terça-feira, novembro 17, 2009

Villa-Lobos

Passam hoje 50 anos da morte de um dos maiores compositores clássicos do século XX: Heitor Villa-Lobos.

Para além de compositor, músico e maestro dedicou-se à pedagogia musical através da criação empenhada de inúmeros coros infantis, como método previligiado de levar a música aos mais jovens.

Aquando da sua morte o grande poeta Carlos Drummond de Andrade lembrou que:” Quem o viu um dia comandando o coro de 40 000 mil vozes adolescentes, no estádio do Vasco da Gama, não pode esquecê-lo nunca. Era a fúria organizando-se em ritmo, tornando-se melodia e criando a comunhão mais generosa, ardente e purificadora que seria possível conceber".

As suas influências musicais adquiriu-as tanto no estudo académico, como no autodidactismo, como ainda nas raízes folclóricas no interior norte do Brasil, embrenhando-se de tal maneira na sua actividade de recolha musical, que fica durante anos sem dar notícias à família! Quando regressa ao Rio encontra-a numa missa…. Em sua memória! Sua mãe julgara-o morto!



Avançado demais para o seu tempo, de inicio viu-se a braços com a incompreensão quer da crítica quer do público, quer ainda dos músicos seus contemporâneos. Quando convidado para dirigir a estreia da sua primeira Sinfonia os músicos da Orquestra recusam-se a tocá-la, designando-a por “uma coisa cheia de dissonâncias”.

Contudo, estes contratempos não o fazem desistir, muito pelo contrário, compõe e viaja e a sua fama espalha-se. O virtuoso Artur Rubinstein toma a iniciativa de se encontrar com ele, numa altura em que Villa-Lobos para sobreviver tocava numa orquestra de cinema.

Villa-Lobos incomodado, por ser encontrado naquela situação por Rubinstein, não aceita bem a visita do famoso pianista, mas no dia seguinte apresenta-se com um grupo de músicos no Hotel onde Rubinstein estava hospedado para lhe mostrar as suas músicas.

Rubinstein ganha uma consideração tal por Villa-Lobos que para o ajudar financeiramente chega a adquirir-lhe obras, sob o pretexto de haver terceiros interessados nelas.

Entretanto o prestigio do compositor vai aumentando, Paris torna-se um dos principais locais de actividade, em cujo conservatório chega a leccionar a par de Maurice Ravel, Manuel de Falla e Artur Rubinstein.

Os seus “Choros”, “Serestas” tornam-se famosos em todo o mundo. Tal como viriam a ser as suas Bachianas e Missa de São Sebastião. Torna-se maestro convidado em orquestras do mundo inteiro.

Contudo são as suas composições que acabam por o imortalizar. Homem simultaneamente difícil e simples era um bom vivant que alguns diziam ter sempre as mãos ocupadas: Numa um charuto, noutra um copo!

A sua morte aos 72 anos, faz hoje precisamente 50 anos, deixa todo o Brasil comovido e o mundo mais pobre, como na altura salientou o New York Times, que lhe dedicou o editorial.

No seu funeral milhares de pessoas estiveram presentes, enquanto nas escadarias do belíssimo Teatro Municipal um coro interpretava a Missa de São Sebastião.




50 anos passados, a sua obra perdura, sendo considerada de raiz profundamente brasileira é, pela sua riqueza, beleza e originalidade, de uma intemporalidade verdadeiramente universal.

Deixo aqui dois belos exemplos.

O primeiro trata-se do Choro nº 1, interpretado pelo extraordinário guitarrista Turibio Santos.



O segundo é, como não poderia deixar de ser a ária das Bachianas Brasileiras nº 5, na voz de uma das maiores cantoras líricas de todos os tempos, a também brasileira Bidu Sayão:

sexta-feira, novembro 13, 2009

Mensagem: A promoção pública do graffiti




De acordo com a noticia agora posta a circular pela edição on-line do semanário SOL, a Empresa Pública Estradas de Portugal vai decorar com graffitis os muros do IC19. Transcrevo:

"Num comunicado, a EP explica que no próximo fim-de-semana, o Colectivo Cultural GRAUU, associação especialista na arte urbana dos graffiti, vai preparar alguns dos muros para oito dias mais tarde grafitar junto ao IC19.

«A EP pretende enquadrar o ambiente rodoviário e dignificar também este tipo de expressão artística, chamando artistas da zona para comporem um mural que transmita aos automobilistas [a ideia] que estas manifestações podem constituir um elemento de valorização da estrada», disse fonte da empresa.

A EP acredita que a segurança rodoviária será salvaguardada, uma vez que a não utilização em excesso de cores muito fortes e a não representação de motivos potencialmente ofensivos, foram considerados como principais requisitos na elaboração deste projecto.

Segundo a fonte da empresa, esta é uma solução ousada que a EP encontrou para combater os graffiti desconexos que aparecem nas barreiras acústicas e nos muros edificados dos seus empreendimentos, usando a mesma arte para servir melhor os automobilistas.

A empresa adiantou à Lusa que faz depender do sucesso desta iniciativa, novos projectos de graffitis para outras estradas da concessionária.

Esta é uma iniciativa conjunta da EP e da Câmara Municipal de Sintra e tem início no sábado às 10h, estendendo-se até ao fim-de-semana seguinte."



Pelos vistos a Empresa Pública Estradas de Portugal" e a "Câmara Municipal Sintra" consideram o Graffiti como ARTE, o que só por si é, no mínimo controverso em termos de conceito!

Mas não só! O que se propõem fazer acaba por transmitir um sinal muito concreto que se traduz numa mensagem implicita de aceitação pública do graffiti, com os naturais efeitos que ela implica.


É que se trata de uma mensagem, que chegará a quem pratica esta actividade, como se fosse uma luz verde das autoridades, um sinal que liberta os poucos constrangimentos sociais e morais que os autores destes actos ainda possuiriam.

Ou seja, a Empresa Pública Estradas de Portugal e a Câmara Municipal de Sintra (ao resolverem um problema da forma mais incompetente possivel, transformando em lícito o que é ilicito, sob a pretensa designação de "arte") estão a marimbar-se completamente para os efeitos que a mensagem do seu acto traduz, a qual constitui, pura e simplesmente, a validação moral de actos de vandalismo público.

Entendo que o combate à proliferação de gatafunhos e desenhos nas paredes e muros deste País deveria ser, para quem tem por missão a salvaguarda do património, uma questão de principio em prol de uma sociedade mais decente e mais civilizada.

Aliás face ao estado actual das nossas cidades, essa deveria ser uma preocupação essencial, de quem gere o seu destino!




Ora o que está noticiado para a decoração com graffitis do IC19, pela mensagem que implicitamente transmite, promove exactamente o contrário deste principio e por isso. eu manifesto aqui o meu protesto contra a imprudência deste acto concreto, contra os efeitos indirectos que ele promove, sendo certo que, ainda por cima, se trata de uma actividade que irá paga, é claro, com os meus impostos!

Pode ser que os jovens com talento na arte de manusear latas de spray tornem os muros do IC19 até mais belos do que a Capela Sistina. Não é isso que está em causa!

O que contesto é a atitude de entidades públicas que, para além de não terem um pensamento civico responsável, assentam a sua gestão no principio de que "se te dá muito trabalho vencê-los, então junta-te a eles!"

Pensei, durante muito tempo, que quem estava investido de autoridade pública tinha a responsabilidade social de manter os espaços limpos e de promover uma cultura cívica desincentivadora de actos de vandalismo da propriedade alheia, como aqueles que vimos abundantemente nos nossos edificios e muros.

Aos legisladores caberia criminilazar estes actos, inibir e combater a sua realização de todas as formas, procurando fomentar uma cultura cívica que considerasse o acto de escrever e desenhar em espaços públicos como um acto pernicioso à sociedade.

Às Câmaras e a todas as restantes entidades que gerem espaços públicos caberiam as acções concretas de limpeza e de controle, para evitar a degradação do ambiente urbano.

Ora, não só não têm qualquer tipo de actuação neste campo como, com este tipo de atitudes vêm fomentar exactamente o oposto. Em vez de desincentivarem, tornam licito algo que, a mim como cidadão que percorre este País, me desgosta e envergonha.

No Brasil, este tipo de actos dá penas de cadeia efectiva de 3 meses a um ano e uma pesada multa! Muitos outros países civilizados seguem este mesmo exemplo!

É obvio que só com a consciência de que se está perante actos socialmente reprováveis, que inclusivé têm pesadas consequências penais, é que se pode reduzir a dimensão destes fenómenos e se ir encaminhando a consiciência cívica dos mais jovens para o rumo certo.

Um grupo juvenil que tem "enfeitado" a chamada linha de Cascais, colocou no youtube o seguinte vídeo onde mostra a sua "arte":




Acaba por ser, no fundo, este tipo de intervenções que a atitude das Estradas de Portugal e da Câmara de Sintra irão indirectamente incentivar!

Não acredito que não tenham essa percepção! O que acredito é que não se importam, porque as implicações do que estão a fazer não os incomodam.

Infelizmente, vai-se ouvindo, cada vez mais dizer mal da nossa classe dirigente. Actos destes, o que é que nos pode levar a pensar sobre essas pessoas?

Que para uns o entendimento de serviço público não é relevante. Apenas a sua carreira política ou o seu lugar de gestor conta!

Não se detêm com estratégias sérias de futuro, remetem-se exclusivamente à resolução simplista das questões que vão surgindo, ainda que com isso possam até estar a alimentar a raiz dos próprios males que querem combater!

Que para outros a ocupação dos lugares que desempenham não deriva de competência ou de preparação cívica, pelo que nem sequer terão consciência dos erros que praticam e tão pouco virão a prestar contas por este tipo de acções!

Por isso, já que esses "responsáveis" consideram que esta arte valoriza tanto os espaços públicos, espero bem que tenham a justa retribuição desta sua forma de gerir.

Ou seja, espero que os praticantes da modalidade "artistica" graffiteira, descubram rapidamente onde residem os Senhores Administradores da Empresa Pública Estradas de Portugal e do Presidente e Vereação da Câmara de Sintra para os presentear com este tipo de "arte" nas paredes exteriores das suas habitações. Afinal estamos a chegar ao Natal e pelos vistos eles gostam e merecem!

terça-feira, novembro 10, 2009

Matar saudades de dois filmes, da sua música e de uma actriz

Encontram-se finalmente à venda em Portugal os filmes de Jacques Demy " Les parapluies de Cherbourg"



e "Les Demoiselles de Rochefort", ambos com a belíssima música me Michel Legrand e com a bela Catherine Deneuve.




O primeiro bem mais interessante que o segundo!

Totalmente cantado, sendo a voz de Catherine dobrada por Danielle Licari, cantora que mais tarde faria um sucesso mundial com "Concerto para uma Voz".

Uma aposta arriscada de filme musical, tendo por fundo uma história de encontros e desencontros amorosos, que lhe valeu a Palma de Ouro em Cannes e cinco nomeações para os Óscars de Hollywood.

O segundo, tem a curiosidade de contar com a presença de Françoise Dorléac, irmã mais velha de Catherine na vida real, e que nesta película fez o papel de sua irmã gémea.



Esta presença de Françoise Dorléac, também talentosa actriz e belíssima modelo da Casa Dior, acabou por ter um imenso impacto na promoção de "Les Demoiselles de Rochefort", dado que poucas semanas após rodar o filme, quando se dirigia apressada para o aeroporto, a fim de participar na estreia oficial em Londres, sofreu um terrível acidente, tendo falecido carbonizada dentro do seu Renault 10. Tinha apenas 25 anos.

Para mim, que me recordo de ter vistos ambos os filmes no cinema, ficaram-me sobretudo na memória os rostos de Catherine e Françoise e, acima de tudo, as belissimas músicas de Michel Legrand.

Duvido que actualmente estes fimes abram o apetite do grande público!

Na verdade, acredito que apenas alguns saudosistas e coleccionadores que já passaram dos 50, lhes prestem verdadeiramente atenção.

Contudo, para todos, menos e mais jovens, vale a pena estar atento às músicas que Michel Legrand compoôs para estes filmes e que se tornaram verdadeiros clássicos.

Les Parapluies de Cherbourg



Les Demoiselles de Rochefort

domingo, novembro 08, 2009

KRISTALLNACHT

Amanhã, 9 de Novembro passará mais um aniversário da “ Noite de Cristal”.

Passados 71 anos, cada vez faz mais sentido recordar esse acontecimento trágico, que marcou o ponto de viragem entre uma política de terrível discriminação para uma política de genocídio deliberado.

No dia 7 de Novembro de 1938 o jovem judeu Herschel Grynspan, de 17 anos, desesperado devido à deportação de seus pais, assassina em Paris o responsável por essa deportação, o diplomata alemão Ernst von Rath






Esse foi o pretexto ideal para que na noite do dia 9 de Novembro de 1938, Hitler ordenasse a Goebbels um violento ataque à comunidade judaica por toda a Alemanha, Austria e sul da Checoslováquia.

Esse ataque deveria parecer um acto espontâneo de revolta do povo alemão contra os Judeus e por isso foi levado a cabo por milhares de SS e membros do partido nazi, trajando à civil.

Destruíram-se centenas Sinagogas, milhares de estabelecimentos judaicos, foram mortos centenas de judeus, feridos vários milhares e presos cerca de 30000.



Se é verdade que a História assinala aqui o início do Holocausto, o certo é que este foi apenas mais um episódio, agora de contornos extremamente violentos, de uma política sistemática contra o povo Judeu levada a cabo desde a chegada ao poder dos nazis em 1932.

A designação de Noite de Cristal (Kristallnacht) prende-se com o facto de o som mais audível naquela noite e o aspecto mais visível após os actos ter sido o dos vidros quebrados de milhares de vitrines de comerciantes judeus.





De inicio, o regime de Hitler começou por interditar determinadas profissões a judeus, médicos e advogados, por exemplo!

Expulsou-os de todos os serviços públicos, ordenando um boicote a todas as lojas propriedade de judeus onde mandou inscrever em letras garrafais a palavra JUDE (judeu).





Seguidamente surgem as Leis de Nuremberga que retiram a cidadania alemã aos judeus, tornando-os párias e sem quaisquer direitos no seu próprio país, proíbe o relacionamento sexual entre judeus e não judeus, que um não judeu trabalhasse para um judeu e ainda que judeus e não judeus trabalhassem ou estudassem juntos.

A todos os homens judeus, cujo primeiro nome não tivesse origem judaica mandou inscrever no seu registo como segundo nome, Israel, e às mulheres. Sara!

Todos os judeus passaram a ser obrigados a usar a estrela amarela de David cozida nas suas roupas.




Claro que todo o mundo sabia o que se passava, claro que todo o mundo se sentia horrorizado, claro que todo o mundo fingia não perceber a gravidade do problema e olhava para o lado!

E olharam para o lado de forma oficial mesmo, o que viria a dar luz verde, que Hitler esperava para iniciar com a Noite de Cristal o seu programa de Solução Final.
Na verdade, no inicio de 1938, para aliviar as suas consciências alguns países ocidentais organizaram uma Conferência Internacional em Evian-les-bains, na fronteira de França com a Suiça.

Nessa Conferência, que durou 9 dias, com o objectivo de abordar a questão da perseguição que milhões de seres humanos sofriam, por parte do regime nazi, saiu apenas um gesto de simpatia e apenas um dos 32 países presentes, a pequena República Dominicana se dispôs a acolher 100.000 refugiados judeus.






Os Estados Unidos que tiveram a iniciativa da conferência, enviaram como seu representante um amigo do presidente Roosevelt sem quaisquer poderes oficiais, que se limitou a lamentar os factos, sem se comprometer com a aceitação de mais judeus para além de algumas dezenas de milhar que já tinham rumado até aquele país desde 1933.

Aliás quando 2 senadores democratas propuseram posteriormente uma Lei que permitiria o acolhimento de 20.000 crianças judaicas orfãs, essa Lei foi rejeitada pelo Senado, alegando-se que 20.000 crianças se viriam a tornar a médio prazo em 20.000 adultos que retirariam empregos a americanos.

Em Inglaterra sucedeu exactamente o mesmo, o Governo sob pretexto patético de evitar imaginárias tensões dentro da própria comunidade judaica existente naquele país proibiu a entrada de mais refugiados judeus.

A este propósito Chaim Weizmann, que viria a ser o primeiro Presidente do Estado de Israel, comentou tristemente ao jornal londrino The Guardian: «O mundo parece estar dividido em duas partes: Uma onde os judeus no podem viver e outra onde não podem entrar»





Face aos resultados da Conferência, o Governo de Hitler ironizou declarando-se espantado por os países estrangeiros criticarem a Alemanha pela forma como tratavam os judeus, quando porém, nenhum deles se dispunha efectivamente a abrir suas portas quando “a oportunidade surgia”.

Sendo óbvia a indiferença internacional, poucos meses depois surgiu a Hitler a oportunidade de pôr em marcha o seu projecto e a Noite de Cristal aconteceu!

Numa altura em que há vozes que se atrevem a negar o Holocausto, em que poucos restam das gerações que testemunharam os acontecimentos, em que estes temas passaram a ser para os mais jovens apenas mais um capítulo no seu compêndio de História, é necessário relembrar que o Mal Absoluto existiu e avisar com estas memórias, com toda a insistência, que ele poderá repetir-se!

Deixo, por isso, para terminar, um interessante filme de quase 19 minutos sobre estes acontecimentos realizado o ano passado pela televisão brasileira a propósito dos 70 anos da KRISTALLNACHT. Para que a memória perdure!

quarta-feira, novembro 04, 2009

Judith Durham - uma voz que atravessou gerações

O nome de The Seekers pertenceu a um conjunto famoso nos meus tempos de infância e adolescência



Sempre me maravilhei com voz belíssima da vocalista Judith Durham, pois ela pegava em certas canções e conseguia elevá-las, no meu modesto entender, a um nível de beleza e elegância insuperáveis. Vejam por exemplo o que ela fez com Skyline Pidgeon de Elton John:




Os Seekers eram um jovem grupo australiano, que a meio da década de 60 foi tentar a sorte em Londres e foi tão bem sucedido que uma estadia prevista inicialmente para poucas semanas se transformou numa permanência de quase dois anos.

Não rivalizavam com os Beatles, embora fossem seus contemporâneos e alternassem com eles no primeiro lugar dos TOPs.

Os The Seekers tinham um estilo próprio, um público próprio de todas as idades, sem excepção!




Judith Durham, contudo, tinha os seus próprios planos de vida e de carreira e acertou pacificamente com os seus colegas uma separação amigável no Verão de 1968.

Foi feito um concerto de despedida em Londres, em 7 de Julho desse ano, com os seus maiores sucessos e quem a ele assistiu recorda-se de os acordes de “I’ll never find another you” e “The Carnival is Over”, serem acompanhados por um imenso coro de suspiros e do choro de um público inconsolável!

O conjunto desfez-se, um dos elementos Keith Potger formou os New Seekers, que alcançaram igualmente enorme sucesso nos anos 70 no Reino Unido e Judith partiu para a Austrália, onde cumpriu um dos seus maiores sonhos, casar-se com o músico e compositor Ron Edgeworth.



Judith iniciou então uma carreira calma e discreta, voltando à sua paixão de juventude pelo Jazz e por alguns clássicos de sempre, como este “Climb Every Mountain” que no inicio dos anos 70 o meu pai me deu a ouvir e que eu nunca mais esqueci.



Mas como a vida raramente consegue ser uma eterna bonança, em 1990 Judith e o marido sofreram um terrivel acidente de automóvel que os atirou para uma cama de hospital durante largos meses.

Esse acidente fê-la naturalmente repensar toda a sua vida e levou-a a convidar os antigos membros do seu grupo para que se reunissem de novo.

A antiga amizade e o desejo de voltarem a reviver os antigos tempos levaram-nos de bom grado a reiniciar as suas aparições públicas pela Austrália, quando inesperadamente Judith teve a notícia que o seu marido possuía uma doença degenerativa motora, que em Portugal conhecemos por ELA.

E assim o regresso dos Seekers não pôde ser exactamente o que todos haviam sonhado, pois Judith optou por ficar à cabeceira do marido, que acabaria por sucumbir no espaço de dois anos!

Este facto levou-a a tornar-se na principal doadora e impulsionadora de uma Associação de Apoio e Investigação de Doenças Neurológicas Motoras, ocupando com ela boa parte do seu tempo.

Voltaria mais tarde aos palcos com os seus amigos de sempre e durante mais alguns anos mantiveram-se juntos encantando plateias australianas, britânicas e americanas.



Judith ainda mantém uma belíssima voz e do concerto comemorativo dos seus 60 anos, realizado no imenso Royal Festival Hall em Londres em 2004, foi feito um DVD magnifico, que infelizmente só através da Amazon consegui adquirir!

Deixo no entanto, para encerrar este meu testemunho sobre Judith Durham, imagens de um concerto em Sidney, em que aos 65 anos de idade apresentou uma das suas canções mais populares de sempre: “The Carnival is Over”, canção que curiosamente só a sua teimosia fez com que fosse gravada no já longínquo ano de 1965.

Trata-se de uma melodia do folclore russo, que os restantes elementos dos Seekers se recusavam a gravar por não a considerarem interessante. Ainda bem que ela os convenceu, até porque esta canção se tornou simbólica para o povo australiano e é usada para encerramento dos principais eventos sociais, desportivos e musicais.

Em 2000 estava prevista a sua apresentação no encerramento dos Jogos Olímpicos de Sidney e tal só não aconteceu porque Judith partiu um tornozelo poucos dias antes.

Nessa altura a organização do jogos recorreu a um grupo coral e o assunto resolveu-se. Contudo meses mais tarde para o encerramento dos Jogos Paralimpicos, também em Sidney foi mesmo Judith numa cadeira de rodas que a interpretou.

Termino pois com as imagens mais recentes de Judith, de Março deste ano, como homenagem e recordatória de uma voz magnifica que felizmente, através dos seus discos, me acompanha há décadas:


sexta-feira, outubro 30, 2009

Eva Cassidy, vencer para além da morte

Para mim é sempre um prazer vir aqui falar das minhas preferências musicais.

O meu gosto muito pessoal por vozes femininas não poderia deixar de passar por Eva Cassidy!



A sua carreira foi muito curta, tal como a sua vida. Faleceu no final de 1996, com apenas 33 anos de idade!

Até à sua morte o conhecimento dos seus trabalhos era apenas restrito localmente, na zona de Washington. Dois anos mais tarde, um título de um importante jornal de Boston diria dela: “Após a morte, uma voz única toca os corações de um mundo que nunca a viu cantar”

De facto, Eva nunca conseguiu encontrar uma editora discográfica que a aceitasse tal como ela era e, muito embora reconhecessem o seu talento, achavam-na pouco comercial, quer nas suas composições próprias, quer nas versões que fazia de temas de outros cantores.

Ela ía do folk ao jazz, passando pela pop, dando-lhe o seu cunho pessoal que não cabia em nenhuma catalogação pré-concebida pelas empresas discográficas.





Contudo, tal como em muitas outras situações, a morte da jovem cantora veio a despertar o interesse comercial dos produtores musicais e a partir de algum material gravado particularmente e do CD que ela própria produziu no ano em que faleceu, editou-se uma colectânea que vendeu mais de um milhão de cópias nos Estados Unidos e Reino Unido.

Interpretações suas são agora utilizadas como temas de séries da TV e graças às possibilidades técnicas actuais, Norah Jones e Katie Melua já editaram duetos virtuais com Eva Cassidy, num aproveitamento nem sempre muito feliz, diga-se de passagem!



No segundo semestre de 1996 foi-lhe diagnosticado um melanoma num estado avançado e com inúmeras metastases. Foi-lhe recomendado um tratamento quimico bastante agressivo sob pena de não conseguir viver mais do que 4 meses.

Acreditando que o tratamento a poderia salvar submeteu-se a ele, alimentando naturais esperanças. Afinal ainda era tão nova e tinha tanto para dar! O tratamento não foi para ela senão um agravar do seu sofrimento e, no final, nem 4 meses chegou a sobreviver!

Teve um fim trágico esta moça calma, envergonhada, mas muito firme nas suas convicções, sem compromissos fúteis com interesses comerciais.



Eva Cassidy é hoje finalmente reconhecida como uma das grandes vozes da musica popular americana dos finais do século XX para grande satisfação das editoras!

quinta-feira, outubro 22, 2009

Uma surpresa agradável


A composição do novo Governo português foi anunciada. Teve para mim uma excelente surpresa: Gabriela Canavilhas irá ser Ministra da Cultura.

Gabriela Canavilhas é das personalidades mais fascinantes da música e da cultura portuguesas.

É uma comunicadora excepcional ( a sua presença nas manhãs da Antena 2 é absolutamente inesquecível) e tem adquirido nos últimos anos experiência em lugares de direcção executiva, como presidente da Direcção da Orquestra Metropolitana de Lisboa, membro do conselho directivo da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e Directora Regional da Cultura dos Açores.

Fico a aguardar... Depois do Primeiro-Ministro ter reconhecido que no mandato anterior não deu muita atenção à cultura, espero que agora, ao encontrar alguém de horizontes tão vastos, tal possa ser revertido.

Apoiante desde há muitos anos do Partido Socialista, Gabriela Canavilhas sempre foi um espírito livre e aberto.

Desejo-lhe muita sorte no cargo, o que será decerto magnífico para o País.

Sendo uma excelente pianista, premiada nacional e internacionalmente, tem uma marca distintiva na sua carreira, que é a da divulgação dos compositores Portugueses, razão pela qual alguns dos compositores nacionais lhe dedicam as suas obras, que ela tem apresentado em primeira audição!

Termino pois com uma gravação de uma interpretação de Gabriela Canavilhas de uma obra do compositor Alfredo Keil: "Murmures"

terça-feira, outubro 13, 2009

République bananière française

É assim que os jornais franceses e estrangeiros estão a falar do que está a passar actualmente em Paris.

Primeiro veio Giscard D’Estaing, num romance que publicou no final de Setembro, sugerir que teria tido uma aventura amorosa com a falecida Princesa de Gales.






O alvoroço foi tanto, dos dois lados da Mancha, que D’Estaing foi obrigado, em 48 horas, a ir inventando explicações sucessivas para que o caso pudesse ter um fim honroso!

Na verdade, tendo a conta a trajectória de vida da Princesa e a importância pública do autor, sugestões deste teor exigem naturalmente uma clarificação rápida!

Para além do mais a um ex-presidente da França, de 83 anos, e membro da solene e prestigiada Academie Française, não ficam bem os epitetos de falta de cavalheirismo, de difamador alucinado ou de velho tarado. Para além de que a sua mulher, ainda viva, parece também ter ido aos arames com este assunto!

Mas ainda soavam os ecos deste picaresco episódio, eis senão quando o actual o Ministro da Cultura francês resolveu defender o realizador Roman Polansky, relativamente a um caso de pedofilia, de que se encontra acusado nos Estados Unidos!

Ora vai daí, a vice-presidente da Frente Nacional de Extrema-Direita, Marine Le Pen, filha do Presidente desse Partido, Jean Marie Le Pen, vem desenterrar uma autobiografia desse Ministro, um sobrinho de Mitterrand excomungado pelo PS francês.

E vai buscar essa autobigrafia, já com cinco anos de publicação, pois nela estão escarrapachados alguns pormenores picantes de incursões sexuais na Tailândia, cujos jovens o Ministro parece apreciar com bastante desenvoltura e entusiasmo!

Quão jovens foi a questão que a França debateu na primeira semana de Outubro! Jovens adultos jurou a pés juntos o Ministro e, com ele, o resto do Governo francês!

Assunto encerrado! E com o livro autobiográfico de Frédéric Mitterrand chamado "A Má Vida” a tornar-se num verdadeiro best-seller!


Mas, a bem dizer, se o assunto foi encerrado, foi principalmente porque agora novo escândalo apareceu, desta vez com o segundo filho do próprio Sarkozy.

A coisa é simples: O jovem Jean Sarkozy de 23 anos, com aparente sucesso junto do público feminino, mas com menor sucesso na faculdade de Direito, onde repete o segundo ano, foi colocado pelo papá num alto cargo da Administração Francesa.

Esse cargo é o de Presidente do Conselho de Administração da EPAD, a agência que faz a gestão da zona de “La Défense et les Hauts-de-Seine” com um orçamento de mais de mil milhões de euros anuais e que tem a seu cargo, directa e indirectamente, umas boas dezenas de milhares de funcionários.

Claro que ele não tem a mínima experiência, formação ou maturidade para o lugar, mas a vida é mesmo assim e há que dar oportunidades aos jovens, até porque como o próprio Nicholas Sarkozy já exerceu o cargo há 5 anos atrás, poderá, sempre que for preciso, dar umas boas dicas ao filhote!



Segundo parece a comunicação social e a opinião pública estarão a receber mal esta ideia, mas o partido maioritário apoia o Presidente e, bem vistas as coisas, para a semana sabe-se lá o que vai acontecer, pelo que o mais provável é que este caso passe a ser apenas mais um!

Depois das confusões matrimoniais no início do seu mandato, dos boatos que o ligavam à gravidez de uma ministra que nunca quis revelar a identidade do pai da criança, das deselegâncias protocolares com senhoras, como já aconteceu com a Chanceler alemã Ângela Merkl e com a Rainha Isabel II e da piela pública após reunião com Putin, os jornais franceses esperam ansiosos o que decerto virá aí.



Para eles este Presidente é um verdadeiro Maná!

segunda-feira, outubro 12, 2009

À Esquerda de Lisboa, passando por Oeiras!

Terminadas as eleições autárquicas, relativamente às quais manifestei a minha intenção de voto publicamente, surgem-me as seguintes reflexões:

Embora convidados para o fazer, a CDU e o BE recusaram participar, para Lisboa, num acordo pré-eleitoral à Esquerda. Esse acordo envolveria naturalmente o PS!

Para mim, face a uma coligação à Direita nada de mais lógico, legítimo e natural que a Esquerda se unisse e se preparasse com armas iguais para a disputa eleitoral em Lisboa.

Entretanto, como se sabe, houve desde há meses muito boa gente a pensar nestes termos e a agir por esta causa!

Centenas de personalidades da nossa vida política, cultural e artística uniram-se e fizeram todos os esforços para que uma coligação de Esquerda se viesse a concretizar.

CDU e Bloco mantiveram-se intransigentes na recusa de um compromisso, sabendo, mas parecendo não se importar, que com a sua posição, estavam a fortalecer as hipóteses de vitória do candidato da coligação de Direita!

Entretanto, revelando que à Esquerda ainda existe alguma lucidez o Movimento de Cidadãos por Lisboa liderado por Helena Roseta, a Associação Lisboa é Muita Gente de José Sá Fernandes e o Partido Socialista chegaram a um entendimento.




A luta eleitoral foi bastante disputada e o resultado já todos o conhecemos!

Após o acto eleitoral o que resta para os partidos à esquerda do PS?

A CDU reduziu a sua presença na Câmara a um único Vereador e o Bloco perdeu a presença que lá detinha!

Em vez de participarem, podendo contribuir e influenciar politicamente as decisões camarárias, CDU e BE, seguiram uma estratégia autista, que os levou directamente à derrota.

Estratégia que, paradoxalmente, permite agora que o PS tenha uma maioria absoluta, que eles não têm o mínimo poder para controlar!

Perderam a CDU e o BE mas, com isso, a própria Câmara ficou menos plural e mais pobre!

A votação entretanto fez prova de que, felizmente, os eleitores não seguem cegamente as opções dos dirigentes partidários. E se os dirigentes da Esquerda que temos não foram capazes de entender o óbvio, os eleitores anónimos acabaram por lhes dizer que são os partidos que têm servir o interesse dos eleitores e não o contrário.

Quando o PS errou, ao desvalorizar a a canditura já existente de Manuel Alegre, escolhendo Mário Soares para candidato presidencial, teve a surpresa de ver a maioria dos seus eleitores fugirem para Manuel Alegre!

Será que a CDU e o Bloco pensavam estar imunes a esse tipo de situações?

É bom que tenham aprendido a lição! É bom que percebam que os cidadãos hoje em dia já não precisam de vanguardas iluminadas que decidam por eles.

É bom que reflictam que em Democracia, na casa comum da Esquerda não temos todos que pensar o mesmo sobre as mesmas coisas mas que, quando estão em causa princípios, o que une é sempre mais forte do que o que divide.

Não agir assim é ser sectário e “pequenino” e prestar um mau serviço à Democracia e ao País!


Por último, gostaria de referir algo que considero também ser um sintoma doentio da Democracia portuguesa!

Falo da reeleição de Isaltino de Morais em Oeiras!

É necessário que todos os dirigentes políticos pensem, tanto à Esquerda como à Direita, no fenómeno Isaltino.
Marques Mendes e João Cravinho já nos apontaram caminhos para que a Política em Portugal se torne algo de sério e respeitável aos olhos dos portugueses!

Ontem à noite, numa das televisões, foi repetida uma frase que eu já ouvira outras vezes: “Ele rouba, mas todos fazem o mesmo e muitos até roubam mais que ele! A diferença é a de que este foi apanhado!"

Uma votação como a que teve Isaltino de Morais, num concelho como Oeiras, faz-nos acreditar que pensamentos como este já se entranharam e vulgarizaram no caldo de cultura em que este País se afunda!

Uma frase destas surgir em mesas de café, entre amigos, tem a importância de um fait-divers pateta, contudo, quando a dimensão da coisa se torna tão forte que as próprias televisões já reproduzem estes comentários dentro da análise política dos resultados eleitorais, faz-nos perceber que chegámos já ao nível do que de pior existe na América do Sul.

É bom portanto que quem tem poder neste País tome decisões sérias nesta matéria,

Se não, não nos admiremos que em próximas eleições, à semelhança do que era dito de um eterno vencedor de eleições em São Paulo, apareçam, sem escandalizar ninguém, slogans de candidatos dizendo: “Rouba, mas também faz”

sexta-feira, outubro 09, 2009

Anne Frank



A Fundação Anne Frank colocou ontem no Youtube as únicas imagens em movimento da jovem Anne.

São breves segundos, em que ela vem a uma janela espreitar a saída de um casal seu vizinho.



A familia Frank, judia oriunda da Alemanha, cedo percebeu que não estava segura no seu país natal e com a chegada dos nazis ao poder, partiu em 1933 para Amesterdão.
O seu sossego terminou contudo com a invasão dos Países Baixos pela Alemanha em 1940 e desde aí tudo se modificou, com as crescentes medidas anti-semitas que foram sendo introduzidas.

A história de Anne e da sua família é hoje por demais conhecida.

Depois de escondida num fundo falso da sua casa em Amesterdão, sem ver a luz do sol durante mais de dois anos, em Agosto de 1944 a jovem judia Anne de 15 anos foi capturada e enviada para o campo de concentração de Wsterbork, local de passagem para o seu envio para Auchwitz.

Aí fica apenas um mês, a superlotação deste campo levou a nova deportação para outro campo, o de Bergen-Belsen. Não viveria muito tempo! A poucas semanas da libertação Anne e sua irmã Margot morrem de fome e febre tifoide, com poucos dias de diferença. estava-se já em Março de 1945.

O anexo secreto onde viveram foi destruído durante a rusga policial que levou à detenção de toda a família Frank.

Dias depois, misturado com lixo espalhado pelo chão, um operário encontrou os cadernos onde Anne escrevera seu diário. Não sabendo do que se tratava, entregou-os a Miep Gies e Elli, duas amigas não judias da família Frank, que por falta de provas de colaboracionismo com judeus acabaram por não ser detidas pela Gestapo.

Percebendo o que tinham em mãos, resolveram guardar cuidadosamente o diário de Anne e acabaram por entregá-lo a seu pai, Otto Frank, que conseguiu, por pouco, escapar com vida ao tormento de Auchwitz, onde o tinham separado das filhas e da mulher.

Já a mãe de Anne não teve a mesma sorte, tendo morrido no campo de concentração polaco em Janeiro de 1945.



Este diário que começou a ser escrito aos 12 anos por Anne, revela uma maturidade surpreendente, especialmente nas suas partes finais, onde apesar da tristeza há a força exemplar de manter a esperança:

"Realmente, é de admirar que eu não tenha desistido de todos os meus ideais, tão absurdos e impossíveis eles são de se realizar. Conservo-os, no entanto, porque apesar de tudo ainda acredito que as pessoas, no fundo, são realmente boas. Simplesmente não posso construir minhas esperanças sobre alicerces formados de confusão, miséria e morte. Vejo o mundo transformar-se gradualmente numa selva. Sinto que estamos cada vez mais próximos da destruição. Sofro com o sofrimento de milhões e, no entanto, se levanto os olhos aos céus, sei que tudo acabará bem, toda essa crueldade desaparecerá e voltarão a paz e a tranquilidade.

Enquanto isso, é necessário que eu mantenha firme meus ideais, pois talvez chegue o dia em que os possa realizar."

domingo, outubro 04, 2009

Mercedes Sosa



Morreu Mercedes Sosa, para mim, uma das mais importantes cantoras do século XX, não só pela sua qualidade musical, mas também pelo importante papel de defensora dos direitos humanos, em momentos em que isso era, quer no seu país, quer na América Latina em geral, particularmente dificil.

Deixo aqui, em simples homenagem, alguns excertos do telegrama da
AFP
, há poucos minutos difundido por todo o mundo!

Junto ainda alguns vídeos que representam um pouco do muito que nos deixou esta grande cantora e grande mulher:

"BUENOS AIRES, Argentina — A cantora argentina Mercedes Sosa, conhecida como 'La Negra', uma das vozes mais famosas da música contemporânea e defensora apaixonada dos direitos humanos, faleceu neste domingo, aos 74 anos, depois de passar duas semanas internada.

A artista receberá as honras reservadas às principais personalidades da Argentina, com o corpo sendo velado neste domingo no Congresso.

Mercedes Sosa, conhecida como 'La Negra' por seu longos cabelos negros, foi uma das artistas argentinas mais populares das últimas quatro décadas

Nascida em 9 de junho de 1935, foi dona de uma das vozes mais representativas do cancionário popular argentino e da América Latina e gravou mais de 40 álbuns."





"A cantora gravou diversos duetos com artistas brasileiros, como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gal Costa, Milton Nascimento, Fagner e Beth Carvalho.

Outras estrelas internacionais com as quais dividiu os palcos foram Luciano Pavarotti, Sting, Lucio Dalla, Nana Mouskouri, Tania Libertad, Joan Baez, Andrea Bocelli, Alfredo Kraus, Konstantin Wecker, Silvio Rodríguez, Pablo Milanés, Luz Casal, Ismael Serrano e Shakira.

Sosa foi herdeira e símbolo de um movimento de música folclórica com forte compromisso político que teve como grande nome Atahualpa Yupanqui, que morreu em Paris em 1992.

O corpo da cantora será cremado e as cinzas espalhadas em sua cidade natal de Tucumán, em sua adotiva Mendoza e na capital Buenos Aires, informou a família.
Hospitalizada em 18 de setembro com um grave quadro de insufiência renal e hepática, a artista faleceu na madrugada de domingo.

Activista política, entre os grandes momentos de sua carreira figuram as apresentações que fez na Capela Sistina do Vaticano (1994), no Carnegie Hall de Nova York (2002) e no Coliseu de Roma (2002) para pedir pela paz no Oriente Médio, ao lado de Ray Charles, entre outros.

"Foi a voz dos que não tinham voz na época da ditadura (1976-1983) e levou a angústia pelos direitos humanos na Argentina a todo o mundo", declarou o músico Víctor Heredia, cantor e compositor de algumas músicas que ficaram famosas na voz de Mercedes Sosa como "Razón de Vivir".

.......

Sosa lançou recentemente o álbum duplo "Cantora" e foi indicada este ano para o Grammy Latino por melhor álbum e melhor cantora de álbum folclórico. Nesta obra ela dividiu espaço com artistas como Joan Manuel Serrat, Luis Alberto Spinetta, Caetano Veloso, Shakira, Gustavo Cerati, Charly García, Calle 13 e Joaquín Sabina.

A presidente chilena Michelle Bachelet enviou uma mensagem de admiração à artista, que considerou "a voz mais vigorosa da América latina".

Sosa era considerada uma das maiores difusoras da obra da cantora e compositora chilena Violeta Parra, depois de transformar "Gracias a la vida" em seu tema emblemático.

"Como vocês sabem, 'Gracias a la vida' é uma canção nossa, mas também universal. Há múltiplos artistas de vários países que a gravaram e a tornaram famosa e uma destas vozes é a de Mercedes Sosa", destacou Bachelet."




"Nasci em Tucumán e vivo em Buenos Aires. Sou cantora. Sou viúva. Tenho um filho, Fabián Ernesto, e duas netas. Dirijo um Audi pequeno. Fiquei muito doente e me reencontrei com Deus. Sou progressista. Sou embaixadora do Unicef", se autodefiniu Sosa em uma entrevista em 2000."

terça-feira, setembro 22, 2009

Democracia



O caso da alegada espionagem feita pelo Governo ao Palácio de Belém teve ontem desenvolvimentos e, por força da natureza das coisas, terá decerto, nos próximos dias, novos episódios.... Aliás, para bem da Democracia, é absolutamente essencial que os tenha.

Retomo, pois, o tema através de duas citações:

A primeira de um
texto da TSF, do passado dia 18, prende-se com o que foi publicado no Diário de Notícias, fazendo um resumo muito elucidadivo do assunto (os sublinhados são meus):

"No texto publicado pelo Diário de Notícias afirma-se que a iniciativa para tornar pública a suspeita partiu do próprio chefe de Estado.

É isso que diz Luciano Alvarez, editor do Público, no e-mail que enviou a 23 de Abril de 2008 a Tolentino Nobrega, o correspondente do Jornal na Madeira.

Alvarez informa-o que se reuniu com Fernando Lima, a pedido deste, e que a conversa começou com o assessor de Cavaco Silva a dizer que estava ali a pedido do chefe de Estado para falar de um assunto grave.


E qual era o assunto?


O Presidente da República acha que o gabinete do primeiro-ministro o anda a espiar e que a maior prova disso tinha sido o facto de José Sócrates ter enviado um funcionário do Ministério da Administração Interna à Madeira só para espiar os passos do presidente e dos homens do seu gabinete durante uma visita ao arquipélago.

Luciano Alvarez relata depois que Fernando Lima lhe entregou um dossier sobre Rui Paulo da Silva Figueiredo, o tal elemento do MAI.


O editor do Público explica depois a Tolentino Nobrega porque lhe escreve: «é que para fazer caminho no jornal, a história tem de começar, com todo o cuidado, na Madeira».


Aliás, continua Luciano Alvarez, é também esse o interesse da presidência da República, tal como lhe disse Fernando Lima.

Belém queria que a notícia fosse revelada a partir do arquipélago para não parecer que foi alguém da presidência que soltou a história, mas sim alguém ligado a Alberto João Jardim.

A seguir, Alvarez propõe a Tolentino Nóbrega dois ângulos de investigação que lhe tinham sido sugeridos pelo próprio Fernando Lima.


O editor do Público revela mais adiante que o assessor de Cavaco lhe sugeriu que tratasse com ele desta história por e-mail porque a presidência está com medo das escutas.




Luciano Alvarez sublinha ainda que esta história só é do conhecimento do presidente da República, do Lima, do director do Público e dele próprio.


O e-mail enviado ao correspondente na Madeira termina com um estímulo e «um abraço e vai-te a eles».


Contactado pelo Diário de Notícias, o jornalista do Público, Luciano Alvarez, afirma também que este e-mail nunca existiu.


Já Tolentino de Nóbrega recusou comentar a notícia, alegando que se trata de um assunto interno do jornal.


A TSF procura ainda esclarecimentos junto da presidência da República, mas até agora sem qualquer sucesso."






A segunda citação que aqui trago é a de um texto de Mário Crespo intitulado CRIME PÚBLICO, e que foi publicado ontem no Jornal de Notícias, após Fernando Lima ser demitido por Cavaco, o que configura, na prática, a admissão de que procedimentos graves terão sido cometidos por aquele membro da equipa presidencial:

"Portanto, o Governo está a espiar a Presidência da República!

Gravíssimo!

Que fazer?

Há várias alternativas para um presidente espiado.

Denunciar o Governo espião e dar-lhe um ralhete exemplar em público (nunca no "Público") utilizando uma comunicação nacional na TV como o fez com irrepreensível dramatismo e inigualável teatralidade com o estatuto dos Açores.

Desta vez, teria de incluir a demissão do Parlamento e a convocação de novas eleições. O caso não seria para menos. Um governo a usar serviços secretos do Estado para espiar outro órgão de soberania exige demissões e eleições.

Mas não.

O presidente da República, o mais alto magistrado da nação, o comandante em Chefe das Forças Armadas, sabe que está a ser espiado. Tem a certeza disso porque, da sua doutrina passada ficou o axioma de que "raramente se engana e nunca tem dúvidas". Estando a ser espiado qual é a actuação realmente presidencial para este caso?

Exigir do procurador-geral da República uma investigação imediata?

Convocar o Conselho de Estado (já com a respeitabilidade recuperada desde a saída de Dias Loureiro)?

Fazer uma comunicação ao Parlamento como é seu privilégio e, neste caso, obrigação?

Nada disso!

A Presidência de Cavaco Silva, através da sua Casa Civil, decide encomendar (mandar fazer in: Dicionário Porto Editora) uma reportagem a um jornal de um amigo.

Como os jornalistas são, por vezes, um bocado vagos e de compreensão lenta, a Casa Civil da Presidência da República achou por bem ser específica na encomenda dando um briefing claro a pessoa de confiança no jornal.

"Vais falar com fulano e pergunta-lhe por sicrano, vais aqui, vais ali, fazes isto e aquilo e trazes a demasia de volta".

O homem ainda tentou cumprir com a incumbência, mas a coisa não tinha pés nem cabeça e parece que lhe disseram isso repetidamente.

Por isso, logo, por causa disso, houve mais um ano e meio de fartar espionagem, enquanto no Pátio dos Bichos continuavam todos a ouvir vozes.

Cavaco Silva deve ter tido uma birra monumental com a sua Casa Civil e mandou perguntar ao amigo do jornal: "Sócrates está quase a ser reeleito e essa notícia não sai"?

Como o que tem de ser tem muita força, a história lá saiu. Mal-amanhada, mas era o que se podia arranjar.

Lá se meteu a Madeira no meio porque, como ninguém gosta do Jardim, gera-se logo um capital de boa vontade.

Depois, como tinha pouca substância, puseram na mesma página duas colunas ao lado a dizer que, há uns anos, o procurador-geral da República tinha dito que também estava a ser escutado, e a encomenda ficou mais composta.

Que interessa que tudo isto seja bizarramente inverosímil? Nos média, o que parece, é.

Cavaco Silva julga que está a ser escutado, portanto, está a ser escutado, tanto mais que o seu recente depoimento presidencial é que "não é ingénuo".

Com tudo isto, fica-me uma certeza. O trabalho de reportagem do "Diário de Notícias" é das mais notáveis e consequentes peças jornalísticas na história da Imprensa em Portugal.

O e-mail com registos claros da encomenda feita por Fernando Lima não é "correspondência privada" que se deixe passar pudicamente ao lado. É uma infâmia pública de gravidade nacional que exige denúncia.

Invocar aqui delações, divulgação de fontes ou violação de correspondência é desonesto.

Ao ver o Presidente e a Casa Civil metidos nisto fica-me também uma inquietante dúvida. Aníbal Cavaco Silva, referência do PSD, ainda tem condições para continuar a ser o presidente de Portugal depois de causar uma trapalhada desta magnitude a dias das eleições? "




Penso que a dúvida final levantada por Mário Crespo tem toda a legitimidade e é aí que a Democracia portuguesa tem que se focar de imediato.

Há coisas que são tão graves que não se podem deixar passar em claro!

Há coisas que forçosamente têm de ser esclarecidas.

Não sei que esclarecimentos irá prestar Cavaco Silva, se é que os vai prestar!

Contudo, sejam eles quais forem, o próximo Parlamento tem poderes constitucionais para tratar este assunto, que deverá, pela sua extrema gravidade, ser encarado como prioritário e urgente e ir, sem hesitação, até às últimas consequências!

Se o Parlamento não o fizer, por medo, inacção ou simples calculismo político, compete aos cidadãos fazer todas as pressões ao seu alcance para que ele cumpra o seu dever!

A demissão do assessor!


Cito a primeira parte de um texto do DN on-line de ontem:

"O Presidente da República, Cavaco Silva, afastou hoje Fernando Lima do cargo de responsável pela assessoria para a Comunicação social, que passará a ser desempenhado por José Carlos Vieira.

Segundo disse à Lusa uma fonte oficial da Presidência da República, trata-se de uma "decisão do Presidente da República".

No 'site' da Presidência da República o nome de José Carlos Vieira já se encontra como o assessor para a Comunicação Social.

Na sexta-feira passada, o Diário de Notícias denunciou que o caso das alegadas escutas a Belém tinha sido encomendado por Fernando Lima a um jornalista do jornal Público."


Quando alguém é demitido é porque, quem o demite, considera que foi feito algo de muito errado!

Ora os acontecimentos que deram origem a esta demissão não são de ontem.

Ocorreram à dezoito meses e foram objecto de publicação, no passado mês de Agosto pelo "PÚBLICO" (portanto já em época de pré-campanha eleitoral).

Sobre eles, durante todo este tempo, Cavaco Silva nada fez, senão dizer um conjunto de banalidades que serviram apenas para adensar suspeitas sobre uma hipotética vigilância do Governo à Presidência! Algo que talvez, por mera coincidência, se harmonizava com o discurso de "asfixia democrática" que a lider do PSD vinha utilizando com permanente insistência....

Entretanto, já há várias semanas que o nome de Fernando Lima fora citado por Francisco Louçã, como a "fonte" do PÚBLICO, dado que, segundo parecia, a identidade da "fonte anónima de Belém", era já do conhecimento geral nos mundos da política e da comunicação social!

Como não é plausível que Francisco Louçã conheça melhor do que o Presidente o que se passa no Palácio de Belém, resta-me concluir que Cavaco Silva já sabia há bastante tempo desta história, pelo que, das duas uma:

Ou teria sido o Presidente o verdadeiro instigador da passagem de informações ao "Público", tal como parece retirar-se das notícias publicadas pelo DN, pelo que a demissão do assessor Fernando Lima é uma forçada operação cosmética, para limitação de danos na imagem de Cavaco Silva.

Ou, não o sendo, o Presidente encobriu conscientemente, ao longo de todo este tempo, um comportamento gravíssimo do seu assessor, e só após o escândalo que resultou da publicação do DN, se viu obrigado a demiti-lo.

Seja como for, é suposto que a Instituição que representa a Chefia de um Estado tenha um comportamento confiável, sério e digno.

Mandar fazer intriga política com orgâos de comunicação social "amigos", ou encobrir intriguistas que semeam informaçãoes falsas e insinuações, para atingir outras Instituições do Estado nem é sério, nem é digno e retira a este Chefe do Estado a credibilidade e respeitabilidade que o cargo naturalmente exige.

domingo, setembro 20, 2009

Jornais e política

O caso da "vigilância" sobre a Presidência da República parece ter diariamente novos desenvolvimentos.

Após o próprio Provedor dos Leitores do "Público", Joaquim Vieira, ter criticado a actuação do seu jornal, admitindo a possiblidade de o "Público" ter uma agenda política oculta, o mesmo Provedor avança hoje, em nova intervenção, com factos que merecem ser conhecidos.

Transcrevo apenas uma parte do texto que entretanto poderá ser encontrado no Blog do Provedor do Leitor do Público:

"Na sequência da última crónica do provedor, instalou-se no PÚBLICO um clima de nervosismo.

Na segunda-feira, o director, José Manuel Fernandes, acusou o provedor de mentiroso e disse-lhe que não voltaria a responder a qualquer outra questão sua.

No mesmo dia, José Manuel Fernandes admoestou por escrito o jornalista Tolentino de Nóbrega, correspondente do PÚBLICO no Funchal, pela resposta escrita dada ao provedor sobre a matéria da crónica e considerou uma “anormalidade” ter falado com ele ao telefone.

Na sexta-feira, o provedor tomou conhecimento de que a sua correspondência electrónica, assim como a de jornalistas deste diário, fora vasculhada sem aviso prévio pelos responsáveis do PÚBLICO (certamente com a ajuda de técnicos informáticos), tendo estes procedido à detecção de envios e reenvios de e-mails entre membros da equipa do jornal (e presume-se que também de e para o exterior).

Num momento em que tanto se fala, justa ou injustamente, de asfixia democrática no país, conviria que essa asfixia não se traduzisse numa caça às bruxas no PÚBLICO, que sempre foi conhecido como um espaço de liberdade."

Estes factos, trazidos a lume por Joaquim Vieira, na sequência de tudo o que já se conhece, parecem ser elequentes face a posturas deontológicas e políticas existentes no jornal PÚBLICO.

Neste contexto, parece-me igualmente ser interessante a entrevista que José Miguel Júdice hoje concedeu à jornalista Marina Marques, do Diário de Notícias, e que aqui transcrevo na totalidade:

A revelação por parte do DN do e-mail trocado entre Luciano Alvarez e Tolentino Nóbrega, jornalistas dos Público, é uma violação de privacidade?

Não sei se o e-mail é privado ou se tem interesse público. Acho muito curioso que a imprensa portuguesa, que durante anos e anos não se preocupou com a revelação de escutas, agora que atinge os jornalistas, estes comecem a ficar preocupados.

Considera reprovável, do ponto de vista ético?

É deontologicamente censurável, mas, durante anos, os jornalistas aceitaram que isso fosse possível em muitas situações que não envolviam jornalistas. É como se estivessem a provar um pouco do seu remédio.

Os jornalistas dão muita importância a si próprios. Eticamente, é inadmissível que os jornalistas queiram ser protegidos de uma forma que não se protegem os outros cidadãos.

A relação entre jornalista e fonte descrita no e-mail é...

… de uma gravidade extrema. E se é exemplo da forma como se faz jornalismo neste País, estou como Manuela Ferreira Leite: Não quero viver neste País. A aceitação da instrumentalização por parte do jornalista, se for verdade o que está no e-mail, é lamentável.

Perguntas sugeridas por um assessor, fazer a notícia sair da Madeira...

Considera aceitável que o DN tenha divulgado o e-mail?

É importante que o Diário de Notícias tenha divulgado esta situação.

E é importante que os jornalistas ponham a mão na consciência.

Eu sou amigo do José Manuel Fernandes, mas a reacção do José Manuel Fernandes, que de manhã afirmou que o Público estava sob escuta e depois vem reconhecer que, afinal, não houve qualquer intrusão no sistema informático do jornal, é de uma gravidade absoluta. E nem pediu desculpa.

Depois das suspeições lançadas devia de haver um pedido de desculpa ao País, a todos nós. A comunicação social deve pôr a nu estes métodos de fazer jornalismo.

Se é grave o que Fernando Lima, assessor do Presidente da República, fez, também é grave a comunicação social sujeitar-se a isso.

A revelação deste caso desacredita o jornalismo?

Sobretudo levanta algumas questões: será caso único? Não haverá mais fretes entre políticos e jornalistas?

A partir deste caso, os jornalistas deveriam aproveitar para fazer uma reflexão, com muita coragem, para estigmatizar práticas profissionais inadmissíveis. Enquanto bastonário da Ordem dos Advogados fiz isso junto dos advogados. Acho que é essencial que assim seja em qualquer actividade.

O interesse público justifica a publicação do e-mail?

Está tudo a arrancar os cabelos porque é um jornal a fazer a outro jornal aquilo que é prática da comunicação social fazer a outras entidades não jornalísticas: publicar e revelar documentos, mesmo que protegidos pelo segredo de justiça, em nome do interesse público. Esta dupla ética não é aceitável.

Há uma prática muito comum nos países civilizados que é a de os vários orgãos de comunicação social manifestarem explicitamente as suas opções políticas e partidárias, e as suas declarações de interesses relativamente ao poder económico.

Em Portugal existe o mito do jornalismo independente... O que é uma completa hipocrisia!

Ninguém é neutro perante a vida e mundo! Todos temos as nossas opções e opiniões, e os jornalistas, directores e proprietários dos orgãos de comunicação social também as têm! Naturalmente!

Essas opções e opiniões até podem variar, oscilando com o tempo, como acontece com os jornais ingleses, franceses ou americanos, só para citar alguns dos países com imprensa mais conhecida entre nós .

Mas é precisamente essa capacidade de oscilação e de alteração de posição política de jornais, rádios e televisões que transmite um verdadeiro sinal de independência do jornalismo face aos vários poderes! E de transparência junto do público.

Neste País, infelizmente, ningém parece ter a coragem de dar esse passo, como se houvesse uma conveniência muito profunda em não o fazer.

A consequência previsível é a de que, mais dia, menos dia, teria que surgir o odor da podridão, que resulta da promiscuidade e conivência entre os meios informativos, os partidos e instituições...

O espectáculo que neste momento se está a assistir, ainda sob a insistente máscara da independência jornalistica, constitui um verdadeiro atentado à seriedade da democracia e da liberdade de informação, que é preciso esclarecer até ao fim, para que haja o mínimo de salubridade na nossa vida em sociedade!

Se algum benefício vier a ter esta confusa situação criada entre o poder e os jornais é o de destapar, junto dos mais desprevenidos, essa máscara!

sábado, setembro 19, 2009

Presidente



Trago aqui duas citações (parciais) na comunicação social de hoje, a propósito de uma "encomenda" que um assessor presidencial teria feito a um jornalista do Público, entregando-lhe inclusivé um dossier sobre um assessor do Governo:

A primeira do Director do Diário de Notícias tem o título UM SILÊNCIO SUSPEITO (parte II):

"Numa Presidência da República nunca há 'fontes'.
Há factos, comentários ou opiniões, que um Presidente, em certas alturas, quer tornar do domínio público sem se comprometer por via oficial, nem sequer com uma nota.
E há colaboradores para executarem a vontade e a estratégia do Presidente. Quando não o fazem, obviamente passam imediatamente a ex-colaboradores.
É por isso que o silêncio de Cavaco Silva pesa sobre a actual suspeita de pseudovigilância ilegal às comunicações dos seus assessores por parte de 'alguém' do gabinete de José Sócrates" ("Um silêncio suspeito", escrito a 22 de Agosto)
"É absolutamente condenável a estratégia da Presidência da República nesta questão. Ou a notícia é falsa e já deveria ter sido desmentida; ou a notícia corresponde ao que o Presidente pensa e só poderia ter duas consequências: queixa na Procuradoria e demissão do Governo" (Idem)


"1. As críticas que aqui fiz ao comportamento político do Presidente da República (PR) no caso das alegadas escutas de São Bento a Belém mantêm-se não só actuais como até ganharam uma outra dimensão e gravidade com a notícia publicada ontem pelo Diário de Notícias.

A reacção de Cavaco Silva é preocupante para a democracia portuguesa.

O PR, mais uma vez, não se demarcou da tarefa de que terá incumbido o seu assessor (que se tivesse exorbitado deveria estar já sumariamente despedido). Antes pelo contrário, afirmou, de forma clara, que vai "averiguar questões de segurança" depois das eleições.

Estas palavras são contraditórias com a afirmação de que não pretende influenciar o período eleitoral. Além do mais, escondem uma outra hipocrisia: se o PR não queria influenciar, porque utilizou o assessor para dar uma "notícia" em vésperas das eleições?

Um PR não se pode prestar a estes papéis. Ou tem certezas e age, com coragem; ou não tem certezas, e averigua calado. Ora Cavaco Silva não apresentou nenhuma queixa na Procuradoria, não pediu esclarecimentos ao SIS, não demitiu o Governo. De forma irresponsável, permitiu mesmo que se acendesse a fogueira da dúvida.

2. Enquanto não negar responsabilidades pessoais no comportamento do seu colaborador de 20 anos, o PR é suspeito de acusar sem provas, de lançar a instabilidade no País.

Acresce um outro aspecto: depois de 27 de Setembro, data em que começará a "averiguar", já estará eleito um outro primeiro-ministro, que pode ser o mesmo, legitimado pelo voto popular apesar das suspeitas presidenciais sobre ele. Esta não é uma questão de pormenor. Vai com certeza introduzir ainda mais instabilidade num quadro partidário que pode não vir a ter uma solução estável para quatro anos.

Pessoalmente, confesso-me surpreendido. Reconheci sempre em Cavaco Silva uma autoridade moral que me parecia um importante resguardo para o Estado português - e agora não sei que pensar. Eu e, com certeza, muitos cidadãos."



A segunda, de Emídio Rangel, do Correio da Manhã e tem como título A CONSPIRAÇÃO:

"[...] é um facto que a “inventona” das escutas a Belém foi gerada, na Presidência da República, por Fernando Lima, um homem-forte do Presidente e utilizou o jornal Público, dirigido por José Manuel Fernandes, que agora abandona o barco, ao que se diz, para se juntar ao staff do Presidente da República.[...]

Se se confirmar (é necessária a reconfirmação de tudo) tudo o que ficou agora jornalisticamente provado e se, em tempo útil, o Presidente da República não se pronunciar sobre o assunto, mostrando-se à altura do cargo e das responsabilidades que os portugueses lhe confiaram, não há outra saída que não seja a resignação.

O Presidente da República está “acusado” de promover uma conspiração contra outro órgão de soberania, enquanto prega a cooperação institucional entre Belém e S. Bento. Ou prova, ou se demarca, sem equívocos, ou resigna, porque feriu de morte a confiança dos portugueses e já não pode continuar a ser o garante do regular funcionamento das instituições democráticas.

Quem adopta estas práticas perde todas as hipóteses de continuar a exercer uma magistratura de influência na sociedade e não será mais aceite como Presidente de todos os portugueses. O assunto é muito grave. [...]»