Ontem ao jantar, um dos temas de conversa foi o profissionalismo na vida artística!
Ora hoje, após regressar às minhas vivências blogosféricas, deparo com um magnifico trabalho, onde se fala precisamente do expoente máximo desse profissionalismo!
Desejo, assim, sugerir a todos os que habitualmente passam por este espaço que não deixem de visitar um dos meus blogs favoritos o TERTÚLIAS, pois encontrarão nele, como é habitual, um texto fantástico, neste caso, sobre uma verdadeira lenda do canto lírico (e do profissionalismo levado aos limites do impossível) que é Kathleen Ferrier
Há cerca de seis anos atrás a BBC, realizou um documentário homenagear essa verdadeira lenda do canto lírico e da vida britânica.
Um documentário interessante, recheado de depoimentos excelentes e baseado nas muitas cartas que a cantora foi escrevendo ao longo da sua vida!
Tinha contudo a infelicidade ter como voz que lia essas a cartas a da divertida e extraordinária comediante (Patricia Routledge), quando afinal a homenageada teve uma vida que foi tudo menos uma comédia!
Confesso-vos que esse facto fez com que eu me desconcentrasse completamente do documentário por não me conseguir distanciar do humor espantoso de “Keeping Up Appearances” que Routledge soube tão bem encarnar.
Vejo agora, no TERTÚLIAS, uma homenagem belíssima, comovente e condigna a Kathleen Ferrier.
E por isso, esqueça-se que existe esse documentário, pois neste trabalho encontra-se tudo, sobre esta extraordinária cantora, que viveu momentos de verdadeira excepção e que por isso mesmo é considerada como um verdadeiro símbolo do que de melhor existe no carácter britânico.
Como bem explicará o nosso anfitrião do TERTÚLIAS, Kathleen Ferrier foi um contralto extraordinário.
A sua voz, situada nesse registo normalmente pouco ductil, tinha contudo uma maleabilidade e um timbre que eram um verdadeiro vendaval de emoções.
As qualidades artísticas extraordinárias que pareciam elevar-se ainda mais, nos momentos mais difíceis da sua vida, tornaram-na uma referência incontornável, quer no mundo da Ópera, quer para o cidadão comum.
Os seus registos de canções tradicionais ficaram tão famosos, que um deles Blow the wind southerly se tornou “sagrado”, a ponto de ser ”intocável” para a maioria dos cantores britânicos.
Mas, como vos digo vão até ao TERTÚLIAS e irão ver um trabalho memorável.
Finalmente, deixo-vos como aperitivo, uma das árias que eu mais gosto pela Kathleen Ferrier . De Orfeu e Euridice de Gluck “ Che faro senza Euridice”, ”, que foi exactamente a sua última apresentação em público.
Levada directamente daquela récita para o Hospital, viveria apenas mais três semanas.
Poucos dias antes de falecer, uma da enfermeiras disse-lhe, meio a brincar, que ficaria muito feliz se ela cantasse esta ária e, para espanto de todos, ela cantou um pequeno trecho com a mesma força e sensibilidade que tinha normalmente em palco.
Era como se a sua voz esplendorosa estivesse separada do seu corpo, numa celebração à vida que a memória da sua arte eternamente representa.
Em Setembro de 2008 coloquei aqui um post sobre Piaf, tendo dito então que haveria ainda mais para dizer, quer sobre dela, quer também por causa dela.
Nessa altura, num dos comentários que me fizeram, o da sempre simpática Verdinha do “je vois la vie en vert”, fui alertado para um dueto, gravado no programa de televisão francês “DUETOS IMPOSSÍVEIS” onde se conjugavam as vozes de Piaf, com a da jovem, mas já consagrada Isabelle Boulay, em “Non Je Ne Regrette Rien”
Esta observação veio exactamente de encontro ao ângulo de abordagem, que desde essa altura tinha pensado para a minha segunda incursão sobre o tema Edith Piaf.
É que na verdade Edith Piaf elevou-se a um estatuto tal que, aquando do seu desaparecimento, ficou um vazio que todos lamentaram e que muitos tentaram (em vão) preencher.
Quem pegaria então na herança artística de Edith Piaf?
Bom, mas ao falarmos da "herança" de Piaf, é inevitável falar de um dos aspectos mais polémicos do final da sua vida, o do eventual apetite pela sua outra herança, a material.
Piaf, na juventude, tivera uma filha, Marcelle, que faleceu com meningite aos dois anos de idade. Isto significaria portanto que o seu segundo marido, aparecido numa altura em que já era óbvia a doença fatal de Piaf, se tornaria o herdeiro legítimo de todos seus bens.
Falo de Theo Sarapo, cujo verdadeiro nome era Theophanis Lamboukas
Theophanis Lamboukas
Um ano antes da sua morte Edith conhecera e casara com Theo, um jovem de origem grega, com menos 20 anos que ela. E o mínimo que se disse na altura é que se tratava de um casal “inesperado”.
Para a maioria do público, este casamento era visto sobretudo como um “golpe do baú” dado por um jovem a uma senhora famosa, com idade para ser sua mãe. Uma mulher doente e carente a quem a vida e a saúde tinham envelhecido acentuadamente.
Para os amigos da cantora a coisa ainda parecia mais séria, pois estavam perfeitamente convencidos que aquele casamento não tinha qualquer sentido.
E isto porque Theophanis Lamboukas, que era um talentoso cabeleireiro parisiense, era não só muito mais jovem que ela, mas também por ser conhecida a sua homossexualidade.
É que, apesar de ser um homem discreto quanto à sua vida intima, Lamboukas tivera, durante algum tempo, um envolvimento intimo com o secretário da própria Edith Piaf, Claude Figus, que era claramente um homossexual assumido. E isso era sabido pela própria Piaf e por todo o seu círculo de amigos!
Piaf entre Theo e Claude Figus
Este casamento surpreendente, realizado de acordo com o rito ortodoxo grego, atraiu todas as atenções e todas as dúvidas, até mesmo as da própria Edith que, segundo confidenciou mais tarde a sua amiga e colaboradora Danielle Bonel, na própria manhã do casamento se questionava sobre se deveria levar o casamento adiante, já que temia que todos se fossem rir dela, achá-la uma velha patética, ao casar com um rapaz, tão jovem e tão inesperadamente diferente!
Piaf com Danielle Bonel, sua governanta e amiga por mais de 20 anos
Bonel ter-lhe-á dito que deveria seguir o seu coração e para não se importar com o que os outros pensassem dela. Isso bastou-lhe!
O casamento realizou-se no meio de uma imensa curiosidade pública e, pouco depois, todos os que a rodeavam viriam a perceber que aquele casamento foi o melhor que poderia ter acontecido a Piaf naquela fase da sua vida.
Face às criticas que ouvia sobre o seu estranho casamento, Piaf ía dizendo com humor: “Estão-me sempre a criticar por eu aparecer tantas vezes despenteada, pois bem, caso-me agora com um cabeleireiro e não quero saber de mais nada”
Theophanis Lamboukas, a quem ela passou a chamar de Theo Sarapo (Sarapo em termos fonéticos corresponde à expressão grega “Eu amo-te”), não terá sido o amor romântico da sua vida, mas foi para ela um grande amigo, que a amou verdadeiramente e nele ela sentiu o pai, o irmão e o filho, que gostaria de ter tido!
Theo, foi de facto, tudo o que ela precisava em termos de afecto, carinho e conforto no penoso último ano da sua vida.
Claro que à semelhança do que fez com Ives Montand e Moustaky com quem viveu e com Aznavour que foi seu motorista, ela quis transformar Theo num artista!
Ela reconheceu nele vocação quer para cantor, quer para actor, até porque ele próprio na adolescência tentara iniciar uma carreira de cantor concorrendo a vários concursos musicais da época!
Assim, Piaf fez com que o jovem tivesse aulas de canto e de representação, o que lhe valeu alguns pequenos papéis no cinema.
Para além disso, daí em diante levou-o consigo para cantar em dueto, em quase todos os seus espectáculos em que actuou.
Um dos seus compositores e amigos Michel Emer fez de propósito para esse efeito uma canção que se tornou um enorme sucesso: “A quoi ça sert l’amour.”
Foi um casamento curto, Piaf faleceria em Outubro de 1963, precisamente no dia em que completava um ano de matrimónio com Theo, devido a complicações sérias do seu cancro de fígado!
A herança material que Theo Sarapo recebeu acabou por ser 7 milhões de francos de dívidas!
Dívidas devidas essencialmente a quebras de contrato, que por razões de saúde Edith não pôde cumprir, e derivadas da manutenção de cuidados que nunca deixaram de lhe ser prestados, por uma equipa de colaboradores que nunca quis dispensar.
Sarapo tentou manter a questão da herança de dívidas em segredo, propondo-se pagá-las até ao último cêntimo. Contudo o segredo não se manteve por muito tempo, já que apenas dois meses após a morte de Piaf, mais precisamente na véspera de Natal de 1963, o tribunal mandou despejar Theo Sarapo da casa de ambos.
É apenas nessa altura que a opinião pública começa a olhar para Sarapo de forma diferente, percebendo, através do luto sentido e prolongado que ele manteve e do modo digno como ele lidava com as dificuldades e até com a crueldade que lhe era imposta pela situação, que aquele rapaz não era afinal o oportunista que a imprensa e o público tinham imaginado.
Veio-se a saber depois, que ele próprio tinha uma fortuna pessoal considerável, dado a sua família possuir uma cadeia de salões de beleza, bastante lucrativa e que portanto nunca precisou do dinheiro de Piaf para nada!
Passado algum tempo Theo volta a gravar, com uma voz mais perfeita do que a que apresentara ao lado de Piaf, não tendo contudo conseguido ir mais longe na sua carreira já que, em Agosto de 1970, morre num aparatoso acidente de automóvel, em que é projectado para a berma de uma estrada à saída da pequena cidade de Panazol, onde agoniza, até ser levado ao hospital, sendo aí dado como falecido. Tinha 34 anos!
Theo está sepultado no Pére Lachaise partilhando o mesmo túmulo com Piaf e a sua pequena filha Marcelle!
Obviamente, que se em vida a questão da herança de Piaf foi alvo de muita controvérsia devido ao seu casamento com Theo, depois da sua morte, tornou-se incontornável falar-se da sua herança artística, ou seja, sobre quem poderia dar continuidade à chamada “chanson realiste”!
Com o desaparecimento de Piaf, muitos sentiram a necessidade de preencher esse vazio.
Os meios intelectuais desejavam que surgisse alguém com o mesmo carisma, a mesma expressividade dramática de Piaf.
Surgia então um nome de uma jovem muito talentosa, que tal como Piaf fora amiga de Jean Cocteau (o escritor morreu no mesmo dia em que Piaf faleceu, exactamente ao ter conhecimento da morte da artista).
No entanto, essa jovem conhecida artisticamente por Gribouille (o seu nome verdadeiro era Marie-France Gaîté) , pela sua própria personalidade detestava ser comparada com quem quer fosse e muito menos viver à sombra de um mito da canção francesa. Infelizmente, também não viveu muito! Em 1968, com apenas 26 anos partiu vítima de uma mistura fatal de medicamentos e álcool!
Havia também a opinião dos compositores que haviam escrito para Piaf.
Margueritte Monot havia falecido pouco tempo antes de Piaf e Charles Dumont, que inicialmente não gostava de Piaf, tivera em tempos uma canção guardada na gaveta que, a dada altura, decidiu entregar a uma jovem chamada Rosalie Dubois.
Essa canção chamava-se “Non Je Ne Regrette Rien”. Contudo, Rosalie teve um grave acidente de automóvel, pouco antes de poder gravar a canção, e os amigos de Dumont e Piaf acabaram por convencê-los a encontrar-se e a canção acabou por ser entregue a Piaf, tornando-se Dumont um dos seus autores de referência.
Retirada provisoriamente dos palcos Rosalie haveria de regressar, ter alguns sucessos, mas o certo é que ninguém acabou por ver nela a desejada sucessora de Piaf, nem mesmo o próprio Charles Dumont, que entretanto acabou por fazer outras escolhas.
Mas o que pensava o público, que era afinal quem mais sentia a falta de Piaf!
Estava-se numa época em que os concursos para jovens talentos já eram moda e neles inevitavelmente apareciam sempre candidatas a novas Piaf.
Houve duas que sobressaíram, quer num concurso promovido pela editora Barclay (estranhamente inspirado nas apostas das corridas de cavalos), quer sobretudo num famoso concurso televisivo de 1965, o Tele Dimanche!
Uma, vinda do sul de França, que conhecia o reportório de Piaf de trás para a frente. Tinha uma voz espantosa, mas ficou em segundo lugar no concurso. Chamava-se e chama-se Mireille Mathieu e o agente artístico Johnny Stark , que assistiu a esse concurso, percebeu que ela poderia ser mais do que um remake de Piaf, podia ser ela mesma e ter um grande sucesso!
Fê-la gravar um disco e apesar dos críticos a considerarem uma cantora provinciana, ela conseguiu logo nesse seu primeiro trabalho, vender mais de um milhão de cópias e tornar-se mesmo um sucesso internacional.
A canção principal desse disco chamava-se Mon Credo:
Entretanto, se Mireille ficou em segundo lugar, em primeiro ficou uma outra jovem, também especialista, desde criança, em cantar as canções de Piaf e que nas tardes de domingo deixava impressionados com a sua bela voz os membros da Associação de Amigos de Edith Piaf, entretanto criada para homenagear a sua memória.
Georgette Lemaire, cujo timbre parecia uma reencarnação de Piaf era o nome dessa jovem, para quem Charles Dumont veio depois a compor.
Georgette não viria a ter projecção internacional, mas tinha uma rivalidade imensa com Mireille Mathieu e um enorme sucesso em França que lhe valeria, mais tarde, ser objecto de homenagens e reconhecimentos especiais por parte do Estado Francês, pelas mãos de Jack Lang e de François Miterrand.
Entretanto, no final dos anos 60 aparece uma outra jovem chamada Betty Mars, cujas semelhanças vocais com Piaf eram ainda mais impressionantes.
Em 1972 ela e Georgette apresentaram-se no concurso nacional francês para a escolha da canção para a Eurovisão. Dessa vez foi Georgette que foi preterida em favor de Betty. A canção chamava-se Come Comedie (clicar AQUI para ver o vídeo).
Devido à semelhança extraordinária da sua voz com a de Edith Piaf, Betty Mars é escolhida como a voz da jovem Piaf, para interpretar as canções nunca gravadas pela “Môme” no filme “Piaf” de Guy Cazaril (1974), dobrando a voz da actriz Brigitte Ariel.
Betty Mars tinha aspirações legitimas, já que tinha uma voz excelente e era uma mulher lindíssima! Acabou por nunca ser aceite como ela própria, aparecendo aos olhos do público e da crítica como uma Piaf fora de tempo.
Enquanto foi novidade encheu salas em França e mesmo em Las Vegas, depois acabou por lhe restar cantar em pequenos bares. O facto de ter uma voz idêntica à de Piaf, acabou por ser a origem do seu sucesso e do seu declínio. Tendo entrado em depressão, acabou, com pouco mais de 40 anos por saltar do janela do seu apartamento para a morte.
Para além de todas as gravações que editou, que infelizmente não foram muitas, encontra-se no youtube, o som inédito de uma actuação ao vivo desta cantora, que me parece ser ilustrativa das suas qualidades e das suas parecenças com Piaf.
Mas, para além das possíveis sucessoras, afinal nunca encontradas, a vida e a carreira de Piaf deram origem a profissionais que se dedicam quase exclusivamente a explorar o seu repertório. Como é o caso da francesa Raquel Bitton e da canadiana Claudette Dion (a irmã mais velha de Céline), ambas fazendo sucesso no outro lado do Atlântico, apesar de possuirem um talento pouco mais do que mediano.
Em toda a parte do mundo há sempre alguém que canta o repertório de Piaf. Desde as mais prestigiadas artistas a perfeitas desconhecidas.
Piaf deu origem também a vários filmes e a espectáculos magníficos, sendo para mim o melhor de todos o criado pela extraordinária Bibi Ferreira, que não procura em nenhum momento ser uma imitadora ou uma herdeira de Piaf.
Bibi, aliás, é tão magnifica como Piaf… Basta conhecê-la… E, se após este post imenso, ainda restar alguém com vontade de passar por aqui, um dia destes Bibi será a figura a tratar por este espaço! É inevitável!
Entretanto, em Portugal também há e houve lugar para se tentar ser Piaf.
Perdoe-me a excelente Wanda Stuart que agora vai desempenhando esse papel, mas eu não gostaria de deixar de referir que a RTP ganhou um prémio internacional em 1993/1994 no Festival de Montreux, com um concerto de uma cantora portuguesa chamada Ariane, totalmente dedicado a Piaf.
Trata-se de uma cantora com mais de 30 anos de carreira e a quem não foram dadas todas as oportunidades que merecia.
Recentemente gravou um CD intitulado Libertad, onde apresenta dois temas de Piaf. Apesar de em vários momentos o sotaque a trair um pouco, tem uma voz que merece atenção:
FINALMENTE, julgo que faz sentido perguntar o pensaria Edith Piaf de tudo isto?
Ela também tinha as suas preferências musicais e talvez seja nessas preferências que se encontra a resposta óbvia para saber quem lhe sucedeu como simbolo da música francesa!
Sucedeu, não no lugar que Piaf deixou vazio para sempre, mas no prestigio e na qualidade que asseguraram a continuidade do interesse da canção francesa através do mundo!
Conta a sua amiga Danielle Bonel, que a acompanhou nas últimas semanas de vida, no seu retiro da Riviera, que Piaf já bastante doente, ouvia repetidamente os mesmos discos, todos eles do mesmo artista! Tinha-os todos, aliás! Emocionava-se a ouvi-lo e simultaneamente sentia-se mais confortada!
É com uma canção desse artista, que penso ter elevado a canção francesa ao mesmo patamar em que Piaf a deixou, que hoje termino! Chamava-se ele Jacques Romain Georges Brel!
A foto acima mostra uma senhora de 70 anos que reside num modesto apartamento nos subúrbios de Londres, agarradinha ao seu peluche de estimação e certamente a muitas das suas recordações.
Vive de uma magra pensão e do auxílio de alguns dos poucos amigos que a vida lhe deixou.
A situação nada teria de especial, se não fosse dar-se o caso desta senhora ter sido nos anos 60 uma das cantoras mais famosas do Reino Unido, a mais bem paga de todas elas, sendo, para além do mais, considerada ainda uma das mulheres mais belas daquela década.
Lembro-me dela e da impressão que a sua beleza me causou quando a vi pela primeira vez na televisão em 1965!
Descoberta na sua pequena cidade natal de Ilford, aos 16 de idade pelo maestro americano radicado em Londres, Bert Ambrose, que 20 anos antes já havia descoberto Vera Lynn, a jovem Kathy teve em Ambrose, desde essa altura, um mentor e um tutor. E foi ele, 40 anos mais velho que ela que, a partir desse momento, dirigiu a sua carreira e até mesmo a sua vida!
Kathy Kirby tinha de facto uma voz e uma presença notáveis, sendo reconhecida por todas as suas colegas da altura, Sandie Shaw, Lulu, Cila Black e Dusty Springfield, como a melhor de todas.
Bert Ambrose não só lhe escolhia o repertório, como o penteado e as roupas. Embora Kathy fosse extraordinariamente talentosa, é de reconhecer que foi Ambrose que construiu de forma muito inteligente o seu sucesso!
Nalguns aspectos foi mesmo extraordinariamente bem sucedido. Por exemplo ao moldar a figura da jovem cantora à figura de mulher que mais admirava: Marylin Monroe!
E de facto não era difícil fazê-lo, as parecenças eram notáveis, excepto no facto de Kathy ter uma capacidade vocal que Marylin não possuia!
No entanto, se a voz de Kathy era excepcional o já sexagenário, Ambrose tinha alguma dificuldade em reconhecer a valia das novas tendências musicais que despontavam, encaminhando por isso o repertório de Kathy para um tipo de música, que ele próprio tocava com a sua orquestra e que era em grande parte constituída pelos standards americanos de Rodgers, Hammerstein, Berlin, Gershwin e Arlen entre outros! Mesmo assim Kathy haveria de ficar conhecida pela “Golden Girl” da POP!
Começando por relacionar-se com ela como um pai trata uma filha, protegendo-a e encaminhando-a, Ambrose depressa se tornou num apaixonado ciumento que lhe limitava as saídas de casa, não a deixando sequer ficar na posse de qualquer quantia em dinheiro.
Com cachets semanais de mais de 40.000 libras, Kathy Kirby e Bert Ambrose estavam instalados num luxuoso apartamento de Mayfair, a zona mais exclusiva de Londres, decorado com o maior requinte, ficando Kathy rodeada de empregados que lhe satisfaziam todos os pedidos, pelo que ela não precisava de se preocupar com dinheiro.
E ela, de facto, não se preocupava, tinha obtido tudo o que desejava, fazia o que mais gostava na vida, que era cantar, e confiava cegamente em Ambrose o que viria depois a revelar-se como a sua maior desgraça!
Ambrose era infelizmente viciado em jogo, tendo nesse vício desbaratado os milhões e milhões de libras que Kathy ganhou, esgotando não só toda a sua fortuna, mas também contraíndo dívidas enormes, como seu procurador.
Ambrose, ao morrer repentinamente em 1971, deixou Kathy desorientada profissionalmente e perante uma realidade terrível e desconhecida, ao dar-se conta pela primeira vez de que estava na miséria.
Este caso, tornou-se de imediato, num foco de atenção para os “média” britânicos, já nessa altura ávidos de escândalos!
As televisões chegaram ao ponto de entrar no seu apartamento, enquanto os funcionários do tribunal retiravam os móveis de casa de Kathy e filmá-la sentada no chão da sua casa vazia, chorando voltada para a parede!
Sem ter dinheiro, nem para onde ir, submersa em sentimentos de desgosto e vergonha profundos, tentou instalar-se anonimamente num pequeno hotel. Contudo, a gerência, ao fim de dois dias, dado que era pública a situação financeira de Kathy, pediu-lhe uma caução monetária para assegurar a sua permanência. Desprovida de meios, Kathy foi levada pela polícia e presente a um juiz, que perante o seu evidente estado de descontrolo emocional a mandou internar num hospital psiquiátrico!
A jovem cantora que pouco tempo antes tinha sido a principal convidada da Rainha na Royal Variety Performance , não soube mais do que se isolar de tudo e de todos com pânico pela humilhação pública que a situação lhe provocava, de tal forma que acabou mesmo por ser mais uma sem-abrigo nas ruas de Londres, sendo vista várias noites a dormir encolhida sob o abrigo da porta de uma loja dos arredores da cidade!
Nos meses que se seguiram, Kathy já com o apoio de dois ou três amigos, conseguiu descansar fora das luzes dos holofotes mediáticos, por forma a poder recompor-se e seguir a sua vida!
No entanto, quando novas propostas lhe foram feitas para prosseguir a sua carreira, verificou-se então que não estava em condições de continuar.
