sexta-feira, abril 30, 2010

Recordações




A foto acima mostra uma senhora de 70 anos que reside num modesto apartamento nos subúrbios de Londres, agarradinha ao seu peluche de estimação e certamente a muitas das suas recordações.

Vive de uma magra pensão e do auxílio de alguns dos poucos amigos que a vida lhe deixou.

A situação nada teria de especial, se não fosse dar-se o caso desta senhora ter sido nos anos 60 uma das cantoras mais famosas do Reino Unido, a mais bem paga de todas elas, sendo, para além do mais, considerada ainda uma das mulheres mais belas daquela década.

Lembro-me dela e da impressão que a sua beleza me causou quando a vi pela primeira vez na televisão em 1965!



Descoberta na sua pequena cidade natal de Ilford, aos 16 de idade pelo maestro americano radicado em Londres, Bert Ambrose, que 20 anos antes já havia descoberto Vera Lynn, a jovem Kathy teve em Ambrose, desde essa altura, um mentor e um tutor. E foi ele, 40 anos mais velho que ela que, a partir desse momento, dirigiu a sua carreira e até mesmo a sua vida!

Kathy Kirby tinha de facto uma voz e uma presença notáveis, sendo reconhecida por todas as suas colegas da altura, Sandie Shaw, Lulu, Cila Black e Dusty Springfield, como a melhor de todas.



Bert Ambrose não só lhe escolhia o repertório, como o penteado e as roupas. Embora Kathy fosse extraordinariamente talentosa, é de reconhecer que foi Ambrose que construiu de forma muito inteligente o seu sucesso!

Nalguns aspectos foi mesmo extraordinariamente bem sucedido. Por exemplo ao moldar a figura da jovem cantora à figura de mulher que mais admirava: Marylin Monroe!

E de facto não era difícil fazê-lo, as parecenças eram notáveis, excepto no facto de Kathy ter uma capacidade vocal que Marylin não possuia!




No entanto, se a voz de Kathy era excepcional o já sexagenário, Ambrose tinha alguma dificuldade em reconhecer a valia das novas tendências musicais que despontavam, encaminhando por isso o repertório de Kathy para um tipo de música, que ele próprio tocava com a sua orquestra e que era em grande parte constituída pelos standards americanos de Rodgers, Hammerstein, Berlin, Gershwin e Arlen entre outros! Mesmo assim Kathy haveria de ficar conhecida pela “Golden Girl” da POP!




Começando por relacionar-se com ela como um pai trata uma filha, protegendo-a e encaminhando-a, Ambrose depressa se tornou num apaixonado ciumento que lhe limitava as saídas de casa, não a deixando sequer ficar na posse de qualquer quantia em dinheiro.

Com cachets semanais de mais de 40.000 libras, Kathy Kirby e Bert Ambrose estavam instalados num luxuoso apartamento de Mayfair, a zona mais exclusiva de Londres, decorado com o maior requinte, ficando Kathy rodeada de empregados que lhe satisfaziam todos os pedidos, pelo que ela não precisava de se preocupar com dinheiro.



E ela, de facto, não se preocupava, tinha obtido tudo o que desejava, fazia o que mais gostava na vida, que era cantar, e confiava cegamente em Ambrose o que viria depois a revelar-se como a sua maior desgraça!



Ambrose era infelizmente viciado em jogo, tendo nesse vício desbaratado os milhões e milhões de libras que Kathy ganhou, esgotando não só toda a sua fortuna, mas também contraíndo dívidas enormes, como seu procurador.

Ambrose, ao morrer repentinamente em 1971, deixou Kathy desorientada profissionalmente e perante uma realidade terrível e desconhecida, ao dar-se conta pela primeira vez de que estava na miséria.

Este caso, tornou-se de imediato, num foco de atenção para os “média” britânicos, já nessa altura ávidos de escândalos!

As televisões chegaram ao ponto de entrar no seu apartamento, enquanto os funcionários do tribunal retiravam os móveis de casa de Kathy e filmá-la sentada no chão da sua casa vazia, chorando voltada para a parede!

Sem ter dinheiro, nem para onde ir, submersa em sentimentos de desgosto e vergonha profundos, tentou instalar-se anonimamente num pequeno hotel. Contudo, a gerência, ao fim de dois dias, dado que era pública a situação financeira de Kathy, pediu-lhe uma caução monetária para assegurar a sua permanência. Desprovida de meios, Kathy foi levada pela polícia e presente a um juiz, que perante o seu evidente estado de descontrolo emocional a mandou internar num hospital psiquiátrico!



A jovem cantora que pouco tempo antes tinha sido a principal convidada da Rainha na Royal Variety Performance , não soube mais do que se isolar de tudo e de todos com pânico pela humilhação pública que a situação lhe provocava, de tal forma que acabou mesmo por ser mais uma sem-abrigo nas ruas de Londres, sendo vista várias noites a dormir encolhida sob o abrigo da porta de uma loja dos arredores da cidade!

Nos meses que se seguiram, Kathy já com o apoio de dois ou três amigos, conseguiu descansar fora das luzes dos holofotes mediáticos, por forma a poder recompor-se e seguir a sua vida!

No entanto, quando novas propostas lhe foram feitas para prosseguir a sua carreira, verificou-se então que não estava em condições de continuar.

A utilização de medicamentos para a depressão e o seu uso pouco controlado não lhe davam a lucidez e a capacidade necessárias para seguir a disciplina dos ensaios, tanto para gravações, como para a apresentação em espectáculos.

Anos mais tarde, a meio da década de 70, ainda não totalmente recomposta, voltaria a actuar, embora esporadicamente em pequenos bares e num obscuro programa televisivo, onde demonstrou manter a sua excelente voz, havendo registo de actuações notáveis com canções que nunca viria a gravar, como My way, Maybe this time ou New York, New York.

Contudo, os tempos eram outros, ela já não era mais a jovem Marylin britânica e o que lhe era pedido era sobretudo a aparição gratuita em galas de beneficência.

Retirou-se definitivamente em 1983 e refugiou-se no seu pequeno apartamento em Kensington de onde raramente sai.

Entretanto, a sua presença na música e a sua vida dramática não foram esquecidos por muitos que a admiraram nos anos 60. Em 2006 foi editado um livro sobre a sua vida e foi recentemente publicado um DVD onde ela dá uma pequena entrevista e são apresentados depoimentos de vários colegas como Marc Almond e Sandie Shaw!

Igualmente encontra-se em preparação um Musical sobre a sua história, que se prevê estrear brevemente no West End, com o nome de “Secret Love”, exactamente o nome da canção que foi o seu primeiro grande sucesso!



Questionada sobre se contava com o apoio da sua família, ligada actualmente a poderosos proprietários da comunicação social e a figuras importantes do Partido Conservador, Kathy confidenciou que de vez em quando recebia um telefonema e presentes simpáticos e que, pela época do Natal, lhe enviavam postais que, contudo, nunca traziam o endereço do remetente!

Lamenta o afastamento da família, que nunca mais a quis ver e, sobretudo, o facto de nem sequer lhe terem comunicado o falecimento da sua mãe… não fosse ela querer aparecer no funeral!

Escrevo hoje sobre Kathy Kirby porque foi uma cantora que nunca esqueci e cuja sorte me causou uma impressão muito profunda!

Tinha de facto uma presença em palco excepcional, e recordo que no Festival da Eurovisão de 1965 era dada como favorita, como vencedora antecipada…. No entanto acabou por ficar em segundo lugar, para grande pena minha, que nunca achei grande graça à canção vencedora Poupée de Cire Poupée de Son da France Gall!

Nesse ano Kathy fora escolhida pela BBC para ser a interprete única de um concurso de canções chamado “A Song for Europe”. Canções que foram submetidas a votação popular para a escolha da canção que o Reino Unido levaria ao Festival Eurovisivo .

O disco que saíu nessa altura rodou centenas de vezes no meu velho gira-discos!



Kathy que, curiosamente para mim, não foi muito divulgada em Portugal era indubitavelmente uma referência importante na época para a música ligeira e, talvez por isso mesmo, as duas cantoras portuguesas que nos anos 60 rivalizavam na atenção do público português, Madalena e Simone, não quiseram deixar de gravar versões das suas canções. Curiosamente ambas do concurso “A Song For Europe”.

Veremos assim a versão original de I Belong, canção que Kathy levou à Eurovisão seguida da respectiva versão portuguesa por Madalena Iglésias.





Nos dois vídeos seguintes teremos depois a versão original da canção My only love apresentada igualmente no concurso britânico, seguida da respectiva versão portuguesa por Simone de Oliveira.






Na entrevista que consta do DVD que agora saíu Kathy parece conformada com a vida e confortada sobretudo com as boas memórias que possui. As más já há muito que a deixaram de a atormentar... Ainda bem!

sexta-feira, abril 09, 2010

Longevidade

Gary Barlow, Manic Street Preachers, Pet Shop Boys, KT Tunstall and Rufus Wainwright são alguns dos nomes que participaram num projecto musical comum, que foi editado à poucos meses.

Trata-se de um disco, com canções criadas por jovens músicos para uma cantora que já não gravava em estúdio há 20 anos!

E já era tempo de voltar!

Tem 73 anos, uma longevidade vocal invulgar e é verdadeiramente uma lenda viva da música de expressão inglesa, tendo uma carreira de permanente sucesso há já mais de 55 anos.

O CD aí está!




Ao ouvi-lo o que mais me impressiona não é propriamente a qualidade das canções, que até são interessantes sem serem excepcionais, mas sim a manutenção de uma qualidade vocal que Dame Shirley Bassey mantém com 73 anos de idade.

Este seu novo disco foi lançado em Novembro passado, e nesse mesmo mês, num espectáculo realizado no Royal Albert Hall as novas gerações de músicos e de público revelaram que o impacto que esta cantora provoca é ainda verdadeiramente excepcional, seja com este novo trabalho, seja com os êxitos do passado (para os quais, como verão, os contributos de novas formas de expressão musical, são completamente desnecessários, ou até mesmo descabidos) .



Cresci a ouvir esta voz, pois tenho praticamente a idade da carreira de DSB e, hoje em dia, com as potencialidades que o youtube nos oferece resolvi, para encerrar este curto post, encontrar uma sua interpretação que pudesse traduzir toda a dimensão das suas qualidades vocais e interpretativas

Foi muito difícil a escolha, e entre centenas de hipóteses possíveis, resolvi escolher propositadamente uma das suas actuações mais recentes, realizada à apenas 2 anos atrás, onde esta excepcional cantora, na altura com 71 anos de idade, demonstra mais uma vez que é um verdadeiro fenómeno absolutamente inimitável!


domingo, março 14, 2010

Jean Ferrat



Morreu ontem um dos meus cantores favoritos! Tinha quase oitenta anos!
Foi um cantor políticamente empenhado, mas também um autor/compositor de belíssimas e inesquecíveis canções de amor, como esta com um poema de Louis Aragon !




O seu empenhamento político ligado ao ideário comunista foi sempre lúcido embora se perceba a sua origem por razões de pura afectividade.
Vivendo a sua família perto de Versalhes, o seu pai, de origem judia, foi deportado pelos ocupantes alemães para Auchwitz, e Jean que conseguiu escapar devido à ajuda da resistência comunista, ficou escondido e à sua guarda desde os 11 anos até ao final da Guerra!
O seu apoio ao Partido Comunista Francês, do qual nunca foi militante, era empenhado mas liberto de amarras, sendo muitas vezes crítico quer daquela organização política francesa, quer das acções sovieticas.
Outra das suas mais belas canções "Camarade" constitui uma crítica notória à invasão da República Checoslovaca em 1968, pelas tropas do Pacto de Varsóvia.





Após uma longa doença oncológica, Jean Ferrat descansa agora em Paz!

sexta-feira, março 05, 2010

Juventude



Infelizmente, nas últimas semanas nem o meu próprio blog tenho tido disponibilidade de visitar, até que me dei conta hoje de que já passava um mês sem ter acrescentado qualquer contribuição para este espaço.

Não irei falar sobre música, ao contrário do que é habitual nos últimos tempos! O tema hoje é bem mais desagradável!

Hoje, o que venho abordar, prende-se com a actualidade portuguesa que foi marcada esta semana pelo suicidio de uma criança de 12 anos vítima de "bullying" numa escola do norte de Portugal.


Como todos nós, também frequentei ambientes estudantis e a violência escolar não é nada de novo, contudo o grau de agressividade que actualmente existe é francamente assustador.

Há algo de muito errado na nossa organização social para que possam acontecer casos como os que vêm sendo descritos na nossa comunicação social.


O tema da educação de jovens tem sido matéria que ao longo da minha vida sempre constituiu matéria de reflexão e debate com os meus amigos, pois todos sabemos que nem os bébés trazem livro de instruções, nem para se ser pai é necessário um curso, tal como é exigido, por exemplo, para quem conduz um automóvel.

A banalização da violência na televisão e nos jogos para adolescentes não é, infelizmente objecto da devida atenção pelos pais.


A educação contra a descriminação racial, social, religiosa ou sexual está completamente ausente da maior parte das famílias e os resultados estão à vista.


Para mim a escola é um local onde se obtém instrução, devendo a EDUCAÇÃO ser assumida necessariamente pela família, mas o facto triste é que pais e mães parecem querer que sejam os professores os verdadeiros encarregados de educação preocupando-se mais com o que fazem as princesas do Mónaco e o Cristiano Ronaldo, do que com os problemas das suas filhas e filhos.

Sou portanto, algo descrente relativamente ao que estas novas gerações irão fazer no futuro, mas aprendi também que não se pode perder a esperança e ceder ao negativismo!

Uma coisa é certa! A Escola tem que ser um local seguro e não um campo de tortura para as nossas crianças!

Espero pois que este caso, e outros que estão a ser relatados pela imprensa, façam levar as autoridades escolares a tomar medidas e os pais a reflectir na educação que dão aos seus filhos.

Lembro entretanto, a este propósito, algumas reflexões que fiz com um amigo, que me questionou primeiramente sobre as convicções da nossa geração sobre a juventude actual, para depois, com a ironia fina que o caracteriza, me demonstrar, que a minha perspectiva, por mais convencido que eu esteja da sua razoabilidade, nunca me levará a perceber completamente as gerações mais novas!

Essa incompreensão é algo que faz parte da história, que faz parte da natureza das coisas, que faz parte da vida!

Trancrevo pois 3 mails, dois que recebi e um que escrevi sobre esta matéria, onde a par das minhas convicções, que afinal pouco ou nada importam, ressalta que, apesar de todos os factos negativos que nos emocionam e deixam apreensivos, apesar das nossas críticas e temores fundados, poderemos afinal ter confiança no futuro! Teremos é que nós, os mais "antigos", saber cumprir melhor do que até aqui o nosso papel de educadores!

Aqui vão:

Caro D.

Depois da nossa conversa de há uns dias atrás acerca do estado da nossa juventude, permita-me que lhe envie uns comentários proferidos recentemente a propósito, durante um simpósio realizado em Inglaterra:

- "A nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, despreza a autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Os nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem aos pais e são simplesmente maus.

- “Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque esta juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível.”

-“O nosso mundo atingiu seu ponto crítico. Os filhos não ouvem mais os pais. O fim do mundo não pode estar muito longe.”

-“Esta juventude está estragada até ao fundo do coração. Os jovens são maus e preguiçosos. Eles nunca serão como a juventude de antigamente... A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura."

Parece que o problema é global!....

Melhores cumprimentos


Caro C.

Vi o seu mail de ontem, sobre as questões juvenis, que achei deveras interessante e relativamente ao qual vou agora maçá-lo com algumas elucubrações a esse propósito.

Penso que o texto nos oferece um retrato social, feito por alguém que, mais do que descontente com as perspectivas de futuro, parece estar pessoalmente zangado com os jovens...


Zangou-se e disse verdades? Talvez sim! Possivelmente com algum exagero! Ou talvez não!!!!????

Pelos vistos, como muito bem refere, estamos perante um problema global e que, possivelmente, até assumirá noutras sociedades dimensões ainda mais graves do que aqui.

Bom, mas mais do que lamentar, vociferar ou invectivar a juventude há que saber precisamente o que fazer e o que não fazer.

Procurando as explicações para o que se passa, observo que vivemos numa sociedade que, desde os seus primórdios, se desenvolveu na procura do equilibrio entre a tendência natural do Homem em usar a lei do menor esforço e a necessidade de suprir as limitações que essa sua tendência lhe impunha.

Desde a descoberta do fogo e da roda que se vai caminhando para uma sociedade de bem estar.

E essa necessidade intrínseca do Homem de conseguir viver com o máximo conforto e com o mínimo de trabalho, revela bem a própria essência da natureza humana e o erro dos Enciclopedistas que, quer por generosidade, quer por cegueira, nos brindaram com a teoria do Bom Selvagem.

O Homem só se esforça por absoluta necessidade, e para isso usa sempre os meios que lhe parecem mais acessíveis para atingir os seus fins.

Só se abandona pois o estado natural de preguiça se se perceber a necessidade do trabalho e inculcar o interesse pela sua realização.

Só se é correcto e equilibrado no relacionamento com os outros quando se conhecem as regras de convivência e se distingue o bem do mal.

Nem o interesse pelo trabalho, nem o conhecimento das regras sociais, nem a distinção entre o bem e o mal surgem do nada no cérebro dos indivíduos. Têm que ser lá colocados por alguém. É esse o papel dos pais.

Estou certo que não é por conhecimento das teorias libertadoras do séc XVIII que muitos pais se abstêm de dar educação aos filhos e os tratam como parceiros numa espécie de co-gestão (quando não de auto-gestão) do seu desenvolvimento.

Penso, isso sim, que na maior parte dos casos não há sequer a consciência da dimensão da responsabilidade inerente a colocar-se um ser humano no mundo.

Quando a cultura dominante era a de que, ter filhos significava manter a continuidade de um determinado percurso familiar, a falta de consciência racional sobre regras de educação era suprida por um empenhamento forte na manutenção de valores tradicionais.

Os pais esforçavam-se por transmitir aos filhos o modelo que conheciam e que queriam que fosse continuado.

Quando a partir dos anos 70 a família deixa de ser o fio condutor da vida de muitos jovens, quando pai e mãe passam de companheiros a competidores e quando a psicanálise se tornou moda, repescaram-se os conceitos de Freud que considerava serem os pais narcisistas por quererem que o seu bebé se viesse a tornar naquilo que eles não tinham conseguido!


Obteve-se então na maior parte das teorizações sobre a educação a justificativa perfeita para o "laissez-faire, laissez-passer" em que, pelos vistos, se tornou a posição dos pais perante os filhos. Cómodo e politicamente correcto!!

O avanço da Psicologia no estudo dos traumas provocados por stress e por "atitudes de "abuso" psicológico e de violência física dos adultos sobre os jovens veio contribuir ainda mais para a certificação científica do abandono dos anteriores métodos educacionais.

Em épocas mais recuadas, não seria o facto destes estudos serem divulgados na comunidade cientifica que influenciaria o comportamento dos indivíduos.

Contudo, com o florescimento do mercado das chamadas revistas femininas e do mercado editorial de publicações especializadas educação infantil, esses estudos tiveram uma divulgação planetária e influenciaram milhões de jovens pais e mães que acabaram por se convencer que os métodos antigos com os quais foram educados estavam errados.

Infelizmente, a falta de preparação para compreender a relatividade desses estudos, traduziu-se na pura substituição de tradições familiares, por novos "clichés" educativos, que simplesmente consideravam os métodos anteriores como traumatizantes e negativos.

As gerações de pais dos anos 70 para cá, aprenderam pois "o que não fazer"!


"O que fazer" ficou assim entregue, em muitos casos, ao destino, ao dia-a-dia, à natureza. Ou seja à lei do menor esforço. O que hoje em dia se traduz por Televisão!!!

Bom, mas enquanto a maioria da classe média e o sistema educativo de massas adoptava alegremente esse comportamento "liberal", as classes altas continuavam a colocar os seus filhos em colégios tradicionais, que mantêm os mesmos métodos e perpetuam esquemas educativos de sempre.

Se esses novos conceitos são assim tão válidos, porque será então que as famílias pertencentes às elites sociais e financeiras mantêm para a educação dos seus filhos uma postura tradicional, diferenciada da restante sociedade?

Penso que a resposta a esta questão poderia elucidar muito boa gente!

Acho que todos os pais, e todos aqueles que o pretendem ser, deveriam ter presentes dois livros notáveis.


Um, "O Senhor das Moscas" que demonstra bem que o ser humano, na fase inicial da vida, se não for educado, usa dos instintos mais primitivos ao confrontar-se com a vida em sociedade.
Outro, "O Admirável Mundo Novo" que revela (ainda que de forma caricatural) que, tal como Pavlov condicionou cães, nós podemos condicionar seres humanos no sentido que desejarmos.

E a educação o que é, senão o condicionamento da vontade da criança, submetida a regras e valores?

E, de facto, por muito que seja politicamente incorrecto dizer, quando não se condiciona, não se educa.

A Liberdade é um valor muito elevado e é um conceito educativo prioritário. Mas isso mesmo implica o ensinar os limites da liberdade própria e o respeito pela liberdade alheia!


Mas o facto é que uma massa maioritária de pais mal preparados passou a confundir Liberdade com o deixar os filhos fazer o que lhes apetece, não percebendo que o ÑÃO tem um poderoso valor educativo!

Disso resulta, portanto, uma total ausência de passagem de valores e de regras, que é o que está na base dos comportamentos referidos no texto que me enviou.

Por vezes, ao assistir a determinados comportamentos apetece-me dizer tudo o que o texto refere.


No entanto, acho que não podemos perder a esperança e pensar até que talvez, apesar dos defeitos dos educadores de hoje em dia, o futuro não será assim tão mau como isso.

Sempre houve incompreensão entre gerações. Eu próprio quando era mais jovem achava que o discurso dos mais velhos sobre nós era fruto do desconhecimento ou da esclerose.

A História e a Literatura estão carregadas de exemplos de lutas geracionais. Quem sabe se o autor do texto e eu próprio não estaremos apenas a perpetuar esse combate!

O futuro dirá!

Este é um tema inesgotável e mais do que interessante. Estou-lhe muito grato por me ter enviado o texto e lamento estar a ocupar o seu precioso tempo com este longo desabafo.

Votos de um bom fim de semana,

Um abraço




Caríssimo D.

Agradeço-lhe o seu e-mail, bastante elucidativo.

Por lapso não referi uma coisa assaz curiosa relativamente aos 4 parágrafos citados durante o referido simpósio;

- o primeiro é de Sócrates (470-399 a.C.)


- o segundo é de Hesíodo (720 a.C.)


- o terceiro é de um sacerdote do ano 200 A.C.


- o quarto estava escrito num vaso de argila descoberto nas ruínas da Babilónia e tem mais de 4000 anos de existência....

A juventude nunca será como a desejaríamos que fosse!....

Votos de um excelente fim de semana

Um abraço.

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Uma voz com "classe"

Um jovem cantor de origem francesa chamado Tristan, lançou na passada segunda-feira, 1 de Fevereiro, um álbum de canções em inglês, com o título "On a human scale"!

A ele voltarei no final deste post.

Entretanto, devo dizer que uma das coisas que na música mais me desperta a curiosidade é a incursão de cantores por linguagens musicais que estão fora das suas origens e a diluição de fronteiras entre géneros musicais!

Vejamos um exemplo muito curioso: Vinicius de Moraes pegou na cantata de Bach - Jesus bleibet meine Freude (BWV 147) e fazendo uns versos belíssimos, transformou-a numa marchinha chamada “Rancho das Flores”.

Marchinha essa que foi um sucesso incrível no Brasil, no início dos anos 60, primeiro através do Grupo Coral dos Bombeiros Fulminenses e depois na voz do cantor Luiz Cláudio.

Podemos ouvi-la aqui numa gravação recente de um outro coro de bombeiros cariocas:



Ora, pouco tempo depois deste “atrevimento” que, segundo um crítico da época, assassinou o pobre Johan Sebastian Bach, mas pôs o multidões a cantar a poesia de Vinicius, estava o poeta em Paris com Baden Powel, quando o produtor e poeta Eddy Marnay, amigo de ambos e fascinado com a nova música brasileira, transformou os versos originais de Vinicius numa homenagem ao Rio e deu-os uma jovem cantora francesa em inicio de carreira, que gravou essa marchinha com o nome de “L’enfant aux cymbales”.



Estava-se em 1962 e a jovem cantora chamava-se Frida Boccara!

Frida estava no começo da sua carreira, a qual se tinha iniciado logo com um sucesso enorme através da canção “Cherbourg avait raison”, onde revelava uma maturidade vocal e interpretaviva incomum para alguém com apenas 20 anos de idade.

Para o já muito experimentado e célebre produtor Eddy Marney, Frida Boccara viria logo desde esse momento a tornar-se a sua cantora de eleição!



Frida Boccara, que as pessoas da minha geração conhecem sobretudo por ter ganho um Festival da Eurovisão em 1969, era francesa, nascida em Casablanca, oriunda de uma família de judeus italianos.

Começou muito jovem a estudar música e a preparar-se para uma carreira de soprano lírico, tendo completado os seus estudos musicais no conservatório de Paris!

Frida, no entanto, viria a optar pela chamada música ligeira.

Contudo, ao longo da sua carreira, sempre manifestou essa tendência, que eu tanto aprecio, de esbater as fronteiras entre os vários géneros musicais. E abordou-os quase todos, do clássico à chanson realliste, do jazz ao folclore, procurando sempre ter o maior cuidado nos arranjos orquestrais, o que se tornou uma marca distintiva da sua obra.

Tal como o maestro Fernando Lopes Graça dizia em jeito de brincadeira, para além de só haver dois tipos de música, a boa e a má, a música clássica é simplesmente a que tem “classe”.

Os gostos são subjectivos, mas para mim Frida Boccara sempre foi uma cantora que escolheu um repertório de “classe” e que o interpretou com “classe”!

E foi exactamente a qualidade que demonstrou desde o início do seu percurso artistico que levou a que, ainda muito jovem, fosse convidada pelo já consagrado George Brassens para os seus concertos, que em 1964 esgotaram durante meses a prestigiada sala Bobino de Paris e que acabariam por ficar célebres na história da música francesa.

Na altura duas jovens estrelas despontavam no panorama musical de Paris, Dalida e Frida Boccara!

Contudo, enquanto que Dalida era uma presença frequente nas rádios portuguesas, nessa época eu não ouvira ainda falar Frida, mas algum tempo depois, em 1968, tive a grata surpresa de conhecer esta belíssima voz exactamente com a canção que viria a ser a marca de referência de toda a sua carreira: “ Cent Mille Chansons”



Registe-se no entanto, como curiosidade, que "Cent Mille Chansons" não é uma criação sua, mas sim da fantástica cantora brasileira Maysa Matarazzo, que deu voz a esse tema na banda sonora original do filme “Le repôs du Guerrier” de 1962, realizado por Roger Vadim e com Robert Hossein e Brigitte Bardot como protagonistas.

Fosse pela formação clássica que adquiriu, fosse por simples gosto, Frida Boccara foi das primeiras cantoras ligeiras a cantar compositores clássicos: Vivaldi, Haendel, Rossini, Corelli, Telemann, Granados, Mozart, Bach, Brahms, Elgar, Smetana e Villalobos, fazem parte do seu repertório.



Tendo cantado em 7 linguas diferentes, a verdade é que a grande notoriedade internacional lhe veio sobretudo com a vitória no Festival da Eurovisão de 1969, onde terá cantado uma das mais belas canções de sempre da história daquele concurso musical.

Longamente aplaudida nesse Festival por um público completamente aturdido pela beleza surpreendente de “Un jour, un enfant” e pela interpretação extraordinária de Frida, a canção francesa viria necessariamente ofuscar a canção que tivesse a infelicidade de se lhe seguir, o que no caso foi precisamente a azarada canção portuguesa chamada “Desfolhada", apesar da força e da fantástica interpretação da cantora portuguesa Simone de Oliveira.



“Un jour, un enfant” seria entretanto editada em disco single com uma outra canção belíssima que, curiosamente, passou completamente despercebida nas rádios, mas que em minha casa rodou quase até à exaustão vynilica!!!!!

Chama-se essa canção “Belle du Luxembourg” e considero-a imperdível.



Frida Boccara editou dezenas de discos até ao início da década de 80, alguns deles em edições exclusivas para Espanha, Brasil e Estados Unidos, tendo-se retirado no inicio dessa década, numa altura em que os gostos musicais e a predominância do disco-sound não deixavam muito espaço para o tipo de música ela que gostava de fazer!

Por isso mesmo, apesar do prestígio e da qualidade que todos lhe reconheciam, passou a ser uma artista pouco interessante para as editoras discográficas.

Aliás, como ela referiu numa das últimas entrevistas que deu em 1989, o problema era não só de dinheiro como de mentalidades.

De dinheiro pois, quer nas televisões, quer nas produções de espectáculos, não se pretendia gastar com uma orquestra para um bom acompanhamento ao vivo. Ou se arranjava um pequeno conjunto ou um play-back!

De mentalidades, pois o que se pretendia era criar vedetas através de clips televisivos e não fazer crescer artistas que se apresentassem ao vivo com o devido acompanhamento.

Ela que era admiradora confessa de Michael Jackson, George Michael e de Barbra Streisand afirmava então não ter possibilidades de arranjar meios como os que eles possuiam para fazer espectáculos ao vivo e simultâneamente fazer clips.

Por isso, para ela continuar teria que deixar de ser a Frida Boccara que ela era. Seria preferivel então ficar por ali e aparecer apenas de vez em quando em ocasiões especiais em que todas as condições estivessem reunidas!

Frida, que viria a falecer em 1996 na sequência de uma infecção pulmonar, tornava todas as músicas em que tocava em verdadeiros clássicos, dando a conhecer algumas pérolas escondidas, como a canção "Doorgaan" do cantautor holandês Ramses Shaffy, um homem com uma vida tão rica, quanto atribulada, falecido no final do ano passado e infelizmente muito pouco conhecido fora dos Países Baixos



Frida Boccara já não está entre nós, mas deixou-nos a sua música belíssima que a mim me dá sempre um prazer imenso recordar. E deixou um filho, que também se dedica à música e que se chama Tristan! Tristan Boccara!

