos, ao longo das últimas décadas, só após a mezzo-soprano Cecília Bartoli a ter incluído nos seus recitais é que ela se tornou verdadeiramente uma ária popular.
Mais uma vez um intérprete pode fazer toda a diferença. E neste caso fez decisivamente!
Claro que há quem critique bastante Bartoli, quer pela sua postura em palco que dizem ser mais própria de uma cantora rock do que de uma cantora lírica, quer pelo facto de ter dado uma visão demasiado pessoal a esta peça, tornando-a eventualmente demasiado “agitata”!
Vejamos então o que fez em 1986 grande Monserrat Caballé com esta ária, que é por si só um assombroso exercício de virtuosismo de coloratura , plena de “legatos” e “stacatos” dificilímos! Seguidamente, veremos Bartoli!
Eis então a versão da soprano Monserrat:
E agora a da mezzo Bartoli, quase 30 anos depois:
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segunda-feira, janeiro 04, 2010
O melhor de França através do Brasil
Hoje ao mostrar duas versões da mesma canção venho também trazer dois nomes de cantores/compositores que já nos deixaram, mas cuja obra perdura através dos tempos.
Marcel Mouloudji, nascido em Paris em 1922, tinha ascendência argelina e foi um homem multifacetado. Cantor, escritor e actor, foi combatente da resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial e um militante activo da esquerda francesa, quer apoiando as lutas laborais no seu país, quer envolvendo-se nas principais causas internacionais pela liberdade e pela democracia, como foi o caso da luta contra a ditadura chilena.
Contudo alguns dos seus actos valeram-lhe a hostilidade de boa parte do público e das autoridades francesas, sendo ostracizado e as suas canções censuradas por mais de uma década, quando no próprio dia em que as tropas francesas foram derrotadas em Dien Bien Phu ele interpretou num espectáculo público a canção anti-militarista de Boris Vian “Le Deserteur”.
Passado o Maio de 68 e tendo fundando a sua própria editora retomou na plenitude a sua actividade de cantor, sendo hoje considerado, muito justamente, como um dos nomes mais prestigiados da música francesa.
Mouloudji faleceu aos 70 anos em 1992 e é dele uma das canções de que eu mais gosto: “Un jour tu verras”, canção que ele criou em 1954.
Mouloudji - un jour tu verras
Enviado por Salut-les-copains. - Ver os últimos vídeos de musica em destaque
Ao mesmo tempo que Mouloudji nos dava esta bela canção, do outro lado do Atlântico aquando de uma reunião social em casa da familia Matarazzo em São Paulo, um produtor musical, Roberto Corte Real, ao ouvir cantar a jovem Maysa ficou não só impressionado com a extraordinária qualidade da sua voz, mas também com o bom gosto das escolhas musicais que ela fazia, que iam muito para além da música brasileira e passavam pelo jazz, pela música hispânica e pela canção francesa.
Tendo-a convidado para gravar um disco, Maysa estreou-se apenas com músicas cantadas em português. No entanto num disco posterior, gravado em 1957, incluiu já canções em inglês e francês, sendo exactamente “Un jour tu verras” uma das músicas por ela escolhida.
Existem versões desta canção por vários cantores, de Juliette Greco a Dianne Reeves, de Nana Mouskouri a Michel Delpech, contudo ao ouvir Maysa a sensação com que eu fico é a de que Mouloudji encontrou nela a voz ideal, a voz que dá a versão “definitiva” desta canção (com o senão de duas ou três pequenas falhas na dicção da vogal “e”, sem o que eu juraria estar perante uma cantora de língua materna francesa).
Espero que gostem tanto desta bela canção como eu, que a considero uma das minhas “músicas de cabeceira”, numa das mais belas vozes de sempre, que infelizmente nos deixou cedo demais, em 1977, mas que para mim permanece, através do seu vasto e excelente repertório, bem viva.
Marcel Mouloudji, nascido em Paris em 1922, tinha ascendência argelina e foi um homem multifacetado. Cantor, escritor e actor, foi combatente da resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial e um militante activo da esquerda francesa, quer apoiando as lutas laborais no seu país, quer envolvendo-se nas principais causas internacionais pela liberdade e pela democracia, como foi o caso da luta contra a ditadura chilena.
Contudo alguns dos seus actos valeram-lhe a hostilidade de boa parte do público e das autoridades francesas, sendo ostracizado e as suas canções censuradas por mais de uma década, quando no próprio dia em que as tropas francesas foram derrotadas em Dien Bien Phu ele interpretou num espectáculo público a canção anti-militarista de Boris Vian “Le Deserteur”.
Passado o Maio de 68 e tendo fundando a sua própria editora retomou na plenitude a sua actividade de cantor, sendo hoje considerado, muito justamente, como um dos nomes mais prestigiados da música francesa.
Mouloudji faleceu aos 70 anos em 1992 e é dele uma das canções de que eu mais gosto: “Un jour tu verras”, canção que ele criou em 1954.
Mouloudji - un jour tu verras
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Ao mesmo tempo que Mouloudji nos dava esta bela canção, do outro lado do Atlântico aquando de uma reunião social em casa da familia Matarazzo em São Paulo, um produtor musical, Roberto Corte Real, ao ouvir cantar a jovem Maysa ficou não só impressionado com a extraordinária qualidade da sua voz, mas também com o bom gosto das escolhas musicais que ela fazia, que iam muito para além da música brasileira e passavam pelo jazz, pela música hispânica e pela canção francesa.
Tendo-a convidado para gravar um disco, Maysa estreou-se apenas com músicas cantadas em português. No entanto num disco posterior, gravado em 1957, incluiu já canções em inglês e francês, sendo exactamente “Un jour tu verras” uma das músicas por ela escolhida.
Existem versões desta canção por vários cantores, de Juliette Greco a Dianne Reeves, de Nana Mouskouri a Michel Delpech, contudo ao ouvir Maysa a sensação com que eu fico é a de que Mouloudji encontrou nela a voz ideal, a voz que dá a versão “definitiva” desta canção (com o senão de duas ou três pequenas falhas na dicção da vogal “e”, sem o que eu juraria estar perante uma cantora de língua materna francesa).
Espero que gostem tanto desta bela canção como eu, que a considero uma das minhas “músicas de cabeceira”, numa das mais belas vozes de sempre, que infelizmente nos deixou cedo demais, em 1977, mas que para mim permanece, através do seu vasto e excelente repertório, bem viva.
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sexta-feira, dezembro 18, 2009
Standards - Modos de interpretar
Felizmente que houve a inteligência de se registar em vídeo e passar na televisão as master classes de Elisabeth Schwarzkopf onde, para além das técnicas de abordagem vocal a obras específicas, ela era muito exigente quanto à necessidade de uma boa dicção e de uma correcta interpretação do sentido das palavras.
Tive a oportunidade de ver a transmissão de todos esses vídeos há longos anos na RTP e era muito interessante ver o que cantores profissionais, já experimentados, suportavam para poder aproveitar os ensinamentos da mestra.
Ensinamentos que, se pensarmos bem, tanto servem para o canto lírico, como para o canto ligeiro, já que quem se presta a pisar um palco para cantar palavras tem que as pronunciar correctamente e lhes dar o devido sentido.
Curiosamente Marco Paulo, ao ser um dia entrevistado sobre o seu insucesso nos festivais RTP da canção, queixava-se de si mesmo, reconhecendo que uns versos em que dizia “Sou tão feliz” nunca poderiam ser cantados da forma dramática como ele o fez…
Neste caso convenhamos que a culpa nem era só dele, quer a música, quer a orquestração empurraram-no para esse erro, que ele na altura não percebeu existir.
Se em vez de “Sou tão feliz”, cantasse “Estou bem lixado” (desculpem a vulgaridade) acabaria por resultar bem melhor com aquela música e com aquele arranjo orquestral!
