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domingo, janeiro 15, 2012

Os novos tenores

Quando se fala em tenores a maioria das pessoas tem ainda muito presentes na memória Pavarotti, Carreras e Domingo!


A geração que se lhes seguiu apesar da sua qualidade e prestígio no mundo operático ficou ainda na sombra daqueles 3 nomes, que serão difíceis esquecer.

Falo, por exemplo, de José Cura, Marcelo Alvarez, Roberto Alagna e Rolando Villazon que, por razões várias, não conseguiram a projeção dos anteriores!

Chegou entretanto uma nova geração que possui as qualidades vocais e interpretativas para chegar ao “grande público” tal como os “três tenores” conseguiram.

Para já, esses “jovens” já se consagraram nos palcos das principais salas de Ópera do Mundo. Veremos o que o futuro tem reservado às suas carreiras e ao contributo que elas conseguirão dar à divulgação deste género musical!

Deixo aqui os nomes dos que estão a conseguir maior notoriedade, algumas breves notas biográficas sobre eles e, mais importante ainda, vídeos com atuações, onde se poderá avaliar a qualidade das suas vozes!

Começo pelo mais jovem, Joseph Calleja, que nesta semana completará 34 anos!



De origem maltesa, começou a cantar aos 16 anos e aos 21 anos já tinha vencido dois concursos de canto internacionais. O seu CD “O tenor maltez” lançado há seis meses chegou ao segundo lugar dos discos mais vendidos na Alemanha e ao primeiro lugar da US Billboard Classical Traditional.

Quer pela crítica europeia, quer pela norte-americana é considerado um dos mais promissores tenores do século XXI, causando uma impressão tal que chegam a considerá-lo como o sucessor dos legendários tenores Björling, Gigli, e inclusive de Caruso!




Seguidamente refiro o italiano Vittório Grigolo, talvez o mais mediático de todos os cantores da sua geração, que completará no próximo mês 35 anos.





A sua notoriedade, em abono da verdade, deve-se mais ao facto de ter sido um dos elementos fundadores do agrupamento Il Divo que entretanto abandonou, do que à sua superioridade vocal face aos restantes.

Iniciou-se a cantar aos quatro anos e aos nove anos, numa consulta de oftalmologia, enquanto esperava, ao ouvir alguém cantar noutro apartamento do edifício, resolveu brindar todos os pacientes do consultório com a sua versão da Avé Maria de Schubert, deixando toda a gente boquiaberta, incluindo o pai do oftalmologista que se encontrava presente e que lhe conseguiu uma audição para o coro infantil da Capela Sistina, tendo-se desde logo tornado seu solista!

O seu estilo de actuação (os críticos chegam a dizer que parece um cachorro irrequieto em busca permanente de atenção), o seu primeiro álbum (In the Hands of Love) feito no estilo Pop/Opera, o ar de artista rock que exibe no dia-a-dia e a sua participação em corridas de automóveis são características que lhe tem trazido alguma notoriedade, mas as suas capacidades vocais incomuns naturalmente que também têm ajudado e têm sobretudo contribuído para dissipar o habitual preconceito que existe no mundo da Ópera perante este tipo de ecletismo.

Entretanto, se da sua apresentação e sucesso nos principais palcos do mundo (foi o tenor mais jovem que alguma vez pisou o alla Scala de Milão) tem resultado uma opinião unânime sobre as suas potencialidades, é verdade também que é comum a ideia de que ainda tem que amadurecer mais um pouco para chegar ao seu melhor…




Refiro agora o único dos cantores que já tive oportunidade de ver ao vivo (quase há dez anos), trata-se de Juan Diego Florez.



Tendo completado na semana passada 39 anos de idade, este cantor natural do Perú, começou muito jovem por se interessar pela música ligeira e pela música tradicional do seu País. Contudo, ainda adolescente tornou-se membro e solista do Coro Nacional do Perú.

Aos 20 anos partiu para os Estados Unidos onde estudou com Marilyn Horne e participou em produções estudantis, tendo-se estreado 3 anos depois profissionalmente em Itália.

Pavarotti, extasiou-se de tal forma com a sua voz que o considerava como o seu sucessor natural.

Florez, com a sua interpretação “Ah mes amis” da La Fille du Régiment de Donizetti, terminou com mais de setenta anos de tradição de não encores no “alla Scala” de Milão, ao conseguir os nove dificílimos Dós de peito que essa ária exige, que foram seguidos de uma prolongada ovação do público e exigência de regresso ao palco.

Ele mais tarde repetiria este feito no Metropolitan Opera House em 2008, o primeiro cantor a quem foi exigido um encore desde 1994.

Refiro que já em 2003 ele nos havia maravilhado em São Carlos com esta e outras das suas interpretações.




Por último, trago aqui um cantor cuja voz acho extrordinária a todos os níveis. Trata-se do cantor alemão Jonas Kaufmann.



Com 42 anos de idade e tendo passado já por vários problemas de saúde, primeiro na própria voz em 1995, e mais recentemente de ordem oncológica,  foi considerado em 2011 o cantor do ano nos Estados Unidos.

Possui uma amplitude de voz que simultâneamente tem a sombra e a profundidade dos barítonos, mas com a extensão que lhe permite chegar às notas mais agudas, sendo por isso mesmo considerado por muitos como o sucessor natural de Plácido Domingo, que é, aliás, um dos seus mais entusiasticos admiradores.

Começou os seus estudos musicais aos 8 anos e, após se ter formado em Matemática, aos 24 iniciou a sua carreira profissional na Ópera, tendo percorrido a partir daí os principais palcos do mundo, com um reportório que vai de Verdi a Wagner, demonstrando uma versatilidade que, de facto, também só é comparável à de Domingo.



Espero que esta minha seleção de árias tenha sido interessante e esclarecedora do meu entusiasmo por estes novos excelentes representantes do canto lírico!

quarta-feira, julho 21, 2010

Fez anos em Março e eu esqueci-me!

Ontem, ao ler os comentários ao último post do blog Tertúlias, apareceram referências muito interessantes a uma das minhas cantoras favoritas, fazendo-me perceber que estava obviamente em falta com ela, pois deixara passar em claro uma efeméride muito especial da sua vida.

Assim, decidi falar já hoje dessa magnifica voz, que é considerada a última das grandes cantoras do verismo e decerto a que maior longevidade teve na sua carreira.

Falo-vos de Magda Olivero, que completou em 25 de Março passado o seu centésimo aniversário e cujo nome vi pela primeira vez nos jornais, aquando da sua estreia no Metropolitan de Nova Iorque em 1975.





Na verdade o interesse jornalístico de então centrava-se no facto desta cantora se apresentar naquela sala, com a Tosca, numa idade em que a maior parte das cantoras já estão retiradas, ou quando muito no ocaso da carreira. Magda tinha então 65 anos.

Fiquei naturalmente curioso!

A sua aparição no exigente MET parece que não foi fácil, apesar de Magda ser um nome mundialmente conhecido, foi precisa uma insistência enorme da então jovem vedeta da Ópera Joan Sutherland, para que a administração daquela sala aceitasse apresentar uma Flora Tosca de 65 anos.
Os círculos musicais de Nova Iorque mobilizaram-se então para ver o que poderia ser uma de duas coisas, ou fenómeno artístico ou um embaraçoso desastre! E, portanto, fosse como fosse, algo assim na principal sala da cidade seria imperdível.

Os jornais de então relataram que o público nova-iorquino acabou por ficar verdadeiramente estupefacto e rendido ao canto de Magda.

Existe actualmente no youtube um excerto do som dessa sua actuação no MET que comprova a qualidade da sua actuação e a consequente reacção do público!


Relatou na altura o crítico Harold C. Schonberg do New York Times:
“O público gritou e aplaudiu freneticamente, fazendo com que o Maestro Jan Behr mandasse parar a orquestra. Ela teve que se aproximar do centro do palco e durante 20 minutos as palmas e os “Brava” não cessaram. Foi uma das maiores ovações a que o Metropolitan assistiu em toda a sua história!

Cantoras como Olivero têm a capacidade de, apenas com uma expressão do seu rosto ou com um único olhar, fazer com que o espectador sentado no ponto mais longínquo da sala se aperceba de toda a densidade que a obra pretende transmitir.

Fez-se história naquela noite, em que apesar da idade Olivero deu-nos uma Tosca surpreendentemente doce, sensual e feminina. Vocalmente, foi ainda mais excepcional do que seria imaginável. Contida quando era preciso, dramática quando era necessário, a sua voz representa bem mais do que a sua capacidade como cantora, representa a suprema arte do canto. “

Lembro-me de ter lido na imprensa portuguesa um relato deste tipo sobre esta récita, não me recordando sinceramente qual a fonte donde provinha. Contudo, foi dos tais casos que me fez, a partir desse momento, querer acompanhar e saber mais sobre esta cantora.

Ao longo do tempo fui sabendo mais algumas coisas sobre o passado glorioso de Magda Olivero, comprando alguns discos e, sempre que possível, apanhar mais notícias sobre a sua manutenção em actividade! Actividade que dura praticamente até aos dias de hoje.

Embora retirada dos palcos profissionalmente aos 71 anos, continuou a ser solicitada para cantar em Igrejas perto da sua residência e em pequenos saraus particulares.

Dez anos depois de se retirar, aos 81 anos, era assim a sua Avé Maria de Gounoud:


Mais dez anos passados, aos 91 anos de idade, podemos voltar a vê-la aqui cantando como solista numa igreja de Milão, durante a missa que assinalou a passagem do 25º aniversário da morte de Maria Callas.




A carreira desta cantora excepcional iniciou-se em 1933, tendo sido considerada pelo compositor Francesco Cilea a melhor de todas as protagonistas da sua Adriana Lecouvreur, já que segundo todos os que a tiveram oportunidade de a ver ao vivo, tratava-se de uma cantora que para além de transmitir todas as notas da partitura e todos os sentimentos inscritos no libreto, conseguia conjugá-los de tal forma que a ficção posta no palco se transformava num vendaval de sensações para o espectador.

Ela é hoje, com os seus magníficos 100 anos, plenos de vigor e lucidez (o ano passado ainda deu uma pequena conferência e cantou uma pequena ária em público) o único elo vivo que liga aos compositores do inicio do século XX, já que trabalhou directamente com Mascagni, Franco Alfano e Riccardo Zandonai, para além de Cilea, é claro.

Interrompeu a carreira de 1940 a 1950, devido ao seu casamento, mas retomou-a de novo a pedido de Cilea, que já bastante doente desejava voltar a ver a sua Ópera com a sua cantora de eleição.

Cilea morreria infelizmente antes da estreia do espectáculo, mas de novo Olivero voltou a aos palcos, recomeçando a sua actividade com esse papel, em 1951.

Tendo tido uma carreira recheada de sucessos, viveu o seu auge numa época em que todas as atenções mediáticas se voltavam para Maria Callas e, esporadicamente, para a sua rivalidade daquela com Renata Tebaldi.

Foi, apesar disso, no mundo da Ópera, considerada uma verdadeira Diva, que tal como Callas era excelente quer como cantora, quer como actriz.

Devido à sua longa carreira, teve como nenhuma outra, a oportunidade de cantar com várias gerações de grandes cantores, de Gigli a Gobbi, de Del Monaco a Corelli, passando por Plácido Domingo, por exemplo…..

Do mesmo modo foi intérprete, nos palcos de todo o mundo, de muitas das mais disputadas obras do repertório operático: La bohème, La fanciulla del West, La traviata, La Wally, Madame Butterfly, Manon Lescaut, Mefistofele, e Turandot, foram algumas delas.

Afirmava ter um principio básico, que era o de não imitar ninguém e se errasse, corrigiria o erro por si, com o seu próprio estilo… com uma excepção... ao fazer a Traviata inspirava-se sempre em Greta Garbo e se o tenor que lhe calhava para o papel de Alfredo não correspondia exactamente ao perfil que desejava, bastava-lhe fantasiar com o actor Robert Taylor e a “química” ficava garantida.

Termino esta homenagem simples a esta grande cantora com um pequeno vídeo que preparei com uma ária famosa da Ópera Gianni Schicchi, que foi exactamente a primeira Ópera em que participou.

Espero que gostem tanto quanto eu!

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Do esquecimento à popularidade

A história da sofredora Griselda incluída por Bocaccio no seu Decameron deu origem a duas Óperas no século XVIII, primeiramente de Scarlatti e depois de Vivaldi.

Vivaldi, que era um sacerdote era também compositor e foi exactamente através de Griselda para ganhou finalmente a respeitabilidade de que merecia junto das elites suas contemporâneas.



Eventualmente esse estatuto demorou pois ele terá começado por escrever peças infantis e, segundo os seus críticos, músicas demasiado populares.

De facto foi um criador musical extremamente prolífico, não constituindo a sua actividade sarcedotal qualquer óbice, já que conseguira dispensa de celebrar missa devido à sua aparente fragilidade física, derivada da asma.

Fragilidade essa que entretanto não o impediu de ter inúmeras amantes, uma das quais Anna Giro, um mezzo-soprano, para quem escreveu exactamente o papel de Griselda, e que era jocosamente conhecida pela l’Annina del Prete rosso (Vivaldi era ruivo).




Após a sua morte, na miséria, como aconteceu com muitos dos génios da música, aos 62 anos, foram precisos quase 150 anos para que, já no século XX, a sua obra viesse a ser de novo tocada e o seu talento devidamente reconhecido, quer como criador de música, quer devido ao seu papel para a definição da estrutura de concertos e sinfonias.

Se as suas Quatro Estações se tornaram há muitos anos um dos clássicos da música erudita, só mais recentemente a sua Griselda se tornou popular, particularmente devido a uma das suas árias: "Agitata da due venti"



Embora esta ária tenha vido a ser cantada por inúmeras cantoras, quer mezzos, quer sopranos, ao longo das últimas décadas, só após a mezzo-soprano Cecília Bartoli a ter incluído nos seus recitais é que ela se tornou verdadeiramente uma ária popular.

Mais uma vez um intérprete pode fazer toda a diferença. E neste caso fez decisivamente!

Claro que há quem critique bastante Bartoli, quer pela sua postura em palco que dizem ser mais própria de uma cantora rock do que de uma cantora lírica, quer pelo facto de ter dado uma visão demasiado pessoal a esta peça, tornando-a eventualmente demasiado “agitata”!

Vejamos então o que fez em 1986 grande Monserrat Caballé com esta ária, que é por si só um assombroso exercício de virtuosismo de coloratura , plena de “legatos” e “stacatos” dificilímos! Seguidamente, veremos Bartoli!

Eis então a versão da soprano Monserrat:



E agora a da mezzo Bartoli, quase 30 anos depois:

segunda-feira, agosto 18, 2008

A Dolce Anna

Houve quem já lhe tivesse chamado a “Audrey Hepburn com voz”.



Houve quem já tivesse dito que é a “nova Callas”



Talvez sejam exageros, talvez haja alguma ponta de verdade em tudo isso.

O certo, é que o começo de carreira, desta ainda jovem artista, é tão incomum, que já se tornou lendário na história do bel-canto e, talvez por isso mesmo, acabe por influenciar toda a adjectivação que lhe colocam.

Natural da cidade de Krasnodar, esta anteriormente promissora ginasta, veio a tornar-se estudante de canto no Conservatório de São Petersburgo, e precisando naturalmente de arranjar emprego para subsistir, encontrou-o! Exactamente no Teatro Marinsky (sede da Ópera de Kirov) de São Petersburgo como... empregada de limpeza, com a tarefa específica de lavar o chão.



Por isso, quando certo dia, a jovem mulher da limpeza apareceu no Mariinsky, não para esfregar os soalhos, mas em dia de audição, causou um enorme espanto ao maestro Valery Gergiev, que reconheceu de imediato aquela bonita Anna, com quem até então se tinha cruzado inúmeras vezes nos corredores, vendo-a sempre de balde e esfregona na mão!

Depois de a ouvir, passou da curiosidade à surpresa e rendeu-se completamente à sua potentissima voz de soprano e à sua espantosa aptidão para o palco. Fez então questão de acompanhar pessoalmente o seu aperfeiçoamento vocal, que previa ser extremamente auspicioso!



Pouco depois de acabado o Conservatório, com pouco mais de 20 anos, Anna estreia-se precisamente no Mariinsky, dirigida por Gergiev, como Suzana das Bodas de Figaro.

De então para cá, a carreira da belíssima Anna Netrebko tem sido vertiginosa. Actualmente, com 36 anos, é já uma das cantoras mais requisitadas do mundo, tendo actualmente como mentora e mestra, a célebre cantora Renata Scotto!

Anna é uma mulher belíssima, e apesar da sua voz magnifica e da sua expressividade notável, muita gente sugere que não fora a sua beleza e talvez não tivesse conseguido tão rapidamente o sucesso que tem alcançado! Críticos e público estão excitada e completamente divididos a esse respeito!

Deixando São Petersburgo para passar a residir em Viena, passou também de um quotidiano de bata, empunhando detergentes para ser um dos rostos mais prestigiados da marca Dolce & Gabana!



Fala-se da sua história, fala-se da sua voz, fala-se dos seus sucessos, fala-se do excesso com que é adorada por uns e criticada por outros, fala-se da sua imagem, fala-se da emotividade com que pisa o palco e enfrenta o público…. Fala-se dela!

Protagonista em todas as principais salas de Ópera e de Concerto do mundo, esta russa de nascimento, há pouco mais de um ano naturalizada austríaca foi, em 2007, a estrela da última noite dos célebres concertos Promenade e fez, mais uma vez, uma enorme sensação, neste caso, particularmente, entre o público masculino!

São imagens desse momento extraordinário de festa e sensualidade que proporcionou ao público do Royal Albert Hall com Meine Lippen sie Kussen so heiss de Franz Lehar, que hoje deixo aqui:

sexta-feira, maio 30, 2008

A vida e morte de Luisa Rosa de Aguiar

Nasceu numa família de poucos recursos, tornou-se rica e célebre! Foi idolatrada!

Em criança, salvou-se de morrer soterrada porque se escondeu dentro de um forno de pão!

Em adulta, salvou-se de morrer afogada no Douro porque lhe alcançaram um remo a que se agarrou!

Depois de conviver com reis e imperadores por toda a Europa, morreu pobre, em Lisboa, e a sua sepultura encontra-se esquecida, debaixo dos alicerces de um edifício na Rua do Alecrim!

Por casamento tinha adquirido o sobrenome por que ficaria conhecida: Todi.

Luísa Todi, é de quem venho falar hoje!

Luisa Todi



Luísa foi a terceira filha de um modesto professor de música que, com 5 bocas para alimentar, resolveu deixar a cidade de Setúbal e partir para Lisboa onde arranjou trabalho como copista de orquestra no teatro do Bairro Alto.

Nascida em 1753, conta-se que se terá salvo do terramoto de 1755 por se ter escondido dentro de um forno de pão que lhe serviu de protecção.

Com a vinda do seu pai para Lisboa, Luísa e as suas 2 irmãs conhecem a realidade teatral e deixam-se deslumbrar por ela. Todas virão a ser actrizes e cantoras de primeira grandeza!

Luísa estreia-se num pequeno papel de Tartufo de Moliére, enquanto a sua irmã, Cecília, tinha o papel principal.

Com a vinda a Lisboa de uma companhia italiana de Ópera, Luísa e o 1º violino da respectiva Orquestra apaixonaram-se e casaram. Tomou assim Luísa o apelido de seu marido, Saverio Todi!

Depois de um período de 6 anos a residir no Porto, com a preparação obtida por intensas aulas de canto e muitas actuações, inicia a sua carreira fora do País.

Primeiro em Londres, ainda algo imatura e com um sucesso muito limitado, mas depois por Espanha e Paris onde triunfa.

Aí, em Paris, participa nos Concertos Espirituais, que se realizavam regularmente no Palácio das Tulherias e logo na sua primeira apresentação causa uma impressão tal que a notícia se espalha como fogo na alta sociedade francesa, que acorre em massa às récitas seguintes que se esgotam imediatamente.

Palácio das Tulherias - O pavilhão central era a zona de concertos



Passa igualmente a ser presença regular em Versalhes onde faz os chamados Concertos da Rainha.

Todi, nessa altura, começa a receber convites irrecusáveis de toda a parte e o empresário dos Concertos Espirituais, para a prender, cria um fenómeno de diversão, que depois veio a ser utilizado futuramente para promover a popularidade de outras cantoras:

Convida para os seus Concertos Espirituais a grande cantora alemã Gertrude Elisabeth Mara .


Simultaneamente, com esse convite, põe a circular o boato de que existe uma enorme rivalidade entre ambas e fá-las actuar alternadamente nos seus Concertos.

O público acorre em avalanche, os críticos apenas sabem dizer que ambas são magníficas e chegam a formar-se dois partidos, Os Todistas e Os Maritistas.

O assunto torna-se o principal tema de debate nos salões da capital francesa. No final, Luísa Todi acaba por vir a ser considerada pelos franceses como “A Cantora da Nação”.


Luisa Todi considerada pelos franceses como a "Cantora da Nação"



Contudo, Paris e Itália, onde também actuava regularmente, já não chegavam para Luísa Todi que, sendo uma admiradora da Imperatriz Catarina II da Rússia, parte para aquele país, mesmo sem ter contrato, bastando-lhe a palavra do director dos Teatros Russos, de que poderia fazer dois espectáculos para a Imperatriz.

Diz-se que o espectáculo de despedida de Paris foi um acontecimento nunca visto e não mais repetido. Houve uma loucura colectiva na aquisição dos ingressos, que atingiram preços astronómicos e no final da sua apresentação, com as flores e os presentes recebidos (entre os quais inúmeras jóias), Luísa Todi encheu completamente duas salas.

A sua estadia em São Petersburgo foi também um sucesso (as duas récitas inicialmente previstas transformaram-se em quatro anos de permanência), mas foi um sucesso algo atribulado! Logo após o primeiro espectáculo, Catarina II ficou tão impressionada, que nomeou Todi professora de canto das princesas imperiais criando a inimizade do até então conselheiro musical da corte russa, o compositor italiano Giuseppi Sarti.

Giuseppi Sarti



Para tentar desmoralizar Todi junto da Imperatriz, Sarti teve a ideia de chamar à Rússia o castrati mais famoso da época, chamado Marchesi, que foi considerado o sucessor do grande Farinelli.

A ideia era colocar os dois lado a lado, de forma a que o famoso Il Marchesino, como era chamado o cantor, fizesse sombra a Luísa Todi numa Ópera do próprio Sarti.

Marchesi



No entanto, o que Sarti conseguiu foi uma récita extraordinária e tanto Catarina, como toda a Corte, acabaram por ficar deslumbrados com os dois cantores e até com o próprio compositor.

A partir daí Sarti deixou Luísa em paz, contudo os problemas desta continuaram!

Apesar de ganhar fortunas na Rússia, o marido de Luísa perdia todo o dinheiro ao jogo e a Luísa não restava outra solução, senão pedir cada vez mais e mais dinheiro a Catarina.

Como é natural, Catarina II acabou por pôr termo à situação e Luísa Todi e seu marido partem rumo à Alemanha e a França.

Em Bona é homenageada com uma actuação pelo jovem pianista Ludwig van Beethoven e após uma temporada em Paris e novas actuações na Alemanha instala-se em Veneza, com um contrato no Teatro San Samuele.

Teatro San Samuele em Veneza



Logo na sua primeira récita começa por deixar boquiaberta a assistência ao apresentar-se em palco com as jóias, colar e tiara que lhe haviam sido oferecidos por Catarina da Rússia, mas mais surpreendidos ficaram todos os presentes, assim que começou a cantar, fazendo de imediato com que público e a crítica se rendessem completamente à sua voz, de tal modo que a temporada lírica italiana de 1790-1791 ficou conhecida como "o Ano da Todi".

Durante essa estadia em Veneza, a saúde dos seus olhos deteriora-se gravemente, vendo-se obrigada a interromper as actuações para enorme consternação do público.

Em sua homenagem, foram feitos centenas de poemas, gravaram-se efígies da cantora, tendo havido reacções populares que tocaram as raias do histerismo colectivo.

No seu regresso ao teatro, são os próprios admiradores que o decoram e iluminam, e ao entrar em cena tem todo o público de pé, emocionado, num aplauso que parecia não mais acabar.

Para essa récita, houve tanta gente a querer ouvir Luísa, que o Teatro teve de ficar de portas abertas para que pudesse ser ouvida no largo fronteiro e nas ruas laterais, onde foi escutada em religioso silêncio.

Luisa Todi ostentando a tiara e o colar oferecidos por Catarina II



Actua ainda noutras cidades italianas e em Madrid, até que regressa ao Porto onde actua até aos 50 anos, altura em que o marido morre e ela deixa de cantar, passando a vestir, para sempre, luto carregado.

Seis anos mais tarde, aquando das invasões napoleónicas, Luísa e as filhas, seguindo a restante população do Porto, fogem e, ao mesmo tempo que se dá o desastre da Ponte da Barcas, Luísa cai ao rio, do barco onde estava, levando com ela um saco com todo o seu dinheiro e a maior parte das suas jóias.

Desastre da Ponte das Barcas



A sua criada estende-lhe um remo do barco, Luísa salva-se, mas perde no Douro todos os haveres que transportava. Restam-lhe algumas jóias que ficaram em poder duma filha, entretanto ferida a tiro pelos soldados invasores.

Este ferimento não permitiu que continuassem a fuga e Luísa, as filhas e a criada resolvem entregar-se aos franceses. Mas é o próprio General Soult que, ao vê-la, reconhece-a como a “Cantora da Nação” e toma-a sob a sua própria protecção pessoal.


Pouco tempo depois Luísa parte para Lisboa, onde viverá o resto dos seus dias.

As poucas jóias que lhe sobraram dão-lhe para se instalar numa casa modesta no Bairro Alto e para poder comer.

Esquecida pelo público português, tem de vez em quando visitas dos seus amigos estrangeiros, que gostam de a rever. A pouco e pouco, também esses irão desaparecer.

Aos 60 anos perde a visão de um dos olhos e, 9 anos depois, ficará totalmente cega.

E é assim, só, pobre e na escuridão que esta mulher que já convivera com as personalidades mais importantes do mundo, termina os seus dias. Tem quase 81 anos quando morre em Lisboa, sendo sepultada no cemitério então adjacente à Igreja da Encarnação ao Chiado.

Igreja da Encarnação ao Chiado, Lisboa



Diz-se que terá sido enterrada sem identificação, mas parece que não é bem assim:

Transcrevo agora o que foi dito, a este propósito, pelo biografo da artista, Mário Moreau:

“A zona da igreja onde Luísa Todi foi sepultada deixou, mais tarde, de fazer parte do templo e veio a ser ocupada por uma chapelaria que teve o nº 78 da Rua do Alecrim.

Diversos autores têm escrito que a cantora foi sepultada sem qualquer indicação do local.

Há, porém, razões para supor que tal não corresponda à verdade. De facto, o jornal República publicou um artigo em que se menciona uma afirmação do então dono da referida chapelaria.

Esse senhor, de nome Artur Santos, declarou peremptoriamente ter visto, durante umas obras de levantamento do soalho da loja, a pedra tumular de Luísa Todi. A inscrição estava um pouco sumida, mas não tanto que não permitisse ver nitidamente o nome da cantora.

Foi ainda o referido comerciante quem conseguiu evitar que um dos operários destruisse a pedra com uma picareta. Na época ainda se esboçou a ideia de recuperar a pedra tumular e de dar à grande artista uma sepultura condigna. Mas, como já seria de esperar, nada se fez nesse sentido.

Por nossa parte, entendemos que os fins em vista continuam a justificar amplamente as necessárias pesquisas, por pouco provável que alguém possa considerar o bom êxito do empreendimento e sejam quais forem as objecções que se possam levantar. Em qualquer país que prezasse devidamente os seus maiores vultos já há muito se teria realizado tal tarefa. Na nossa terra, porém, até agora não se conseguiu muito mais do que um sorriso irónico e um encolher de ombros.

Isso não nos impede de renovar aqui a pergunta já feita na República há mais de sessenta e quatro anos: estará a Câmara Municipal de Lisboa interessada na recuperação da pedra tumular de Luísa Todi e em dar à nossa grande artista a sepultura que ela merece?”


quinta-feira, setembro 21, 2006

Nova temporada - A DERROTA DO SILÊNCIO

Anne Sophie Von Otter

Inicia-se no próximo dia 4 de Outubro uma nova temporada na Gulbenkian. Inicia-se mais precisamente com um espectáculo do ciclo de canto com uma das melhores cantoras líricas da actualidade, a meio-soprano Anne Sophie Von Otter.

Infelizmente para os mais desatentos já é tarde para adquirirem bilhetes. Estão esgotados já há semanas, pelo que não poderão assistir à sua revisitação de Brecht, mas também de Charles Trenet e de... os ABBA... pois é....

Ora esta nova temporada vai trazer-nos magnificos cantores e solistas, de que a seu tempo falarei. Hoje, no entanto, já que estamos muito próximos da sua abertura, gostaria de deixar um alerta, muito particular:

Passo a explicar:

Sempre que vou a um concerto, fico convencido de que o público português é um dos mais constipados do mundo. As tosses, as gosmas e outros grunhidos mais ou menos surdos e roucos tornaram-se quase uma normalidade, nomeadamente na mudança de andamento, o que é um dos actos mais cretinos que se pode ter numa récita.

No entanto e apesar disso tenho sido um priveligiado. Tenho ouvido histórias patéticas de mau comportamento do público que me deixam arrepiado, felizmente não estive pessoalmente presente... mas poderia ter acontecido... deixo aqui uma delas em que me deixou deveras impressionado.

Ocorreu no ano passado e passo a transcrever um excerto do texto do jornalista Eurico de Barros, do Diário de Notícias de 12 de março de 2005, intitulado

A DERROTA DO SILÊNCIO:


"Lisboa, Teatro São Luiz, noite de quinta-feira. Um telemóvel toca logo no início do recital do pianista português Artur Pizarro e é sonoramente atendido. O músico pára a execução da peça e retoma-a logo a seguir. Mais adiante, torna a ouvir-se outro toque, mas desta vez Pizarro não pára. A seguir ao intervalo, soa outro telemóvel, longamente, porque o proprietário nem se digna desligá-lo. Artur Pizarro deixa de tocar e diz à criatura "Atenda, que eu paro. Mas saia". E pega nas partituras, levanta-se e vai-se embora. Há burburinho na sala e é anunciado que o pianista não regressará. O dono do telemóvel que estragou a noite a Pizarro e ao público do São Luiz dirige-se à bilheteira para exigir o dinheiro de volta, porque o recital foi interrompido..."

Sem outros comentários, aproveito para recordar que também Artur Pizarro estará na Gulbenkian nos próximos dias 1 e 2 de Fevereiro, oferecendo-nos a sua interpretação de Tchaickovsky, numa récita com o seguinte programa:

ORQUESTRA GULBENKIAN

CRISTIAN MANDEAL (maestro)

ARTUR PIZARRO (piano)

Mikhaïl GlinkaAbertura da ópera Ruslan e Ludmilla

Piotr Ilitch TchaikovskyConcerto para Piano Nº 1, em Si bemol maior, op.23

Max RegerVariações e Fuga sobre um tema de Mozart, op.132

Sobre Artur Pizarro, para além da história triste já referida, gostaria de deixar algumas das referências internacionais que revelam o prestigio e a consagração deste jovem pianista português:

'Pizarro performs prodigies in getting around these unfamiliar scores with hair-raising aplomb and the utmost conviction' (Piano International)
'Goza, además, de una toma sonora espléndida' (Scherzo, Spain)
'A marvellously recorded programme … a joy to listen to' (Gramophone)
'Pizarro gives the music exactly the full-bodied treatment [the piece] requires. A fine, satisfying disc, well worth exploring' (Fanfare, USA)
'To hear Pizarro is always a pleasure … lyrical phrasing wrapped in one of the most entrancing and expressive pianissimos of any pianist' (International Record Review)