A utilização de medicamentos para a depressão e o seu uso pouco controlado não lhe davam a lucidez e a capacidade necessárias para seguir a disciplina dos ensaios, tanto para gravações, como para a apresentação em espectáculos.
Anos mais tarde, a meio da década de 70, ainda não totalmente recomposta, voltaria a actuar, embora esporadicamente em pequenos bares e num obscuro programa televisivo, onde demonstrou manter a sua excelente voz, havendo registo de actuações notáveis com canções que nunca viria a gravar, como My way, Maybe this time ou New York, New York.
Contudo, os tempos eram outros, ela já não era mais a jovem Marylin britânica e o que lhe era pedido era sobretudo a aparição gratuita em galas de beneficência.
Retirou-se definitivamente em 1983 e refugiou-se no seu pequeno apartamento em Kensington de onde raramente sai.
Entretanto, a sua presença na música e a sua vida dramática não foram esquecidos por muitos que a admiraram nos anos 60. Em 2006 foi editado um livro sobre a sua vida e foi recentemente publicado um DVD onde ela dá uma pequena entrevista e são apresentados depoimentos de vários colegas como Marc Almond e Sandie Shaw!
Igualmente encontra-se em preparação um Musical sobre a sua história, que se prevê estrear brevemente no West End, com o nome de “Secret Love”, exactamente o nome da canção que foi o seu primeiro grande sucesso!
Questionada sobre se contava com o apoio da sua família, ligada actualmente a poderosos proprietários da comunicação social e a figuras importantes do Partido Conservador, Kathy confidenciou que de vez em quando recebia um telefonema e presentes simpáticos e que, pela época do Natal, lhe enviavam postais que, contudo, nunca traziam o endereço do remetente!
Lamenta o afastamento da família, que nunca mais a quis ver e, sobretudo, o facto de nem sequer lhe terem comunicado o falecimento da sua mãe… não fosse ela querer aparecer no funeral!
Escrevo hoje sobre Kathy Kirby porque foi uma cantora que nunca esqueci e cuja sorte me causou uma impressão muito profunda!
Tinha de facto uma presença em palco excepcional, e recordo que no Festival da Eurovisão de 1965 era dada como favorita, como vencedora antecipada…. No entanto acabou por ficar em segundo lugar, para grande pena minha, que nunca achei grande graça à canção vencedora Poupée de Cire Poupée de Son da France Gall!
Nesse ano Kathy fora escolhida pela BBC para ser a interprete única de um concurso de canções chamado “A Song for Europe”. Canções que foram submetidas a votação popular para a escolha da canção que o Reino Unido levaria ao Festival Eurovisivo .
O disco que saíu nessa altura rodou centenas de vezes no meu velho gira-discos!
Kathy que, curiosamente para mim, não foi muito divulgada em Portugal era indubitavelmente uma referência importante na época para a música ligeira e, talvez por isso mesmo, as duas cantoras portuguesas que nos anos 60 rivalizavam na atenção do público português, Madalena e Simone, não quiseram deixar de gravar versões das suas canções. Curiosamente ambas do concurso “A Song For Europe”.
Veremos assim a versão original de I Belong, canção que Kathy levou à Eurovisão seguida da respectiva versão portuguesa por Madalena Iglésias.
Nos dois vídeos seguintes teremos depois a versão original da canção My only love apresentada igualmente no concurso britânico, seguida da respectiva versão portuguesa por Simone de Oliveira.
Na entrevista que consta do DVD que agora saíu Kathy parece conformada com a vida e confortada sobretudo com as boas memórias que possui. As más já há muito que a deixaram de a atormentar... Ainda bem!
Gary Barlow, Manic Street Preachers, Pet Shop Boys, KT Tunstall and Rufus Wainwright são alguns dos nomes que participaram num projecto musical comum, que foi editado à poucos meses.
Trata-se de um disco, com canções criadas por jovens músicos para uma cantora que já não gravava em estúdio há 20 anos!
E já era tempo de voltar!
Tem 73 anos, uma longevidade vocal invulgar e é verdadeiramente uma lenda viva da música de expressão inglesa, tendo uma carreira de permanente sucesso há já mais de 55 anos.
O CD aí está!
Ao ouvi-lo o que mais me impressiona não é propriamente a qualidade das canções, que até são interessantes sem serem excepcionais, mas sim a manutenção de uma qualidade vocal que Dame Shirley Bassey mantém com 73 anos de idade.
Este seu novo disco foi lançado em Novembro passado, e nesse mesmo mês, num espectáculo realizado no Royal Albert Hall as novas gerações de músicos e de público revelaram que o impacto que esta cantora provoca é ainda verdadeiramente excepcional, seja com este novo trabalho, seja com os êxitos do passado (para os quais, como verão, os contributos de novas formas de expressão musical, são completamente desnecessários, ou até mesmo descabidos) .
Cresci a ouvir esta voz, pois tenho praticamente a idade da carreira de DSB e, hoje em dia, com as potencialidades que o youtube nos oferece resolvi, para encerrar este curto post, encontrar uma sua interpretação que pudesse traduzir toda a dimensão das suas qualidades vocais e interpretativas
Foi muito difícil a escolha, e entre centenas de hipóteses possíveis, resolvi escolher propositadamente uma das suas actuações mais recentes, realizada à apenas 2 anos atrás, onde esta excepcional cantora, na altura com 71 anos de idade, demonstra mais uma vez que é um verdadeiro fenómeno absolutamente inimitável!
Morreu ontem um dos meus cantores favoritos! Tinha quase oitenta anos!
Foi um cantor políticamente empenhado, mas também um autor/compositor de belíssimas e inesquecíveis canções de amor, como esta com um poema de Louis Aragon !
O seu empenhamento político ligado ao ideário comunista foi sempre lúcido embora se perceba a sua origem por razões de pura afectividade.
Vivendo a sua família perto de Versalhes, o seu pai, de origem judia, foi deportado pelos ocupantes alemães para Auchwitz, e Jean que conseguiu escapar devido à ajuda da resistência comunista, ficou escondido e à sua guarda desde os 11 anos até ao final da Guerra!
O seu apoio ao Partido Comunista Francês, do qual nunca foi militante, era empenhado mas liberto de amarras, sendo muitas vezes crítico quer daquela organização política francesa, quer das acções sovieticas.
Outra das suas mais belas canções "Camarade" constitui uma crítica notória à invasão da República Checoslovaca em 1968, pelas tropas do Pacto de Varsóvia.
Após uma longa doença oncológica, Jean Ferrat descansa agora em Paz!
Infelizmente, nas últimas semanas nem o meu próprio blog tenho tido disponibilidade de visitar, até que me dei conta hoje de que já passava um mês sem ter acrescentado qualquer contribuição para este espaço.
Não irei falar sobre música, ao contrário do que é habitual nos últimos tempos! O tema hoje é bem mais desagradável!
Hoje, o que venho abordar, prende-se com a actualidade portuguesa que foi marcada esta semana pelo suicidio de uma criança de 12 anos vítima de "bullying" numa escola do norte de Portugal.
Como todos nós, também frequentei ambientes estudantis e a violência escolar não é nada de novo, contudo o grau de agressividade que actualmente existe é francamente assustador.
Há algo de muito errado na nossa organização social para que possam acontecer casos como os que vêm sendo descritos na nossa comunicação social.
O tema da educação de jovens tem sido matéria que ao longo da minha vida sempre constituiu matéria de reflexão e debate com os meus amigos, pois todos sabemos que nem os bébés trazem livro de instruções, nem para se ser pai é necessário um curso, tal como é exigido, por exemplo, para quem conduz um automóvel.
A banalização da violência na televisão e nos jogos para adolescentes não é, infelizmente objecto da devida atenção pelos pais.
A educação contra a descriminação racial, social, religiosa ou sexual está completamente ausente da maior parte das famílias e os resultados estão à vista.
Para mim a escola é um local onde se obtém instrução, devendo a EDUCAÇÃO ser assumida necessariamente pela família, mas o facto triste é que pais e mães parecem querer que sejam os professores os verdadeiros encarregados de educação preocupando-se mais com o que fazem as princesas do Mónaco e o Cristiano Ronaldo, do que com os problemas das suas filhas e filhos.
Sou portanto, algo descrente relativamente ao que estas novas gerações irão fazer no futuro, mas aprendi também que não se pode perder a esperança e ceder ao negativismo!
Uma coisa é certa! A Escola tem que ser um local seguro e não um campo de tortura para as nossas crianças!
Espero pois que este caso, e outros que estão a ser relatados pela imprensa, façam levar as autoridades escolares a tomar medidas e os pais a reflectir na educação que dão aos seus filhos.
Lembro entretanto, a este propósito, algumas reflexões que fiz com um amigo, que me questionou primeiramente sobre as convicções da nossa geração sobre a juventude actual, para depois, com a ironia fina que o caracteriza, me demonstrar, que a minha perspectiva, por mais convencido que eu esteja da sua razoabilidade, nunca me levará a perceber completamente as gerações mais novas!
Essa incompreensão é algo que faz parte da história, que faz parte da natureza das coisas, que faz parte da vida!
Trancrevo pois 3 mails, dois que recebi e um que escrevi sobre esta matéria, onde a par das minhas convicções, que afinal pouco ou nada importam, ressalta que, apesar de todos os factos negativos que nos emocionam e deixam apreensivos, apesar das nossas críticas e temores fundados, poderemos afinal ter confiança no futuro! Teremos é que nós, os mais "antigos", saber cumprir melhor do que até aqui o nosso papel de educadores!
Aqui vão:
Caro D.
Depois da nossa conversa de há uns dias atrás acerca do estado da nossa juventude, permita-me que lhe envie uns comentários proferidos recentemente a propósito, durante um simpósio realizado em Inglaterra:
- "A nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, despreza a autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Os nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem aos pais e são simplesmente maus.
- “Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque esta juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível.”
-“O nosso mundo atingiu seu ponto crítico. Os filhos não ouvem mais os pais. O fim do mundo não pode estar muito longe.”
-“Esta juventude está estragada até ao fundo do coração. Os jovens são maus e preguiçosos. Eles nunca serão como a juventude de antigamente... A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura."
Parece que o problema é global!....
Melhores cumprimentos
Caro C.
Vi o seu mail de ontem, sobre as questões juvenis, que achei deveras interessante e relativamente ao qual vou agora maçá-lo com algumas elucubrações a esse propósito.
Penso que o texto nos oferece um retrato social, feito por alguém que, mais do que descontente com as perspectivas de futuro, parece estar pessoalmente zangado com os jovens... Zangou-se e disse verdades? Talvez sim! Possivelmente com algum exagero! Ou talvez não!!!!????
Pelos vistos, como muito bem refere, estamos perante um problema global e que, possivelmente, até assumirá noutras sociedades dimensões ainda mais graves do que aqui.
Bom, mas mais do que lamentar, vociferar ou invectivar a juventude há que saber precisamente o que fazer e o que não fazer.
Procurando as explicações para o que se passa, observo que vivemos numa sociedade que, desde os seus primórdios, se desenvolveu na procura do equilibrio entre a tendência natural do Homem em usar a lei do menor esforço e a necessidade de suprir as limitações que essa sua tendência lhe impunha.
Desde a descoberta do fogo e da roda que se vai caminhando para uma sociedade de bem estar.
E essa necessidade intrínseca do Homem de conseguir viver com o máximo conforto e com o mínimo de trabalho, revela bem a própria essência da natureza humana e o erro dos Enciclopedistas que, quer por generosidade, quer por cegueira, nos brindaram com a teoria do Bom Selvagem.
O Homem só se esforça por absoluta necessidade, e para isso usa sempre os meios que lhe parecem mais acessíveis para atingir os seus fins.
Só se abandona pois o estado natural de preguiça se se perceber a necessidade do trabalho e inculcar o interesse pela sua realização.
Só se é correcto e equilibrado no relacionamento com os outros quando se conhecem as regras de convivência e se distingue o bem do mal.
Nem o interesse pelo trabalho, nem o conhecimento das regras sociais, nem a distinção entre o bem e o mal surgem do nada no cérebro dos indivíduos. Têm que ser lá colocados por alguém. É esse o papel dos pais.
Estou certo que não é por conhecimento das teorias libertadoras do séc XVIII que muitos pais se abstêm de dar educação aos filhos e os tratam como parceiros numa espécie de co-gestão (quando não de auto-gestão) do seu desenvolvimento.
Penso, isso sim, que na maior parte dos casos não há sequer a consciência da dimensão da responsabilidade inerente a colocar-se um ser humano no mundo.
Quando a cultura dominante era a de que, ter filhos significava manter a continuidade de um determinado percurso familiar, a falta de consciência racional sobre regras de educação era suprida por um empenhamento forte na manutenção de valores tradicionais.
Os pais esforçavam-se por transmitir aos filhos o modelo que conheciam e que queriam que fosse continuado.
Quando a partir dos anos 70 a família deixa de ser o fio condutor da vida de muitos jovens, quando pai e mãe passam de companheiros a competidores e quando a psicanálise se tornou moda, repescaram-se os conceitos de Freud que considerava serem os pais narcisistas por quererem que o seu bebé se viesse a tornar naquilo que eles não tinham conseguido! Obteve-se então na maior parte das teorizações sobre a educação a justificativa perfeita para o "laissez-faire, laissez-passer" em que, pelos vistos, se tornou a posição dos pais perante os filhos. Cómodo e politicamente correcto!!
O avanço da Psicologia no estudo dos traumas provocados por stress e por "atitudes de "abuso" psicológico e de violência física dos adultos sobre os jovens veio contribuir ainda mais para a certificação científica do abandono dos anteriores métodos educacionais.
Em épocas mais recuadas, não seria o facto destes estudos serem divulgados na comunidade cientifica que influenciaria o comportamento dos indivíduos.
Contudo, com o florescimento do mercado das chamadas revistas femininas e do mercado editorial de publicações especializadas educação infantil, esses estudos tiveram uma divulgação planetária e influenciaram milhões de jovens pais e mães que acabaram por se convencer que os métodos antigos com os quais foram educados estavam errados.
Infelizmente, a falta de preparação para compreender a relatividade desses estudos, traduziu-se na pura substituição de tradições familiares, por novos "clichés" educativos, que simplesmente consideravam os métodos anteriores como traumatizantes e negativos.
As gerações de pais dos anos 70 para cá, aprenderam pois "o que não fazer"! "O que fazer" ficou assim entregue, em muitos casos, ao destino, ao dia-a-dia, à natureza. Ou seja à lei do menor esforço. O que hoje em dia se traduz por Televisão!!!
Bom, mas enquanto a maioria da classe média e o sistema educativo de massas adoptava alegremente esse comportamento "liberal", as classes altas continuavam a colocar os seus filhos em colégios tradicionais, que mantêm os mesmos métodos e perpetuam esquemas educativos de sempre.
Se esses novos conceitos são assim tão válidos, porque será então que as famílias pertencentes às elites sociais e financeiras mantêm para a educação dos seus filhos uma postura tradicional, diferenciada da restante sociedade?
Penso que a resposta a esta questão poderia elucidar muito boa gente!
Acho que todos os pais, e todos aqueles que o pretendem ser, deveriam ter presentes dois livros notáveis. Um, "O Senhor das Moscas" que demonstra bem que o ser humano, na fase inicial da vida, se não for educado, usa dos instintos mais primitivos ao confrontar-se com a vida em sociedade. Outro, "O Admirável Mundo Novo" que revela (ainda que de forma caricatural) que, tal como Pavlov condicionou cães, nós podemos condicionar seres humanos no sentido que desejarmos.
E a educação o que é, senão o condicionamento da vontade da criança, submetida a regras e valores?
E, de facto, por muito que seja politicamente incorrecto dizer, quando não se condiciona, não se educa.
A Liberdade é um valor muito elevado e é um conceito educativo prioritário. Mas isso mesmo implica o ensinar os limites da liberdade própria e o respeito pela liberdade alheia! Mas o facto é que uma massa maioritária de pais mal preparados passou a confundir Liberdade com o deixar os filhos fazer o que lhes apetece, não percebendo que o ÑÃO tem um poderoso valor educativo!
Disso resulta, portanto, uma total ausência de passagem de valores e de regras, que é o que está na base dos comportamentos referidos no texto que me enviou.
Por vezes, ao assistir a determinados comportamentos apetece-me dizer tudo o que o texto refere. No entanto, acho que não podemos perder a esperança e pensar até que talvez, apesar dos defeitos dos educadores de hoje em dia, o futuro não será assim tão mau como isso.
Sempre houve incompreensão entre gerações. Eu próprio quando era mais jovem achava que o discurso dos mais velhos sobre nós era fruto do desconhecimento ou da esclerose.
A História e a Literatura estão carregadas de exemplos de lutas geracionais. Quem sabe se o autor do texto e eu próprio não estaremos apenas a perpetuar esse combate!
O futuro dirá!
Este é um tema inesgotável e mais do que interessante. Estou-lhe muito grato por me ter enviado o texto e lamento estar a ocupar o seu precioso tempo com este longo desabafo.
Votos de um bom fim de semana,
Um abraço
Caríssimo D.
Agradeço-lhe o seu e-mail, bastante elucidativo.
Por lapso não referi uma coisa assaz curiosa relativamente aos 4 parágrafos citados durante o referido simpósio;
- o primeiro é de Sócrates (470-399 a.C.) - o segundo é de Hesíodo (720 a.C.) - o terceiro é de um sacerdote do ano 200 A.C. - o quarto estava escrito num vaso de argila descoberto nas ruínas da Babilónia e tem mais de 4000 anos de existência....
A juventude nunca será como a desejaríamos que fosse!....
Um jovem cantor de origem francesa chamado Tristan, lançou na passada segunda-feira, 1 de Fevereiro, um álbum de canções em inglês, com o título "On a human scale"!
A ele voltarei no final deste post.
Entretanto, devo dizer que uma das coisas que na música mais me desperta a curiosidade é a incursão de cantores por linguagens musicais que estão fora das suas origens e a diluição de fronteiras entre géneros musicais!
Vejamos um exemplo muito curioso: Vinicius de Moraes pegou na cantata de Bach - Jesus bleibet meine Freude (BWV 147) e fazendo uns versos belíssimos, transformou-a numa marchinha chamada “Rancho das Flores”.
Marchinha essa que foi um sucesso incrível no Brasil, no início dos anos 60, primeiro através do Grupo Coral dos Bombeiros Fulminenses e depois na voz do cantor Luiz Cláudio.
Podemos ouvi-la aqui numa gravação recente de um outro coro de bombeiros cariocas:
Ora, pouco tempo depois deste “atrevimento” que, segundo um crítico da época, assassinou o pobre Johan Sebastian Bach, mas pôs o multidões a cantar a poesia de Vinicius, estava o poeta em Paris com Baden Powel, quando o produtor e poeta Eddy Marnay, amigo de ambos e fascinado com a nova música brasileira, transformou os versos originais de Vinicius numa homenagem ao Rio e deu-os uma jovem cantora francesa em inicio de carreira, que gravou essa marchinha com o nome de “L’enfant aux cymbales”.
Estava-se em 1962 e a jovem cantora chamava-se Frida Boccara!
Frida estava no começo da sua carreira, a qual se tinha iniciado logo com um sucesso enorme através da canção “Cherbourg avait raison”, onde revelava uma maturidade vocal e interpretaviva incomum para alguém com apenas 20 anos de idade.
Para o já muito experimentado e célebre produtor Eddy Marney, Frida Boccara viria logo desde esse momento a tornar-se a sua cantora de eleição!
Frida Boccara, que as pessoas da minha geração conhecem sobretudo por ter ganho um Festival da Eurovisão em 1969, era francesa, nascida em Casablanca, oriunda de uma família de judeus italianos.
Começou muito jovem a estudar música e a preparar-se para uma carreira de soprano lírico, tendo completado os seus estudos musicais no conservatório de Paris!
Frida, no entanto, viria a optar pela chamada música ligeira.
Contudo, ao longo da sua carreira, sempre manifestou essa tendência, que eu tanto aprecio, de esbater as fronteiras entre os vários géneros musicais. E abordou-os quase todos, do clássico à chanson realliste, do jazz ao folclore, procurando sempre ter o maior cuidado nos arranjos orquestrais, o que se tornou uma marca distintiva da sua obra.
Tal como o maestro Fernando Lopes Graça dizia em jeito de brincadeira, para além de só haver dois tipos de música, a boa e a má, a música clássica é simplesmente a que tem “classe”.
Os gostos são subjectivos, mas para mim Frida Boccara sempre foi uma cantora que escolheu um repertório de “classe” e que o interpretou com “classe”!
E foi exactamente a qualidade que demonstrou desde o início do seu percurso artistico que levou a que, ainda muito jovem, fosse convidada pelo já consagrado George Brassens para os seus concertos, que em 1964 esgotaram durante meses a prestigiada sala Bobino de Paris e que acabariam por ficar célebres na história da música francesa.
Na altura duas jovens estrelas despontavam no panorama musical de Paris, Dalida e Frida Boccara!
Contudo, enquanto que Dalida era uma presença frequente nas rádios portuguesas, nessa época eu não ouvira ainda falar Frida, mas algum tempo depois, em 1968, tive a grata surpresa de conhecer esta belíssima voz exactamente com a canção que viria a ser a marca de referência de toda a sua carreira: “ Cent Mille Chansons”
Registe-se no entanto, como curiosidade, que "Cent Mille Chansons" não é uma criação sua, mas sim da fantástica cantora brasileira Maysa Matarazzo, que deu voz a esse tema na banda sonora original do filme “Le repôs du Guerrier” de 1962, realizado por Roger Vadim e com Robert Hossein e Brigitte Bardot como protagonistas.
Fosse pela formação clássica que adquiriu, fosse por simples gosto, Frida Boccara foi das primeiras cantoras ligeiras a cantar compositores clássicos: Vivaldi, Haendel, Rossini, Corelli, Telemann, Granados, Mozart, Bach, Brahms, Elgar, Smetana e Villalobos, fazem parte do seu repertório.
Tendo cantado em 7 linguas diferentes, a verdade é que a grande notoriedade internacional lhe veio sobretudo com a vitória no Festival da Eurovisão de 1969, onde terá cantado uma das mais belas canções de sempre da história daquele concurso musical.
Longamente aplaudida nesse Festival por um público completamente aturdido pela beleza surpreendente de “Un jour, un enfant” e pela interpretação extraordinária de Frida, a canção francesa viria necessariamente ofuscar a canção que tivesse a infelicidade de se lhe seguir, o que no caso foi precisamente a azarada canção portuguesa chamada “Desfolhada", apesar da força e da fantástica interpretação da cantora portuguesa Simone de Oliveira.
“Un jour, un enfant” seria entretanto editada em disco single com uma outra canção belíssima que, curiosamente, passou completamente despercebida nas rádios, mas que em minha casa rodou quase até à exaustão vynilica!!!!!
Chama-se essa canção “Belle du Luxembourg” e considero-a imperdível.
Frida Boccara editou dezenas de discos até ao início da década de 80, alguns deles em edições exclusivas para Espanha, Brasil e Estados Unidos, tendo-se retirado no inicio dessa década, numa altura em que os gostos musicais e a predominância do disco-sound não deixavam muito espaço para o tipo de música ela que gostava de fazer!
Por isso mesmo, apesar do prestígio e da qualidade que todos lhe reconheciam, passou a ser uma artista pouco interessante para as editoras discográficas.
Aliás, como ela referiu numa das últimas entrevistas que deu em 1989, o problema era não só de dinheiro como de mentalidades.
De dinheiro pois, quer nas televisões, quer nas produções de espectáculos, não se pretendia gastar com uma orquestra para um bom acompanhamento ao vivo. Ou se arranjava um pequeno conjunto ou um play-back!
De mentalidades, pois o que se pretendia era criar vedetas através de clips televisivos e não fazer crescer artistas que se apresentassem ao vivo com o devido acompanhamento.
Ela que era admiradora confessa de Michael Jackson, George Michael e de Barbra Streisand afirmava então não ter possibilidades de arranjar meios como os que eles possuiam para fazer espectáculos ao vivo e simultâneamente fazer clips.
Por isso, para ela continuar teria que deixar de ser a Frida Boccara que ela era. Seria preferivel então ficar por ali e aparecer apenas de vez em quando em ocasiões especiais em que todas as condições estivessem reunidas!
Frida, que viria a falecer em 1996 na sequência de uma infecção pulmonar, tornava todas as músicas em que tocava em verdadeiros clássicos, dando a conhecer algumas pérolas escondidas, como a canção "Doorgaan" do cantautor holandês Ramses Shaffy, um homem com uma vida tão rica, quanto atribulada, falecido no final do ano passado e infelizmente muito pouco conhecido fora dos Países Baixos
Frida Boccara já não está entre nós, mas deixou-nos a sua música belíssima que a mim me dá sempre um prazer imenso recordar. E deixou um filho, que também se dedica à música e que se chama Tristan! Tristan Boccara!
A história da sofredora Griselda incluída por Bocaccio no seu Decameron deu origem a duas Óperas no século XVIII, primeiramente de Scarlatti e depois de Vivaldi.
Vivaldi, que era um sacerdote era também compositor e foi exactamente através de Griselda para ganhou finalmente a respeitabilidade de que merecia junto das elites suas contemporâneas.
Eventualmente esse estatuto demorou pois ele terá começado por escrever peças infantis e, segundo os seus críticos, músicas demasiado populares.
De facto foi um criador musical extremamente prolífico, não constituindo a sua actividade sarcedotal qualquer óbice, já que conseguira dispensa de celebrar missa devido à sua aparente fragilidade física, derivada da asma.
Fragilidade essa que entretanto não o impediu de ter inúmeras amantes, uma das quais Anna Giro, um mezzo-soprano, para quem escreveu exactamente o papel de Griselda, e que era jocosamente conhecida pela l’Annina del Prete rosso (Vivaldi era ruivo).
Após a sua morte, na miséria, como aconteceu com muitos dos génios da música, aos 62 anos, foram precisos quase 150 anos para que, já no século XX, a sua obra viesse a ser de novo tocada e o seu talento devidamente reconhecido, quer como criador de música, quer devido ao seu papel para a definição da estrutura de concertos e sinfonias.
Se as suas Quatro Estações se tornaram há muitos anos um dos clássicos da música erudita, só mais recentemente a sua Griselda se tornou popular, particularmente devido a uma das suas árias: "Agitata da due venti"
Embora esta ária tenha vido a ser cantada por inúmeras cantoras, quer mezzos, quer sopranos, ao longo das últimas décadas, só após a mezzo-soprano Cecília Bartoli a ter incluído nos seus recitais é que ela se tornou verdadeiramente uma ária popular.
Mais uma vez um intérprete pode fazer toda a diferença. E neste caso fez decisivamente!
Claro que há quem critique bastante Bartoli, quer pela sua postura em palco que dizem ser mais própria de uma cantora rock do que de uma cantora lírica, quer pelo facto de ter dado uma visão demasiado pessoal a esta peça, tornando-a eventualmente demasiado “agitata”!
Vejamos então o que fez em 1986 grande Monserrat Caballé com esta ária, que é por si só um assombroso exercício de virtuosismo de coloratura , plena de “legatos” e “stacatos” dificilímos! Seguidamente, veremos Bartoli!
Hoje ao mostrar duas versões da mesma canção venho também trazer dois nomes de cantores/compositores que já nos deixaram, mas cuja obra perdura através dos tempos.
Marcel Mouloudji, nascido em Paris em 1922, tinha ascendência argelina e foi um homem multifacetado. Cantor, escritor e actor, foi combatente da resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial e um militante activo da esquerda francesa, quer apoiando as lutas laborais no seu país, quer envolvendo-se nas principais causas internacionais pela liberdade e pela democracia, como foi o caso da luta contra a ditadura chilena.
Contudo alguns dos seus actos valeram-lhe a hostilidade de boa parte do público e das autoridades francesas, sendo ostracizado e as suas canções censuradas por mais de uma década, quando no próprio dia em que as tropas francesas foram derrotadas em Dien Bien Phu ele interpretou num espectáculo público a canção anti-militarista de Boris Vian “Le Deserteur”.
Passado o Maio de 68 e tendo fundando a sua própria editora retomou na plenitude a sua actividade de cantor, sendo hoje considerado, muito justamente, como um dos nomes mais prestigiados da música francesa.
Mouloudji faleceu aos 70 anos em 1992 e é dele uma das canções de que eu mais gosto: “Un jour tu verras”, canção que ele criou em 1954.
Ao mesmo tempo que Mouloudji nos dava esta bela canção, do outro lado do Atlântico aquando de uma reunião social em casa da familia Matarazzo em São Paulo, um produtor musical, Roberto Corte Real, ao ouvir cantar a jovem Maysa ficou não só impressionado com a extraordinária qualidade da sua voz, mas também com o bom gosto das escolhas musicais que ela fazia, que iam muito para além da música brasileira e passavam pelo jazz, pela música hispânica e pela canção francesa.
Tendo-a convidado para gravar um disco, Maysa estreou-se apenas com músicas cantadas em português. No entanto num disco posterior, gravado em 1957, incluiu já canções em inglês e francês, sendo exactamente “Un jour tu verras” uma das músicas por ela escolhida.
Existem versões desta canção por vários cantores, de Juliette Greco a Dianne Reeves, de Nana Mouskouri a Michel Delpech, contudo ao ouvir Maysa a sensação com que eu fico é a de que Mouloudji encontrou nela a voz ideal, a voz que dá a versão “definitiva” desta canção (com o senão de duas ou três pequenas falhas na dicção da vogal “e”, sem o que eu juraria estar perante uma cantora de língua materna francesa).
Espero que gostem tanto desta bela canção como eu, que a considero uma das minhas “músicas de cabeceira”, numa das mais belas vozes de sempre, que infelizmente nos deixou cedo demais, em 1977, mas que para mim permanece, através do seu vasto e excelente repertório, bem viva.
No primeiro Natal, nas trincheiras das Ardenas, durante a Primeira Guerra Mundial, aconteceram alguns pequenos episódios de confraternização entre inimigos!
Esses casos, encontram-se descritos em diários de guerra de soldados dos dois lados da contenda. Um deles terá envolvido o cantor da Ópera de Berlin, Nikolaus Sprink, entretanto recrutado para o serviço militar no exército imperial alemão!
Na noite de Natal de 1914, nas trincheiras dos dois lados, os soldados procuravam mitigar o frio, as saudades da família e o medo, fazendo o seu próprio Natal, com canções tradicionais das suas terras.
A música tocada num lado ouvia-se do outro, e quando Nikolaus resolveu cantar para os seus camaradas de armas alemães, do outro lado surgiu o som dos militares escoceses que o acompanharam na melodia.
Nessa noite, à revelia dos seus comandantes e dos Quartéis Generais, os soldados de um lado e de outro saltaram as barricadas, vieram para a” terra de ninguém” e abraçaram-se!
Noventa anos depois, o cineasta francês Christian Carion, resolveu recordar esse episódio de esperança na Humanidade, fazendo um magnifico filme chamado apropriadamente Feliz Natal!
E é exactamente um Feliz e Santo Natal, o que eu aqui venho desejar a todas as amigas e amigos que passam por este pequeno espaço, recordando particularmente que na noite de Natal que se aproxima há muitos homens e mulheres que, longe de suas casas e das suas famílias, se encontram em teatros de Guerra e, para quem, a Noite Santa terá decerto um significado íntimo que nós, no conforto dos nossos lares, apenas poderemos tentar imaginar!
Deixo aqui imagens desse filme, referindo que as vozes dos actores foram magnificamente dobradas pelos cantores Rolando Villazon e Natalie Dessay!
Felizmente que houve a inteligência de se registar em vídeo e passar na televisão as master classes de Elisabeth Schwarzkopf onde, para além das técnicas de abordagem vocal a obras específicas, ela era muito exigente quanto à necessidade de uma boa dicção e de uma correcta interpretação do sentido das palavras.
Tive a oportunidade de ver a transmissão de todos esses vídeos há longos anos na RTP e era muito interessante ver o que cantores profissionais, já experimentados, suportavam para poder aproveitar os ensinamentos da mestra.
Ensinamentos que, se pensarmos bem, tanto servem para o canto lírico, como para o canto ligeiro, já que quem se presta a pisar um palco para cantar palavras tem que as pronunciar correctamente e lhes dar o devido sentido.
Curiosamente Marco Paulo, ao ser um dia entrevistado sobre o seu insucesso nos festivais RTP da canção, queixava-se de si mesmo, reconhecendo que uns versos em que dizia “Sou tão feliz” nunca poderiam ser cantados da forma dramática como ele o fez…
Neste caso convenhamos que a culpa nem era só dele, quer a música, quer a orquestração empurraram-no para esse erro, que ele na altura não percebeu existir.
Se em vez de “Sou tão feliz”, cantasse “Estou bem lixado” (desculpem a vulgaridade) acabaria por resultar bem melhor com aquela música e com aquele arranjo orquestral!
Infelizmente apesar de termos muitos cantores, não temos muitos intérpretes, e o canto precisa de ser feito com a inteligência de quem sabe o que diz, dizendo algo com interesse e com sentido!
Bom, mas hoje não vou falar de portugueses, vou falar de Barbra Streisand cuja preocupação pelo sentido dos textos ficou patente, logo desde o início da sua carreira.
Barbra começou muito jovem e com o pé esquerdo! Levada pela mãe a uma editora discográfica, aconselharam-na a dedicar-se a outra profissão pois, segundo eles, a jovem Barbra não tinha qualquer jeito para cantar.
No entanto este mau começo não a fez desistir do seu sonho e, ainda adolescente, concorreu a um concurso de canto para jovens amadores e tendo ficado em primeiro lugar, começou então a sua carreira com um contrato para actuações num bar gay de Manhattan.
Aí, a notícia da qualidade das suas interpretações depressa se espalhou tendo passado rapidamente para artista residente de um night-club famoso na época, o Bon Soir, onde a novata Streisand se arriscava em versões muito pessoais dos standards da música americana.
Apresento dois deles, nas suas versões originais e, depois, nas versões de Streisand.
Começo por “Cry me a river”, canção que foi escrita para Ella Fitzgerald, mas que acabou por ser criada por Julie London, que lhe deu aquela que é considerada por muitos como a primeira e definitiva versão deste tema!
Quem reparar bem na letra verificará que ela retrata uma zanga amorosa feita em discurso directo!
Now you say you're lonely You cried the long night through Well, you can cry me a river Cry me a river I cried a river over you
Now you say you're sorry For being so untrue Well, you can cry me a river Cry me a river I cried a river over you
You drove me, Nearly drove me out of my head While you never she'd a tear Remember?
I remember all that you said Told me love was too plebeian Told me you were through with me
Now you say you love me Well, just to prove you do Cry me a river Cry me a river I cried a river over you
Bom, temos aqui portanto uma mulher que se viu desprezada e até humilhada pelo namorado, uma mulher que sofreu muito por ele e que agora o vê voltar “esquecido” de tudo o que ele lhe dissera e fizera…
Face a este contexto, Barbra não adoptou a forma doce e suave de abordar a canção, que tornou famosa Julie London, cantou-a de um jeito sarcástico e até agressivo, a que quase só faltava a mão na anca e um tamanco a voar!
Consoante as audiências a sua interpretação era mais ou menos teatral! Para aqui escolhi a versão em que a actriz Barbra se revela completamente através da cantora Barbra. Trata-se de uma gravação ao vivo durante o concerto que deu no Central Park em 1967!
Ao contrário da versão de Julie London, esta não é decerto uma versão que se oiça calma e descontraidamente, como pano de fundo de uma conversa de amigos, em nossa casa! É preciso parar para a ouvir…
O mesmo acontece com a canção seguinte!
Ambas constantes do seu espectáculo no Bon Soir, foram gravadas no seu primeiro disco, que inicialmente teve uma edição modesta de apenas 500 exemplares, mas que depois teve que ser produzido em doses maciças tendo ido directamente para o primeiro lugar da lista de vendas, onde se manteve várias semanas!
É que na verdade, à semelhança do que acontecia com os clientes do Bon Soir, o disco surpreendia pela qualidade da interprete e muito particularmente pela sua versão de Happy Days Are Here Again, canção de 1929, que serviu para animar tropas, celebrar vitórias, de hino eleitoral de Roosevelt e depois do Partido Democrático.
So long sad times!, Go 'long bad times!, We are rid of you at last Howdy, gay times! Cloudy gray times, You are now a thing Of the past, cause:
Happy days are here again The skies above are clear again Let us sing a song of cheer again Happy days are here again
Altogether shout it now! There's no one who can doubt it now So let's tell the world about it now Happy days are here again
Your cares and troubles are gone; There'll be no more from now on Happy days are here again The skies above are clear again Let us sing a song of cheer again Happy days are here again
Ora, como se vê, esta é uma canção com um texto de apelo político ao optimismo, que era cantada em comícios e que portanto teria que entrar bem no ouvido do público. Só que a verdade é que a música era quase infantil, o que levava a que, quando a multidão a cantava todos se riam pois sentiam-se tolinhos a entoá-la!
Streisand resolveu então alterar ritmicamente a canção! O texto que poderia ser o de um discurso, então teria que ter uma cadência mais adequada à seriedade e o empolgamento de quem pretendia transmitir uma mensagem!
Para isso, sem utilizar um tom declamatório, deu-lhe uma cadência mais lenta, que em vez de passar sentimentos de alegria, procurava passar sentimentos de euforia! Euforia provocada quer pelo novo arranjo orquestral, quer pela sua própria interpretação.
O sucesso desta versão foi tal que se tornou obrigatória até hoje nos espectáculos de Streisand e sempre que é tocada na forma original nos comícios do Partido Democrático é apenas em versão orquestral, sem que ninguém a queira cantar ao ritmo apresentado antes de Barbra!
Vamos ver a sua interpretação desta canção, também no mesmo concerto de Central Park de 1967!
E já agora numa emissão do Judy Garland Show de 1963, em que a já mais do que consagrada Judy chama a iniciante Barbra para cantarem em dueto duas canções em simultâneo! E, como aliás fica evidente no resto desse programa, tudo foi feito por Judy de forma a destacar a cantora mais jovem, que ela pressentia poder ser a sua sucessora natural! É um momento de televisão magnifico para os apreciadores das duas cantoras!
Um cidadão, nascido em 1956, amante de cidades e de uma vivência de cidadania sã!
Adepto da Liberdade, minha e de todos os outros.
Adepto do respeito, para mim e para todos os outros!
Crente que a utopia vale a pena e que lutar por ela é ganhar tempo!