Infelizmente apesar de termos muitos cantores, não temos muitos intérpretes, e o canto precisa de ser feito com a inteligência de quem sabe o que diz, dizendo algo com interesse e com sentido!
Bom, mas hoje não vou falar de portugueses, vou falar de Barbra Streisand cuja preocupação pelo sentido dos textos ficou patente, logo desde o início da sua carreira.
Barbra começou muito jovem e com o pé esquerdo! Levada pela mãe a uma editora discográfica, aconselharam-na a dedicar-se a outra profissão pois, segundo eles, a jovem Barbra não tinha qualquer jeito para cantar.
No entanto este mau começo não a fez desistir do seu sonho e, ainda adolescente, concorreu a um concurso de canto para jovens amadores e tendo ficado em primeiro lugar, começou então a sua carreira com um contrato para actuações num bar gay de Manhattan.
Aí, a notícia da qualidade das suas interpretações depressa se espalhou tendo passado rapidamente para artista residente de um night-club famoso na época, o Bon Soir, onde a novata Streisand se arriscava em versões muito pessoais dos standards da música americana.
Apresento dois deles, nas suas versões originais e, depois, nas versões de Streisand.
Começo por “Cry me a river”, canção que foi escrita para Ella Fitzgerald, mas que acabou por ser criada por Julie London, que lhe deu aquela que é considerada por muitos como a primeira e definitiva versão deste tema!
Quem reparar bem na letra verificará que ela retrata uma zanga amorosa feita em discurso directo!
Now you say you're lonely
You cried the long night through
Well, you can cry me a river
Cry me a river
I cried a river over you
Now you say you're sorry
For being so untrue
Well, you can cry me a river
Cry me a river
I cried a river over you
You drove me,
Nearly drove me out of my head
While you never she'd a tear
Remember?
I remember all that you said
Told me love was too plebeian
Told me you were through with me
Now you say you love me
Well, just to prove you do
Cry me a river
Cry me a river
I cried a river over you
Bom, temos aqui portanto uma mulher que se viu desprezada e até humilhada pelo namorado, uma mulher que sofreu muito por ele e que agora o vê voltar “esquecido” de tudo o que ele lhe dissera e fizera…
Face a este contexto, Barbra não adoptou a forma doce e suave de abordar a canção, que tornou famosa Julie London, cantou-a de um jeito sarcástico e até agressivo, a que quase só faltava a mão na anca e um tamanco a voar!
Consoante as audiências a sua interpretação era mais ou menos teatral! Para aqui escolhi a versão em que a actriz Barbra se revela completamente através da cantora Barbra. Trata-se de uma gravação ao vivo durante o concerto que deu no Central Park em 1967!
Ao contrário da versão de Julie London, esta não é decerto uma versão que se oiça calma e descontraidamente, como pano de fundo de uma conversa de amigos, em nossa casa! É preciso parar para a ouvir…
O mesmo acontece com a canção seguinte!
Ambas constantes do seu espectáculo no Bon Soir, foram gravadas no seu primeiro disco, que inicialmente teve uma edição modesta de apenas 500 exemplares, mas que depois teve que ser produzido em doses maciças tendo ido directamente para o primeiro lugar da lista de vendas, onde se manteve várias semanas!
É que na verdade, à semelhança do que acontecia com os clientes do Bon Soir, o disco surpreendia pela qualidade da interprete e muito particularmente pela sua versão de Happy Days Are Here Again, canção de 1929, que serviu para animar tropas, celebrar vitórias, de hino eleitoral de Roosevelt e depois do Partido Democrático.
So long sad times!,
Go 'long bad times!,
We are rid of you at last
Howdy, gay times!
Cloudy gray times,
You are now a thing
Of the past, cause:
Happy days are here again
The skies above are clear again
Let us sing a song of cheer again
Happy days are here again
Altogether shout it now!
There's no one who can doubt it now
So let's tell the world about it now
Happy days are here again
Your cares and troubles are gone;
There'll be no more from now on
Happy days are here again
The skies above are clear again
Let us sing a song of cheer again
Happy days are here again
Ora, como se vê, esta é uma canção com um texto de apelo político ao optimismo, que era cantada em comícios e que portanto teria que entrar bem no ouvido do público. Só que a verdade é que a música era quase infantil, o que levava a que, quando a multidão a cantava todos se riam pois sentiam-se tolinhos a entoá-la!
Streisand resolveu então alterar ritmicamente a canção! O texto que poderia ser o de um discurso, então teria que ter uma cadência mais adequada à seriedade e o empolgamento de quem pretendia transmitir uma mensagem!
Para isso, sem utilizar um tom declamatório, deu-lhe uma cadência mais lenta, que em vez de passar sentimentos de alegria, procurava passar sentimentos de euforia! Euforia provocada quer pelo novo arranjo orquestral, quer pela sua própria interpretação.
O sucesso desta versão foi tal que se tornou obrigatória até hoje nos espectáculos de Streisand e sempre que é tocada na forma original nos comícios do Partido Democrático é apenas em versão orquestral, sem que ninguém a queira cantar ao ritmo apresentado antes de Barbra!
Vamos ver a sua interpretação desta canção, também no mesmo concerto de Central Park de 1967!
E já agora numa emissão do Judy Garland Show de 1963, em que a já mais do que consagrada Judy chama a iniciante Barbra para cantarem em dueto duas canções em simultâneo! E, como aliás fica evidente no resto desse programa, tudo foi feito por Judy de forma a destacar a cantora mais jovem, que ela pressentia poder ser a sua sucessora natural!
É um momento de televisão magnifico para os apreciadores das duas cantoras!
Tive a oportunidade de ver a transmissão de todos esses vídeos há longos anos na RTP e era muito interessante ver o que cantores profissionais, já experimentados, suportavam para poder aproveitar os ensinamentos da mestra.
Ensinamentos que, se pensarmos bem, tanto servem para o canto lírico, como para o canto ligeiro, já que quem se presta a pisar um palco para cantar palavras tem que as pronunciar correctamente e lhes dar o devido sentido.
Curiosamente Marco Paulo, ao ser um dia entrevistado sobre o seu insucesso nos festivais RTP da canção, queixava-se de si mesmo, reconhecendo que uns versos em que dizia “Sou tão feliz” nunca poderiam ser cantados da forma dramática como ele o fez…
Neste caso convenhamos que a culpa nem era só dele, quer a música, quer a orquestração empurraram-no para esse erro, que ele na altura não percebeu existir.
Se em vez de “Sou tão feliz”, cantasse “Estou bem lixado” (desculpem a vulgaridade) acabaria por resultar bem melhor com aquela música e com aquele arranjo orquestral!
Infelizmente apesar de termos muitos cantores, não temos muitos intérpretes, e o canto precisa de ser feito com a inteligência de quem sabe o que diz, dizendo algo com interesse e com sentido!
Bom, mas hoje não vou falar de portugueses, vou falar de Barbra Streisand cuja preocupação pelo sentido dos textos ficou patente, logo desde o início da sua carreira.
Barbra começou muito jovem e com o pé esquerdo! Levada pela mãe a uma editora discográfica, aconselharam-na a dedicar-se a outra profissão pois, segundo eles, a jovem Barbra não tinha qualquer jeito para cantar.
No entanto este mau começo não a fez desistir do seu sonho e, ainda adolescente, concorreu a um concurso de canto para jovens amadores e tendo ficado em primeiro lugar, começou então a sua carreira com um contrato para actuações num bar gay de Manhattan.
Aí, a notícia da qualidade das suas interpretações depressa se espalhou tendo passado rapidamente para artista residente de um night-club famoso na época, o Bon Soir, onde a novata Streisand se arriscava em versões muito pessoais dos standards da música americana.
Apresento dois deles, nas suas versões originais e, depois, nas versões de Streisand.
Começo por “Cry me a river”, canção que foi escrita para Ella Fitzgerald, mas que acabou por ser criada por Julie London, que lhe deu aquela que é considerada por muitos como a primeira e definitiva versão deste tema!
Quem reparar bem na letra verificará que ela retrata uma zanga amorosa feita em discurso directo!
Now you say you're lonely
You cried the long night through
Well, you can cry me a river
Cry me a river
I cried a river over you
Now you say you're sorry
For being so untrue
Well, you can cry me a river
Cry me a river
I cried a river over you
You drove me,
Nearly drove me out of my head
While you never she'd a tear
Remember?
I remember all that you said
Told me love was too plebeian
Told me you were through with me
Now you say you love me
Well, just to prove you do
Cry me a river
Cry me a river
I cried a river over you
Bom, temos aqui portanto uma mulher que se viu desprezada e até humilhada pelo namorado, uma mulher que sofreu muito por ele e que agora o vê voltar “esquecido” de tudo o que ele lhe dissera e fizera…
Face a este contexto, Barbra não adoptou a forma doce e suave de abordar a canção, que tornou famosa Julie London, cantou-a de um jeito sarcástico e até agressivo, a que quase só faltava a mão na anca e um tamanco a voar!
Consoante as audiências a sua interpretação era mais ou menos teatral! Para aqui escolhi a versão em que a actriz Barbra se revela completamente através da cantora Barbra. Trata-se de uma gravação ao vivo durante o concerto que deu no Central Park em 1967!
Ao contrário da versão de Julie London, esta não é decerto uma versão que se oiça calma e descontraidamente, como pano de fundo de uma conversa de amigos, em nossa casa! É preciso parar para a ouvir…
O mesmo acontece com a canção seguinte!
Ambas constantes do seu espectáculo no Bon Soir, foram gravadas no seu primeiro disco, que inicialmente teve uma edição modesta de apenas 500 exemplares, mas que depois teve que ser produzido em doses maciças tendo ido directamente para o primeiro lugar da lista de vendas, onde se manteve várias semanas!
É que na verdade, à semelhança do que acontecia com os clientes do Bon Soir, o disco surpreendia pela qualidade da interprete e muito particularmente pela sua versão de Happy Days Are Here Again, canção de 1929, que serviu para animar tropas, celebrar vitórias, de hino eleitoral de Roosevelt e depois do Partido Democrático.
So long sad times!,
Go 'long bad times!,
We are rid of you at last
Howdy, gay times!
Cloudy gray times,
You are now a thing
Of the past, cause:
Happy days are here again
The skies above are clear again
Let us sing a song of cheer again
Happy days are here again
Altogether shout it now!
There's no one who can doubt it now
So let's tell the world about it now
Happy days are here again
Your cares and troubles are gone;
There'll be no more from now on
Happy days are here again
The skies above are clear again
Let us sing a song of cheer again
Happy days are here again
Ora, como se vê, esta é uma canção com um texto de apelo político ao optimismo, que era cantada em comícios e que portanto teria que entrar bem no ouvido do público. Só que a verdade é que a música era quase infantil, o que levava a que, quando a multidão a cantava todos se riam pois sentiam-se tolinhos a entoá-la!
Streisand resolveu então alterar ritmicamente a canção! O texto que poderia ser o de um discurso, então teria que ter uma cadência mais adequada à seriedade e o empolgamento de quem pretendia transmitir uma mensagem!
Para isso, sem utilizar um tom declamatório, deu-lhe uma cadência mais lenta, que em vez de passar sentimentos de alegria, procurava passar sentimentos de euforia! Euforia provocada quer pelo novo arranjo orquestral, quer pela sua própria interpretação.
O sucesso desta versão foi tal que se tornou obrigatória até hoje nos espectáculos de Streisand e sempre que é tocada na forma original nos comícios do Partido Democrático é apenas em versão orquestral, sem que ninguém a queira cantar ao ritmo apresentado antes de Barbra!
Vamos ver a sua interpretação desta canção, também no mesmo concerto de Central Park de 1967!
E já agora numa emissão do Judy Garland Show de 1963, em que a já mais do que consagrada Judy chama a iniciante Barbra para cantarem em dueto duas canções em simultâneo! E, como aliás fica evidente no resto desse programa, tudo foi feito por Judy de forma a destacar a cantora mais jovem, que ela pressentia poder ser a sua sucessora natural!
É um momento de televisão magnifico para os apreciadores das duas cantoras!
Mirene Cardinalli - 40 anos depois
Completam-se amanhã 40 anos sobre o desaparecimento de Mirene Cardinalli!
Faleceu aos 27 anos, vitima de um brutal acidente de viação na “recta do Cabo”, no qual faleceu também o seu marido e ainda o jovem cantor Carlos Belo!
Possuidora de uma voz notável, à época da sua morte estava numa fase de viragem da carreira para um repertório completamente diferente do estilo do cançonetismo ligeiro mais comum na época.
Tinha em preparação com o compositor de baladas e canções de intervenção Vieira da Silva (também jornalista da revista Mundo da Canção), um disco onde incluiria entre outras a canção “Para a construção da cidade necessária”.
Ficaram-nos contudo os registos de algumas gravações, onde se evidenciam claramente as suas qualidades vocais e interpretativas:
O seu maior êxito popular, passado constantemente nas emissões de rádio, chamava-se “Julgamento”. Contudo, Mirene gravou outras canções, talvez até mais interessantes, incluindo a versão mais conseguida de Vocês Sabem Lá, que em nada fica atrás da versão original de Maria de Fátima Bravo.
Fica aqui pois a memória desse êxito popular e da sua intérprete, ainda presente na memória de todos os que admiravam, sabendo que se fez decerto muita falta ao mundo artístico português, terá feito obviamente, uma falta humanamente mais forte aos seus dois pequenos filhos, que nesse dia 19 de Dezembro de 1969 perderam em simultâneo Pai e Mãe!
Faleceu aos 27 anos, vitima de um brutal acidente de viação na “recta do Cabo”, no qual faleceu também o seu marido e ainda o jovem cantor Carlos Belo!
Possuidora de uma voz notável, à época da sua morte estava numa fase de viragem da carreira para um repertório completamente diferente do estilo do cançonetismo ligeiro mais comum na época.
Tinha em preparação com o compositor de baladas e canções de intervenção Vieira da Silva (também jornalista da revista Mundo da Canção), um disco onde incluiria entre outras a canção “Para a construção da cidade necessária”.
Ficaram-nos contudo os registos de algumas gravações, onde se evidenciam claramente as suas qualidades vocais e interpretativas:
O seu maior êxito popular, passado constantemente nas emissões de rádio, chamava-se “Julgamento”. Contudo, Mirene gravou outras canções, talvez até mais interessantes, incluindo a versão mais conseguida de Vocês Sabem Lá, que em nada fica atrás da versão original de Maria de Fátima Bravo.
Fica aqui pois a memória desse êxito popular e da sua intérprete, ainda presente na memória de todos os que admiravam, sabendo que se fez decerto muita falta ao mundo artístico português, terá feito obviamente, uma falta humanamente mais forte aos seus dois pequenos filhos, que nesse dia 19 de Dezembro de 1969 perderam em simultâneo Pai e Mãe!
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terça-feira, dezembro 15, 2009
Standards
Constatei já há muito tempo que, ao contrário do que acontece no canto lírico e na música ligeira dos outros países, os cantores portugueses, regra geral não gostam de cantar os “standards” da nossa música.
Cantar um standard é submeter-se a uma prova, a uma comparação inevitável em que, ou se supera o já criado ou, simplesmente, se é mais um a cantar essa música.
Também pode acontecer que haja uma visão tão diferente da canção que leve a uma espécie de recriação do tema, a qual só tem sentido se for mesmo boa.
Interpretar standards é, portanto, um exame a que os artistas de quase todo o mundo voluntariamente se submetem, uma prova permite ao público avaliar melhor as suas capacidades vocais e interpretativas, assim como a da lucidez na escolha de repertório.
Cantar standards é indubitavelmente uma forma de enriquecimento do património que essas peças representam na história da música.
Para mim e para uma grande parte do público e dos críticos “Over de rainbow” é uma prova da excepcionalidade de Judy Garland, mas nem por isso deixou de ser uma aposta de muitas outras vozes, quase todas ficando aquém de Garland e não acrescentando nada à canção.
Contudo, nem por isso, ao longo dos tempos de Doris Day a Eric Clapton, de Frank Sinatra aos The Guns and Roses, mais de uma centena de cantores interpretaram “Over the rainbow”
Vemos aqui Garland, em 1943, cantando-a para os soldados americanos.
Mas quando à partida uma música tem um intérprete excepcional, como foi o caso de Garland, o caminho a seguir é o da recriação!
E foi o caso do surpreendente Israel Kamakawiwo'Ole, que mais de 50 anos depois da canção ser criada, a transformou radicalmente, dando-lhe uma nova dimensão que, por isso mesmo não compete com a versão original!
Esta sua recriação foi um verdadeiro sucesso de vendas em 1993, para mim, perfeitamente justificado.
Israel Kamakawiwo'Ole, mais conhecido no Hawai por Iz, teve um enorme sucesso, mas uma vida muito curta, a sua obesidade acarretou-lhe graves problemas de saúde, chegando a pesar quase 350 kg, o seu coração não resistiu e faleceu com apenas 38 anos em 1997.
Iz deixou com esta canção um legado, havendo agora seguidores que em vez de tentarem imitar Garland, o que na verdade não será nada fácil, pensam que copiar o estilo de Israel Kamakawiwo'Ole pode dar melhor resultado. Também, aqui as imitações não têm tido grande sucesso!
Um dos meus maiores prazeres ao tentar conhecer bem uma canção ligeira é exactamente descobrir novas facetas que novos interpretes podem oferecer a temas consagrados. E é isso mesmo que irei abordar em próximos posts!
Cantar um standard é submeter-se a uma prova, a uma comparação inevitável em que, ou se supera o já criado ou, simplesmente, se é mais um a cantar essa música.
Também pode acontecer que haja uma visão tão diferente da canção que leve a uma espécie de recriação do tema, a qual só tem sentido se for mesmo boa.
Interpretar standards é, portanto, um exame a que os artistas de quase todo o mundo voluntariamente se submetem, uma prova permite ao público avaliar melhor as suas capacidades vocais e interpretativas, assim como a da lucidez na escolha de repertório.
Cantar standards é indubitavelmente uma forma de enriquecimento do património que essas peças representam na história da música.
Para mim e para uma grande parte do público e dos críticos “Over de rainbow” é uma prova da excepcionalidade de Judy Garland, mas nem por isso deixou de ser uma aposta de muitas outras vozes, quase todas ficando aquém de Garland e não acrescentando nada à canção.
Contudo, nem por isso, ao longo dos tempos de Doris Day a Eric Clapton, de Frank Sinatra aos The Guns and Roses, mais de uma centena de cantores interpretaram “Over the rainbow”
Vemos aqui Garland, em 1943, cantando-a para os soldados americanos.
Mas quando à partida uma música tem um intérprete excepcional, como foi o caso de Garland, o caminho a seguir é o da recriação!
E foi o caso do surpreendente Israel Kamakawiwo'Ole, que mais de 50 anos depois da canção ser criada, a transformou radicalmente, dando-lhe uma nova dimensão que, por isso mesmo não compete com a versão original!
Esta sua recriação foi um verdadeiro sucesso de vendas em 1993, para mim, perfeitamente justificado.
Israel Kamakawiwo'Ole, mais conhecido no Hawai por Iz, teve um enorme sucesso, mas uma vida muito curta, a sua obesidade acarretou-lhe graves problemas de saúde, chegando a pesar quase 350 kg, o seu coração não resistiu e faleceu com apenas 38 anos em 1997.
Iz deixou com esta canção um legado, havendo agora seguidores que em vez de tentarem imitar Garland, o que na verdade não será nada fácil, pensam que copiar o estilo de Israel Kamakawiwo'Ole pode dar melhor resultado. Também, aqui as imitações não têm tido grande sucesso!
Um dos meus maiores prazeres ao tentar conhecer bem uma canção ligeira é exactamente descobrir novas facetas que novos interpretes podem oferecer a temas consagrados. E é isso mesmo que irei abordar em próximos posts!
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Over the Rainbow
segunda-feira, dezembro 07, 2009
Cadeira Vazia
No passado dia 26 de Novembro Mariza esteve em directo, na Rede Globo, em entrevista no Programa do Jô!
Nesse programa interpretou uma canção criada em 1950 pelo grande cantor brasileiro Francisco Alves e que mais tarde, pela voz de Elza Soares e sobretudo pela de Elis Regina, ficaria para sempre imortalizada.
Chama-se essa canção "Cadeira Vazia"!
Aparentemente, de acordo com o decorrer da entrevista, essa sua interpretação terá sido um improviso!
Contudo, todos sabemos que em televisão os improvisos, são normalmente ensaiados, mas o que é certo é que, improviso ou não, a dada altura Mariza perdeu-se na partitura, mas simultaneamente demonstrou que não é por acaso que é a melhor sucedida das cantoras portuguesas, na actualidade!
Para mim, que tenho acompanhado com alguma curiosidade a sua carreira e as críticas que ela levanta junto dos mais tradicionalistas do fado (a que se pode chamar mais propriamente despeito), ela teve com esta interpretação de "Cadeira Vazia" uma verdadeira prova de fogo, que ultrapassou brilhantemente, apesar dos precalços pelo meio.
Termino pois com música a duas vozes e, naturalmente, com esta "Cadeira Vazia"! Primeiro com Mariza, no referido programa de Jô Soares:
E depois com a insuperável Elis Regina, que começa esta canção limpando as lágrimas da sua emoção, após ter interpretado magistralmente uma das mais intensas obras de Chico Buarque: "Atrás da Porta".
Não consigo pois resistir a colocar aqui as duas canções, exactamente na sequência em que foram apresentadas em 1980, pela saudosa "Pimentinha":
Atrás da porta
Cadeira Vazia
Nesse programa interpretou uma canção criada em 1950 pelo grande cantor brasileiro Francisco Alves e que mais tarde, pela voz de Elza Soares e sobretudo pela de Elis Regina, ficaria para sempre imortalizada.
Chama-se essa canção "Cadeira Vazia"!
Aparentemente, de acordo com o decorrer da entrevista, essa sua interpretação terá sido um improviso!
Contudo, todos sabemos que em televisão os improvisos, são normalmente ensaiados, mas o que é certo é que, improviso ou não, a dada altura Mariza perdeu-se na partitura, mas simultaneamente demonstrou que não é por acaso que é a melhor sucedida das cantoras portuguesas, na actualidade!
Para mim, que tenho acompanhado com alguma curiosidade a sua carreira e as críticas que ela levanta junto dos mais tradicionalistas do fado (a que se pode chamar mais propriamente despeito), ela teve com esta interpretação de "Cadeira Vazia" uma verdadeira prova de fogo, que ultrapassou brilhantemente, apesar dos precalços pelo meio.
Termino pois com música a duas vozes e, naturalmente, com esta "Cadeira Vazia"! Primeiro com Mariza, no referido programa de Jô Soares:
E depois com a insuperável Elis Regina, que começa esta canção limpando as lágrimas da sua emoção, após ter interpretado magistralmente uma das mais intensas obras de Chico Buarque: "Atrás da Porta".
Não consigo pois resistir a colocar aqui as duas canções, exactamente na sequência em que foram apresentadas em 1980, pela saudosa "Pimentinha":
Atrás da porta
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