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Do esquecimento à popularidade

A história da sofredora Griselda incluída por Bocaccio no seu Decameron deu origem a duas Óperas no século XVIII, primeiramente de Scarlatti e depois de Vivaldi.

Vivaldi, que era um sacerdote era também compositor e foi exactamente através de Griselda para ganhou finalmente a respeitabilidade de que merecia junto das elites suas contemporâneas.



Eventualmente esse estatuto demorou pois ele terá começado por escrever peças infantis e, segundo os seus críticos, músicas demasiado populares.

De facto foi um criador musical extremamente prolífico, não constituindo a sua actividade sarcedotal qualquer óbice, já que conseguira dispensa de celebrar missa devido à sua aparente fragilidade física, derivada da asma.

Fragilidade essa que entretanto não o impediu de ter inúmeras amantes, uma das quais Anna Giro, um mezzo-soprano, para quem escreveu exactamente o papel de Griselda, e que era jocosamente conhecida pela l’Annina del Prete rosso (Vivaldi era ruivo).




Após a sua morte, na miséria, como aconteceu com muitos dos génios da música, aos 62 anos, foram precisos quase 150 anos para que, já no século XX, a sua obra viesse a ser de novo tocada e o seu talento devidamente reconhecido, quer como criador de música, quer devido ao seu papel para a definição da estrutura de concertos e sinfonias.

Se as suas Quatro Estações se tornaram há muitos anos um dos clássicos da música erudita, só mais recentemente a sua Griselda se tornou popular, particularmente devido a uma das suas árias: "Agitata da due venti"



Embora esta ária tenha vido a ser cantada por inúmeras cantoras, quer mezzos, quer sopranos, ao longo das últimas décadas, só após a mezzo-soprano Cecília Bartoli a ter incluído nos seus recitais é que ela se tornou verdadeiramente uma ária popular.

Mais uma vez um intérprete pode fazer toda a diferença. E neste caso fez decisivamente!

Claro que há quem critique bastante Bartoli, quer pela sua postura em palco que dizem ser mais própria de uma cantora rock do que de uma cantora lírica, quer pelo facto de ter dado uma visão demasiado pessoal a esta peça, tornando-a eventualmente demasiado “agitata”!

Vejamos então o que fez em 1986 grande Monserrat Caballé com esta ária, que é por si só um assombroso exercício de virtuosismo de coloratura , plena de “legatos” e “stacatos” dificilímos! Seguidamente, veremos Bartoli!

Eis então a versão da soprano Monserrat:



E agora a da mezzo Bartoli, quase 30 anos depois:

segunda-feira, janeiro 04, 2010

O melhor de França através do Brasil

Hoje ao mostrar duas versões da mesma canção venho também trazer dois nomes de cantores/compositores que já nos deixaram, mas cuja obra perdura através dos tempos.

Marcel Mouloudji, nascido em Paris em 1922, tinha ascendência argelina e foi um homem multifacetado. Cantor, escritor e actor, foi combatente da resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial e um militante activo da esquerda francesa, quer apoiando as lutas laborais no seu país, quer envolvendo-se nas principais causas internacionais pela liberdade e pela democracia, como foi o caso da luta contra a ditadura chilena.

Contudo alguns dos seus actos valeram-lhe a hostilidade de boa parte do público e das autoridades francesas, sendo ostracizado e as suas canções censuradas por mais de uma década, quando no próprio dia em que as tropas francesas foram derrotadas em Dien Bien Phu ele interpretou num espectáculo público a canção anti-militarista de Boris Vian “Le Deserteur”.

Passado o Maio de 68 e tendo fundando a sua própria editora retomou na plenitude a sua actividade de cantor, sendo hoje considerado, muito justamente, como um dos nomes mais prestigiados da música francesa.

Mouloudji faleceu aos 70 anos em 1992 e é dele uma das canções de que eu mais gosto: “Un jour tu verras”, canção que ele criou em 1954.



Ao mesmo tempo que Mouloudji nos dava esta bela canção, do outro lado do Atlântico aquando de uma reunião social em casa da familia Matarazzo em São Paulo, um produtor musical, Roberto Corte Real, ao ouvir cantar a jovem Maysa ficou não só impressionado com a extraordinária qualidade da sua voz, mas também com o bom gosto das escolhas musicais que ela fazia, que iam muito para além da música brasileira e passavam pelo jazz, pela música hispânica e pela canção francesa.

Tendo-a convidado para gravar um disco, Maysa estreou-se apenas com músicas cantadas em português. No entanto num disco posterior, gravado em 1957, incluiu já canções em inglês e francês, sendo exactamente “Un jour tu verras” uma das músicas por ela escolhida.

Existem versões desta canção por vários cantores, de Juliette Greco a Dianne Reeves, de Nana Mouskouri a Michel Delpech, contudo ao ouvir Maysa a sensação com que eu fico é a de que Mouloudji encontrou nela a voz ideal, a voz que dá a versão “definitiva” desta canção (com o senão de duas ou três pequenas falhas na dicção da vogal “e”, sem o que eu juraria estar perante uma cantora de língua materna francesa).

Espero que gostem tanto desta bela canção como eu, que a considero uma das minhas “músicas de cabeceira”, numa das mais belas vozes de sempre, que infelizmente nos deixou cedo demais, em 1977, mas que para mim permanece, através do seu vasto e excelente repertório, bem viva.

quarta-feira, dezembro 23, 2009

FELIZ NATAL- ou como o Natal e a Música puderam fazer a Paz, ainda que só por breves momentos

No primeiro Natal, nas trincheiras das Ardenas, durante a Primeira Guerra Mundial, aconteceram alguns pequenos episódios de confraternização entre inimigos!

Esses casos, encontram-se descritos em diários de guerra de soldados dos dois lados da contenda. Um deles terá envolvido o cantor da Ópera de Berlin, Nikolaus Sprink, entretanto recrutado para o serviço militar no exército imperial alemão!

Na noite de Natal de 1914, nas trincheiras dos dois lados, os soldados procuravam mitigar o frio, as saudades da família e o medo, fazendo o seu próprio Natal, com canções tradicionais das suas terras.

A música tocada num lado ouvia-se do outro, e quando Nikolaus resolveu cantar para os seus camaradas de armas alemães, do outro lado surgiu o som dos militares escoceses que o acompanharam na melodia.

Nessa noite, à revelia dos seus comandantes e dos Quartéis Generais, os soldados de um lado e de outro saltaram as barricadas, vieram para a” terra de ninguém” e abraçaram-se!

Noventa anos depois, o cineasta francês Christian Carion, resolveu recordar esse episódio de esperança na Humanidade, fazendo um magnifico filme chamado apropriadamente Feliz Natal!



E é exactamente um Feliz e Santo Natal, o que eu aqui venho desejar a todas as amigas e amigos que passam por este pequeno espaço, recordando particularmente que na noite de Natal que se aproxima há muitos homens e mulheres que, longe de suas casas e das suas famílias, se encontram em teatros de Guerra e, para quem, a Noite Santa terá decerto um significado íntimo que nós, no conforto dos nossos lares, apenas poderemos tentar imaginar!

Deixo aqui imagens desse filme, referindo que as vozes dos actores foram magnificamente dobradas pelos cantores Rolando Villazon e Natalie Dessay!



Um Feliz Natal para todos!

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Standards - Modos de interpretar

Felizmente que houve a inteligência de se registar em vídeo e passar na televisão as master classes de Elisabeth Schwarzkopf onde, para além das técnicas de abordagem vocal a obras específicas, ela era muito exigente quanto à necessidade de uma boa dicção e de uma correcta interpretação do sentido das palavras.

Tive a oportunidade de ver a transmissão de todos esses vídeos há longos anos na RTP e era muito interessante ver o que cantores profissionais, já experimentados, suportavam para poder aproveitar os ensinamentos da mestra.



Ensinamentos que, se pensarmos bem, tanto servem para o canto lírico, como para o canto ligeiro, já que quem se presta a pisar um palco para cantar palavras tem que as pronunciar correctamente e lhes dar o devido sentido.

Curiosamente Marco Paulo, ao ser um dia entrevistado sobre o seu insucesso nos festivais RTP da canção, queixava-se de si mesmo, reconhecendo que uns versos em que dizia “Sou tão feliz” nunca poderiam ser cantados da forma dramática como ele o fez…

Neste caso convenhamos que a culpa nem era só dele, quer a música, quer a orquestração empurraram-no para esse erro, que ele na altura não percebeu existir.

Se em vez de “Sou tão feliz”, cantasse “Estou bem lixado” (desculpem a vulgaridade) acabaria por resultar bem melhor com aquela música e com aquele arranjo orquestral!



Infelizmente apesar de termos muitos cantores, não temos muitos intérpretes, e o canto precisa de ser feito com a inteligência de quem sabe o que diz, dizendo algo com interesse e com sentido!

Bom, mas hoje não vou falar de portugueses, vou falar de Barbra Streisand cuja preocupação pelo sentido dos textos ficou patente, logo desde o início da sua carreira.

Barbra começou muito jovem e com o pé esquerdo! Levada pela mãe a uma editora discográfica, aconselharam-na a dedicar-se a outra profissão pois, segundo eles, a jovem Barbra não tinha qualquer jeito para cantar.

No entanto este mau começo não a fez desistir do seu sonho e, ainda adolescente, concorreu a um concurso de canto para jovens amadores e tendo ficado em primeiro lugar, começou então a sua carreira com um contrato para actuações num bar gay de Manhattan.

Aí, a notícia da qualidade das suas interpretações depressa se espalhou tendo passado rapidamente para artista residente de um night-club famoso na época, o Bon Soir, onde a novata Streisand se arriscava em versões muito pessoais dos standards da música americana.

Apresento dois deles, nas suas versões originais e, depois, nas versões de Streisand.

Começo por “Cry me a river”, canção que foi escrita para Ella Fitzgerald, mas que acabou por ser criada por Julie London, que lhe deu aquela que é considerada por muitos como a primeira e definitiva versão deste tema!



Quem reparar bem na letra verificará que ela retrata uma zanga amorosa feita em discurso directo!


Now you say you're lonely
You cried the long night through
Well, you can cry me a river
Cry me a river
I cried a river over you

Now you say you're sorry
For being so untrue
Well, you can cry me a river
Cry me a river
I cried a river over you

You drove me,
Nearly drove me out of my head
While you never she'd a tear
Remember?

I remember all that you said
Told me love was too plebeian
Told me you were through with me

Now you say you love me
Well, just to prove you do
Cry me a river
Cry me a river
I cried a river over you


Bom, temos aqui portanto uma mulher que se viu desprezada e até humilhada pelo namorado, uma mulher que sofreu muito por ele e que agora o vê voltar “esquecido” de tudo o que ele lhe dissera e fizera…

Face a este contexto, Barbra não adoptou a forma doce e suave de abordar a canção, que tornou famosa Julie London, cantou-a de um jeito sarcástico e até agressivo, a que quase só faltava a mão na anca e um tamanco a voar!

Consoante as audiências a sua interpretação era mais ou menos teatral! Para aqui escolhi a versão em que a actriz Barbra se revela completamente através da cantora Barbra. Trata-se de uma gravação ao vivo durante o concerto que deu no Central Park em 1967!



Ao contrário da versão de Julie London, esta não é decerto uma versão que se oiça calma e descontraidamente, como pano de fundo de uma conversa de amigos, em nossa casa! É preciso parar para a ouvir…

O mesmo acontece com a canção seguinte!

Ambas constantes do seu espectáculo no Bon Soir, foram gravadas no seu primeiro disco, que inicialmente teve uma edição modesta de apenas 500 exemplares, mas que depois teve que ser produzido em doses maciças tendo ido directamente para o primeiro lugar da lista de vendas, onde se manteve várias semanas!

É que na verdade, à semelhança do que acontecia com os clientes do Bon Soir, o disco surpreendia pela qualidade da interprete e muito particularmente pela sua versão de Happy Days Are Here Again, canção de 1929, que serviu para animar tropas, celebrar vitórias, de hino eleitoral de Roosevelt e depois do Partido Democrático.



So long sad times!,
Go 'long bad times!,
We are rid of you at last
Howdy, gay times!
Cloudy gray times,
You are now a thing
Of the past, cause:

Happy days are here again
The skies above are clear again
Let us sing a song of cheer again
Happy days are here again

Altogether shout it now!
There's no one who can doubt it now
So let's tell the world about it now
Happy days are here again

Your cares and troubles are gone;
There'll be no more from now on
Happy days are here again
The skies above are clear again
Let us sing a song of cheer again
Happy days are here again


Ora, como se vê, esta é uma canção com um texto de apelo político ao optimismo, que era cantada em comícios e que portanto teria que entrar bem no ouvido do público. Só que a verdade é que a música era quase infantil, o que levava a que, quando a multidão a cantava todos se riam pois sentiam-se tolinhos a entoá-la!

Streisand resolveu então alterar ritmicamente a canção! O texto que poderia ser o de um discurso, então teria que ter uma cadência mais adequada à seriedade e o empolgamento de quem pretendia transmitir uma mensagem!

Para isso, sem utilizar um tom declamatório, deu-lhe uma cadência mais lenta, que em vez de passar sentimentos de alegria, procurava passar sentimentos de euforia! Euforia provocada quer pelo novo arranjo orquestral, quer pela sua própria interpretação.

O sucesso desta versão foi tal que se tornou obrigatória até hoje nos espectáculos de Streisand e sempre que é tocada na forma original nos comícios do Partido Democrático é apenas em versão orquestral, sem que ninguém a queira cantar ao ritmo apresentado antes de Barbra!

Vamos ver a sua interpretação desta canção, também no mesmo concerto de Central Park de 1967!




E já agora numa emissão do Judy Garland Show de 1963, em que a já mais do que consagrada Judy chama a iniciante Barbra para cantarem em dueto duas canções em simultâneo! E, como aliás fica evidente no resto desse programa, tudo foi feito por Judy de forma a destacar a cantora mais jovem, que ela pressentia poder ser a sua sucessora natural!
É um momento de televisão magnifico para os apreciadores das duas cantoras!

Mirene Cardinalli - 40 anos depois

Completam-se amanhã 40 anos sobre o desaparecimento de Mirene Cardinalli!

Faleceu aos 27 anos, vitima de um brutal acidente de viação na “recta do Cabo”, no qual faleceu também o seu marido e ainda o jovem cantor Carlos Belo!

Possuidora de uma voz notável, à época da sua morte estava numa fase de viragem da carreira para um repertório completamente diferente do estilo do cançonetismo ligeiro mais comum na época.

Tinha em preparação com o compositor de baladas e canções de intervenção Vieira da Silva (também jornalista da revista Mundo da Canção), um disco onde incluiria entre outras a canção “Para a construção da cidade necessária”.

Ficaram-nos contudo os registos de algumas gravações, onde se evidenciam claramente as suas qualidades vocais e interpretativas:



O seu maior êxito popular, passado constantemente nas emissões de rádio, chamava-se “Julgamento”. Contudo, Mirene gravou outras canções, talvez até mais interessantes, incluindo a versão mais conseguida de Vocês Sabem Lá, que em nada fica atrás da versão original de Maria de Fátima Bravo.

Fica aqui pois a memória desse êxito popular e da sua intérprete, ainda presente na memória de todos os que admiravam, sabendo que se fez decerto muita falta ao mundo artístico português, terá feito obviamente, uma falta humanamente mais forte aos seus dois pequenos filhos, que nesse dia 19 de Dezembro de 1969 perderam em simultâneo Pai e Mãe!

terça-feira, dezembro 15, 2009

Standards

Constatei já há muito tempo que, ao contrário do que acontece no canto lírico e na música ligeira dos outros países, os cantores portugueses, regra geral não gostam de cantar os “standards” da nossa música.

Cantar um standard é submeter-se a uma prova, a uma comparação inevitável em que, ou se supera o já criado ou, simplesmente, se é mais um a cantar essa música.

Também pode acontecer que haja uma visão tão diferente da canção que leve a uma espécie de recriação do tema, a qual só tem sentido se for mesmo boa.

Interpretar standards é, portanto, um exame a que os artistas de quase todo o mundo voluntariamente se submetem, uma prova permite ao público avaliar melhor as suas capacidades vocais e interpretativas, assim como a da lucidez na escolha de repertório.

Cantar standards é indubitavelmente uma forma de enriquecimento do património que essas peças representam na história da música.

Para mim e para uma grande parte do público e dos críticos “Over de rainbow” é uma prova da excepcionalidade de Judy Garland, mas nem por isso deixou de ser uma aposta de muitas outras vozes, quase todas ficando aquém de Garland e não acrescentando nada à canção.

Contudo, nem por isso, ao longo dos tempos de Doris Day a Eric Clapton, de Frank Sinatra aos The Guns and Roses, mais de uma centena de cantores interpretaram “Over the rainbow”

Vemos aqui Garland, em 1943, cantando-a para os soldados americanos.



Mas quando à partida uma música tem um intérprete excepcional, como foi o caso de Garland, o caminho a seguir é o da recriação!

E foi o caso do surpreendente Israel Kamakawiwo'Ole, que mais de 50 anos depois da canção ser criada, a transformou radicalmente, dando-lhe uma nova dimensão que, por isso mesmo não compete com a versão original!

Esta sua recriação foi um verdadeiro sucesso de vendas em 1993, para mim, perfeitamente justificado.



Israel Kamakawiwo'Ole, mais conhecido no Hawai por Iz, teve um enorme sucesso, mas uma vida muito curta, a sua obesidade acarretou-lhe graves problemas de saúde, chegando a pesar quase 350 kg, o seu coração não resistiu e faleceu com apenas 38 anos em 1997.

Iz deixou com esta canção um legado, havendo agora seguidores que em vez de tentarem imitar Garland, o que na verdade não será nada fácil, pensam que copiar o estilo de Israel Kamakawiwo'Ole pode dar melhor resultado. Também, aqui as imitações não têm tido grande sucesso!

Um dos meus maiores prazeres ao tentar conhecer bem uma canção ligeira é exactamente descobrir novas facetas que novos interpretes podem oferecer a temas consagrados. E é isso mesmo que irei abordar em próximos posts!

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Cadeira Vazia

No passado dia 26 de Novembro Mariza esteve em directo, na Rede Globo, em entrevista no Programa do Jô!

Nesse programa interpretou uma canção criada em 1950 pelo grande cantor brasileiro Francisco Alves e que mais tarde, pela voz de Elza Soares e sobretudo pela de Elis Regina, ficaria para sempre imortalizada.

Chama-se essa canção "Cadeira Vazia"!

Aparentemente, de acordo com o decorrer da entrevista, essa sua interpretação terá sido um improviso!

Contudo, todos sabemos que em televisão os improvisos, são normalmente ensaiados, mas o que é certo é que, improviso ou não, a dada altura Mariza perdeu-se na partitura, mas simultaneamente demonstrou que não é por acaso que é a melhor sucedida das cantoras portuguesas, na actualidade!

Para mim, que tenho acompanhado com alguma curiosidade a sua carreira e as críticas que ela levanta junto dos mais tradicionalistas do fado (a que se pode chamar mais propriamente despeito), ela teve com esta interpretação de "Cadeira Vazia" uma verdadeira prova de fogo, que ultrapassou brilhantemente, apesar dos precalços pelo meio.

Termino pois com música a duas vozes e, naturalmente, com esta "Cadeira Vazia"! Primeiro com Mariza, no referido programa de Jô Soares:




E depois com a insuperável Elis Regina, que começa esta canção limpando as lágrimas da sua emoção, após ter interpretado magistralmente uma das mais intensas obras de Chico Buarque: "Atrás da Porta".

Não consigo pois resistir a colocar aqui as duas canções, exactamente na sequência em que foram apresentadas em 1980, pela saudosa "Pimentinha":

Atrás da porta


Cadeira Vazia

terça-feira, novembro 24, 2009

prisioneiro no próprio corpo



De acordo com notícias publicadas ontem ficámos a saber a terrível história de Ron Houben, um belga de Liege.

O que lhe aconteceu, pode vir a acontecer a qualquer um de nós e certamente vai acontecendo todos os dias por esse mundo fora.

Ron há 23 anos teve um acidente que o deixou em coma e inconsciente, de acordo com os médicos.

Sua mãe contudo, teve sempre dúvidas relativamente ao estado do seu filho e insistiu, procurou segundas, terceiras, décimas opiniões e até que o neurologista Dr Steven Laureys, estudou melhor o seu caso e verificou um erro no diagnóstico.

Ron era um jovem saudável que de acordo, com os médicos teria após o acidente, ficado em estado vegetativo, sem ver, ouvir ou sentir o que quer que fosse.

Contudo os seus pais conheciam-no melhor que ninguém. Transferido do hospital para um lar de assistência a pessoas inválidas, os pequenos sinais que transmitia a seus pais, eram sempre desvalorizados pelos médicos, como meros tiques, típicos do estado em que se encontrava.

Em 1997, quando o seu pai faleceu, a mãe que acreditou sempre que o filho mantinha as suas capacidades cognitivas e que por isso estaria em sofrimento, informou-o da morte do pai. Ele pestanejou, para a mãe isso era um sinal óbvio, para os médicos mais uma vez não foi nada.

Afinal, percebeu-se depois, ao fim de 23 anos, que Ron ouvia, via, tinha o raciocínio intacto, apenas o seu corpo não conseguia dar qualquer manifestação disso.
Estava prisineiro de si mesmo, com a consciência perfeita de tudo o que estava à sua volta.

Só a sua mãe percebia que algo estava mal no diagnóstico oficial! E como disse aos jornais: "Quando se acredita nunca se deve desistir"



Transcrevo a seguir o artigo publicado no "Publico" que resume muito bem este terrível drama humano!

"Em 1983, Rom Houben, então um jovem estudante de engenharia e amante de desportos de combate, sofreu um acidente de viação. O seu coração parou e o seu cérebro ficou privado de oxigenação durante vários minutos. A partir dessa altura o seu corpo ficou paralisado e oficialmente em coma. Mas o diagnóstico dos médicos foi demasiado precipitado. Apesar de completamente imóvel, Rom conseguia ouvir tudo o que lhe diziam. Ouvia os médicos falarem do seu estado de saúde e ouviu a mãe comunicar-lhe a morte do pai. Ouviu tudo isto sem poder chorar nem mexer a cabeça. Estava consciente e com um cérebro a funcionar, mas nunca conseguiu que o seu corpo comunicasse esse facto.

Tudo mudou há cerca de três anos. O neurologista Steven Laureys, da Universidade de Liege, que decidiu experimentar uma nova abordagem aos doentes em coma, libertou-o da sua tortura. Usando um inovador sistema de monitorização da actividade cerebral através de ressonância magnética percebeu que o caso de Rom era o de um falso coma.

O momento em que descobriram que eu não estava num estado vegetativo, disse Houben, foi como se tivesse nascido outra vez. “Nunca esquecerei o dia em que me ‘descobriram’. Foi o meu segundo nascimento”, disse Rom à revista alemã “Der Spiegel”, que trouxe o caso a público.

Nos últimos três anos Rom Houben, agora com 46, foi submetido a intensas sessões de fisioterapia e já conseguiu recuperar algum movimento. Comunica através de um ecrã táctil, acoplado à sua cadeira de rodas.



Rom explicou que, durante todos estes anos, conseguiu suportar o pesadelo de não poder comunicar o seu estado através da meditação e revivendo episódios passados. “Viajei com os meus pensamentos para o passado, ou então para uma nova existência. Eu era apenas a minha consciência, e nada mais”, disse Rom, que fala quatro línguas.

“Impotente. Extremamente impotente. Inicialmente fiquei revoltado, mas depois aprendi a viver com isso”, recorda agora Rom, citado pela AP.

O neurologista Steven Laureys - que chefia o grupo científico que estuda os estados de coma no hospital universitário de Liege - acredita que este caso é apenas um entre muitos, estimando que possa haver inúmeros falsos comas diagnosticados em todo o mundo. Laureys estima que os doentes em coma são mal diagnosticados com “assustadora regularidade”. De entre 44 doentes que se pensava estarem em coma, 18 deles responderam fisicamente a pedidos de comunicação.

De acordo com o “The Guardian”, os médicos belgas que diagnosticaram Rom como estando em coma usaram a escala Glasgow Coma Scale, internacionalmente aceite. Esta escala monitoriza os movimentos dos olhos e as respostas verbais e motoras. Porém, apesar de terem usado esta escala, falharam em determinar o correcto funcionamento do cérebro do doente.

“A partir do momento em que alguém é diagnosticado como inconsciente, é muito difícil arrancar a pessoa a esse estado”, indicou Laureys ao “Der Spiegel”.

O neurologista indicou ainda que todos os doentes classificados num estado de coma não-reversível, deverão ser “testados dez vezes” e que os comas, tal como o sono, têm diferentes fases que precisam de ser monitorizadas.

Houben espera vir a escrever um livro contando a sua experiência e o seu “renascimento”, indica o "The Guardian"."


Assusta pensar que neste mesmo momento inúmeros seres humanos poderão estar a viver drama idêntico! Drama que a qualquer um de nós, ou aos nossos entes queridos, poderá igualmente acontecer.

Face à evolução da Medicina e da Ciência em geral, creio que podemos acreditar em muita coisa, contudo ter uma fé absoluta nas "verdades" científicas é um risco que se vai comprovando ser demasiado grande e com consequências de sofrimento para além do imaginável.

Chegado a esta fase da minha vida, em que por razões pessoais e familiares me tornei frequentador assíduo de consultórios e hospitais, creio que apesar de ser sempre necessário ouvir atentamente as opiniões médicas, temos que estar alerta, usarmos a nossa própria cabeça e, eventualmente, lutar como fez esta mãe, até ao limite da dissipação total das dúvidas que nos possam surgir!

Ao fim e ao cabo nem os médicos são Deuses, nem nenhuma verdade em Medicina é mais absoluta e segura do que a verdade da Morte.

E por isso, até ela acontecer há sempre uma outra possibilidade, por ínfima que seja...

Contudo, a alternativa à morte também não deverá ser o prolongar de um sofrimento sem esperança...

A necessidade de se perceber bem a situação do doente a a luta por um dignóstico seguro e completo deverá ser uma prioridade para todos nós, enquanto indivíduos e enquanto cidadãos.

Economicismos na Área da saúde, são por isso, do mais estúpido e desumano que pode acontecer numa sociedade civilizada!

terça-feira, novembro 17, 2009

Villa-Lobos

Passam hoje 50 anos da morte de um dos maiores compositores clássicos do século XX: Heitor Villa-Lobos.

Para além de compositor, músico e maestro dedicou-se à pedagogia musical através da criação empenhada de inúmeros coros infantis, como método previligiado de levar a música aos mais jovens.

Aquando da sua morte o grande poeta Carlos Drummond de Andrade lembrou que:” Quem o viu um dia comandando o coro de 40 000 mil vozes adolescentes, no estádio do Vasco da Gama, não pode esquecê-lo nunca. Era a fúria organizando-se em ritmo, tornando-se melodia e criando a comunhão mais generosa, ardente e purificadora que seria possível conceber".

As suas influências musicais adquiriu-as tanto no estudo académico, como no autodidactismo, como ainda nas raízes folclóricas no interior norte do Brasil, embrenhando-se de tal maneira na sua actividade de recolha musical, que fica durante anos sem dar notícias à família! Quando regressa ao Rio encontra-a numa missa…. Em sua memória! Sua mãe julgara-o morto!



Avançado demais para o seu tempo, de inicio viu-se a braços com a incompreensão quer da crítica quer do público, quer ainda dos músicos seus contemporâneos. Quando convidado para dirigir a estreia da sua primeira Sinfonia os músicos da Orquestra recusam-se a tocá-la, designando-a por “uma coisa cheia de dissonâncias”.

Contudo, estes contratempos não o fazem desistir, muito pelo contrário, compõe e viaja e a sua fama espalha-se. O virtuoso Artur Rubinstein toma a iniciativa de se encontrar com ele, numa altura em que Villa-Lobos para sobreviver tocava numa orquestra de cinema.

Villa-Lobos incomodado, por ser encontrado naquela situação por Rubinstein, não aceita bem a visita do famoso pianista, mas no dia seguinte apresenta-se com um grupo de músicos no Hotel onde Rubinstein estava hospedado para lhe mostrar as suas músicas.

Rubinstein ganha uma consideração tal por Villa-Lobos que para o ajudar financeiramente chega a adquirir-lhe obras, sob o pretexto de haver terceiros interessados nelas.

Entretanto o prestigio do compositor vai aumentando, Paris torna-se um dos principais locais de actividade, em cujo conservatório chega a leccionar a par de Maurice Ravel, Manuel de Falla e Artur Rubinstein.

Os seus “Choros”, “Serestas” tornam-se famosos em todo o mundo. Tal como viriam a ser as suas Bachianas e Missa de São Sebastião. Torna-se maestro convidado em orquestras do mundo inteiro.

Contudo são as suas composições que acabam por o imortalizar. Homem simultaneamente difícil e simples era um bom vivant que alguns diziam ter sempre as mãos ocupadas: Numa um charuto, noutra um copo!

A sua morte aos 72 anos, faz hoje precisamente 50 anos, deixa todo o Brasil comovido e o mundo mais pobre, como na altura salientou o New York Times, que lhe dedicou o editorial.

No seu funeral milhares de pessoas estiveram presentes, enquanto nas escadarias do belíssimo Teatro Municipal um coro interpretava a Missa de São Sebastião.




50 anos passados, a sua obra perdura, sendo considerada de raiz profundamente brasileira é, pela sua riqueza, beleza e originalidade, de uma intemporalidade verdadeiramente universal.

Deixo aqui dois belos exemplos.

O primeiro trata-se do Choro nº 1, interpretado pelo extraordinário guitarrista Turibio Santos.



O segundo é, como não poderia deixar de ser a ária das Bachianas Brasileiras nº 5, na voz de uma das maiores cantoras líricas de todos os tempos, a também brasileira Bidu Sayão: