sábado, setembro 19, 2009

Presidente



Trago aqui duas citações (parciais) na comunicação social de hoje, a propósito de uma "encomenda" que um assessor presidencial teria feito a um jornalista do Público, entregando-lhe inclusivé um dossier sobre um assessor do Governo:

A primeira do Director do Diário de Notícias tem o título UM SILÊNCIO SUSPEITO (parte II):

"Numa Presidência da República nunca há 'fontes'.
Há factos, comentários ou opiniões, que um Presidente, em certas alturas, quer tornar do domínio público sem se comprometer por via oficial, nem sequer com uma nota.
E há colaboradores para executarem a vontade e a estratégia do Presidente. Quando não o fazem, obviamente passam imediatamente a ex-colaboradores.
É por isso que o silêncio de Cavaco Silva pesa sobre a actual suspeita de pseudovigilância ilegal às comunicações dos seus assessores por parte de 'alguém' do gabinete de José Sócrates" ("Um silêncio suspeito", escrito a 22 de Agosto)
"É absolutamente condenável a estratégia da Presidência da República nesta questão. Ou a notícia é falsa e já deveria ter sido desmentida; ou a notícia corresponde ao que o Presidente pensa e só poderia ter duas consequências: queixa na Procuradoria e demissão do Governo" (Idem)


"1. As críticas que aqui fiz ao comportamento político do Presidente da República (PR) no caso das alegadas escutas de São Bento a Belém mantêm-se não só actuais como até ganharam uma outra dimensão e gravidade com a notícia publicada ontem pelo Diário de Notícias.

A reacção de Cavaco Silva é preocupante para a democracia portuguesa.

O PR, mais uma vez, não se demarcou da tarefa de que terá incumbido o seu assessor (que se tivesse exorbitado deveria estar já sumariamente despedido). Antes pelo contrário, afirmou, de forma clara, que vai "averiguar questões de segurança" depois das eleições.

Estas palavras são contraditórias com a afirmação de que não pretende influenciar o período eleitoral. Além do mais, escondem uma outra hipocrisia: se o PR não queria influenciar, porque utilizou o assessor para dar uma "notícia" em vésperas das eleições?

Um PR não se pode prestar a estes papéis. Ou tem certezas e age, com coragem; ou não tem certezas, e averigua calado. Ora Cavaco Silva não apresentou nenhuma queixa na Procuradoria, não pediu esclarecimentos ao SIS, não demitiu o Governo. De forma irresponsável, permitiu mesmo que se acendesse a fogueira da dúvida.

2. Enquanto não negar responsabilidades pessoais no comportamento do seu colaborador de 20 anos, o PR é suspeito de acusar sem provas, de lançar a instabilidade no País.

Acresce um outro aspecto: depois de 27 de Setembro, data em que começará a "averiguar", já estará eleito um outro primeiro-ministro, que pode ser o mesmo, legitimado pelo voto popular apesar das suspeitas presidenciais sobre ele. Esta não é uma questão de pormenor. Vai com certeza introduzir ainda mais instabilidade num quadro partidário que pode não vir a ter uma solução estável para quatro anos.

Pessoalmente, confesso-me surpreendido. Reconheci sempre em Cavaco Silva uma autoridade moral que me parecia um importante resguardo para o Estado português - e agora não sei que pensar. Eu e, com certeza, muitos cidadãos."



A segunda, de Emídio Rangel, do Correio da Manhã e tem como título A CONSPIRAÇÃO:

"[...] é um facto que a “inventona” das escutas a Belém foi gerada, na Presidência da República, por Fernando Lima, um homem-forte do Presidente e utilizou o jornal Público, dirigido por José Manuel Fernandes, que agora abandona o barco, ao que se diz, para se juntar ao staff do Presidente da República.[...]

Se se confirmar (é necessária a reconfirmação de tudo) tudo o que ficou agora jornalisticamente provado e se, em tempo útil, o Presidente da República não se pronunciar sobre o assunto, mostrando-se à altura do cargo e das responsabilidades que os portugueses lhe confiaram, não há outra saída que não seja a resignação.

O Presidente da República está “acusado” de promover uma conspiração contra outro órgão de soberania, enquanto prega a cooperação institucional entre Belém e S. Bento. Ou prova, ou se demarca, sem equívocos, ou resigna, porque feriu de morte a confiança dos portugueses e já não pode continuar a ser o garante do regular funcionamento das instituições democráticas.

Quem adopta estas práticas perde todas as hipóteses de continuar a exercer uma magistratura de influência na sociedade e não será mais aceite como Presidente de todos os portugueses. O assunto é muito grave. [...]»

quinta-feira, setembro 17, 2009

A minha opção

Regressei à poucos dias da Polónia e aproveito para agradecer as mensagens amigas e generosas que entretanto recebi



Ao ter chegado embati naturalmente na campanha eleitoral e portanto na polémica à volta do TGV.

Curiosamente, na Polónia, encontra-se em fase adiantada a construção do TGV e, face aos argumentos que aqui tenho ouvido, sinto-me no meu País a viver dias de absurdo e de pura hipocrisia política.



Mandaria a prudência que o assunto TGV, que naturalmente merece ser discutido, não fosse agora utilizado como arma de campanha política, até porque um dos partidos envolvidos, o PSD, se apresenta nestas eleições com o slogan “Política de verdade”.

O facto é que, das relações internacionais às leis laborais, das medidas sobre a justiça às ambientais, das urbanísticas às da saúde, das agrícolas às de educação, da justiça social aos apoios sociais, há todo um mundo de coisas importantes a discutir que, por causa do TGV, ficaram completamente nas zonas sombrias desta campanha.

E se assim é…. Vou também eu meter a minha modesta colherada neste assunto.

E começo por referir que se relembrei aqui o slogan “Politica de verdade” do PSD foi porque o Governo, em que Manuela Ferreira Leite era a Ministra das Finanças, após ter acordado com o Estado Espanhol a construção de várias linhas de TGV, produziu em 26 de Junho de 2004 uma Resolução do Conselho de Ministros, que merece ser vista agora com toda a atenção.




Essa Resolução que pode aqui ser consultada encontra-se publicada no Diário da República e nela encontram-se previstas 5 linhas de alta velocidade, sendo explicado o seguinte:

A rede ferroviária de alta velocidade assume-se como
um projecto de investimento estruturante que permite
o desenvolvimento de competências empresariais próprias,
assegurando a participação de empresas e indústrias
locais nas diversas fases do projecto incluindo execução
e operação, contribuindo para o crescimento do
produto interno bruto e induzindo a criação de emprego
sustentado, factor decisivo da coesão social do País.”


E na verdade, apesar de a tecnologia sobre a qual assenta o TGV não ser nacional, de acordo com os estudos da altura, e que hoje ainda se mantêm válidos, cerca de 85% do equipamento pode ser produzido pela indústria do nosso país!

Por isso mesmo, a simples construção do TGV, levava o Governo em que Manuela Ferreira Leite era Ministra das Finanças a afirmar que essa obra iria movimentar fortemente o tecido empresarial português, podendo, só por si, elevar anualmente o PIB em mais de 1,7 pontos percentuais, o que resultaria num aumento de receitas fiscais bastante considerável, num efeito catalizador do desenvolvimento do País (até pelo acesso a novas tecnologias) e até numa diminuição de assimetrias regionais!

Isso mesmo encontra aqui desenvolvido nesta notícia da época.

Estranho muito, por isso, que a líder do PSD venha agora dizer que o “TGV é enfeite de novo-rico” e que o “País está endividado e quer uma coisa de que não precisa”.

Afinal quando é que Manuela Ferreira Leite estava a revelar verdadeiramente o seu pensamento sobre a utilidade do TGV?

Antes, quando preparava o argumentário para que Durão Barroso nos garantisse que o TGV era excelente para o País?

Ou agora, como líder do PSD, em que diz que o TGV é uma desgraça desnecessária



A explicação que Manuela Ferreira Leite dá para a sua mudança de opinião, quer sobre a utilidade, quer sobre a oportunidade deste empreendimento, radica, segundo ela, no actual nível de endividamento externo do País, problema que diz resultar da incompetência de Sócrates.

Assim sendo, falemos então, sobre o tal endividamento:

Como todos sabemos a origem do endividamento externo português está no seu tradicional défice comercial: Importamos mais do que exportamos!.

Acresce que, infelizmente, Portugal não é produtor de petróleo, o que torna esse défice crónico e quase inevitável, dado o perfil das nossas exportações.

Mais de metade das importações portuguesas são de combustíveis, e o que o Manuela Ferreira Leite deliberadamente omite é que nos últimos 3 anos anos o preço da parcela mais importante das nossas importações – o petróleo - cresceu 3 vezes!!





Será que MFL nos está a querer convencer que Sócrates poderia alguma vez controlar o preço do petróleo nos mercados internacionais? A dita incompetência afinal só poderia provir daí!

MFL esquece-se ainda de dizer que, apesar desse nível excepcional de crescimento do preço do petróleo, o rácio de endividamento face ao PIB passou de 64% em 2003 para 95% em 2008, o que significa que, apesar de tudo, Portugal conseguiu diminuir o impacto desse aumento de preço no nosso endividamento de 125% para 48%.

Vale a pena referir que as razões desse amortecimento do impacto foram várias, e justiça seja feita, se deveram a políticas internas! Realço duas:

Uma, ainda de importância financeira reduzida, mas extremamente relevante como indicação de caminho futuro traduz-se na aposta nas energias renováveis lançadas pelo Ministério da Economia, que permitiram já reduções nas importações de hidrocarbonetos.

Outra, de maior relevância financeira, foi sem dúvida a pesada e desagradável política fiscal de tributação dos combustíveis, que tiveram um efeito significativo na redução da procura e portanto da factura energética.

Trata-se aliás de uma política tão pesada e tão desagradável que o PSD e o CDS se fartaram de protestar contra ela…

Ora se o Governo tivesse seguido os “conselhos” destes partidos, aliviando a carga fiscal para que o transporte rodoviário se continuasse a fazer ao mesmo nível, o que aconteceria?

Aconteceria que o nosso endividamento estaria não nos 95% de que a Dra. Manuela se queixa, mas dispararia no mínimo para 120% do PIB. E aí sim, o rating financeiro do País desceria às ruas da amargura, com todas as consequências para o custo do dinheiro para os nossos bancos, empresas e famílias!

Bom, mas voltando ao argumento de Manuela Ferreira Leite, será que o actual nível de endividamento face ao PIB é algo de tão aterrador que iniba os investimentos grandes investimentos propostos?

Esquece também aqui a Dra. Manuela que se trata de investimentos faseados no tempo e comparticipados pela União Europeia. Mas parece que para a Dra. Manuela a diluição no tempo ou a concentração temporal dos gastos orçamentais são uma e mesma coisa, e que as comparticipações de muitos milhões são irrelevantes....

Por outro lado, quanto ao efeito nas condições internacionais de crédito, a verdade é que excepto uma agência de rating, a tal, tão credível, que dava à Islândia a sua cotação máxima em vésperas de bancarrota, as duas outras agências de rating não baixaram o ranking do Estado Português, que se situa ainda no nível AA !

E mesmo essa agência, tão considerada pela Dra. Manuela, a S&P, colocou o nosso País, ao mesmo nível da Espanha, Irlanda, Grécia e Itália entre outros países da União!



Acresce ainda que essa indicação de rating que serviu de pretexto a Ferreira Leite para a sua cruzada anti-TGV, se refere a 2008 e que, entretanto, desde Março deste ano, os indicadores de referência, que utilizam como padrão a dívida pública alemã, vêm aproximando os da divida portuguesa aos da dívida germânica, o que significa uma proximidade de Portugal aos parâmetros do padrão mais elevado de confiança.

Manuela Ferreira Leite, deve sabê-lo, mas prefere omiti-lo.

É esta a “Política de verdade”? Ou será que se prepara, caso ganhe as eleições para, poucos meses depois, declarar que o problema do endividamento foi resolvido por ela e que por isso já poderemos voltar a pensar em TGV!

Sinceramente, compreendo a posição de todos aqueles que sempre foram contrários ao TGV por acharem que ele não seria necessário, em termos de expansão ferroviária e de ligações ao centro da Europa. Contudo, no que se refere a Ferreira Leite, fica claro que as suas motivações, pouco têm que ver com convicções ou com a verdade. Têm que ver apenas com um enorme apetite pelo poder…

Quem leu alguns dos posts que aqui coloquei sobre política nacional percebeu claramente que não sou um apoiante de José Sócrates, mas neste caso, concordo em absoluto com ele quando refere que a atitude de Manuela Ferreira Leite é uma atitude retrógrada, uma atitude do passado.

Manuela Ferreira Leite joga sem pudor com alguns factores que crê poderem dar-lhe alguns dividendos políticos.

Em primeiro lugar deve considerar que para além de memória curta, o povo português não tem inteligência.

Em segundo lugar omite dados, manipula conceitos e números crendo que somos todos ignorantes, possivelemente na convicção de que a Economia é seu território exclusivo!

Em terceiro lugar, revelando uma faceta bastante perigosa e irresponsável, utiliza de forma atabalhoada, como factor de mobilização popular, o apelo a sentimentos primários face a imaginários adversários externos.



Neste caso, procurou tirar do baú o sentimento anti-espanhol, como se os eleitores fossem garotos acabados de sair da aula de História onde se aprendeu que Miguel de Vasconcelos foi defenestrado por estar feito com os castelhanos, e que D. Luísa de Gusmão, que por acaso era uma espanhola dos quatro costados, se saiu com a patriótica tirada “Mais vale ser rainha uma hora que duquesa toda a vida” !

Chamar baixa política aos argumentos de Ferreira Leite, que ainda não há muito tempo foi administradora não executiva de um banco espanhol, não é por isso insulto, é o corolário lógico de quem tem alguma memória, algum conhecimento dos factos e tem o mínimo de senso!

Termino lembrando o seguinte:

Apesar dos primeiros projectos para a construção do Metro de Lisboa serem de 1888, apesar de várias linhas na Europa se terem iniciado na transição do século XIX para o século XX e apesar de se ter percebido, desde sempre, a vantagem deste meio de transporte, em termos de qualidade de vida e ordenamento urbano, só em 1959 e depois de 13 outros países da Europa já o terem feito, é que Portugal inaugurou a sua pequena linha de Metropolitano.



Depois de a Alemanha ter sido pioneira na Televisão em 1935 e de o Reino Unido e a França a terem imitado nos anos seguintes, depois de as emissões a cores se terem iniciado em 1954 nos Estados Unidos, Portugal, só em 1957, com um Salazar bastante contrafeito, iniciou emissões televisivas regulares, atrás de quase todos os países europeus e mesmo de vários da América Latina.




Esses foram os tempos em que o Banco de Portugal acumulava barras de ouro e o País era o mais pobre e atrasado da Europa. O Pais onde ainda circulavam carroças nas ruas de Lisboa e a modernidade chegava com décadas de atraso.

Eram os tempos de Salazar cuja fixação, em termos financeiros, era a do equilíbrio orçamental e do défice zero. Ainda que para isso (quase) todos tivessemos que viver numa apagada e vil pobreza…

Manuela Ferreira Leite diz agora que para ela um Estado Moderno é um Estado Rico e que para isso parará o programa de obras públicas que o actual governo propõe….

É uma frase muito infeliz, pouco lúcida, que remete para um modelo passado que julgava não voltar a ver repetido…. Mas que, vindo de quem vem, já não me surpreende, face a tantas afirmações infelizes já proferidas sobre outras matérias…

Sendo realista, analisando o que vejo e oiço, face aos dois únicos possíveis candidatos a Primeiro-Ministro direi, como disse ontem Adriano Moreira que desta vez temos que optar por um mal menor (bom, ele foi um pouco mais duro e disse literalmente que iria votar no menos péssimo…)!

Eu, no próximo dia 27 irei votar PS… A perspectiva de ter Manuela Ferreira Leite como Primeira-Ministra deixa-me verdadeiramente aterrorizado!

segunda-feira, agosto 31, 2009

Vou de férias… durante os próximos quinze dias estarei fora de Portugal e tentarei descansar um pouco num país de que gosto particularmente: a Polónia.

Antes de partir, no entanto resolvi falar um pouco de dois assuntos, um recente e outro mais antigo, pois um trouxe-me à lembrança o outro.

Passo a explicar:

“Um fado xunga e mal falado”… É assim que termina a versão criada por Hermínia Silva para o Fado Falado que foi apresentado nos palcos de uma revista nos finais da década de 40 por João Villaret.

O texto é de um grande autor da época Nelson de Barros e João Villaret, um dos maiores actores e declamadores portugueses de sempre, tornou-se num mito e dos mitos nunca convém associar algo de negativo, pois se o fizermos, é quase um sacrilégio e cai-nos em cima este mundo e outro.





O certo é que O Fado Falado tornou-se muito popular, e ainda hoje é interpretado por vários artistas, mas a verdade também é que se trata de um texto menor e se a ele acrescentarmos o dramatismo que a representação de Villaret lhe deu, roça verdadeiramente o absurdo e o ridículo.

Hermínia Silva teve claramente essa percepção e criou uma paródia a esse texto, criando o Fado Mal Falado, bem mais interessante e inteligente até e que o original…

Fê-lo sempre contudo com o devido respeito ao mito Villaret, pois apesar do sucesso que obteve esta sua caricatura, após a morte do actor interrompeu a apresentação desse número, durante pelo menos 4 anos, em consideração à sua memória, retomando-o depois sempre com grande sucesso popular.

Villaret, entretanto, divertira-se sempre imenso ao ver Hermínia a parodiá-lo!










Este era o assunto antigo, que me veio à memória, assim que li com alguma atenção o pobre programa eleitoral do PSD, perdoe-se a expressão, mas “xunga e mal falado” foi a imagem que se colou à sua leitura.

Ao abordar a temática agrícola e o PRODER lê-se o seguinte:

Impõe-se aqui colocar o Ministério da Agricultura efectivamente
ao serviço dos agricultores, numa perspectiva de fornecedor/
cliente, alterando o seu funcionamento e simplificando os
processos, e tornando-o competitivo na captação e gestão dos
fundos comunitários
.

Um Ministério a funcionar para uma classe na perspectiva “fornecedor/cliente”?

Claro que certamente é isto que os Partidos têm a tentação de fazer, mas dizê-lo assim tão claramente é estranho.

Com este texto, os seus autores, autorizam que se pense que o PSD é permeavel a que o Estado se deva moldar ao agrado de clientelas.

Vejamos o caso concreto, actualmente o PRODER apoia múltiplos projectos de acordo com uma fileira de prioridades, de que é exemplo o olival e a produção de azeite, com o objectivo de aumentar a produção de um produto de que já fomos auto-suficentes.

A perspectiva de um Estado é definir políticas para a Agricultura, que podem até conflituar com alguns grupos de agricultores. Deve estabelecer regras, traçar rumos, validados em eleições livres e não satisfazer apetites clientelares!

Será que, neste caso, o assunto foi simplesmente, mal apresentado... “mal falado”!




Mas, este foi apenas um sinal deste Programa eleitoral, que se torna preocupante, porque noutros pontos traduz algumas políticas que vão exactamente no sentido dos temores que referi:

-Suspender a aplicação da avaliação dos professores, querendo vir a aplicar um outro modelo, mas que não se sabe ainda qual será!

Possivelmente até será o modelo que já se encontra em preparação no actual ministério. Afinal os técnicos que fazem estas coisas vão transitando de governo em governo e acabam por ser eles quem verdadeiramente manda!

Bom, mas também aqui, apesar de vaga e vazia, a proposta do PSD está feita especificamente para captar o apoio de um certo grupo de clientes…. Mas será que eles vão nisso? Não custa tentar!

- Acabar com o pagamento especial por conta das Empresas, no IRC.

Eu que sou trabalhador por conta de outrem também faço o meu pagamento especial por conta todos os meses, quando me abatem o IRS, para depois fazerem o acerto no final do ano… O pagamento especial por conta para as Empresas segue ao fim e ao cabo a mesma filosofia fiscal que nos abrange a todos!

Com esta proposta o PSD preocupa-se pois com as empresas, naquilo que normalmente dói mais a todos, empresas e cidadãos comuns, a sua tesouraria e o seu rendimento….

Neste caso, a preferência vai para as empresas e sempre serão mais uns clientes que se poderão captar!

Mas neste Programa as empresas têm mais boas surpresas!

Ao propor-se baixar a TSU que está a cargo dos empresários em dois pontos percentuais, o PSD diz que é para tornar as empresas mais competitivas, baixando o custo do factor trabalho…

Lembram-se quando o actual Governo baixou o IVA num ponto percentual que reflexos essa baixa teve nos preços ao consumidor? Que efeitos teve na competitividade? Nenhuns, como sabem!

Bom, imaginam portanto qual será o destino desta proposta de poupança para as Empresas!

Bom, mas mais importante que isso, como ficariam depois desta medida, as receitas da Segurança Social… Segundo o PSD o Estado compensará os respectivos fundos…. Pois…. Mas a prática do PSD, até no tempo em que Manuela Ferreira Leite esteve no Governo, foi a de nunca respeitar as transferências orçamentadas para a Segurança Social.

Será que iria agora transferir verbas ainda maiores, numa altura em que simultaneamente refere que o Estado está sem recursos????

Bom, mas no fundo, no fundo o que é que isso interessa! Se os clientes, que por coincidência são igualmente os empresários ficarem satisfeitos , isso é que é importante!

Claro que este alívio da TSU que o PSD promete às empresas, leia-se aos bolsos dos donos das empresas, terá consequências para outros, mas esses outros talvez não sejam os clientes preferenciais do PSD e talvez, bem conversadinhos até se consigam convencer que a medida também é boa para eles.

Diz o PSD que ajudará a baixar o desmprego…. E nem se riem nem nada…. São uns artistas!

Ora o facto é que para esses clientes de segunda, medidas destas levam a que daqui a uns anos se volte a dizer que a Segurança Social está falida, que as pensões têm que baixar e a idade de reforma tem que subir.

Levam também a que se diga que a solução é o recurso individual a esquemas privados que as seguradoras decerto terão para oferecer.

Seguradoras, que são aliás outro grupo de clientes muito respeitaveis que importa também tornar contentes!

Penso que todo o pais conhece a origem e os pressupostos ideológicos do PSD. Contudo, quando em tempos ainda afirmava social-democrata, havia uma maior elegância, das suas propostas…

Estas de agora só me conseguem trazer à ideia a frase final do Fado Mal Falado: Xunga e mal falado!

E termino, indo para longe, sem saber ainda em quem votar no final de Setembro (apesar de saber já em quem não votar

Termino com aquilo que me parece que verdadeiramente vale a pena, que é genuíno e inteligente, com a Hermínia e o Fado Mal Falado:

segunda-feira, agosto 24, 2009

A propósito de uma notícia

Ainda a Campanha Eleitoral não começou e já estou a ficar farto de tanta hipocrisia e mediocridade!
Sinceramente já cansa ouvir Manuela Ferreira Leite e Paulo Portas, falarem de Pequenas e Médias Empresas.
Não porque as PMEs não sejam importantes para o nosso país, muito pelo contrário. Mas porque os pressupostos ideológicos que defendem, de redução do Estado a um papel minimalista e de liberalização completa da economia, numa sociedade onde se movem livremente empresas gigantescas, são já em teoria, os piores inimigos de qualquer PME.
Por outro lado, também fiquei "engalinhado" com a justificação dada pelo PS para ter tornado mais liberal a legislação do trabalho, alegando que isso contribuiria, para tornar a nossa economia mais competitiva.... Uma lógica dessas é não só incompatível com o ideário socialista, mas também se for levada ao seu limite acaba até por justificar o trabalho escravo.
Para piorar tudo isto os partidos à Esquerda limitam-se a repetir slogans, ainda que sob novas formas, e parecem mesmo apreciar "o quanto pior melhor", na convicção de que o voto de protesto lhes dará mais lugares no Parlamento e nas Câmaras.
O cansaço, com a demagogia e a óbvia falta de honestidade política, que parece contagiar toda a classe política, têm-me feito hesitar sobre que tipo de intervenção posso e devo ter aqui neste meu espaço e até sobre que voto hei-de ter nas legislativas!
No entanto uma notícia que ouvi hoje na TSF levou-me, de imediato a querer desabafar um pouco sobre alguns assuntos!
Dessa notícia, de hoje, da TSF (jornalista Cláudia Arsénio) com o título: Empresários que viajam em comitivas oficiais não desenvolvem negócios no mercado visitado . Transcrevo alguns trechos:

"Os empresários portugueses, que têm viajado com o Presidente da República e com o Primeiro-Ministro não aproveitam para desenvolver negócios com empresários locais, mas com outros empresários da comitiva, revela um estudo universitário divulgado, na edição desta segunda-feira, pelo Jornal de Notícias (JN).

Em vez de estabelecer contactos com empresários dos países que estão a visitar, a maioria dos empresários portugueses prefere manter as redes de negócio dentro da própria visita oficial.

Ou seja, os empresários aproveitam as visitas organizadas pelo Presidente da República e pelo primeiro-ministro para desenvolver negócios com outros empresários da comitiva.

Esta é uma das conclusões de um estudo realizado por André Caiado, da Faculdade de Economia do Porto, que analisou 12 visitas oficiais, entre 2005 e 2008.
.................................................

O estudo refere ainda que os empresários não se preparam tanto como deviam e podiam, por exemplo, tentar estabelecer contactos com antecedência nos países que vão visitar.
Aliás, segundo este estudo, os aspectos menos valorizados das visitas oficiais foram a necessidade de adquirir informação sobre concorrentes, celebrar contratos e adaptar ou planear a criação de produtos ou serviços para o mercado visitado. "


Esta situação, que certamente, não deixará surpreendido Cavaco Silva, não é senão um dos muitos sinais de atraso e falta de lucidez de uma boa parte do nosso empresariado.

Já lá vão longos anos, quando andei a estudar Gestão de Empresas, que nos era ensinado que a má preparação dos nossos empresários era uma das principais causas do nosso atraso.

Empresas mal geridas, empresários mais preocupados em ter bons carros e boas casas do que em investir nas suas empresas, produzem um tecido empresarial fraco e uma economia débil.

Estes factores de há muito que eram conhecidos e há muito que urgia uma mudança!

E diga-se o que se disser dos políticos, eles, umas vezes melhor, outras pior, têm cumprido a sua missão.

Conseguiram fazer-nos entrar na União Europeia, e com essa entrada, foram chovendo fundos comunitários, para projectos vários, na industria, na agricultura, nas pescas e no comércio, cujo âmbito temporal foi sucessivamente alargado pelos vários governos.

Da Europa veio dinheiro que financiou acções de formação para tudo e mais alguma coisa.

Muitas vezes essas acções foram conduzidas por associações empresariais, de acordo com os interesses e necessidades que definiram, e afinal acabamos por verificar que pouco efeito tiveram na atitude dos empresários.

Empresários que, entretanto, passaram a ser chamados de “empreendedores”, mas que se comportam na prática como mero “patronato”, já que apontam sempre, em todas as circunstâncias, como a solução prioritária para os seus problemas “uma maior flexibilização das leis laborais”!

Apoios às PME, são, actualmente, o clamor de alguns dos nossos partidos políticos… Podem-se certamente criar mais alguns…. Mas na verdade esse clamor é apenas, e só, mero oportunismo político, em época de campanha.

Ao longo dos anos o Estado, através de todos os Governos, tem vindo a criar programas, incentivos, isenções e ajudas.

Visite-se, por exemplo, o site do IAPMEI, e também o conjunto de programas existentes no âmbito da União Europeia, a maior parte de aplicação entre 2007 e 2013 e ver-se-á, a quantidade de opções já existentes ao dispor dos empresários.

Mas para isso é preciso que eles queiram mudar algo e saibam o que devem mudar, saibam para onde querem ir!

E depois que se dêem ao incómodo de informar-se (as associações têm aí um papel importante), e que estejam dispostos assumir os custos dos riscos com a mudança.

Enfim, que queiram mexer-se, não ficando à espera que um qualquer subsídio lhes caía do céu!

Ser empresário implica, face ao mercado ser criativo (e não limitar a imaginação a contornar as leis fiscais), e implica, face à sua organização interna, ter bons instrumentos de gestão, nomeadamente uma boa contabilidade analítica e saber fazer bom uso dela…

Em tempos estive profissionalmente envolvido num projecto público, com fundos europeus, para a modernização de um determinado sector económico. Havia uma subsidiação fortíssima que chegava a atingir os 70% a fundo perdido e, mesmo assim, foi necessário andar a bater porta a porta para que alguns, poucos, aderissem!

Tal como em muitos outros aspectos da nossa sociedade, o nosso progresso depende de uma mudança de mentalidades, o que é algo que pode levar gerações.

Mas será que não há sucesso empresarial no nosso País?

Claro que há!

Para além dos habituais nomes sonantes de Belmiros e Amorins, veja-se por exemplo o caso do sector vinicola, onde por todo o país vão aparecendo jovens bem preparados, muito deles pertencentes a famílias com peso tradicional no sector, criando produtos de qualidade e já com reconhecimento internacional!

E ao ver esse sucesso nesse sector específico, atente-se nas razões pelas quais noutras actividades agricolas, explorações há longo tempo decadentes em mãos nacionais, se tornam rentáveis com a chegada de investidores estrangeiros.

É, talvez aqui, na agricultura, que se tornam mais visiveis as diferenças sociais e de sucesso, ou insucesso, consoante a respectiva origem familiar! Consoante houve ou não a capacidade das novas gerações, adquirirem conhecimentos e de as antigas gerações conseguirem dimensões nas propriedades que lhes permitam adequadas economias de escala.

Por isso mesmo a agricultura é um caso à parte, porque para além da necessária modernização, das questões técnicas e de imprevisibilidade natural, há ainda a considerar as questões fundiárias, de actividade cooperativa e de emparcelamento.

Mas também há, sucessos na indústria e serão esses os casos que devem ser divulgados!Não como trunfo de campanha eleitoral de quem governa, pois o que os industriais bem sucedidos obtiveram, conseguiram-no com a sua persistência e a sua luta, …. Mas sim como um exemplo para os restantes.

Entretanto, o que vamos sabendo de alguns gestores bancários, ultimamente muito falados, dá-nos a perceber que a qualidade técnica e ética do nosso empresariado é muito mais problemática do que muitos de nós julgávamos e que a fraqueza do nosso "tecido empresarial" não se encontra apenas restrita ao mundo dos pequenos negócios.

Este estudo hoje vindo a lume no JN e na TSF, só nos faz confirmar mais profundamente essa percepção.

Esteja quem estiver no Governo, a Economia do País só virá a ser competitiva, após um esforço monumental na Educação, que produza empresários, mais cultos, mais preparados, com horizontes mais alargados. E disso, só após, algumas gerações Portugal colherá os frutos!

Fazer campanhas eleitorais ao pé de produtores de batata com queixas de falta escoamento, porque as cadeias de distribuição optam por batatas estrangeiras, é um péssimo serviço prestado ao país e à agricultura.

No século XXI, produtores de batatas, ou de sapatos, ou de mobílias, são empresários, e sejam pequenos ou grandes, têm que saber ir à procura dos compradores, têm que possuir estratégias de marketing, têm que ser mais do que simples, lavradores, sapateiros ou carpinteiros.

E se não o souberem ser, por falta de preparação ou de meios, aí torna-se decisivo o papel das suas associações, para os encaminhar, para lhes prestar assessoria, para lhes dar a formação adequada… Fazer desfiles de tractores não resolve o problema! Nem o deles nem o da nossa economia em geral.

Referir-se ao sector agrícola da economia, como “Lavoura”, como faz Paulo Portas, não é um mero acto de charme linguístico, é uma designação que comporta um sentido sociológico muito preciso. Um sentido que nos remete para o passado, para “os bons velhos tempos” em que não havia um mercado aberto e liberal que o próprio Portas ideologicamente defende.

É, portanto, um acto de profunda demagogia e desonestidade intelectual, nas visitas aos “lavradores” tentar aliciar votos dos que mais sofrem com a inadaptação aos novos tempos, para depois ser arauto do liberalismo e da diminuição do papel do Estado, o que coloca sempre os mais fracos, os menos preparados à mercê da lei da selva!

Por tudo isto esta campanha está a revelar-se profundamente desoladora e triste...

Por tudo isto e muito mais, sobre o qual poderia estar aqui a perorar durante horas, estou indeciso ainda sobre o meu voto.

No entanto, quer por razões ideológicas, quer pelo seu péssimo desempenho governamental no passado excluo, desde já Paulo Portas e Manuela Ferreira Leite a qual aliás, num espaço de 20 minutos foi capaz de dizer, na passada semana, que não conhecia o verdadeiro estado das finanças públicas, pois achava que os dados oficiais não transmitiam a gravidade da situação e que contudo podia garantir que não aumentava os impostos!

Acho que a hipocrisia, o descaramento e a inconsciência não são próprios de quem se propõe governar um País.

quarta-feira, agosto 05, 2009

Estragos






A foto acima retirei-a do magnifico blog do Arquitecto Luis Marques da Silva, passando a citar parte o texto que a acompanha:

Apesar de estar em perfeito estado de conservação, este edifício foi demolido, como vai acontecendo por essa Lisboa fora, descaracterizando a sua face, roubando-lhe as suas memórias.”

Ao ver isto pergunto-me se Lisboa ainda terá remédio?

A Lei ao fixar a existência de uma lista de imóveis classificados com interesse patrimonial, anexa aos PDM, o que acaba por conseguir é que todos os restantes edifícios, não abrangidos por qualquer protecção, e que foram construídos na mesma época, fiquem sujeitos à demolição.

Por isso, Lisboa a pouco e pouco vai sendo descaracterizada, pois no meu entender, para além dos exemplares de arquitectura mais relevantes, deveria ser igualmente preservado o carácter de época da totalidade do conjunto edificado


Como tal não é feito, ficamos com situações como esta na Avenida da República :




Em que um belo edifício, prémio Valmor, devido à demolição dos laterais que não tinham qualquer “protecção legal, acabou por ficar entalado entre duas peças arquitectónicas que nada têm que ver com ele.

A zona perdeu toda a sua ambiência de início de século XX e agora é este belo edifício que acaba por ficar deslocado no meio dos novos prédios.

Não entendo, porque é que a Lei, nas cidades portuguesas, à semelhança do que acontece na maioria dos países civilizados, não obriga a que em certas zonas haja modelos específicos para construção, por forma a manter a harmonia das respectivas traças e a memória histórica da época em que determinada zona foi edificada.

Era esta a ambiência da Avenida da República que se perdeu completamente:




Acho muito bem que os arquitectos de hoje deixem as suas marcas e exemplos criativos do seu talento!
Temos, em Lisboa zonas óptimas para esse efeito: A Expo, a Alta de Lisboa, etc.... Contudo, relativamente à cidade histórica, deveriam existir regras muito claras para a manutenção de estilos arquitectónicos, preservando assim as várias ambiências de época, em que, bairro a bairro, a cidade se foi edificando.

É que na verdade, se o brilhantismo profissional do arquitecto, o leva legitimamente a querer deixar algo de marcante para o futuro, deveria haver, da parte das autarquias e dos restantes poderes públicos uma opção perfeitamente clara, aquando dos actos eleitorais, para que se soubesse de antemão se essas marcas de “modernidade” serão autorizadas apenas nas zonas novas das cidades ou se, pelo contrário, as vão permitir nas zonas históricas onde há também obras marcantes do passado, devidamente enquadradas na sua época histórica.

A ideia que me dá relativamente aos nossos Presidentes de Câmara é que não gostam nem são sensiveis à beleza e ao passado das cidades que estão a gerir e que as querem modificar de qualquer maneira, "para mostrar obra feita", revelando assim que ignoram e desprezam a sua história.
Parece mesmo que desconhecem o que é a verdadeira qualidade de vida e o interesse turístico que a sua preservação representa.

O exemplo do que acontece com a intervenção do arquitecto Gonçalo Byrne em Coimbra (Museu Machado de Castro) em plena zona das Universidades é para mim um exemplo muito claro do que poderia ser uma mais valia numa outra zona da cidade, mas que ali é, no mínimo, algo de muito controverso e que, sem dúvida, abre as portas a futuras alterações de toda aquela zona.



Vista do Museu Machado de Castro, a partir da varanda da Universidade, após intervenção de "requalificação"


Infelizmente, por todo o país, paisagens e referências históricas acabam por ficar espezinhadas pelo betão, quase sempre, de gosto muito duvidoso!

Veja-se por exemplo o caso de Leiria:





Ou ainda o caso tenebroso de Vila Nova de Gaia, onde se está a construir, na encosta para o Douro, alguns edifícios que bem poderiam estar na Porcalhota ou em qualquer outro Bairro de subúrbio.
Com estas construções a visão belissima do lado de Gaia, a partir da Ribeira do Porto, arrisca-se a ficar completamente adulterada, no que tinha de mais belo e tipico.







Quase a terminar volto a citar o texto do Arquitecto Luís Marques da Silva:

"Continua a ser permitido transformar terrenos em pepitas de ouro.

Continua a ser permitido pagar por um porco, o valor de um presunto.

Até quando a inexistência de uma verdadeira politíca de solos e da figura do "crime urbanístico", na legislação, impedindo a especulação desenfreada, o desordenamento do território e a possibilidade da ocorrência destas situações?

Apesar de tudo, baixar os braços? Nunca!!!

domingo, julho 26, 2009

Retrato de....

Completou-se no início deste mês de Julho o quinto aniversário do desaparecimento de Sophia de Mello Breyner Andersen!





Trata-se de uma das figuras literárias do século XX que mais admiro.

Penso que a melhor homenagem que podemos fazer a um escritor é divulgar a sua obra.

É o que me proponho hoje fazer, com um texto que, apesar de ser muito conhecido, e ser aparentemente dirigido a certas figuras de uma determinada época do nosso país, mantém-se ainda perfeitamente actual.

O texto, que reproduzo seguidamente, foi retirado dos seus "Contos Exemplares", publicado em 1962, e chama-se:

"O Retrato de Mónica"


"Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da "Liga Internacional das Mulheres Inúteis", ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.

Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem--se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.

Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.

De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.

A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.

Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, "qualquer distracção pode causar a morte do artista". Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.

Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.

Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.

O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.

É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.

E por isso Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora das suas virtudes, admiradora de seus silêncios e de seus discursos. Admiradora da sua obra, que está ao serviço dela, admiradora do seu espírito, que ela serve.

Pode-se dizer que em cada edifício construído neste tempo houve sempre uma pedra trazida por Mónica.

Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima e toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.

Não é o desejo do amor que os une. O que os une é justamente uma vontade sem amor.

E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio, o mais firme fundamento do seu poder."


sexta-feira, julho 10, 2009

Na sombra

Nasceu em Viseu em 1930 e foi muito jovem para o Brasil, onde iniciou uma carreira de cantora e... por lá ficou

O auge da sua popularidade no país irmão teve-o em 1955 onde destronou a então famosissima Angela Maria como Rainha da Rádio. No ano seguinte seria a vez de passar o ceptro a Doris Monteiro.

Esteve nos primórdios da Bossa Nova e cantou todos os principais compositores do Brasil da sua época.

Chama-se Vera Lúcia e é praticamente desconhecida no país que a viu nascer... Nem mesmo na sua época aurea o nosso país lhe prestou grande atenção, apesar de ter chegado a gravar alguns fados.

Assumida, naturalmente, como cantora brasileira, penso que não será tarde para chamar a atenção para esta voz simpática, que apesar de ter as suas raizes na nossa Beira, é bem caracteristica da música brasileira dos anos 50, aqui numa das primeiras composições de António Carlos Jobim (1959).

terça-feira, julho 07, 2009

MELHOR É IMPOSSÍVEL

Tenho desde sempre uma verdadeira paixão por esta voz e por esta canção...

A força da interpretação de um poema belo, denso e fortíssimo e o arrebatamento da sua voz imensa e expressiva, colocam Elis num patamar a que muito poucas cantoras do mundo conseguem subir.

Deixo aqui a canção interpretada ao vivo e o poema, que certamente todos conhecem, mas que acredito que a maior parte dos que por aqui passarem gostarão de voltar a ver e a ouvir...



COMO OS NOSSOS PAIS (Belchior)

Não quero lhe falar,
Meu grande amor,
Das coisas que aprendi
Nos discos...

Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo.

Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa...

Por isso, cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado prá nós
Que somos jovens...

Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina, na rua,
É que se fez o seu braço,
O seu lábio e a sua voz...

Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantada
Como uma nova invenção.

Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
Cheiro de nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva
Do meu coração...

Já faz tempo
Eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança
É o quadro que dói mais...

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais...

Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
Não enganam não

Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém

Você pode até dizer
Que eu tô por fora
Ou então
Que eu tô inventando...

Mas é você
Que ama o passado
E que não vê

É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem...

Hoje eu sei
Que quem me deu a idéia
De uma nova consciência
E juventude
Tá em casa
Guardado por Deus
Contando vil metal...

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo,
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos
Os mesmos e vivemos

Ainda somos
Os mesmos e vivemos

Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais...

terça-feira, junho 30, 2009

Uma voz que o ladrão não quis escutar

Claudya é, para mim, uma referência musical do Brasil, há mais de 40 anos.

Surpreendi-me portanto quando me apercebi que o seu nome, para alguns da minha geração, nada dizia.




Surpreendi-me também com a dificuldade em encontrar os seus discos em Portugal e, quando, há quase quinze anos atrás, encontrei um seu CD ENTRE AMIGOS gravado em conjunto com o conjunto de jazz Zimbo Trio, resolvi comprar alguns exemplares, para oferecer a alguns amigos…




Mais me surpreendi ainda, com algum embaraço, confesso... quando aconteceu que um desses amigos, que foi deixando o CD no carro (juntamente com outros CDs, é certo) viu a sua viatura assaltada e constatou que o malandro do ladrão roubou, entre outras coisas, todos os CDs que lá guardava, menos o da Claudya.

Nesse momento, admito, que comecei a pensar que tinha uns gostos musicais tão maus, que até mesmo os bandidos se recusavam a roubar os discos da minha preferência…




Claudya começou a sua carreira no inicio dos anos 60 e, dotada de uma voz excepcional, foi-lhe logo colocado o epíteto de rival de Elis Regina… Aliás veio a saber-se depois que elas de facto não se davam nada bem…

Nesses anos 60 e depois nos anos 70 ocorriam inúmeros festivais internacionais e Claudya participou em vários, ganhando invariavelmente todos os prémios de interpretação que havia para ganhar.

Teve enormes sucessos populares, nomeadamente com a sua versão de “Jesus Cristo” de Roberto Carlos e viu depois o seu reconhecimento alargar-se ao ser a protagonista do musical EVITA no Brasil, com dois anos consecutivos de lotações esgotadas e com elogios críticos, quer de toda a imprensa brasileira, quer da própria revista TIME.

Após ter recebido mais um prémio de interpretação nas Olimpíadas da Canção em Atenas no inicio dos anos 70 foi convidada para solista da orquestra de Ray Coniff, que na altura era uma das mais famosas do mundo.





Claudya não aceitou o convite para se radicar nos Estados Unidos, ficou-se pelo Brasil e acabou por construir uma agradável, mas simultaneamente discreta carreira que, em Portugal passou completamente despercebida.

Teve, apesar disso, fora do seu país, alguns sucessos inesperados:

Uma inicialmente pequena estadia no Japão, transformou-se numa temporada de vários meses, que veio a originar um disco em japonês que vendeu mais de 200.000 exemplares.

Feito este modesto resumo sobre esta cantora do país irmão, sugiro agora, desafiando a vossa paciência, para afinal verificarem se quem tinha razão era eu ou o miseravel do ladrão...

Assim, deixo-vos aqui algumas canções da já longa carreira de Claudya:

A primeira, encontra-se no tal CD que o larápio não quis levar.

Trata-se de “Brasileirinho” uma música escrita pelo mestre do cavaquinho Waldir de Azevedo sendo aqui a voz espantosa de Claudya utilizada como se daquele instrumento se tratasse.



A segunda é um clássico de Paulinho Tapajós ,também incluído nesse mesmo disco desprezado pelo energumeno, e que se chama "Cantiga por Luciana"



Por último duas músicas já com 40 anos. Foram as músicas que me deram a conhecer a voz Claudya e me fizeram ficar a admirá-la.

A primeira, da autoria de Marcos Valle, vem do tempo em que eu achava que quem tinha mais de 30 já era velho… Era uma das minhas "cantigas de cabeceira" em 1971... Coisas de juventude…



A segunda, escrita por Ivan Lins, da mesma época da anterior, torna fácil perceber porque razão se comparava Claudya com a querida e saudosa Elis...




Uma observação final, para dizer que Claudya se começou por chamar Claudia Oliveira, depois Claudia e por último Claudya... curiosos efeitos de quem é crente na numeralogia...

quarta-feira, maio 27, 2009

Recordando Nouvelle Cuisine

Em 1987, na cidade de São Paulo, um grupo de amigos, todos com sólida formação musical, costumava reunir-se, nas tardes de sábado, para fazer o que mais gostavam: tocar Jazz.

Numa altura em que a moda era o rock eles não tinham qualquer pretensão em profissionalizar-se tocando standards de jazz.

Contudo, resolveram testar a sua aceitação pelo público e conseguiram marcar uma apresentação numa segunda-feira de Inverno, num pequeno bar de São Paulo, chamado “Espaço OFF”.

Só nessa altura resolveram baptizar o grupo, dando-lhe o nome de Nouvelle Cuisine.




A repercussão desta sua primeira apresentação foi tal que, na segunda-feira seguinte, o pequeno bar estava repleto de críticos e de produtores musicais.

Poucos dias depois estavam a assinar um contrato com a Warner e a editar o primeiro disco, com a ajuda de um maestro vindo de Los Angeles de propósito para trabalhar com eles.

O disco chamado apenas “Nouvelle Cuisine” foi recebido entusiasticamente pela crítica e foi, no escasso mercado de jazz, um verdadeiro sucesso de vendas.




O reconhecimento da sua excepcional qualidade permitiu que a editora aceitasse para o segundo disco, que se veio a chamar “Slow Food”, a introdução de canções em português, novas sonoridades e mesmo o acompanhamento de uma orquestra sinfónica.

Permitiu-lhes igualmente ter a colaboração de Gal Costa (numa canção chamada Notas) e de Caetano Veloso que compôs para eles a canção Luzes.



Ao assistir a uma das suas apresentações, o grande trompetista Wynton Marsalis considerou-os o melhor grupo de jazz fora dos Estados Unidos e juntou-se a eles para uma jam session, que considerou inesquicivel.

O prestigio e sucesso dos Nouvelle Cuisine foram-se mantendo, essencialmente no círculo restrito do jazz e da critica, Contudo, a sua notoriedade no público em geral viria a acontecer de forma algo imprevista em 1988.

Numa noite, no auditório do MASP (o principal museu de São Paulo,) os Nouvelle Cuisine, para surpresa do público, levaram uma jovem desconhecida para cantar em dueto com o vocalista Carlos Fernando Nogueira. A canção era “Bess you is my woman now” da Ópera Porgy and Bess.

A moça era linda, tinha uma voz belíssima e pouco depois viria a gravar o seu primeiro disco em 1989, onde esta colaboração com os Nouvelle Cuisine não ficou esquecida. Chama-se a moça Marisa Monte

Deixo aqui o vídeo desse trabalho conjunto sobre o tema de Gershwin esperando que gostem tanto dele, quanto eu!



Actualmente, após a saída de dois dos seus elementos fundadadores, entre os quais Carlos Fernando Nogueira, o Nouvelle Cuisine transformou-se em Nouvelle.

Carlos Fernando iniciou uma carreira a solo, tendo editado um CD (1994) em parceria com o músico Toninho Horta sobre canções de Chico Buarque




Hoje os Nouvelle têm como vocalista a cantora Estela Cassilati e continuam a ser uma referência de qualidade, embora tal como antes para um público minoritário.




Vale a pena conhecer os antigos Nouvelle Cuisine, que em 1992 foram considerados o melhor grupo de MPB, e os actuais Nouvelle, que infelizmente estão pouco presentes nas nossas lojas e, pior ainda, completamente ausentes das nossas rádios.

quarta-feira, maio 13, 2009

Uma canção célebre numa voz pouco escutada

Hoje trago aqui uma canção com quase 100 anos, na voz de uma cantora portuguesa que merecia ser mais e melhor conhecida pelo público português.

A canção é de origem francesa tendo sido escrita e criada em 1916 por Jeanne Bougeois, conhecida no mundo artístico com o nome de Mistinguett, e que se celebrizou tanto pelas suas actuações, como pelas suas pernas (postas no seguro em 1919 por 500.000 francos).




O seu nome original é Mon Homme , que ao atravessar o Atlântico para a voz de Fanny Brice tomou o nome de My Man, tendo-se tornado num clássico, recriado pelas vozes de Piaf, Billie Holliday, Streisand e Diana Ross, entre muitas outras.

Entre essas tantas vozes há a de uma portuguesa, que a gravou em Espanha, no início da década de 70, falo de Paula Ribas.





Paula Ribas iniciou a sua carreira no início dos anos 60, tendo-se popularizado quer como cantora yé-yé, quer como cantora romântica.

No entanto, quer devido a um afastamento temporário a seguir ao casamento, quer pela opção em fazer carreira no exterior do país, era de algum modo olhada como uma "estrangeirada".

Gravou nessa década mais de 40 discos, dos quais 10 LPs, em 5 linguas diferentes.

Actuou nos palcos de todo o mundo, assinalando-se os seus maiores êxitos em Israel onde ficou 4 meses, na Escandinávia onde ficou 10 meses, Espanha onde gravou a maior parte dos seus discos (para a etiqueta Belter) e depois no Brasil onde viveu vários anos e onde também fez vários trabalhos discográficos muito elogiados pela crítica (nomeadamente um sobre a obra de José Afonso e outro de "Fados Brasileiros").





Conhecida por ser muito directa e crítica quanto à qualidade da música que era levada aos portugueses residentes no exterior, fez a sua carreira no estrangeiro fora dos circuitos tradicionais da emigração!

Talvez seja por isso que apesar de ter feito tantas gravações, a maior parte delas continuem desconhecidas do público português, o que me parece um enorme desperdício e uma imensa injustiça.



Aliás, devo até referir que a única colectânea de Paula Ribas até hoje editada em CD contém apenas registos do inicio da sua carreira yé-yé, muito fraquinhos, esquecendo dezenas e dezenas de canções que gravou com enorme qualidade.

O porquê desta opção não consigo entender!

Termino pois, com a célebre MY MAN, na voz de Paula Ribas, alertando para o facto de o som, que resulta de uma digitalização feita a partir do vinil, não ter toda a qualidade que merecia.

segunda-feira, maio 04, 2009

DRESDEN

Foi posto à venda no final da passada semana o DVD com a mini-série alemã DRESDEN.



Trata-se de uma série bastante interessante pois dá-nos a visão da Guerra a partir do ponto de vista de quem a perdeu.

Interessante ainda porque, para além de uma complexa história amorosa, foca um dos casos mais controversos da II Guerra Mundial, o bombardeamento de Dresden.

Dresden, que é a capital do Estado da Saxónia, era conhecida como a Florença do Elba


Dresden - gravura do Palácio e Jardins Zwinger:



Os seus monumentos e tesouros artísticos faziam desta cidade uma das mais belas da Europa.


Dresden no início do séc XX:



Entre 13 e 15 de Fevereiro de 1945, já com a Alemanha perfeitamente derrotada (apesar de ainda não rendida), os aliados ingleses e americanos lançaram milhares de toneladas de bombas, que destruíram mais de 90% de toda a cidade, matando centenas de milhares de pessoas.

Deixo aqui algumas imagens da série sobre o momento dos bombardeamentos sobre a cidade de Dresden:



Vagas sucessivas de centenas de bombardeiros despejaram sobre Dresden, já sem capacidade de defesa anti aérea, um verdadeiro inferno de fogo, fazendo nesta cidade aquilo que os alemães já tinham feito em Varsóvia e que por pouco não aconteceu a Paris, que foi salva devido à desobediência do General Dietrich von Choltitz, o qual se recusou a cumprir as ordens directas de Hitler para que destruísse totalmente a capital francesa.

Foto de Dietrich von Choltitz:



Estando já a Guerra decidida e feita a partilha da Europa pelas potências vencedoras, Dresden ficaria sob domínio soviético e há hoje o convencimento de que, para Churchill e Roosevelt parecia mais interessante que os russos ficassem a braços com uma montanha de destroços, do que lhes entregar de mão beijada uma cidade que era um autêntico tesouro artístico.


Dresden em ruínas (1945):




Dresden tornou-se pois num símbolo do que de pior a Humanidade é capaz, para depois se tornar num simbolo civilizacional de amor à História e à Arte, pois os que sobreviveram a esta hecatombe conseguiram rua a rua, monumento a monumento, reerguer Dresden das cinzas, tornando hoje esta magnifica cidade numa verdadeira jóia do património histórico da Humanidade, tal como é classificada pela UNESCO.


Aspecto de Dresden na actualidade (Zwinger):



Aspecto do centro de Dresden na actualidade:



Claro que o seu processo de reconstrução teve algumas vicissitudes.

No após-guerra, o líder comunista alemão Walter Ulbricht chegou a pensar fazer de Dresden, que se situava na República Democrática Alemã, uma cidade modelo do urbanismo socialista, com edificios inspirados no modelo habitacional e institucional soviético, em avenidas largas que permitissem a realização de grandes manifestações públicas.

No entanto as vozes dos defensores da herança cultural da Saxónia falaram mais alto, apelando à reconstrução da cidade barroca o que, em parte, foi conseguido!

E assim, três meses após o final da Guerra, começou a reconstrução de alguns dos principais monumentos.

O conjunto de edifícios do Palácio Zwinger e o Teatro Schauspielhaus foram dos primeiros. Seguiram-se o Palácio Real e a Ópera (Semperoper).!


Semperoper antes da Guerra




Semperoper destruída




Semperoper (exterior reconstruído)




Semperoper (interior reconstruído)



Mais tarde (já após a queda do comunismo) foi a vez da reconstrução do monumento mais célebre e querido da cidade a Frauenkirche, reerguida com dinheiros públicos, mas também com contribuições privadas, criando-se movimentos públicos para angariar os cerca de 130 milhões de euros que custou a sua reconstrução.

Por ironia da História, à frente de uma das principais organizações de recolha de fundos estavam os membros da família real inglesa, o que revela por um lado algum peso na consciência britânica face à destruição de Dresden e, por outro, o apelo do sangue Saxe- Coburgo da Casa Real Britânica, cujos laços afectivos não terminaram só pelo simples facto de terem mudado de nome de Wettin para Windsor, pela mão de Jorge V, avô de Isabel II, aquando da Primeira Guerra Mundial.

Frauenkirche antes da Guerra:




Frauenkirche destruída:




Frauenkirche reconstruída (exterior):




Frauenkirche reconstruída (interior):




Com esta reconstrução, que deveria fazer corar de vergonha os políticos e autarcas portugueses, que por acção e omissão vão destruindo as marcas históricas das nossas cidades (nomeadamente Lisboa), os principais prédios do centro antigo de Dresden, que compunham a famosa silhueta da cidade estão novamente de pé.



Apesar de muitas peças de arte se terem perdido para sempre, muitas foram salvas e valem a pena ser visitadas, nos belos e reconstruídos museus.

Como curiosidade final refiro que igualmente valerá a pena uma visita a um dos poucos edifícios que conseguiram sobreviver aos bombardeamentos, onde se situa a que é considerada a mais bela leitaria do mundo




No entanto, apesar de milagrosamente não ter sido afectada pelos bombardeamentos, a leitaria Dresdener Molkerei Gebrüder Pfund , por pouco não se livrou de ter sofrido uma "redecoração socializante" ao estilo standard das leitarias comunais, após a sua nacionalização no inicio dos anos 70.

Nessé projecto de decoração previa-se a utilização de alumínios e plásticos em substituição dos belos painéis de azulejos que a forram de alto a baixo…. Felizmente tal ideia absurda não foi para a frente…




Gostaria de terminar dizendo o seguinte:

QUANDO NO NOSSO PAÍS SE DIZ QUE UM BELO EDIFICIO OU MONUMENTO, POR MÁ CONSERVAÇÃO OU INCÊNDIO, SE PERDEU PARA SEMPRE, ESTÁ-SE A DIZER UMA MENTIRA!

O PATRIMÓNIO EDIFICADO SÓ SE PERDERÁ PARA SEMPRE SE NÓS E OS NOSSOS REPERESENTANTES ELEITOS NAS CÂMARAS MUNICIPAIS, QUISERMOS QUE ASSIM SEJA.

POR ISSO DEIXO, NESTE ANO DE AUTÁRQUICAS UM VÍDEO SOBRE DRESDEN, QUE ACONSELHO A CERTOS GRUPOS DE PESSOAS.

ACONSELHO-O A TODOS OS QUE SE PROPÕEM DIRIGIR AUTARQUIAS SEM AS CONHECER, SEM AS AMAR, SEM RESPEITAR A SUA HISTÓRIA E O SIGNIFICADO DAS SUAS PEDRAS.

ACONSELHO-O A TODOS OS QUE SE PROPÕEM GERIR CIDADES APENAS PENSANDO EM CONCURSOS PARA NOVAS URBANIZAÇÕES, APENAS PENSANDO AS URBES COMO LOCAIS DE PERNOITA E CIRCULAÇÃO, DANDO MAIS IMPORTÂNCIA AOS CARROS DO QUE ÀS PESSOAS.

ACONSELHO-O A TODOS OS QUE, TENDO PODER NAS AUTARQUIAS, VÃO SUBSTITUINDO OS "TEATROS MONUMENTAIS" POR "CENTROS COMERCIAIS", IGNORANDO QUALQUER PREOCUPAÇÃO ESTÉTICA E FAZENDO COM QUE DIA APÓS DIA, AS MEMÓRIAS DO LEGADO HISTÓRICO QUE É PATRIMÓNIO DE TODOS NÓS, VÃO DESAPARECENDO!

ACONSELHO-O A TODOS OS QUE SE PROPÕEM DECIDIR SOBRE O DESTINO DOS MUNICÍPIOS, SOBREPONDO A GESTÃO FINANCEIRA À QUALIDADE DE VIDA, COMO SE AS CÂMARAS FOSSEM EMPRESAS E AS CIDADES MEROS CENTROS DE NEGÓCIO!

ACONSELHO-O FINALMENTE A TODOS OS PODEROSOS DE OCASIÃO QUE DESPREZAM A HISTÓRIA, A ARTE E A MEMÓRIA E QUE INFELIZMENTE CONTAM COM A IGNORÂNCIA E COM A PERMANENTE COMPLACÊNCIA DE ELEITORES POUCO EXIGENTES E POUCO INTERESSADOS NO SEU PAÍS.

ACONSELHO-O POIS A TODA ESTA GENTE, ESPERANDO QUE SE ALGUM DESSAS PESSOAS O VIR, REFLICTA SOBRE O QUE PODE E DEVE FAZER COM O PODER QUE LHE FOI OUTORGADO PELO POVO E QUE, PORTANTO, APRENDA ALGUMA COISA ...SE FOR CAPAZ!