domingo, julho 26, 2009

Retrato de....

Completou-se no início deste mês de Julho o quinto aniversário do desaparecimento de Sophia de Mello Breyner Andersen!





Trata-se de uma das figuras literárias do século XX que mais admiro.

Penso que a melhor homenagem que podemos fazer a um escritor é divulgar a sua obra.

É o que me proponho hoje fazer, com um texto que, apesar de ser muito conhecido, e ser aparentemente dirigido a certas figuras de uma determinada época do nosso país, mantém-se ainda perfeitamente actual.

O texto, que reproduzo seguidamente, foi retirado dos seus "Contos Exemplares", publicado em 1962, e chama-se:

"O Retrato de Mónica"


"Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da "Liga Internacional das Mulheres Inúteis", ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.

Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem--se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.

Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.

De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.

A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.

Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, "qualquer distracção pode causar a morte do artista". Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.

Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.

Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.

O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.

É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.

E por isso Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora das suas virtudes, admiradora de seus silêncios e de seus discursos. Admiradora da sua obra, que está ao serviço dela, admiradora do seu espírito, que ela serve.

Pode-se dizer que em cada edifício construído neste tempo houve sempre uma pedra trazida por Mónica.

Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima e toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.

Não é o desejo do amor que os une. O que os une é justamente uma vontade sem amor.

E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio, o mais firme fundamento do seu poder."


sexta-feira, julho 10, 2009

Na sombra

Nasceu em Viseu em 1930 e foi muito jovem para o Brasil, onde iniciou uma carreira de cantora e... por lá ficou

O auge da sua popularidade no país irmão teve-o em 1955 onde destronou a então famosissima Angela Maria como Rainha da Rádio. No ano seguinte seria a vez de passar o ceptro a Doris Monteiro.

Esteve nos primórdios da Bossa Nova e cantou todos os principais compositores do Brasil da sua época.

Chama-se Vera Lúcia e é praticamente desconhecida no país que a viu nascer... Nem mesmo na sua época aurea o nosso país lhe prestou grande atenção, apesar de ter chegado a gravar alguns fados.

Assumida, naturalmente, como cantora brasileira, penso que não será tarde para chamar a atenção para esta voz simpática, que apesar de ter as suas raizes na nossa Beira, é bem caracteristica da música brasileira dos anos 50, aqui numa das primeiras composições de António Carlos Jobim (1959).

terça-feira, julho 07, 2009

MELHOR É IMPOSSÍVEL

Tenho desde sempre uma verdadeira paixão por esta voz e por esta canção...

A força da interpretação de um poema belo, denso e fortíssimo e o arrebatamento da sua voz imensa e expressiva, colocam Elis num patamar a que muito poucas cantoras do mundo conseguem subir.

Deixo aqui a canção interpretada ao vivo e o poema, que certamente todos conhecem, mas que acredito que a maior parte dos que por aqui passarem gostarão de voltar a ver e a ouvir...



COMO OS NOSSOS PAIS (Belchior)

Não quero lhe falar,
Meu grande amor,
Das coisas que aprendi
Nos discos...

Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo.

Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa...

Por isso, cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado prá nós
Que somos jovens...

Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina, na rua,
É que se fez o seu braço,
O seu lábio e a sua voz...

Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantada
Como uma nova invenção.

Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
Cheiro de nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva
Do meu coração...

Já faz tempo
Eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança
É o quadro que dói mais...

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais...

Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
Não enganam não

Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém

Você pode até dizer
Que eu tô por fora
Ou então
Que eu tô inventando...

Mas é você
Que ama o passado
E que não vê

É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem...

Hoje eu sei
Que quem me deu a idéia
De uma nova consciência
E juventude
Tá em casa
Guardado por Deus
Contando vil metal...

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo,
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos
Os mesmos e vivemos

Ainda somos
Os mesmos e vivemos

Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais...

terça-feira, junho 30, 2009

Uma voz que o ladrão não quis escutar

Claudya é, para mim, uma referência musical do Brasil, há mais de 40 anos.

Surpreendi-me portanto quando me apercebi que o seu nome, para alguns da minha geração, nada dizia.




Surpreendi-me também com a dificuldade em encontrar os seus discos em Portugal e, quando, há quase quinze anos atrás, encontrei um seu CD ENTRE AMIGOS gravado em conjunto com o conjunto de jazz Zimbo Trio, resolvi comprar alguns exemplares, para oferecer a alguns amigos…




Mais me surpreendi ainda, com algum embaraço, confesso... quando aconteceu que um desses amigos, que foi deixando o CD no carro (juntamente com outros CDs, é certo) viu a sua viatura assaltada e constatou que o malandro do ladrão roubou, entre outras coisas, todos os CDs que lá guardava, menos o da Claudya.

Nesse momento, admito, que comecei a pensar que tinha uns gostos musicais tão maus, que até mesmo os bandidos se recusavam a roubar os discos da minha preferência…




Claudya começou a sua carreira no inicio dos anos 60 e, dotada de uma voz excepcional, foi-lhe logo colocado o epíteto de rival de Elis Regina… Aliás veio a saber-se depois que elas de facto não se davam nada bem…

Nesses anos 60 e depois nos anos 70 ocorriam inúmeros festivais internacionais e Claudya participou em vários, ganhando invariavelmente todos os prémios de interpretação que havia para ganhar.

Teve enormes sucessos populares, nomeadamente com a sua versão de “Jesus Cristo” de Roberto Carlos e viu depois o seu reconhecimento alargar-se ao ser a protagonista do musical EVITA no Brasil, com dois anos consecutivos de lotações esgotadas e com elogios críticos, quer de toda a imprensa brasileira, quer da própria revista TIME.

Após ter recebido mais um prémio de interpretação nas Olimpíadas da Canção em Atenas no inicio dos anos 70 foi convidada para solista da orquestra de Ray Coniff, que na altura era uma das mais famosas do mundo.





Claudya não aceitou o convite para se radicar nos Estados Unidos, ficou-se pelo Brasil e acabou por construir uma agradável, mas simultaneamente discreta carreira que, em Portugal passou completamente despercebida.

Teve, apesar disso, fora do seu país, alguns sucessos inesperados:

Uma inicialmente pequena estadia no Japão, transformou-se numa temporada de vários meses, que veio a originar um disco em japonês que vendeu mais de 200.000 exemplares.

Feito este modesto resumo sobre esta cantora do país irmão, sugiro agora, desafiando a vossa paciência, para afinal verificarem se quem tinha razão era eu ou o miseravel do ladrão...

Assim, deixo-vos aqui algumas canções da já longa carreira de Claudya:

A primeira, encontra-se no tal CD que o larápio não quis levar.

Trata-se de “Brasileirinho” uma música escrita pelo mestre do cavaquinho Waldir de Azevedo sendo aqui a voz espantosa de Claudya utilizada como se daquele instrumento se tratasse.



A segunda é um clássico de Paulinho Tapajós ,também incluído nesse mesmo disco desprezado pelo energumeno, e que se chama "Cantiga por Luciana"



Por último duas músicas já com 40 anos. Foram as músicas que me deram a conhecer a voz Claudya e me fizeram ficar a admirá-la.

A primeira, da autoria de Marcos Valle, vem do tempo em que eu achava que quem tinha mais de 30 já era velho… Era uma das minhas "cantigas de cabeceira" em 1971... Coisas de juventude…



A segunda, escrita por Ivan Lins, da mesma época da anterior, torna fácil perceber porque razão se comparava Claudya com a querida e saudosa Elis...




Uma observação final, para dizer que Claudya se começou por chamar Claudia Oliveira, depois Claudia e por último Claudya... curiosos efeitos de quem é crente na numeralogia...

quarta-feira, maio 27, 2009

Recordando Nouvelle Cuisine

Em 1987, na cidade de São Paulo, um grupo de amigos, todos com sólida formação musical, costumava reunir-se, nas tardes de sábado, para fazer o que mais gostavam: tocar Jazz.

Numa altura em que a moda era o rock eles não tinham qualquer pretensão em profissionalizar-se tocando standards de jazz.

Contudo, resolveram testar a sua aceitação pelo público e conseguiram marcar uma apresentação numa segunda-feira de Inverno, num pequeno bar de São Paulo, chamado “Espaço OFF”.

Só nessa altura resolveram baptizar o grupo, dando-lhe o nome de Nouvelle Cuisine.




A repercussão desta sua primeira apresentação foi tal que, na segunda-feira seguinte, o pequeno bar estava repleto de críticos e de produtores musicais.

Poucos dias depois estavam a assinar um contrato com a Warner e a editar o primeiro disco, com a ajuda de um maestro vindo de Los Angeles de propósito para trabalhar com eles.

O disco chamado apenas “Nouvelle Cuisine” foi recebido entusiasticamente pela crítica e foi, no escasso mercado de jazz, um verdadeiro sucesso de vendas.




O reconhecimento da sua excepcional qualidade permitiu que a editora aceitasse para o segundo disco, que se veio a chamar “Slow Food”, a introdução de canções em português, novas sonoridades e mesmo o acompanhamento de uma orquestra sinfónica.

Permitiu-lhes igualmente ter a colaboração de Gal Costa (numa canção chamada Notas) e de Caetano Veloso que compôs para eles a canção Luzes.



Ao assistir a uma das suas apresentações, o grande trompetista Wynton Marsalis considerou-os o melhor grupo de jazz fora dos Estados Unidos e juntou-se a eles para uma jam session, que considerou inesquicivel.

O prestigio e sucesso dos Nouvelle Cuisine foram-se mantendo, essencialmente no círculo restrito do jazz e da critica, Contudo, a sua notoriedade no público em geral viria a acontecer de forma algo imprevista em 1988.

Numa noite, no auditório do MASP (o principal museu de São Paulo,) os Nouvelle Cuisine, para surpresa do público, levaram uma jovem desconhecida para cantar em dueto com o vocalista Carlos Fernando Nogueira. A canção era “Bess you is my woman now” da Ópera Porgy and Bess.

A moça era linda, tinha uma voz belíssima e pouco depois viria a gravar o seu primeiro disco em 1989, onde esta colaboração com os Nouvelle Cuisine não ficou esquecida. Chama-se a moça Marisa Monte

Deixo aqui o vídeo desse trabalho conjunto sobre o tema de Gershwin esperando que gostem tanto dele, quanto eu!



Actualmente, após a saída de dois dos seus elementos fundadadores, entre os quais Carlos Fernando Nogueira, o Nouvelle Cuisine transformou-se em Nouvelle.

Carlos Fernando iniciou uma carreira a solo, tendo editado um CD (1994) em parceria com o músico Toninho Horta sobre canções de Chico Buarque




Hoje os Nouvelle têm como vocalista a cantora Estela Cassilati e continuam a ser uma referência de qualidade, embora tal como antes para um público minoritário.




Vale a pena conhecer os antigos Nouvelle Cuisine, que em 1992 foram considerados o melhor grupo de MPB, e os actuais Nouvelle, que infelizmente estão pouco presentes nas nossas lojas e, pior ainda, completamente ausentes das nossas rádios.

quarta-feira, maio 13, 2009

Uma canção célebre numa voz pouco escutada

Hoje trago aqui uma canção com quase 100 anos, na voz de uma cantora portuguesa que merecia ser mais e melhor conhecida pelo público português.

A canção é de origem francesa tendo sido escrita e criada em 1916 por Jeanne Bougeois, conhecida no mundo artístico com o nome de Mistinguett, e que se celebrizou tanto pelas suas actuações, como pelas suas pernas (postas no seguro em 1919 por 500.000 francos).




O seu nome original é Mon Homme , que ao atravessar o Atlântico para a voz de Fanny Brice tomou o nome de My Man, tendo-se tornado num clássico, recriado pelas vozes de Piaf, Billie Holliday, Streisand e Diana Ross, entre muitas outras.

Entre essas tantas vozes há a de uma portuguesa, que a gravou em Espanha, no início da década de 70, falo de Paula Ribas.





Paula Ribas iniciou a sua carreira no início dos anos 60, tendo-se popularizado quer como cantora yé-yé, quer como cantora romântica.

No entanto, quer devido a um afastamento temporário a seguir ao casamento, quer pela opção em fazer carreira no exterior do país, era de algum modo olhada como uma "estrangeirada".

Gravou nessa década mais de 40 discos, dos quais 10 LPs, em 5 linguas diferentes.

Actuou nos palcos de todo o mundo, assinalando-se os seus maiores êxitos em Israel onde ficou 4 meses, na Escandinávia onde ficou 10 meses, Espanha onde gravou a maior parte dos seus discos (para a etiqueta Belter) e depois no Brasil onde viveu vários anos e onde também fez vários trabalhos discográficos muito elogiados pela crítica (nomeadamente um sobre a obra de José Afonso e outro de "Fados Brasileiros").





Conhecida por ser muito directa e crítica quanto à qualidade da música que era levada aos portugueses residentes no exterior, fez a sua carreira no estrangeiro fora dos circuitos tradicionais da emigração!

Talvez seja por isso que apesar de ter feito tantas gravações, a maior parte delas continuem desconhecidas do público português, o que me parece um enorme desperdício e uma imensa injustiça.



Aliás, devo até referir que a única colectânea de Paula Ribas até hoje editada em CD contém apenas registos do inicio da sua carreira yé-yé, muito fraquinhos, esquecendo dezenas e dezenas de canções que gravou com enorme qualidade.

O porquê desta opção não consigo entender!

Termino pois, com a célebre MY MAN, na voz de Paula Ribas, alertando para o facto de o som, que resulta de uma digitalização feita a partir do vinil, não ter toda a qualidade que merecia.

segunda-feira, maio 04, 2009

DRESDEN

Foi posto à venda no final da passada semana o DVD com a mini-série alemã DRESDEN.



Trata-se de uma série bastante interessante pois dá-nos a visão da Guerra a partir do ponto de vista de quem a perdeu.

Interessante ainda porque, para além de uma complexa história amorosa, foca um dos casos mais controversos da II Guerra Mundial, o bombardeamento de Dresden.

Dresden, que é a capital do Estado da Saxónia, era conhecida como a Florença do Elba


Dresden - gravura do Palácio e Jardins Zwinger:



Os seus monumentos e tesouros artísticos faziam desta cidade uma das mais belas da Europa.


Dresden no início do séc XX:



Entre 13 e 15 de Fevereiro de 1945, já com a Alemanha perfeitamente derrotada (apesar de ainda não rendida), os aliados ingleses e americanos lançaram milhares de toneladas de bombas, que destruíram mais de 90% de toda a cidade, matando centenas de milhares de pessoas.

Deixo aqui algumas imagens da série sobre o momento dos bombardeamentos sobre a cidade de Dresden:



Vagas sucessivas de centenas de bombardeiros despejaram sobre Dresden, já sem capacidade de defesa anti aérea, um verdadeiro inferno de fogo, fazendo nesta cidade aquilo que os alemães já tinham feito em Varsóvia e que por pouco não aconteceu a Paris, que foi salva devido à desobediência do General Dietrich von Choltitz, o qual se recusou a cumprir as ordens directas de Hitler para que destruísse totalmente a capital francesa.

Foto de Dietrich von Choltitz:



Estando já a Guerra decidida e feita a partilha da Europa pelas potências vencedoras, Dresden ficaria sob domínio soviético e há hoje o convencimento de que, para Churchill e Roosevelt parecia mais interessante que os russos ficassem a braços com uma montanha de destroços, do que lhes entregar de mão beijada uma cidade que era um autêntico tesouro artístico.


Dresden em ruínas (1945):




Dresden tornou-se pois num símbolo do que de pior a Humanidade é capaz, para depois se tornar num simbolo civilizacional de amor à História e à Arte, pois os que sobreviveram a esta hecatombe conseguiram rua a rua, monumento a monumento, reerguer Dresden das cinzas, tornando hoje esta magnifica cidade numa verdadeira jóia do património histórico da Humanidade, tal como é classificada pela UNESCO.


Aspecto de Dresden na actualidade (Zwinger):



Aspecto do centro de Dresden na actualidade:



Claro que o seu processo de reconstrução teve algumas vicissitudes.

No após-guerra, o líder comunista alemão Walter Ulbricht chegou a pensar fazer de Dresden, que se situava na República Democrática Alemã, uma cidade modelo do urbanismo socialista, com edificios inspirados no modelo habitacional e institucional soviético, em avenidas largas que permitissem a realização de grandes manifestações públicas.

No entanto as vozes dos defensores da herança cultural da Saxónia falaram mais alto, apelando à reconstrução da cidade barroca o que, em parte, foi conseguido!

E assim, três meses após o final da Guerra, começou a reconstrução de alguns dos principais monumentos.

O conjunto de edifícios do Palácio Zwinger e o Teatro Schauspielhaus foram dos primeiros. Seguiram-se o Palácio Real e a Ópera (Semperoper).!


Semperoper antes da Guerra




Semperoper destruída




Semperoper (exterior reconstruído)




Semperoper (interior reconstruído)



Mais tarde (já após a queda do comunismo) foi a vez da reconstrução do monumento mais célebre e querido da cidade a Frauenkirche, reerguida com dinheiros públicos, mas também com contribuições privadas, criando-se movimentos públicos para angariar os cerca de 130 milhões de euros que custou a sua reconstrução.

Por ironia da História, à frente de uma das principais organizações de recolha de fundos estavam os membros da família real inglesa, o que revela por um lado algum peso na consciência britânica face à destruição de Dresden e, por outro, o apelo do sangue Saxe- Coburgo da Casa Real Britânica, cujos laços afectivos não terminaram só pelo simples facto de terem mudado de nome de Wettin para Windsor, pela mão de Jorge V, avô de Isabel II, aquando da Primeira Guerra Mundial.

Frauenkirche antes da Guerra:




Frauenkirche destruída:




Frauenkirche reconstruída (exterior):




Frauenkirche reconstruída (interior):




Com esta reconstrução, que deveria fazer corar de vergonha os políticos e autarcas portugueses, que por acção e omissão vão destruindo as marcas históricas das nossas cidades (nomeadamente Lisboa), os principais prédios do centro antigo de Dresden, que compunham a famosa silhueta da cidade estão novamente de pé.



Apesar de muitas peças de arte se terem perdido para sempre, muitas foram salvas e valem a pena ser visitadas, nos belos e reconstruídos museus.

Como curiosidade final refiro que igualmente valerá a pena uma visita a um dos poucos edifícios que conseguiram sobreviver aos bombardeamentos, onde se situa a que é considerada a mais bela leitaria do mundo




No entanto, apesar de milagrosamente não ter sido afectada pelos bombardeamentos, a leitaria Dresdener Molkerei Gebrüder Pfund , por pouco não se livrou de ter sofrido uma "redecoração socializante" ao estilo standard das leitarias comunais, após a sua nacionalização no inicio dos anos 70.

Nessé projecto de decoração previa-se a utilização de alumínios e plásticos em substituição dos belos painéis de azulejos que a forram de alto a baixo…. Felizmente tal ideia absurda não foi para a frente…




Gostaria de terminar dizendo o seguinte:

QUANDO NO NOSSO PAÍS SE DIZ QUE UM BELO EDIFICIO OU MONUMENTO, POR MÁ CONSERVAÇÃO OU INCÊNDIO, SE PERDEU PARA SEMPRE, ESTÁ-SE A DIZER UMA MENTIRA!

O PATRIMÓNIO EDIFICADO SÓ SE PERDERÁ PARA SEMPRE SE NÓS E OS NOSSOS REPERESENTANTES ELEITOS NAS CÂMARAS MUNICIPAIS, QUISERMOS QUE ASSIM SEJA.

POR ISSO DEIXO, NESTE ANO DE AUTÁRQUICAS UM VÍDEO SOBRE DRESDEN, QUE ACONSELHO A CERTOS GRUPOS DE PESSOAS.

ACONSELHO-O A TODOS OS QUE SE PROPÕEM DIRIGIR AUTARQUIAS SEM AS CONHECER, SEM AS AMAR, SEM RESPEITAR A SUA HISTÓRIA E O SIGNIFICADO DAS SUAS PEDRAS.

ACONSELHO-O A TODOS OS QUE SE PROPÕEM GERIR CIDADES APENAS PENSANDO EM CONCURSOS PARA NOVAS URBANIZAÇÕES, APENAS PENSANDO AS URBES COMO LOCAIS DE PERNOITA E CIRCULAÇÃO, DANDO MAIS IMPORTÂNCIA AOS CARROS DO QUE ÀS PESSOAS.

ACONSELHO-O A TODOS OS QUE, TENDO PODER NAS AUTARQUIAS, VÃO SUBSTITUINDO OS "TEATROS MONUMENTAIS" POR "CENTROS COMERCIAIS", IGNORANDO QUALQUER PREOCUPAÇÃO ESTÉTICA E FAZENDO COM QUE DIA APÓS DIA, AS MEMÓRIAS DO LEGADO HISTÓRICO QUE É PATRIMÓNIO DE TODOS NÓS, VÃO DESAPARECENDO!

ACONSELHO-O A TODOS OS QUE SE PROPÕEM DECIDIR SOBRE O DESTINO DOS MUNICÍPIOS, SOBREPONDO A GESTÃO FINANCEIRA À QUALIDADE DE VIDA, COMO SE AS CÂMARAS FOSSEM EMPRESAS E AS CIDADES MEROS CENTROS DE NEGÓCIO!

ACONSELHO-O FINALMENTE A TODOS OS PODEROSOS DE OCASIÃO QUE DESPREZAM A HISTÓRIA, A ARTE E A MEMÓRIA E QUE INFELIZMENTE CONTAM COM A IGNORÂNCIA E COM A PERMANENTE COMPLACÊNCIA DE ELEITORES POUCO EXIGENTES E POUCO INTERESSADOS NO SEU PAÍS.

ACONSELHO-O POIS A TODA ESTA GENTE, ESPERANDO QUE SE ALGUM DESSAS PESSOAS O VIR, REFLICTA SOBRE O QUE PODE E DEVE FAZER COM O PODER QUE LHE FOI OUTORGADO PELO POVO E QUE, PORTANTO, APRENDA ALGUMA COISA ...SE FOR CAPAZ!



sábado, abril 25, 2009

25 de Abril

Em 25 de Abril de 1974 vivi o dia mais emotivo e festivo da minha vida.

Tive a felicidade de poder percorrer nesse dia os principais pontos da Baixa e do Chiado, incluindo o Largo do Carmo e havia, em toda a gente, uma alegria incontida e uma esperança profunda de que a Ditadura iria terminar.

Eu e a minha geração fomos testemunhas de momentos que só acontecem uma vez na vida!

Tinha 18 anos e pude desde logo perceber que o destino do País e o meu próprio destino iriam decerto mudar. Iriamos finalmente ser livres, não teriamos mais que falar baixinho e olhar para o lado para ver se algum informador da Pide estava por perto. O fim da guerra seria inevitável, todos o sabiam, todos o sentiam!

Que alegria maior poderia haver!

quarta-feira, abril 22, 2009

O Preço



Como foi noticiado por vários órgãos de comunicação social, a Câmara de Santa Comba Dão resolveu incluir no seu programa comemorativo do 25 de Abril a “Inauguração da Requalificação do Largo António de Oliveira Salazar….”




O senhor Presidente da Câmara de Santa Comba Dão diz que se trata de um acto sem qualquer significado político, havendo apenas uma mera coincidência de datas.

Trata-se obviamente de uma patetice feita claramente com intuitos provocatórios!

Talvez convenha então lembrar duas coisas bem simples:

A primeira é que se quiséssemos encontrar um exemplo de tolerância e superioridade cívica do regime democrático saído do 25 de Abril, a simples possibilidade de realização deste acto, em que está implícita uma homenagem a Salazar, seria decerto uma escolha evidente. Uma escolha triste, mas significativa do respeito que a Democracia tem, até pelos seus maiores adversários!

Decerto que o senhor Presidente da Câmara de Santa Comba Dão saberá bem que tipo de “homenagens” Salazar reservava aos seus adversários políticos!

A segunda, é que um político, um qualquer político, seja de esquerda ou de direita, deve ter uma atitude adulta e responsabilizar-se pelos actos que pratica. Se quer marcar uma posição contrária ao 25 de Abril que o faça frontalmente e tenha a coragem de assumir as suas ideias e os seus objectivos. É isso que o povo, que elege um político, espera dele e não provocações infantilmente encobertas que só desprestigiam e menorizam a política.

Isto é demasiado pequenino, pateta e patético, mas é simultaneamente revelador da qualidade do poder local que temos

E infelizmente esta falta de qualidade está espelhada de norte a sul do País, e espalhada de um lado ao outro do espectro político.

Recordo um outro facto, que na altura em que ocorreu não tomei conhecimento e só resolvo falar dele agora, porque me parece igualmente grave e... mais vale tarde do que nunca.

Em Fevereiro de 2008 passaram 100 anos do regicídio. A Câmara Municipal de Castro Verde achou por bem, para assinalar o facto, homenagear um dos regicidas, natural desse concelho.

Homenagear um assassino? Será que a Câmara Municipal de Castro Verde se deu conta do sinal que transmitiu com essa atitude? Será que para a Câmara Municipal de Castro Verde o assassinato é um instrumento político válido? Será que para este município alentejano a distância histórica valida o princípio de que os fins justificam os meios?



A Democracia, com a Liberdade que comporta, tem a virtude de revelar a nossa verdadeira natureza. Neste caso a verdadeira qualidade dos nossos autarcas!

Da patetice à perfeita inconsciência, parece que temos de tudo nas autarquias do nosso país. Este é, afinal, o preço que temos de pagar para hoje podermos falar à vontade, para podermos manifestar livremente as nossas opiniões, para podermos escolher (mal ou bem) o nosso destino colectivo!

Creio que, apesar de tudo, é um custo que vale a pena suportar. Pois só a Liberdade dá a completa dignidade a que qualquer ser humano, a que qualquer povo tem direito! E a nossa dignidade não tem preço!

Só por isso o 25 de Abril já valeria a pena!

domingo, abril 19, 2009

vencer o preconceito

Hoje vou falar de algo que possivelmente toda a gente já viu e comentou mas de que eu, como ando desatento, só anteontem me dei conta.

Embora ache magnifico que se procurem novos talentos, nunca fui apreciador do formato de alguns programas de televisão que sob o pretexto de darem a oportunidade a amadores para mostrarem as suas capacidades, fazem espectáculo da humilhação pública dos que têm menos vocação, ou até a falta da lucidez necessária para perceber que não a têm…

Entretanto ao fazer a minha ronda habitual por dois blogues excelentes, que são exemplos notáveis de intervenção cívica – o “Luís Marques da Silva, Arquitectura” e o “Lesma Morta” encontrei algo que se passou na última quinta-feira na televisão britânica.

Num desses programas Britain’s Got Talent, apareceu uma senhora que foge a todos os padrões habituais, em que se esperam encaixar as aspirantes a “artista”, e a reacção do júri e do público ao vê-la foi, a que é habitual nestes casos.

O vídeo que se encontra disponível no youtube (clicar aqui) dá-nos então uma visão das atitudes que uma situação dessas comporta e dá-nos também uma excelente lição de vida. Dá-nos até bem mais do que isso….



Claro que o que se encontra nesse vídeo não deixou ninguém indiferente. O vídeo foi colocado na internet e em 24 horas já tinha sido visto por 12 milhões de pessoas, Susan Boyle foi hoje entrevistada, via satélite, por Larry King na CNN e Oprah Winfrey também já solicitou a sua presença.

Boyle que está desempregada e que vive numa pequena povoação escocesa em casa de seus falecidos pais, de quem cuidou até à morte, passou do anonimato a notícia de primeira página, quer pelo que aconteceu no programa, quer por depois ter sido divulgado que é virgem e que nunca havia sido beijada por um homem.

Esta mulher, que com toda a simplicidade conseguiu passar a mensagem de que é mais importante o conteúdo do que a embalagem, apenas quis cumprir um sonho que a vida até então a tinha impedido de viver.



Espero que finalmente o consiga!

quarta-feira, abril 15, 2009

Novidades do Brasil

Venho hoje dar nota que iremos ter na capital portuguesa, entre outros, três espectáculos vindos do país irmão e que merecem alguma atenção:

O primeiro a chegar será a peça “O Homem Inesperado” da já consagrada autora francesa Yasmina Reza.

De hoje até 3 de Maio o casal de actores Nicete Bruno e Paulo Goulart estarão entre nós no Teatro Tivoli representando uma peça que foi já sucesso nos palcos das principais cidades do mundo.



A peça traz-nos a história de uma mulher que inesperadamente tem, numa viagem de comboio entre Paris e Frankfurt, como companheiro de viagem, o seu escritor predilecto.

Apesar de sozinhos no mesmo compartimento, nenhum se atreve a entabular conversa com o outro e apenas vamos sabendo o que o vai fluindo no pensamento de cada um.

Pensam na vida, nos sonhos realizados e desfeitos e das alegrias e tristezas que a existência comporta e pensam no companheiro de viagem, tentando desvendar que pessoa verdadeiramente estará na sua frente.

Vamos percorrendo, com as personagens, os anseios de dois seres, já com muitos anos de vida, e que se encontram ambos à beira da solidão.



Segundo rezam as crónicas de São Paulo e do Rio de Janeiro as interpretações dos actores estão à altura da sensibilidade e da qualidade do texto.

Trata-se de uma tarefa algo complicada, pois este é um texto que serviu já grandes actores: Alan Bates protogonizou-o em Londres e Nova Iorque e Phillipe Noiret em Paris.

Veremos o que nos traz este nosso conhecido casal de simpáticos actores, que aos 76 anos vêm fazer uma aposta arriscada a Lisboa, já que não está a haver qualquer promoção publicitária do seu espectáculo.



Com grande curiosidade também aguarda-se a chegada do musical de Chico Buarque Gota d’Água, que percorrerá o país, apresentando-se no CCB de 6 a 9 de Maio.

Gota D'Água" tem a actriz Izabella Bicalho como protagonista.

O nome Izabella Bicalho pode não dizer muito aos espectadores portugueses, mas aos que eram criança nos idos anos 80 lembrar-se-ao dela como a Narizinho do Sítio do Picapau Amarelo.




Entretanto Izabella cresceu e tornou-se, segundo as criticas do lado de lá do Atlântico, numa actriz magnifica e numa excelente cantora.

Cito agora o JN de 16 de Março último:

A origem deste musical remonta a 1975, quando Chico Buarque e Paulo Pontes adaptaram a tragédia "Medeia", de Eurípedes, à realidade brasileira, dominada pela censura federal e repressão ideológica.

Com uma grande carga poética, o espectáculo emocionou na altura a crítica e o público, tornando-se um grande sucesso no Brasil.

Passados 30 anos, o espectáculo foi apresentado numa abordagem contemporânea, com novos arranjos musicais, tendo recebido vários prémios no país, tendo estreado no Rio de Janeiro em 2007.

Nesta nova versão, a personagem feminina, Joana, é uma mulher batalhadora que vive nos subúrbios de uma grande cidade brasileira, a Vila do Meio-Dia, e que um dia é abandonada pelo marido, que a troca por uma mulher muito mais jovem e rica, filha de Creonte.

Enquanto a mulher fica destroçada pela dor da traição, Jasão, o ex-marido, vive dias de felicidade ao lado de Alma, desfrutando do sucesso do samba "Gota D'Água", que não pára de passar nas rádios da cidade”


Entretanto para quem conhece Medeia, é sabido que a história acabará por ter um final extremamente dramático. Final que se repete nesta Gota d’Água.

Em 1975 a peça foi protagonizada pela grande Bibi Ferreira. Agora teremos Izabella Bicalho, e ao deixar aqui algumas imagens do espectáculo, perceber-se-á que a escolha da antiga “Narizinho” foi igualmente notável, apesar do som e da imagem obtidos por telemóvel serem infelizmente pouco adequados.



Por último gostaria de assinalar o regresso a Lisboa de Edson Cordeiro, que no próximo dia 14 de Maio estará de novo em Lisboa, desta vez no auditório dos Oceanos.

Cordeiro que continua a ser um sucesso em todas as suas apresentações terá desta vez como acompanhantes o terceto de jazz Klazz Brothers.

Para quem não conhece este contratenor brasileiro, direi que ele é perfeitamente eclético, indo da canção popular brasileira à Ópera, passando pelo Jazz.

Raramente Edson Cordeiro deixa os espectadores indiferentes.

Deixo aqui uma sua interpretação de uma ária da Ópera Rei Artur de Purcell, filmada o ano passado num espectáculo realizado em Berlim. Espero que gostem!

terça-feira, abril 14, 2009

Lisboa 2009



Ontem surgiu um Apelo para a Convergência da Esquerda em Lisboa, tendo em vista as próximas eleições autárquicas.

Nada mais natural, dado existir já uma convergência dos partidos mais à direita para este mesmo efeito!

Penso que seria útil para a democracia que desta vez houvesse a possibilidade de uma escolha muito clara entre dois modelos de governação da cidade, entre duas formas de ver Lisboa.

Permito-me citar de cor as palavras do Arquitecto Aquilino Ribeiro Machado, um dos porta-vozes desse Apelo, quando diz que mais do que construção Lisboa precisa de recuperação e de reconstrução.

A Lisboa que eu conheci em criança, tem sido, ao longo de décadas, paulatinamente destruída por efeito da especulação imobiliária.








Zonas inteiras da cidade encontram-se perfeitamente descaracterizadas e antes que desapareça o pouco que ainda resta da beleza e do romantismo que os nossos antepassados imprimiram nas pedras de Lisboa, é tempo dos seus cidadãos intervirem e seja nos partidos, seja em movimentos cívicos, lutarem em favor daquilo em que acreditam.

A apatia dos cidadãos leva a que os oportunistas e os especuladores ocupem todo o espaço.

No meu caso concreto apoio sem reservas este Apelo, pelo que deixo aqui o respectivo link para quem igualmente o desejar subscrever.

http://www.petitiononline.com/porlx/petition.html

António Borges ontem disse na RTP que este apelo é um acto de desespero da Esquerda, pois já percebeu que Santana Lopes pode ganhar em Lisboa.

E isso não será motivo para desesperar, não apenas a Esquerda, mas todo e qualquer cidadão sensato e amante desta cidade?

Termino com o desejo que, da Direita à Esquerda, o apego à competência, ao rigor e aos interesses da capital não seja estranho ao Amor e ao Respeito que devem ter pela cidade de Lisboa e não repitam estes tristes exemplos que nas últimas autárquicas deixaram espalhados pela nossa capital, desfigurando as suas praças.





terça-feira, abril 07, 2009

L'Aquila

L'Aquila era, até ontem, uma das muitas belas e tranquilas cidades italianas.

Fundada no séc. XIII por Frederico II, um dos mais cultos e reformadores monarcas que dirigiram o Sacro Imperio, viu com o terramoto de ontem, destruído muito do seu património e desaparecer tragicamente muitos dos seus habitantes.



Esta cidade foi, pode-se dizer, uma verdadeira criação daquele monarca, que fez deslocar as populações de 99 lugares diferentes para a povoar.



Como esteio edificador da cidade e simultaneamente como elemento de respeito pelas naturais diferenças, cada um dos 99 grupos populacionais construiu a sua própria Igreja e as suas proprias habitações, e por isso mesmo, durante muito tempo L'Aquila foi conhecida como a cidade das 99 Igrejas.



Apesar de muitos desses templos terem entretanto desaparecido, L’Aquila ("a águia" de Frederico) manteve-se uma cidade repleta de monumentos magnificos e preservou uma zona histórica medieval muito bela.



Ontem infelizmente, muitas marcas da história desse passado grandioso desapareceram e muitas vidas de pacatos habitantes que nela viviam foram ceifadas.



Perante esta calamidade, resta a manifestação solidária de tristeza e pesar por uma perda que não é apenas de Itália, mas sim de toda a Humanidade!

sexta-feira, abril 03, 2009

Um título de um filme

Depois de uma ausência prolongada, volto hoje aqui, e de uma forma um pouco mais pessoalizada do que é habitual!

Como saberão os meus caros amigos deste percurso bloguistico, são questões do foro familiar que inibem a minha vinda regular a este espaço.

Entretanto, resolvi hoje vir até aqui matar saudades e em jeito de desabafo, falar de algo que, de algum modo, hoje ou amanhã pode vir a afectar cada um de nós.

Todos sabemos que a idade ao avançar pode trazer consigo problemas sérios. Infelizmente, nem todos têm a sorte de “morrer cheios de saúde” aos 100 anos, pacificamente, durante o sono.



Muitos, na verdade, começam a partir aos poucos, perdendo a lucidez, ficando sem mobilidade e vivendo os seus dias entre a apatia e o crescente sofrimento físico.

É de uma forma genérica, o que se passa com os meus pais, ambos já octogenários e foi portanto, esta situação, que ao surgir de forma repentina, veio mudar radicalmente a minha vida, como seu filho único.

Esta situação inesperada que refiro aconteceu de uma forma que eu, como leigo em Medicina, desconhecia existir.

Ao ser diagnosticada à minha mãe a doença de Alzheimer, cujos sintomas mais fortes eram esquecimentos e dificuldades em certos raciocínios foi-lhe passada uma medicação específica para o problema. Até aqui tudo bem!



O facto é que, não só os efeitos secundários desse medicamento foram extremamente debilitantes, mas também lhe provocaram o chamado “efeito paradoxal”, efeito cuja existência ignorava por completo.

Este efeito caracteriza-se pelo facto de uma determinada medicação poder fazer exactamente o oposto do que deveria. E foi o que aconteceu!



No espaço de 15 dias a minha mãe, que apesar dos esquecimentos e confusões era autónoma na sua higiene pessoal e conseguia desempenhar pequenas tarefas diárias, tornou-se totalmente dependente, perdeu a noção do tempo e do espaço, ficou quase sem mobilidade e perdeu inclusive a capacidade de mastigar alimentos.

Uma transformação tão profunda levou naturalmente a uma nova acção médica, para que pudesse ser revertida, e foi o que se tentou e parcialmente se conseguiu.

O resultado final, contudo, foi que apesar de recuperar um pouco da lucidez e a capacidade de comer sozinha, perdeu definitivamente muita da sua mobilidade, tornou-se incontinente e ficou completamente dependente para quase todos os actos da sua vida quotidiana.

Quando um filho (no meu caso único) vê um panorama destes com a sua mãe, agravado pelo facto do seu pai padecer de um linfoma há largos anos, terá necessariamente que procurar com rapidez soluções práticas de ajuda e apoio.



Na sequência dessa procura e de alguns meses de uma vida completamente baralhada, o que aqui gostaria de deixar hoje, como registo, não são as minhas atribulações pessoais, que felizmente vou resolvendo, mas sim afirmar que vivemos num mundo que não se encontra minimamente preparado para ajudar os idosos relativamente a situações naturais e que se sabe, serem para muitos, inevitáveis!

A debilidade, a doença, a impotência perante a decadência física, a perda da independência, são o que de mais dramático pode suceder a qualquer um de nós, e quando a idade transporta consigo estes problemas, cabe a alguém resolvê-los!

Às familias naturalmente! Mas se elas não existirem? Ou se elas não tiverem meios para o fazer?

Não caberia ao Estado um papel na resolução deste problema?

Como o Estado não ajuda, ou o destino, ou alguém de família terá que se encarregar de resolver as questões.

Mas face aos meios que existem e face à impreparação prática que todos temos nestas questões, dificilmente se tem a certeza de que a solução encontrada é a melhor!

O que fazer? Manter os idosos em casa, ou institucionalizá-los? E quando ambos os membros do casal de idosos ainda estão vivos, como agir face aos meios disponíveis?



Depois de ter visitado muitos lares e instituições, vi lugares terríveis e vi lugares óptimos, com todas as condições.

Claro que os preços eram bastante diferentes.

Para um casal, pode-se esperar que nos peçam entre os 2000 e os 5000 Euros! Sendo que devo confessar que, pelo que vi, nem sempre há uma relação directa entre a qualidade e o preço!

Pergunto, entretanto a mim mesmo, quantas pessoas em Portugal terão a disponibilidade, face a um problema como o meu, de avançar para encargos em lares onde haja o mínimo de qualidade e dignidade?

Como resolverão o problema, os honestos trabalhadores deste país, com salários baixíssimos, cujos pais idosos recebem reformas miseráveis?

No meu caso concreto, a opção foi ainda manter os meus pais na sua residência, levando-me a mudar-me de armas e bagagens para a sua casa e tendo um encargo adicional mensal, digamos que algo volumoso, para vários tipos de apoios domiciliários.

E embora o mais duro de tudo, seja saber que o resultado final deste esforço, não irá trazer-lhes de volta a saúde, interrogo-me diariamente sobre o que fazer caso a situação deixe de ser gerível em casa?

Graças a Deus não me posso queixar muito do que vida me deu e dos meios que possuo, mas a vida, com estes contornos, tornou-se algo assustadora e a percepção de que ser rico neste pais faz a diferença entre a tranquilidade e o sofrimento, dá-me a imagem de um triste e obsceno obstáculo, cujo direito a ultrapassar me é, como à maioria, negado .



Num dos últimos internamentos do meu pai, devido à sua doença oncológica, estava na mesma enfermaria um idoso, que a família “abandonara” no hospital!

Sinceramente não me vejo a tomar uma atitude dessas, mas será correcto que um sistema público de solidariedade social, de um país europeu no séc. XXI, repleto de auto-estradas e qualquer dia de linhas de TGV, empurre para cima de familiares pobres e sem capacidade de resolver os problemas, doentes em estado terminal, ou com dependências gravíssimas?

Desgraçadamente nenhum dos governos que tivemos teve a decência de se preocupar com estes problemas.

E pelo que se vê, nenhum dos governos possiveis para vir no futuro proximo o irá fazer também.



Há cerca de 15 anos trabalhei em serviços públicos ligados à problemática da habitação social e não me consigo esquecer dos rostos de algumas senhoras de sessenta e muitos anos, que lá iam desesperadas à procura de casa.

Eram mulheres sós, que viveram largos anos tomando conta de idosos. Mulheres sem família que após o falecimento das pessoas que tiveram a seu cargo ficavam abandonadas à sua sorte e sem um tecto!



Recordo-me do rosto delas, primeiro ansioso, depois desesperado quando percebiam que não havia qualquer solução habitacional para elas.

Recordo-me que voltavam, que insistiam e que à força do desespero e da desesperança que crescera dentro delas, os sinais de perda da lucidez começavam a aparecer.

Algumas, após esgotarem os seus modestos pés-de-meia em pensões baratas ou quartos alugados, o melhor que conseguiam eram alojamentos disponíveis para sem-abrigo. Entretanto deixavam de aparecer… O processo ficava definitivamente arquivado!

Mas havia sempre outra e mais outra e a história voltava a repetir-se.

Olhando para os problemas que defronto e recordando muito do que já vi, ironicamente vem-me muita vez à memória o título de um filme relativamente recente: