quinta-feira, janeiro 12, 2012
A dignidade dos professores perante a indiferença das autoridades
Foi no Brasil, mas também aqui, em Portugal, a Escola Pública sofre com idêntica falta de investimento, com a precaridade do vínculo dos professores que não só não veem respeitada a sua nobre e importante função, mas também não possuem as condições adequadas a um ensino de qualidade.
Para que melhor se entenda a emotividade do discurso desta jovem professora, talvez seja bom saber que no Brasil a proporção do salário de um professor para um deputado é de 1 para 30, e que p.e. dentro das regras em que se movem, os professores brasileiros estão proibidos de se alimentar nas cantinas escolares, pois isso é considerado desvio de bens.
Penso que política, na sua mais pura natureza, é isto que esta professora faz: Falar dos problemas concretos da Pólis, não de meras abstrações, ou de estatísitcas, onde as pessoas são menos importantes que os números.
E uma política corajosa, pois fala cara a cara com quem tem o poder para mudar as coisas e não o faz, porque a verdade é que quer no Brasil, quer em Portugal a Educação não é, de facto, uma prioridade!
Vale a pena ver! Esta jovem professora é um exemplo, para os seus colegas, para os seus alunos e, no fundo, para todos nós!
terça-feira, outubro 13, 2009
République bananière française
Primeiro veio Giscard D’Estaing, num romance que publicou no final de Setembro, sugerir que teria tido uma aventura amorosa com a falecida Princesa de Gales.

O alvoroço foi tanto, dos dois lados da Mancha, que D’Estaing foi obrigado, em 48 horas, a ir inventando explicações sucessivas para que o caso pudesse ter um fim honroso!
Na verdade, tendo a conta a trajectória de vida da Princesa e a importância pública do autor, sugestões deste teor exigem naturalmente uma clarificação rápida!
Para além do mais a um ex-presidente da França, de 83 anos, e membro da solene e prestigiada Academie Française, não ficam bem os epitetos de falta de cavalheirismo, de difamador alucinado ou de velho tarado. Para além de que a sua mulher, ainda viva, parece também ter ido aos arames com este assunto!
Mas ainda soavam os ecos deste picaresco episódio, eis senão quando o actual o Ministro da Cultura francês resolveu defender o realizador Roman Polansky, relativamente a um caso de pedofilia, de que se encontra acusado nos Estados Unidos!
Ora vai daí, a vice-presidente da Frente Nacional de Extrema-Direita, Marine Le Pen, filha do Presidente desse Partido, Jean Marie Le Pen, vem desenterrar uma autobiografia desse Ministro, um sobrinho de Mitterrand excomungado pelo PS francês.
E vai buscar essa autobigrafia, já com cinco anos de publicação, pois nela estão escarrapachados alguns pormenores picantes de incursões sexuais na Tailândia, cujos jovens o Ministro parece apreciar com bastante desenvoltura e entusiasmo!
Quão jovens foi a questão que a França debateu na primeira semana de Outubro! Jovens adultos jurou a pés juntos o Ministro e, com ele, o resto do Governo francês!
Assunto encerrado! E com o livro autobiográfico de Frédéric Mitterrand chamado "A Má Vida” a tornar-se num verdadeiro best-seller!

Mas, a bem dizer, se o assunto foi encerrado, foi principalmente porque agora novo escândalo apareceu, desta vez com o segundo filho do próprio Sarkozy.
A coisa é simples: O jovem Jean Sarkozy de 23 anos, com aparente sucesso junto do público feminino, mas com menor sucesso na faculdade de Direito, onde repete o segundo ano, foi colocado pelo papá num alto cargo da Administração Francesa.
Esse cargo é o de Presidente do Conselho de Administração da EPAD, a agência que faz a gestão da zona de “La Défense et les Hauts-de-Seine” com um orçamento de mais de mil milhões de euros anuais e que tem a seu cargo, directa e indirectamente, umas boas dezenas de milhares de funcionários.
Claro que ele não tem a mínima experiência, formação ou maturidade para o lugar, mas a vida é mesmo assim e há que dar oportunidades aos jovens, até porque como o próprio Nicholas Sarkozy já exerceu o cargo há 5 anos atrás, poderá, sempre que for preciso, dar umas boas dicas ao filhote!

Depois das confusões matrimoniais no início do seu mandato, dos boatos que o ligavam à gravidez de uma ministra que nunca quis revelar a identidade do pai da criança, das deselegâncias protocolares com senhoras, como já aconteceu com a Chanceler alemã Ângela Merkl e com a Rainha Isabel II e da piela pública após reunião com Putin, os jornais franceses esperam ansiosos o que decerto virá aí.
Para eles este Presidente é um verdadeiro Maná!
segunda-feira, outubro 12, 2009
À Esquerda de Lisboa, passando por Oeiras!
Terminadas as eleições autárquicas, relativamente às quais manifestei a minha intenção de voto publicamente, surgem-me as seguintes reflexões:Embora convidados para o fazer, a CDU e o BE recusaram participar, para Lisboa, num acordo pré-eleitoral à Esquerda. Esse acordo envolveria naturalmente o PS!
Para mim, face a uma coligação à Direita nada de mais lógico, legítimo e natural que a Esquerda se unisse e se preparasse com armas iguais para a disputa eleitoral em Lisboa.
Entretanto, como se sabe, houve desde há meses muito boa gente a pensar nestes termos e a agir por esta causa!
Centenas de personalidades da nossa vida política, cultural e artística uniram-se e fizeram todos os esforços para que uma coligação de Esquerda se viesse a concretizar.
CDU e Bloco mantiveram-se intransigentes na recusa de um compromisso, sabendo, mas parecendo não se importar, que com a sua posição, estavam a fortalecer as hipóteses de vitória do candidato da coligação de Direita!
Entretanto, revelando que à Esquerda ainda existe alguma lucidez o Movimento de Cidadãos por Lisboa liderado por Helena Roseta, a Associação Lisboa é Muita Gente de José Sá Fernandes e o Partido Socialista chegaram a um entendimento.
A luta eleitoral foi bastante disputada e o resultado já todos o conhecemos!Após o acto eleitoral o que resta para os partidos à esquerda do PS?
A CDU reduziu a sua presença na Câmara a um único Vereador e o Bloco perdeu a presença que lá detinha!
Em vez de participarem, podendo contribuir e influenciar politicamente as decisões camarárias, CDU e BE, seguiram uma estratégia autista, que os levou directamente à derrota.
Estratégia que, paradoxalmente, permite agora que o PS tenha uma maioria absoluta, que eles não têm o mínimo poder para controlar!
Perderam a CDU e o BE mas, com isso, a própria Câmara ficou menos plural e mais pobre!
A votação entretanto fez prova de que, felizmente, os eleitores não seguem cegamente as opções dos dirigentes partidários. E se os dirigentes da Esquerda que temos não foram capazes de entender o óbvio, os eleitores anónimos acabaram por lhes dizer que são os partidos que têm servir o interesse dos eleitores e não o contrário.
Quando o PS errou, ao desvalorizar a a canditura já existente de Manuel Alegre, escolhendo Mário Soares para candidato presidencial, teve a surpresa de ver a maioria dos seus eleitores fugirem para Manuel Alegre!
Será que a CDU e o Bloco pensavam estar imunes a esse tipo de situações?
É bom que tenham aprendido a lição! É bom que percebam que os cidadãos hoje em dia já não precisam de vanguardas iluminadas que decidam por eles.
É bom que reflictam que em Democracia, na casa comum da Esquerda não temos todos que pensar o mesmo sobre as mesmas coisas mas que, quando estão em causa princípios, o que une é sempre mais forte do que o que divide.
Não agir assim é ser sectário e “pequenino” e prestar um mau serviço à Democracia e ao País!
Falo da reeleição de Isaltino de Morais em Oeiras!
É necessário que todos os dirigentes políticos pensem, tanto à Esquerda como à Direita, no fenómeno Isaltino.
Ontem à noite, numa das televisões, foi repetida uma frase que eu já ouvira outras vezes: “Ele rouba, mas todos fazem o mesmo e muitos até roubam mais que ele! A diferença é a de que este foi apanhado!"
Uma votação como a que teve Isaltino de Morais, num concelho como Oeiras, faz-nos acreditar que pensamentos como este já se entranharam e vulgarizaram no caldo de cultura em que este País se afunda!
Uma frase destas surgir em mesas de café, entre amigos, tem a importância de um fait-divers pateta, contudo, quando a dimensão da coisa se torna tão forte que as próprias televisões já reproduzem estes comentários dentro da análise política dos resultados eleitorais, faz-nos perceber que chegámos já ao nível do que de pior existe na América do Sul.
É bom portanto que quem tem poder neste País tome decisões sérias nesta matéria,
Se não, não nos admiremos que em próximas eleições, à semelhança do que era dito de um eterno vencedor de eleições em São Paulo, apareçam, sem escandalizar ninguém, slogans de candidatos dizendo: “Rouba, mas também faz”
terça-feira, setembro 22, 2009
Democracia

Retomo, pois, o tema através de duas citações:
A primeira de um texto da TSF, do passado dia 18, prende-se com o que foi publicado no Diário de Notícias, fazendo um resumo muito elucidadivo do assunto (os sublinhados são meus):
"No texto publicado pelo Diário de Notícias afirma-se que a iniciativa para tornar pública a suspeita partiu do próprio chefe de Estado.
É isso que diz Luciano Alvarez, editor do Público, no e-mail que enviou a 23 de Abril de 2008 a Tolentino Nobrega, o correspondente do Jornal na Madeira.
Alvarez informa-o que se reuniu com Fernando Lima, a pedido deste, e que a conversa começou com o assessor de Cavaco Silva a dizer que estava ali a pedido do chefe de Estado para falar de um assunto grave.
E qual era o assunto?
O Presidente da República acha que o gabinete do primeiro-ministro o anda a espiar e que a maior prova disso tinha sido o facto de José Sócrates ter enviado um funcionário do Ministério da Administração Interna à Madeira só para espiar os passos do presidente e dos homens do seu gabinete durante uma visita ao arquipélago.
Luciano Alvarez relata depois que Fernando Lima lhe entregou um dossier sobre Rui Paulo da Silva Figueiredo, o tal elemento do MAI.
O editor do Público explica depois a Tolentino Nobrega porque lhe escreve: «é que para fazer caminho no jornal, a história tem de começar, com todo o cuidado, na Madeira».
Aliás, continua Luciano Alvarez, é também esse o interesse da presidência da República, tal como lhe disse Fernando Lima.
Belém queria que a notícia fosse revelada a partir do arquipélago para não parecer que foi alguém da presidência que soltou a história, mas sim alguém ligado a Alberto João Jardim.
A seguir, Alvarez propõe a Tolentino Nóbrega dois ângulos de investigação que lhe tinham sido sugeridos pelo próprio Fernando Lima.
O editor do Público revela mais adiante que o assessor de Cavaco lhe sugeriu que tratasse com ele desta história por e-mail porque a presidência está com medo das escutas.

Luciano Alvarez sublinha ainda que esta história só é do conhecimento do presidente da República, do Lima, do director do Público e dele próprio.
O e-mail enviado ao correspondente na Madeira termina com um estímulo e «um abraço e vai-te a eles».
Contactado pelo Diário de Notícias, o jornalista do Público, Luciano Alvarez, afirma também que este e-mail nunca existiu.
Já Tolentino de Nóbrega recusou comentar a notícia, alegando que se trata de um assunto interno do jornal.
A TSF procura ainda esclarecimentos junto da presidência da República, mas até agora sem qualquer sucesso."

A segunda citação que aqui trago é a de um texto de Mário Crespo intitulado CRIME PÚBLICO, e que foi publicado ontem no Jornal de Notícias, após Fernando Lima ser demitido por Cavaco, o que configura, na prática, a admissão de que procedimentos graves terão sido cometidos por aquele membro da equipa presidencial:
"Portanto, o Governo está a espiar a Presidência da República!
Gravíssimo!
Que fazer?
Há várias alternativas para um presidente espiado.
Denunciar o Governo espião e dar-lhe um ralhete exemplar em público (nunca no "Público") utilizando uma comunicação nacional na TV como o fez com irrepreensível dramatismo e inigualável teatralidade com o estatuto dos Açores.
Desta vez, teria de incluir a demissão do Parlamento e a convocação de novas eleições. O caso não seria para menos. Um governo a usar serviços secretos do Estado para espiar outro órgão de soberania exige demissões e eleições.
Mas não.
O presidente da República, o mais alto magistrado da nação, o comandante em Chefe das Forças Armadas, sabe que está a ser espiado. Tem a certeza disso porque, da sua doutrina passada ficou o axioma de que "raramente se engana e nunca tem dúvidas". Estando a ser espiado qual é a actuação realmente presidencial para este caso?
Exigir do procurador-geral da República uma investigação imediata?
Convocar o Conselho de Estado (já com a respeitabilidade recuperada desde a saída de Dias Loureiro)?
Fazer uma comunicação ao Parlamento como é seu privilégio e, neste caso, obrigação?
Nada disso!
A Presidência de Cavaco Silva, através da sua Casa Civil, decide encomendar (mandar fazer in: Dicionário Porto Editora) uma reportagem a um jornal de um amigo.
Como os jornalistas são, por vezes, um bocado vagos e de compreensão lenta, a Casa Civil da Presidência da República achou por bem ser específica na encomenda dando um briefing claro a pessoa de confiança no jornal.
"Vais falar com fulano e pergunta-lhe por sicrano, vais aqui, vais ali, fazes isto e aquilo e trazes a demasia de volta".
O homem ainda tentou cumprir com a incumbência, mas a coisa não tinha pés nem cabeça e parece que lhe disseram isso repetidamente.
Por isso, logo, por causa disso, houve mais um ano e meio de fartar espionagem, enquanto no Pátio dos Bichos continuavam todos a ouvir vozes.
Cavaco Silva deve ter tido uma birra monumental com a sua Casa Civil e mandou perguntar ao amigo do jornal: "Sócrates está quase a ser reeleito e essa notícia não sai"?
Como o que tem de ser tem muita força, a história lá saiu. Mal-amanhada, mas era o que se podia arranjar.
Lá se meteu a Madeira no meio porque, como ninguém gosta do Jardim, gera-se logo um capital de boa vontade.
Depois, como tinha pouca substância, puseram na mesma página duas colunas ao lado a dizer que, há uns anos, o procurador-geral da República tinha dito que também estava a ser escutado, e a encomenda ficou mais composta.
Que interessa que tudo isto seja bizarramente inverosímil? Nos média, o que parece, é.
Cavaco Silva julga que está a ser escutado, portanto, está a ser escutado, tanto mais que o seu recente depoimento presidencial é que "não é ingénuo".
Com tudo isto, fica-me uma certeza. O trabalho de reportagem do "Diário de Notícias" é das mais notáveis e consequentes peças jornalísticas na história da Imprensa em Portugal.
O e-mail com registos claros da encomenda feita por Fernando Lima não é "correspondência privada" que se deixe passar pudicamente ao lado. É uma infâmia pública de gravidade nacional que exige denúncia.
Invocar aqui delações, divulgação de fontes ou violação de correspondência é desonesto.
Ao ver o Presidente e a Casa Civil metidos nisto fica-me também uma inquietante dúvida. Aníbal Cavaco Silva, referência do PSD, ainda tem condições para continuar a ser o presidente de Portugal depois de causar uma trapalhada desta magnitude a dias das eleições? "

Penso que a dúvida final levantada por Mário Crespo tem toda a legitimidade e é aí que a Democracia portuguesa tem que se focar de imediato.
Há coisas que são tão graves que não se podem deixar passar em claro!
Há coisas que forçosamente têm de ser esclarecidas.
Não sei que esclarecimentos irá prestar Cavaco Silva, se é que os vai prestar!
Contudo, sejam eles quais forem, o próximo Parlamento tem poderes constitucionais para tratar este assunto, que deverá, pela sua extrema gravidade, ser encarado como prioritário e urgente e ir, sem hesitação, até às últimas consequências!
Se o Parlamento não o fizer, por medo, inacção ou simples calculismo político, compete aos cidadãos fazer todas as pressões ao seu alcance para que ele cumpra o seu dever!
A demissão do assessor!

domingo, setembro 20, 2009
Jornais e política
Após o próprio Provedor dos Leitores do "Público", Joaquim Vieira, ter criticado a actuação do seu jornal, admitindo a possiblidade de o "Público" ter uma agenda política oculta, o mesmo Provedor avança hoje, em nova intervenção, com factos que merecem ser conhecidos.
Transcrevo apenas uma parte do texto que entretanto poderá ser encontrado no Blog do Provedor do Leitor do Público:
"Na sequência da última crónica do provedor, instalou-se no PÚBLICO um clima de nervosismo.
Na segunda-feira, o director, José Manuel Fernandes, acusou o provedor de mentiroso e disse-lhe que não voltaria a responder a qualquer outra questão sua.
No mesmo dia, José Manuel Fernandes admoestou por escrito o jornalista Tolentino de Nóbrega, correspondente do PÚBLICO no Funchal, pela resposta escrita dada ao provedor sobre a matéria da crónica e considerou uma “anormalidade” ter falado com ele ao telefone.
Na sexta-feira, o provedor tomou conhecimento de que a sua correspondência electrónica, assim como a de jornalistas deste diário, fora vasculhada sem aviso prévio pelos responsáveis do PÚBLICO (certamente com a ajuda de técnicos informáticos), tendo estes procedido à detecção de envios e reenvios de e-mails entre membros da equipa do jornal (e presume-se que também de e para o exterior).
Num momento em que tanto se fala, justa ou injustamente, de asfixia democrática no país, conviria que essa asfixia não se traduzisse numa caça às bruxas no PÚBLICO, que sempre foi conhecido como um espaço de liberdade."
Estes factos, trazidos a lume por Joaquim Vieira, na sequência de tudo o que já se conhece, parecem ser elequentes face a posturas deontológicas e políticas existentes no jornal PÚBLICO.
Neste contexto, parece-me igualmente ser interessante a entrevista que José Miguel Júdice hoje concedeu à jornalista Marina Marques, do Diário de Notícias, e que aqui transcrevo na totalidade:
A revelação por parte do DN do e-mail trocado entre Luciano Alvarez e Tolentino Nóbrega, jornalistas dos Público, é uma violação de privacidade?
Não sei se o e-mail é privado ou se tem interesse público. Acho muito curioso que a imprensa portuguesa, que durante anos e anos não se preocupou com a revelação de escutas, agora que atinge os jornalistas, estes comecem a ficar preocupados.
Considera reprovável, do ponto de vista ético?
É deontologicamente censurável, mas, durante anos, os jornalistas aceitaram que isso fosse possível em muitas situações que não envolviam jornalistas. É como se estivessem a provar um pouco do seu remédio.
Os jornalistas dão muita importância a si próprios. Eticamente, é inadmissível que os jornalistas queiram ser protegidos de uma forma que não se protegem os outros cidadãos.
A relação entre jornalista e fonte descrita no e-mail é...
… de uma gravidade extrema. E se é exemplo da forma como se faz jornalismo neste País, estou como Manuela Ferreira Leite: Não quero viver neste País. A aceitação da instrumentalização por parte do jornalista, se for verdade o que está no e-mail, é lamentável.
Perguntas sugeridas por um assessor, fazer a notícia sair da Madeira...
Considera aceitável que o DN tenha divulgado o e-mail?
É importante que o Diário de Notícias tenha divulgado esta situação.
E é importante que os jornalistas ponham a mão na consciência.
Eu sou amigo do José Manuel Fernandes, mas a reacção do José Manuel Fernandes, que de manhã afirmou que o Público estava sob escuta e depois vem reconhecer que, afinal, não houve qualquer intrusão no sistema informático do jornal, é de uma gravidade absoluta. E nem pediu desculpa.
Depois das suspeições lançadas devia de haver um pedido de desculpa ao País, a todos nós. A comunicação social deve pôr a nu estes métodos de fazer jornalismo.
Se é grave o que Fernando Lima, assessor do Presidente da República, fez, também é grave a comunicação social sujeitar-se a isso.
A revelação deste caso desacredita o jornalismo?
Sobretudo levanta algumas questões: será caso único? Não haverá mais fretes entre políticos e jornalistas?
A partir deste caso, os jornalistas deveriam aproveitar para fazer uma reflexão, com muita coragem, para estigmatizar práticas profissionais inadmissíveis. Enquanto bastonário da Ordem dos Advogados fiz isso junto dos advogados. Acho que é essencial que assim seja em qualquer actividade.
O interesse público justifica a publicação do e-mail?
Está tudo a arrancar os cabelos porque é um jornal a fazer a outro jornal aquilo que é prática da comunicação social fazer a outras entidades não jornalísticas: publicar e revelar documentos, mesmo que protegidos pelo segredo de justiça, em nome do interesse público. Esta dupla ética não é aceitável.
Há uma prática muito comum nos países civilizados que é a de os vários orgãos de comunicação social manifestarem explicitamente as suas opções políticas e partidárias, e as suas declarações de interesses relativamente ao poder económico.
Em Portugal existe o mito do jornalismo independente... O que é uma completa hipocrisia!
Ninguém é neutro perante a vida e mundo! Todos temos as nossas opções e opiniões, e os jornalistas, directores e proprietários dos orgãos de comunicação social também as têm! Naturalmente!
Essas opções e opiniões até podem variar, oscilando com o tempo, como acontece com os jornais ingleses, franceses ou americanos, só para citar alguns dos países com imprensa mais conhecida entre nós .
Mas é precisamente essa capacidade de oscilação e de alteração de posição política de jornais, rádios e televisões que transmite um verdadeiro sinal de independência do jornalismo face aos vários poderes! E de transparência junto do público.
Neste País, infelizmente, ningém parece ter a coragem de dar esse passo, como se houvesse uma conveniência muito profunda em não o fazer.
A consequência previsível é a de que, mais dia, menos dia, teria que surgir o odor da podridão, que resulta da promiscuidade e conivência entre os meios informativos, os partidos e instituições...
O espectáculo que neste momento se está a assistir, ainda sob a insistente máscara da independência jornalistica, constitui um verdadeiro atentado à seriedade da democracia e da liberdade de informação, que é preciso esclarecer até ao fim, para que haja o mínimo de salubridade na nossa vida em sociedade!
Se algum benefício vier a ter esta confusa situação criada entre o poder e os jornais é o de destapar, junto dos mais desprevenidos, essa máscara!
sábado, setembro 19, 2009
Presidente

Trago aqui duas citações (parciais) na comunicação social de hoje, a propósito de uma "encomenda" que um assessor presidencial teria feito a um jornalista do Público, entregando-lhe inclusivé um dossier sobre um assessor do Governo:
A primeira do Director do Diário de Notícias tem o título UM SILÊNCIO SUSPEITO (parte II):
"Numa Presidência da República nunca há 'fontes'.
Há factos, comentários ou opiniões, que um Presidente, em certas alturas, quer tornar do domínio público sem se comprometer por via oficial, nem sequer com uma nota.
E há colaboradores para executarem a vontade e a estratégia do Presidente. Quando não o fazem, obviamente passam imediatamente a ex-colaboradores.
É por isso que o silêncio de Cavaco Silva pesa sobre a actual suspeita de pseudovigilância ilegal às comunicações dos seus assessores por parte de 'alguém' do gabinete de José Sócrates" ("Um silêncio suspeito", escrito a 22 de Agosto)
"É absolutamente condenável a estratégia da Presidência da República nesta questão. Ou a notícia é falsa e já deveria ter sido desmentida; ou a notícia corresponde ao que o Presidente pensa e só poderia ter duas consequências: queixa na Procuradoria e demissão do Governo" (Idem)
"1. As críticas que aqui fiz ao comportamento político do Presidente da República (PR) no caso das alegadas escutas de São Bento a Belém mantêm-se não só actuais como até ganharam uma outra dimensão e gravidade com a notícia publicada ontem pelo Diário de Notícias.
A reacção de Cavaco Silva é preocupante para a democracia portuguesa.
O PR, mais uma vez, não se demarcou da tarefa de que terá incumbido o seu assessor (que se tivesse exorbitado deveria estar já sumariamente despedido). Antes pelo contrário, afirmou, de forma clara, que vai "averiguar questões de segurança" depois das eleições.
Estas palavras são contraditórias com a afirmação de que não pretende influenciar o período eleitoral. Além do mais, escondem uma outra hipocrisia: se o PR não queria influenciar, porque utilizou o assessor para dar uma "notícia" em vésperas das eleições?
Um PR não se pode prestar a estes papéis. Ou tem certezas e age, com coragem; ou não tem certezas, e averigua calado. Ora Cavaco Silva não apresentou nenhuma queixa na Procuradoria, não pediu esclarecimentos ao SIS, não demitiu o Governo. De forma irresponsável, permitiu mesmo que se acendesse a fogueira da dúvida.
2. Enquanto não negar responsabilidades pessoais no comportamento do seu colaborador de 20 anos, o PR é suspeito de acusar sem provas, de lançar a instabilidade no País.
Acresce um outro aspecto: depois de 27 de Setembro, data em que começará a "averiguar", já estará eleito um outro primeiro-ministro, que pode ser o mesmo, legitimado pelo voto popular apesar das suspeitas presidenciais sobre ele. Esta não é uma questão de pormenor. Vai com certeza introduzir ainda mais instabilidade num quadro partidário que pode não vir a ter uma solução estável para quatro anos.
Pessoalmente, confesso-me surpreendido. Reconheci sempre em Cavaco Silva uma autoridade moral que me parecia um importante resguardo para o Estado português - e agora não sei que pensar. Eu e, com certeza, muitos cidadãos."
A segunda, de Emídio Rangel, do Correio da Manhã e tem como título A CONSPIRAÇÃO:
"[...] é um facto que a “inventona” das escutas a Belém foi gerada, na Presidência da República, por Fernando Lima, um homem-forte do Presidente e utilizou o jornal Público, dirigido por José Manuel Fernandes, que agora abandona o barco, ao que se diz, para se juntar ao staff do Presidente da República.[...]
Se se confirmar (é necessária a reconfirmação de tudo) tudo o que ficou agora jornalisticamente provado e se, em tempo útil, o Presidente da República não se pronunciar sobre o assunto, mostrando-se à altura do cargo e das responsabilidades que os portugueses lhe confiaram, não há outra saída que não seja a resignação.
O Presidente da República está “acusado” de promover uma conspiração contra outro órgão de soberania, enquanto prega a cooperação institucional entre Belém e S. Bento. Ou prova, ou se demarca, sem equívocos, ou resigna, porque feriu de morte a confiança dos portugueses e já não pode continuar a ser o garante do regular funcionamento das instituições democráticas.
Quem adopta estas práticas perde todas as hipóteses de continuar a exercer uma magistratura de influência na sociedade e não será mais aceite como Presidente de todos os portugueses. O assunto é muito grave. [...]»
quinta-feira, setembro 17, 2009
A minha opção

Ao ter chegado embati naturalmente na campanha eleitoral e portanto na polémica à volta do TGV.
Curiosamente, na Polónia, encontra-se em fase adiantada a construção do TGV e, face aos argumentos que aqui tenho ouvido, sinto-me no meu País a viver dias de absurdo e de pura hipocrisia política.

Mandaria a prudência que o assunto TGV, que naturalmente merece ser discutido, não fosse agora utilizado como arma de campanha política, até porque um dos partidos envolvidos, o PSD, se apresenta nestas eleições com o slogan “Política de verdade”.
O facto é que, das relações internacionais às leis laborais, das medidas sobre a justiça às ambientais, das urbanísticas às da saúde, das agrícolas às de educação, da justiça social aos apoios sociais, há todo um mundo de coisas importantes a discutir que, por causa do TGV, ficaram completamente nas zonas sombrias desta campanha.
E se assim é…. Vou também eu meter a minha modesta colherada neste assunto.
E começo por referir que se relembrei aqui o slogan “Politica de verdade” do PSD foi porque o Governo, em que Manuela Ferreira Leite era a Ministra das Finanças, após ter acordado com o Estado Espanhol a construção de várias linhas de TGV, produziu em 26 de Junho de 2004 uma Resolução do Conselho de Ministros, que merece ser vista agora com toda a atenção.

Essa Resolução que pode aqui ser consultada encontra-se publicada no Diário da República e nela encontram-se previstas 5 linhas de alta velocidade, sendo explicado o seguinte:
“A rede ferroviária de alta velocidade assume-se como
um projecto de investimento estruturante que permite
o desenvolvimento de competências empresariais próprias,
assegurando a participação de empresas e indústrias
locais nas diversas fases do projecto incluindo execução
e operação, contribuindo para o crescimento do
produto interno bruto e induzindo a criação de emprego
sustentado, factor decisivo da coesão social do País.”
E na verdade, apesar de a tecnologia sobre a qual assenta o TGV não ser nacional, de acordo com os estudos da altura, e que hoje ainda se mantêm válidos, cerca de 85% do equipamento pode ser produzido pela indústria do nosso país!
Por isso mesmo, a simples construção do TGV, levava o Governo em que Manuela Ferreira Leite era Ministra das Finanças a afirmar que essa obra iria movimentar fortemente o tecido empresarial português, podendo, só por si, elevar anualmente o PIB em mais de 1,7 pontos percentuais, o que resultaria num aumento de receitas fiscais bastante considerável, num efeito catalizador do desenvolvimento do País (até pelo acesso a novas tecnologias) e até numa diminuição de assimetrias regionais!
Isso mesmo encontra aqui desenvolvido nesta notícia da época.
Estranho muito, por isso, que a líder do PSD venha agora dizer que o “TGV é enfeite de novo-rico” e que o “País está endividado e quer uma coisa de que não precisa”.
Afinal quando é que Manuela Ferreira Leite estava a revelar verdadeiramente o seu pensamento sobre a utilidade do TGV?
Antes, quando preparava o argumentário para que Durão Barroso nos garantisse que o TGV era excelente para o País?
Ou agora, como líder do PSD, em que diz que o TGV é uma desgraça desnecessária

A explicação que Manuela Ferreira Leite dá para a sua mudança de opinião, quer sobre a utilidade, quer sobre a oportunidade deste empreendimento, radica, segundo ela, no actual nível de endividamento externo do País, problema que diz resultar da incompetência de Sócrates.
Assim sendo, falemos então, sobre o tal endividamento:
Como todos sabemos a origem do endividamento externo português está no seu tradicional défice comercial: Importamos mais do que exportamos!.
Acresce que, infelizmente, Portugal não é produtor de petróleo, o que torna esse défice crónico e quase inevitável, dado o perfil das nossas exportações.
Mais de metade das importações portuguesas são de combustíveis, e o que o Manuela Ferreira Leite deliberadamente omite é que nos últimos 3 anos anos o preço da parcela mais importante das nossas importações – o petróleo - cresceu 3 vezes!!

Será que MFL nos está a querer convencer que Sócrates poderia alguma vez controlar o preço do petróleo nos mercados internacionais? A dita incompetência afinal só poderia provir daí!
MFL esquece-se ainda de dizer que, apesar desse nível excepcional de crescimento do preço do petróleo, o rácio de endividamento face ao PIB passou de 64% em 2003 para 95% em 2008, o que significa que, apesar de tudo, Portugal conseguiu diminuir o impacto desse aumento de preço no nosso endividamento de 125% para 48%.
Vale a pena referir que as razões desse amortecimento do impacto foram várias, e justiça seja feita, se deveram a políticas internas! Realço duas:
Uma, ainda de importância financeira reduzida, mas extremamente relevante como indicação de caminho futuro traduz-se na aposta nas energias renováveis lançadas pelo Ministério da Economia, que permitiram já reduções nas importações de hidrocarbonetos.
Outra, de maior relevância financeira, foi sem dúvida a pesada e desagradável política fiscal de tributação dos combustíveis, que tiveram um efeito significativo na redução da procura e portanto da factura energética.
Trata-se aliás de uma política tão pesada e tão desagradável que o PSD e o CDS se fartaram de protestar contra ela…
Ora se o Governo tivesse seguido os “conselhos” destes partidos, aliviando a carga fiscal para que o transporte rodoviário se continuasse a fazer ao mesmo nível, o que aconteceria?
Aconteceria que o nosso endividamento estaria não nos 95% de que a Dra. Manuela se queixa, mas dispararia no mínimo para 120% do PIB. E aí sim, o rating financeiro do País desceria às ruas da amargura, com todas as consequências para o custo do dinheiro para os nossos bancos, empresas e famílias!
Bom, mas voltando ao argumento de Manuela Ferreira Leite, será que o actual nível de endividamento face ao PIB é algo de tão aterrador que iniba os investimentos grandes investimentos propostos?
Esquece também aqui a Dra. Manuela que se trata de investimentos faseados no tempo e comparticipados pela União Europeia. Mas parece que para a Dra. Manuela a diluição no tempo ou a concentração temporal dos gastos orçamentais são uma e mesma coisa, e que as comparticipações de muitos milhões são irrelevantes....
Por outro lado, quanto ao efeito nas condições internacionais de crédito, a verdade é que excepto uma agência de rating, a tal, tão credível, que dava à Islândia a sua cotação máxima em vésperas de bancarrota, as duas outras agências de rating não baixaram o ranking do Estado Português, que se situa ainda no nível AA !
E mesmo essa agência, tão considerada pela Dra. Manuela, a S&P, colocou o nosso País, ao mesmo nível da Espanha, Irlanda, Grécia e Itália entre outros países da União!

Acresce ainda que essa indicação de rating que serviu de pretexto a Ferreira Leite para a sua cruzada anti-TGV, se refere a 2008 e que, entretanto, desde Março deste ano, os indicadores de referência, que utilizam como padrão a dívida pública alemã, vêm aproximando os da divida portuguesa aos da dívida germânica, o que significa uma proximidade de Portugal aos parâmetros do padrão mais elevado de confiança.
Manuela Ferreira Leite, deve sabê-lo, mas prefere omiti-lo.
É esta a “Política de verdade”? Ou será que se prepara, caso ganhe as eleições para, poucos meses depois, declarar que o problema do endividamento foi resolvido por ela e que por isso já poderemos voltar a pensar em TGV!
Sinceramente, compreendo a posição de todos aqueles que sempre foram contrários ao TGV por acharem que ele não seria necessário, em termos de expansão ferroviária e de ligações ao centro da Europa. Contudo, no que se refere a Ferreira Leite, fica claro que as suas motivações, pouco têm que ver com convicções ou com a verdade. Têm que ver apenas com um enorme apetite pelo poder…
Quem leu alguns dos posts que aqui coloquei sobre política nacional percebeu claramente que não sou um apoiante de José Sócrates, mas neste caso, concordo em absoluto com ele quando refere que a atitude de Manuela Ferreira Leite é uma atitude retrógrada, uma atitude do passado.
Manuela Ferreira Leite joga sem pudor com alguns factores que crê poderem dar-lhe alguns dividendos políticos.
Em primeiro lugar deve considerar que para além de memória curta, o povo português não tem inteligência.
Em segundo lugar omite dados, manipula conceitos e números crendo que somos todos ignorantes, possivelemente na convicção de que a Economia é seu território exclusivo!
Em terceiro lugar, revelando uma faceta bastante perigosa e irresponsável, utiliza de forma atabalhoada, como factor de mobilização popular, o apelo a sentimentos primários face a imaginários adversários externos.

Neste caso, procurou tirar do baú o sentimento anti-espanhol, como se os eleitores fossem garotos acabados de sair da aula de História onde se aprendeu que Miguel de Vasconcelos foi defenestrado por estar feito com os castelhanos, e que D. Luísa de Gusmão, que por acaso era uma espanhola dos quatro costados, se saiu com a patriótica tirada “Mais vale ser rainha uma hora que duquesa toda a vida” !
Chamar baixa política aos argumentos de Ferreira Leite, que ainda não há muito tempo foi administradora não executiva de um banco espanhol, não é por isso insulto, é o corolário lógico de quem tem alguma memória, algum conhecimento dos factos e tem o mínimo de senso!
Termino lembrando o seguinte:
Apesar dos primeiros projectos para a construção do Metro de Lisboa serem de 1888, apesar de várias linhas na Europa se terem iniciado na transição do século XIX para o século XX e apesar de se ter percebido, desde sempre, a vantagem deste meio de transporte, em termos de qualidade de vida e ordenamento urbano, só em 1959 e depois de 13 outros países da Europa já o terem feito, é que Portugal inaugurou a sua pequena linha de Metropolitano.

Depois de a Alemanha ter sido pioneira na Televisão em 1935 e de o Reino Unido e a França a terem imitado nos anos seguintes, depois de as emissões a cores se terem iniciado em 1954 nos Estados Unidos, Portugal, só em 1957, com um Salazar bastante contrafeito, iniciou emissões televisivas regulares, atrás de quase todos os países europeus e mesmo de vários da América Latina.

Esses foram os tempos em que o Banco de Portugal acumulava barras de ouro e o País era o mais pobre e atrasado da Europa. O Pais onde ainda circulavam carroças nas ruas de Lisboa e a modernidade chegava com décadas de atraso.
Eram os tempos de Salazar cuja fixação, em termos financeiros, era a do equilíbrio orçamental e do défice zero. Ainda que para isso (quase) todos tivessemos que viver numa apagada e vil pobreza…
Manuela Ferreira Leite diz agora que para ela um Estado Moderno é um Estado Rico e que para isso parará o programa de obras públicas que o actual governo propõe….
É uma frase muito infeliz, pouco lúcida, que remete para um modelo passado que julgava não voltar a ver repetido…. Mas que, vindo de quem vem, já não me surpreende, face a tantas afirmações infelizes já proferidas sobre outras matérias…
Sendo realista, analisando o que vejo e oiço, face aos dois únicos possíveis candidatos a Primeiro-Ministro direi, como disse ontem Adriano Moreira que desta vez temos que optar por um mal menor (bom, ele foi um pouco mais duro e disse literalmente que iria votar no menos péssimo…)!
Eu, no próximo dia 27 irei votar PS… A perspectiva de ter Manuela Ferreira Leite como Primeira-Ministra deixa-me verdadeiramente aterrorizado!
segunda-feira, agosto 31, 2009
Antes de partir, no entanto resolvi falar um pouco de dois assuntos, um recente e outro mais antigo, pois um trouxe-me à lembrança o outro.
Passo a explicar:
“Um fado xunga e mal falado”… É assim que termina a versão criada por Hermínia Silva para o Fado Falado que foi apresentado nos palcos de uma revista nos finais da década de 40 por João Villaret.
O texto é de um grande autor da época Nelson de Barros e João Villaret, um dos maiores actores e declamadores portugueses de sempre, tornou-se num mito e dos mitos nunca convém associar algo de negativo, pois se o fizermos, é quase um sacrilégio e cai-nos em cima este mundo e outro.

O certo é que O Fado Falado tornou-se muito popular, e ainda hoje é interpretado por vários artistas, mas a verdade também é que se trata de um texto menor e se a ele acrescentarmos o dramatismo que a representação de Villaret lhe deu, roça verdadeiramente o absurdo e o ridículo.
Hermínia Silva teve claramente essa percepção e criou uma paródia a esse texto, criando o Fado Mal Falado, bem mais interessante e inteligente até e que o original…
Fê-lo sempre contudo com o devido respeito ao mito Villaret, pois apesar do sucesso que obteve esta sua caricatura, após a morte do actor interrompeu a apresentação desse número, durante pelo menos 4 anos, em consideração à sua memória, retomando-o depois sempre com grande sucesso popular.
Villaret, entretanto, divertira-se sempre imenso ao ver Hermínia a parodiá-lo!

Este era o assunto antigo, que me veio à memória, assim que li com alguma atenção o pobre programa eleitoral do PSD, perdoe-se a expressão, mas “xunga e mal falado” foi a imagem que se colou à sua leitura.
Ao abordar a temática agrícola e o PRODER lê-se o seguinte:
Impõe-se aqui colocar o Ministério da Agricultura efectivamente
ao serviço dos agricultores, numa perspectiva de fornecedor/
cliente, alterando o seu funcionamento e simplificando os
processos, e tornando-o competitivo na captação e gestão dos
fundos comunitários.
Um Ministério a funcionar para uma classe na perspectiva “fornecedor/cliente”?
Claro que certamente é isto que os Partidos têm a tentação de fazer, mas dizê-lo assim tão claramente é estranho.
Com este texto, os seus autores, autorizam que se pense que o PSD é permeavel a que o Estado se deva moldar ao agrado de clientelas.
Vejamos o caso concreto, actualmente o PRODER apoia múltiplos projectos de acordo com uma fileira de prioridades, de que é exemplo o olival e a produção de azeite, com o objectivo de aumentar a produção de um produto de que já fomos auto-suficentes.
A perspectiva de um Estado é definir políticas para a Agricultura, que podem até conflituar com alguns grupos de agricultores. Deve estabelecer regras, traçar rumos, validados em eleições livres e não satisfazer apetites clientelares!
Será que, neste caso, o assunto foi simplesmente, mal apresentado... “mal falado”!

Mas, este foi apenas um sinal deste Programa eleitoral, que se torna preocupante, porque noutros pontos traduz algumas políticas que vão exactamente no sentido dos temores que referi:
-Suspender a aplicação da avaliação dos professores, querendo vir a aplicar um outro modelo, mas que não se sabe ainda qual será!
Possivelmente até será o modelo que já se encontra em preparação no actual ministério. Afinal os técnicos que fazem estas coisas vão transitando de governo em governo e acabam por ser eles quem verdadeiramente manda!
Bom, mas também aqui, apesar de vaga e vazia, a proposta do PSD está feita especificamente para captar o apoio de um certo grupo de clientes…. Mas será que eles vão nisso? Não custa tentar!
- Acabar com o pagamento especial por conta das Empresas, no IRC.
Eu que sou trabalhador por conta de outrem também faço o meu pagamento especial por conta todos os meses, quando me abatem o IRS, para depois fazerem o acerto no final do ano… O pagamento especial por conta para as Empresas segue ao fim e ao cabo a mesma filosofia fiscal que nos abrange a todos!
Com esta proposta o PSD preocupa-se pois com as empresas, naquilo que normalmente dói mais a todos, empresas e cidadãos comuns, a sua tesouraria e o seu rendimento….
Neste caso, a preferência vai para as empresas e sempre serão mais uns clientes que se poderão captar!
Mas neste Programa as empresas têm mais boas surpresas!
Ao propor-se baixar a TSU que está a cargo dos empresários em dois pontos percentuais, o PSD diz que é para tornar as empresas mais competitivas, baixando o custo do factor trabalho…
Lembram-se quando o actual Governo baixou o IVA num ponto percentual que reflexos essa baixa teve nos preços ao consumidor? Que efeitos teve na competitividade? Nenhuns, como sabem!
Bom, imaginam portanto qual será o destino desta proposta de poupança para as Empresas!
Bom, mas mais importante que isso, como ficariam depois desta medida, as receitas da Segurança Social… Segundo o PSD o Estado compensará os respectivos fundos…. Pois…. Mas a prática do PSD, até no tempo em que Manuela Ferreira Leite esteve no Governo, foi a de nunca respeitar as transferências orçamentadas para a Segurança Social.
Será que iria agora transferir verbas ainda maiores, numa altura em que simultaneamente refere que o Estado está sem recursos????
Bom, mas no fundo, no fundo o que é que isso interessa! Se os clientes, que por coincidência são igualmente os empresários ficarem satisfeitos , isso é que é importante!
Claro que este alívio da TSU que o PSD promete às empresas, leia-se aos bolsos dos donos das empresas, terá consequências para outros, mas esses outros talvez não sejam os clientes preferenciais do PSD e talvez, bem conversadinhos até se consigam convencer que a medida também é boa para eles.
Diz o PSD que ajudará a baixar o desmprego…. E nem se riem nem nada…. São uns artistas!
Ora o facto é que para esses clientes de segunda, medidas destas levam a que daqui a uns anos se volte a dizer que a Segurança Social está falida, que as pensões têm que baixar e a idade de reforma tem que subir.
Levam também a que se diga que a solução é o recurso individual a esquemas privados que as seguradoras decerto terão para oferecer.
Seguradoras, que são aliás outro grupo de clientes muito respeitaveis que importa também tornar contentes!
Penso que todo o pais conhece a origem e os pressupostos ideológicos do PSD. Contudo, quando em tempos ainda afirmava social-democrata, havia uma maior elegância, das suas propostas…
Estas de agora só me conseguem trazer à ideia a frase final do Fado Mal Falado: Xunga e mal falado!
E termino, indo para longe, sem saber ainda em quem votar no final de Setembro (apesar de saber já em quem não votar
Termino com aquilo que me parece que verdadeiramente vale a pena, que é genuíno e inteligente, com a Hermínia e o Fado Mal Falado:
segunda-feira, agosto 24, 2009
A propósito de uma notícia
"Os empresários portugueses, que têm viajado com o Presidente da República e com o Primeiro-Ministro não aproveitam para desenvolver negócios com empresários locais, mas com outros empresários da comitiva, revela um estudo universitário divulgado, na edição desta segunda-feira, pelo Jornal de Notícias (JN).
Em vez de estabelecer contactos com empresários dos países que estão a visitar, a maioria dos empresários portugueses prefere manter as redes de negócio dentro da própria visita oficial.
.................................................

Esta situação, que certamente, não deixará surpreendido Cavaco Silva, não é senão um dos muitos sinais de atraso e falta de lucidez de uma boa parte do nosso empresariado.
Já lá vão longos anos, quando andei a estudar Gestão de Empresas, que nos era ensinado que a má preparação dos nossos empresários era uma das principais causas do nosso atraso.
Empresas mal geridas, empresários mais preocupados em ter bons carros e boas casas do que em investir nas suas empresas, produzem um tecido empresarial fraco e uma economia débil.
Estes factores de há muito que eram conhecidos e há muito que urgia uma mudança!
E diga-se o que se disser dos políticos, eles, umas vezes melhor, outras pior, têm cumprido a sua missão.
Conseguiram fazer-nos entrar na União Europeia, e com essa entrada, foram chovendo fundos comunitários, para projectos vários, na industria, na agricultura, nas pescas e no comércio, cujo âmbito temporal foi sucessivamente alargado pelos vários governos.
Da Europa veio dinheiro que financiou acções de formação para tudo e mais alguma coisa.
Muitas vezes essas acções foram conduzidas por associações empresariais, de acordo com os interesses e necessidades que definiram, e afinal acabamos por verificar que pouco efeito tiveram na atitude dos empresários.
Empresários que, entretanto, passaram a ser chamados de “empreendedores”, mas que se comportam na prática como mero “patronato”, já que apontam sempre, em todas as circunstâncias, como a solução prioritária para os seus problemas “uma maior flexibilização das leis laborais”!
Apoios às PME, são, actualmente, o clamor de alguns dos nossos partidos políticos… Podem-se certamente criar mais alguns…. Mas na verdade esse clamor é apenas, e só, mero oportunismo político, em época de campanha.
Ao longo dos anos o Estado, através de todos os Governos, tem vindo a criar programas, incentivos, isenções e ajudas.
Visite-se, por exemplo, o site do IAPMEI, e também o conjunto de programas existentes no âmbito da União Europeia, a maior parte de aplicação entre 2007 e 2013 e ver-se-á, a quantidade de opções já existentes ao dispor dos empresários.
Mas para isso é preciso que eles queiram mudar algo e saibam o que devem mudar, saibam para onde querem ir!
E depois que se dêem ao incómodo de informar-se (as associações têm aí um papel importante), e que estejam dispostos assumir os custos dos riscos com a mudança.
Enfim, que queiram mexer-se, não ficando à espera que um qualquer subsídio lhes caía do céu!
Ser empresário implica, face ao mercado ser criativo (e não limitar a imaginação a contornar as leis fiscais), e implica, face à sua organização interna, ter bons instrumentos de gestão, nomeadamente uma boa contabilidade analítica e saber fazer bom uso dela…
Em tempos estive profissionalmente envolvido num projecto público, com fundos europeus, para a modernização de um determinado sector económico. Havia uma subsidiação fortíssima que chegava a atingir os 70% a fundo perdido e, mesmo assim, foi necessário andar a bater porta a porta para que alguns, poucos, aderissem!
Tal como em muitos outros aspectos da nossa sociedade, o nosso progresso depende de uma mudança de mentalidades, o que é algo que pode levar gerações.
Mas será que não há sucesso empresarial no nosso País?
Claro que há!
Para além dos habituais nomes sonantes de Belmiros e Amorins, veja-se por exemplo o caso do sector vinicola, onde por todo o país vão aparecendo jovens bem preparados, muito deles pertencentes a famílias com peso tradicional no sector, criando produtos de qualidade e já com reconhecimento internacional!
E ao ver esse sucesso nesse sector específico, atente-se nas razões pelas quais noutras actividades agricolas, explorações há longo tempo decadentes em mãos nacionais, se tornam rentáveis com a chegada de investidores estrangeiros.
É, talvez aqui, na agricultura, que se tornam mais visiveis as diferenças sociais e de sucesso, ou insucesso, consoante a respectiva origem familiar! Consoante houve ou não a capacidade das novas gerações, adquirirem conhecimentos e de as antigas gerações conseguirem dimensões nas propriedades que lhes permitam adequadas economias de escala.
Por isso mesmo a agricultura é um caso à parte, porque para além da necessária modernização, das questões técnicas e de imprevisibilidade natural, há ainda a considerar as questões fundiárias, de actividade cooperativa e de emparcelamento.
Mas também há, sucessos na indústria e serão esses os casos que devem ser divulgados!Não como trunfo de campanha eleitoral de quem governa, pois o que os industriais bem sucedidos obtiveram, conseguiram-no com a sua persistência e a sua luta, …. Mas sim como um exemplo para os restantes.
Entretanto, o que vamos sabendo de alguns gestores bancários, ultimamente muito falados, dá-nos a perceber que a qualidade técnica e ética do nosso empresariado é muito mais problemática do que muitos de nós julgávamos e que a fraqueza do nosso "tecido empresarial" não se encontra apenas restrita ao mundo dos pequenos negócios.
Este estudo hoje vindo a lume no JN e na TSF, só nos faz confirmar mais profundamente essa percepção.
Esteja quem estiver no Governo, a Economia do País só virá a ser competitiva, após um esforço monumental na Educação, que produza empresários, mais cultos, mais preparados, com horizontes mais alargados. E disso, só após, algumas gerações Portugal colherá os frutos!
Fazer campanhas eleitorais ao pé de produtores de batata com queixas de falta escoamento, porque as cadeias de distribuição optam por batatas estrangeiras, é um péssimo serviço prestado ao país e à agricultura.
No século XXI, produtores de batatas, ou de sapatos, ou de mobílias, são empresários, e sejam pequenos ou grandes, têm que saber ir à procura dos compradores, têm que possuir estratégias de marketing, têm que ser mais do que simples, lavradores, sapateiros ou carpinteiros.
E se não o souberem ser, por falta de preparação ou de meios, aí torna-se decisivo o papel das suas associações, para os encaminhar, para lhes prestar assessoria, para lhes dar a formação adequada… Fazer desfiles de tractores não resolve o problema! Nem o deles nem o da nossa economia em geral.
Referir-se ao sector agrícola da economia, como “Lavoura”, como faz Paulo Portas, não é um mero acto de charme linguístico, é uma designação que comporta um sentido sociológico muito preciso. Um sentido que nos remete para o passado, para “os bons velhos tempos” em que não havia um mercado aberto e liberal que o próprio Portas ideologicamente defende.
É, portanto, um acto de profunda demagogia e desonestidade intelectual, nas visitas aos “lavradores” tentar aliciar votos dos que mais sofrem com a inadaptação aos novos tempos, para depois ser arauto do liberalismo e da diminuição do papel do Estado, o que coloca sempre os mais fracos, os menos preparados à mercê da lei da selva!
Por tudo isto esta campanha está a revelar-se profundamente desoladora e triste...
Por tudo isto e muito mais, sobre o qual poderia estar aqui a perorar durante horas, estou indeciso ainda sobre o meu voto.
No entanto, quer por razões ideológicas, quer pelo seu péssimo desempenho governamental no passado excluo, desde já Paulo Portas e Manuela Ferreira Leite a qual aliás, num espaço de 20 minutos foi capaz de dizer, na passada semana, que não conhecia o verdadeiro estado das finanças públicas, pois achava que os dados oficiais não transmitiam a gravidade da situação e que contudo podia garantir que não aumentava os impostos!
Acho que a hipocrisia, o descaramento e a inconsciência não são próprios de quem se propõe governar um País.
terça-feira, abril 14, 2009
Lisboa 2009

Ontem surgiu um Apelo para a Convergência da Esquerda em Lisboa, tendo em vista as próximas eleições autárquicas.
Nada mais natural, dado existir já uma convergência dos partidos mais à direita para este mesmo efeito!
Penso que seria útil para a democracia que desta vez houvesse a possibilidade de uma escolha muito clara entre dois modelos de governação da cidade, entre duas formas de ver Lisboa.
Permito-me citar de cor as palavras do Arquitecto Aquilino Ribeiro Machado, um dos porta-vozes desse Apelo, quando diz que mais do que construção Lisboa precisa de recuperação e de reconstrução.
A Lisboa que eu conheci em criança, tem sido, ao longo de décadas, paulatinamente destruída por efeito da especulação imobiliária.


Zonas inteiras da cidade encontram-se perfeitamente descaracterizadas e antes que desapareça o pouco que ainda resta da beleza e do romantismo que os nossos antepassados imprimiram nas pedras de Lisboa, é tempo dos seus cidadãos intervirem e seja nos partidos, seja em movimentos cívicos, lutarem em favor daquilo em que acreditam.
A apatia dos cidadãos leva a que os oportunistas e os especuladores ocupem todo o espaço.
No meu caso concreto apoio sem reservas este Apelo, pelo que deixo aqui o respectivo link para quem igualmente o desejar subscrever.
http://www.petitiononline.com/porlx/petition.html
António Borges ontem disse na RTP que este apelo é um acto de desespero da Esquerda, pois já percebeu que Santana Lopes pode ganhar em Lisboa.
E isso não será motivo para desesperar, não apenas a Esquerda, mas todo e qualquer cidadão sensato e amante desta cidade?
Termino com o desejo que, da Direita à Esquerda, o apego à competência, ao rigor e aos interesses da capital não seja estranho ao Amor e ao Respeito que devem ter pela cidade de Lisboa e não repitam estes tristes exemplos que nas últimas autárquicas deixaram espalhados pela nossa capital, desfigurando as suas praças.

sexta-feira, abril 03, 2009
Um título de um filme
Como saberão os meus caros amigos deste percurso bloguistico, são questões do foro familiar que inibem a minha vinda regular a este espaço.
Entretanto, resolvi hoje vir até aqui matar saudades e em jeito de desabafo, falar de algo que, de algum modo, hoje ou amanhã pode vir a afectar cada um de nós.
Todos sabemos que a idade ao avançar pode trazer consigo problemas sérios. Infelizmente, nem todos têm a sorte de “morrer cheios de saúde” aos 100 anos, pacificamente, durante o sono.

Muitos, na verdade, começam a partir aos poucos, perdendo a lucidez, ficando sem mobilidade e vivendo os seus dias entre a apatia e o crescente sofrimento físico.
É de uma forma genérica, o que se passa com os meus pais, ambos já octogenários e foi portanto, esta situação, que ao surgir de forma repentina, veio mudar radicalmente a minha vida, como seu filho único.
Esta situação inesperada que refiro aconteceu de uma forma que eu, como leigo em Medicina, desconhecia existir.
Ao ser diagnosticada à minha mãe a doença de Alzheimer, cujos sintomas mais fortes eram esquecimentos e dificuldades em certos raciocínios foi-lhe passada uma medicação específica para o problema. Até aqui tudo bem!

O facto é que, não só os efeitos secundários desse medicamento foram extremamente debilitantes, mas também lhe provocaram o chamado “efeito paradoxal”, efeito cuja existência ignorava por completo.
Este efeito caracteriza-se pelo facto de uma determinada medicação poder fazer exactamente o oposto do que deveria. E foi o que aconteceu!

No espaço de 15 dias a minha mãe, que apesar dos esquecimentos e confusões era autónoma na sua higiene pessoal e conseguia desempenhar pequenas tarefas diárias, tornou-se totalmente dependente, perdeu a noção do tempo e do espaço, ficou quase sem mobilidade e perdeu inclusive a capacidade de mastigar alimentos.
Uma transformação tão profunda levou naturalmente a uma nova acção médica, para que pudesse ser revertida, e foi o que se tentou e parcialmente se conseguiu.
O resultado final, contudo, foi que apesar de recuperar um pouco da lucidez e a capacidade de comer sozinha, perdeu definitivamente muita da sua mobilidade, tornou-se incontinente e ficou completamente dependente para quase todos os actos da sua vida quotidiana.
Quando um filho (no meu caso único) vê um panorama destes com a sua mãe, agravado pelo facto do seu pai padecer de um linfoma há largos anos, terá necessariamente que procurar com rapidez soluções práticas de ajuda e apoio.

Na sequência dessa procura e de alguns meses de uma vida completamente baralhada, o que aqui gostaria de deixar hoje, como registo, não são as minhas atribulações pessoais, que felizmente vou resolvendo, mas sim afirmar que vivemos num mundo que não se encontra minimamente preparado para ajudar os idosos relativamente a situações naturais e que se sabe, serem para muitos, inevitáveis!
A debilidade, a doença, a impotência perante a decadência física, a perda da independência, são o que de mais dramático pode suceder a qualquer um de nós, e quando a idade transporta consigo estes problemas, cabe a alguém resolvê-los!
Às familias naturalmente! Mas se elas não existirem? Ou se elas não tiverem meios para o fazer?
Não caberia ao Estado um papel na resolução deste problema?
Como o Estado não ajuda, ou o destino, ou alguém de família terá que se encarregar de resolver as questões.
Mas face aos meios que existem e face à impreparação prática que todos temos nestas questões, dificilmente se tem a certeza de que a solução encontrada é a melhor!
O que fazer? Manter os idosos em casa, ou institucionalizá-los? E quando ambos os membros do casal de idosos ainda estão vivos, como agir face aos meios disponíveis?

Depois de ter visitado muitos lares e instituições, vi lugares terríveis e vi lugares óptimos, com todas as condições.
Claro que os preços eram bastante diferentes.
Para um casal, pode-se esperar que nos peçam entre os 2000 e os 5000 Euros! Sendo que devo confessar que, pelo que vi, nem sempre há uma relação directa entre a qualidade e o preço!
Pergunto, entretanto a mim mesmo, quantas pessoas em Portugal terão a disponibilidade, face a um problema como o meu, de avançar para encargos em lares onde haja o mínimo de qualidade e dignidade?
Como resolverão o problema, os honestos trabalhadores deste país, com salários baixíssimos, cujos pais idosos recebem reformas miseráveis?
No meu caso concreto, a opção foi ainda manter os meus pais na sua residência, levando-me a mudar-me de armas e bagagens para a sua casa e tendo um encargo adicional mensal, digamos que algo volumoso, para vários tipos de apoios domiciliários.
E embora o mais duro de tudo, seja saber que o resultado final deste esforço, não irá trazer-lhes de volta a saúde, interrogo-me diariamente sobre o que fazer caso a situação deixe de ser gerível em casa?
Graças a Deus não me posso queixar muito do que vida me deu e dos meios que possuo, mas a vida, com estes contornos, tornou-se algo assustadora e a percepção de que ser rico neste pais faz a diferença entre a tranquilidade e o sofrimento, dá-me a imagem de um triste e obsceno obstáculo, cujo direito a ultrapassar me é, como à maioria, negado .

Num dos últimos internamentos do meu pai, devido à sua doença oncológica, estava na mesma enfermaria um idoso, que a família “abandonara” no hospital!
Sinceramente não me vejo a tomar uma atitude dessas, mas será correcto que um sistema público de solidariedade social, de um país europeu no séc. XXI, repleto de auto-estradas e qualquer dia de linhas de TGV, empurre para cima de familiares pobres e sem capacidade de resolver os problemas, doentes em estado terminal, ou com dependências gravíssimas?
Desgraçadamente nenhum dos governos que tivemos teve a decência de se preocupar com estes problemas.
E pelo que se vê, nenhum dos governos possiveis para vir no futuro proximo o irá fazer também.

Há cerca de 15 anos trabalhei em serviços públicos ligados à problemática da habitação social e não me consigo esquecer dos rostos de algumas senhoras de sessenta e muitos anos, que lá iam desesperadas à procura de casa.
Eram mulheres sós, que viveram largos anos tomando conta de idosos. Mulheres sem família que após o falecimento das pessoas que tiveram a seu cargo ficavam abandonadas à sua sorte e sem um tecto!

Recordo-me do rosto delas, primeiro ansioso, depois desesperado quando percebiam que não havia qualquer solução habitacional para elas.
Recordo-me que voltavam, que insistiam e que à força do desespero e da desesperança que crescera dentro delas, os sinais de perda da lucidez começavam a aparecer.
Algumas, após esgotarem os seus modestos pés-de-meia em pensões baratas ou quartos alugados, o melhor que conseguiam eram alojamentos disponíveis para sem-abrigo. Entretanto deixavam de aparecer… O processo ficava definitivamente arquivado!
Mas havia sempre outra e mais outra e a história voltava a repetir-se.
Olhando para os problemas que defronto e recordando muito do que já vi, ironicamente vem-me muita vez à memória o título de um filme relativamente recente:

