quarta-feira, julho 21, 2010

Fez anos em Março e eu esqueci-me!

Ontem, ao ler os comentários ao último post do blog Tertúlias, apareceram referências muito interessantes a uma das minhas cantoras favoritas, fazendo-me perceber que estava obviamente em falta com ela, pois deixara passar em claro uma efeméride muito especial da sua vida.

Assim, decidi falar já hoje dessa magnifica voz, que é considerada a última das grandes cantoras do verismo e decerto a que maior longevidade teve na sua carreira.

Falo-vos de Magda Olivero, que completou em 25 de Março passado o seu centésimo aniversário e cujo nome vi pela primeira vez nos jornais, aquando da sua estreia no Metropolitan de Nova Iorque em 1975.





Na verdade o interesse jornalístico de então centrava-se no facto desta cantora se apresentar naquela sala, com a Tosca, numa idade em que a maior parte das cantoras já estão retiradas, ou quando muito no ocaso da carreira. Magda tinha então 65 anos.

Fiquei naturalmente curioso!

A sua aparição no exigente MET parece que não foi fácil, apesar de Magda ser um nome mundialmente conhecido, foi precisa uma insistência enorme da então jovem vedeta da Ópera Joan Sutherland, para que a administração daquela sala aceitasse apresentar uma Flora Tosca de 65 anos.
Os círculos musicais de Nova Iorque mobilizaram-se então para ver o que poderia ser uma de duas coisas, ou fenómeno artístico ou um embaraçoso desastre! E, portanto, fosse como fosse, algo assim na principal sala da cidade seria imperdível.

Os jornais de então relataram que o público nova-iorquino acabou por ficar verdadeiramente estupefacto e rendido ao canto de Magda.

Existe actualmente no youtube um excerto do som dessa sua actuação no MET que comprova a qualidade da sua actuação e a consequente reacção do público!


Relatou na altura o crítico Harold C. Schonberg do New York Times:
“O público gritou e aplaudiu freneticamente, fazendo com que o Maestro Jan Behr mandasse parar a orquestra. Ela teve que se aproximar do centro do palco e durante 20 minutos as palmas e os “Brava” não cessaram. Foi uma das maiores ovações a que o Metropolitan assistiu em toda a sua história!

Cantoras como Olivero têm a capacidade de, apenas com uma expressão do seu rosto ou com um único olhar, fazer com que o espectador sentado no ponto mais longínquo da sala se aperceba de toda a densidade que a obra pretende transmitir.

Fez-se história naquela noite, em que apesar da idade Olivero deu-nos uma Tosca surpreendentemente doce, sensual e feminina. Vocalmente, foi ainda mais excepcional do que seria imaginável. Contida quando era preciso, dramática quando era necessário, a sua voz representa bem mais do que a sua capacidade como cantora, representa a suprema arte do canto. “

Lembro-me de ter lido na imprensa portuguesa um relato deste tipo sobre esta récita, não me recordando sinceramente qual a fonte donde provinha. Contudo, foi dos tais casos que me fez, a partir desse momento, querer acompanhar e saber mais sobre esta cantora.

Ao longo do tempo fui sabendo mais algumas coisas sobre o passado glorioso de Magda Olivero, comprando alguns discos e, sempre que possível, apanhar mais notícias sobre a sua manutenção em actividade! Actividade que dura praticamente até aos dias de hoje.

Embora retirada dos palcos profissionalmente aos 71 anos, continuou a ser solicitada para cantar em Igrejas perto da sua residência e em pequenos saraus particulares.

Dez anos depois de se retirar, aos 81 anos, era assim a sua Avé Maria de Gounoud:


Mais dez anos passados, aos 91 anos de idade, podemos voltar a vê-la aqui cantando como solista numa igreja de Milão, durante a missa que assinalou a passagem do 25º aniversário da morte de Maria Callas.




A carreira desta cantora excepcional iniciou-se em 1933, tendo sido considerada pelo compositor Francesco Cilea a melhor de todas as protagonistas da sua Adriana Lecouvreur, já que segundo todos os que a tiveram oportunidade de a ver ao vivo, tratava-se de uma cantora que para além de transmitir todas as notas da partitura e todos os sentimentos inscritos no libreto, conseguia conjugá-los de tal forma que a ficção posta no palco se transformava num vendaval de sensações para o espectador.

Ela é hoje, com os seus magníficos 100 anos, plenos de vigor e lucidez (o ano passado ainda deu uma pequena conferência e cantou uma pequena ária em público) o único elo vivo que liga aos compositores do inicio do século XX, já que trabalhou directamente com Mascagni, Franco Alfano e Riccardo Zandonai, para além de Cilea, é claro.

Interrompeu a carreira de 1940 a 1950, devido ao seu casamento, mas retomou-a de novo a pedido de Cilea, que já bastante doente desejava voltar a ver a sua Ópera com a sua cantora de eleição.

Cilea morreria infelizmente antes da estreia do espectáculo, mas de novo Olivero voltou a aos palcos, recomeçando a sua actividade com esse papel, em 1951.

Tendo tido uma carreira recheada de sucessos, viveu o seu auge numa época em que todas as atenções mediáticas se voltavam para Maria Callas e, esporadicamente, para a sua rivalidade daquela com Renata Tebaldi.

Foi, apesar disso, no mundo da Ópera, considerada uma verdadeira Diva, que tal como Callas era excelente quer como cantora, quer como actriz.

Devido à sua longa carreira, teve como nenhuma outra, a oportunidade de cantar com várias gerações de grandes cantores, de Gigli a Gobbi, de Del Monaco a Corelli, passando por Plácido Domingo, por exemplo…..

Do mesmo modo foi intérprete, nos palcos de todo o mundo, de muitas das mais disputadas obras do repertório operático: La bohème, La fanciulla del West, La traviata, La Wally, Madame Butterfly, Manon Lescaut, Mefistofele, e Turandot, foram algumas delas.

Afirmava ter um principio básico, que era o de não imitar ninguém e se errasse, corrigiria o erro por si, com o seu próprio estilo… com uma excepção... ao fazer a Traviata inspirava-se sempre em Greta Garbo e se o tenor que lhe calhava para o papel de Alfredo não correspondia exactamente ao perfil que desejava, bastava-lhe fantasiar com o actor Robert Taylor e a “química” ficava garantida.

Termino esta homenagem simples a esta grande cantora com um pequeno vídeo que preparei com uma ária famosa da Ópera Gianni Schicchi, que foi exactamente a primeira Ópera em que participou.

Espero que gostem tanto quanto eu!

sábado, julho 10, 2010

De três a dez euros

Nunca fui um admirador da chamada stand up comedy, confesso contudo que ainda antes que ela aparecesse com esse nome, eu divertia-me imenso ao ver, no início dos anos 60, os programas de televisão de Victor Borge.





Borge, natural de Copenhaga, onde nasceu em 1909, começou a aprender piano aos 3 anos de idade, aos 9 dava o seu primeiro concerto a solo e aos 10 actuava já como solista com a Orquestra Filarmónica de Copenhaga.

Foi um menino prodígio e depois um músico prodigiosamente inovador ao trazer para a música clássica o humor, bastando-lhe para isso guiar-se em experiências vividas.

Músicos que a meio da actuação caíam do seu assento, vira-pautas que se enganavam ou deixavam cair as folhas, abas do piano que se fechavam sobre as mãos do pianista, pautas colocadas ao contrário….


Do universo da música, chamada séria, Borge trouxe-nos todo um mundo de episódios reais que enchiam de humor os seus espectáculos.





As gerações seguintes viram-no decerto nos Marretas e na Rua Sézamo.





Victor Borge foi um virtuoso do piano, que tinha a autoridade moral e artística para olhar para a música a partir dos seus aspectos mais hilariantes dizendo, com alguma razão, que se tivéssemos a televisão sintonizada num concerto de música clássica e lhe retirássemos o som, os músicos iriam parecer absolutamente ridículos.


Tendo começado a fazer humor com a música, ainda antes dos Irmãos Marx, era um seu fervoroso admirador, levando pedaços exemplares dos seus filmes para os seus espectáculos:





Borge, dinamarquês de ascendência judaica, estava na Suécia em 1940 quando os Nazis invadiram a Dinamarca e não hesitou, em partir de imediato em direcção aos Estados Unidos, via Finlândia, tomando o último navio neutral autorizado a zarpar daquele país báltico!


Não sabendo uma única palavra de inglês e apenas com 20 dólares no bolso, o seu enorme talento fez com que rapidamente ganhasse notoriedade, vindo a tornar-se em muito pouco tempo uma das figuras mais queridas do espectáculo americano e de todo o mundo!





Anos mais tarde, ao referir-se à sua fuga, costumava dizer que naquele tempo apenas duas pessoas perceberam exactamente o que se estava a passar no Continente Europeu. Churchill que salvara a Europa e ele que se salvara a si mesmo!


Borge que viria a morrer com aos 91 anos nos Estados Unidos, manteve sempre uma relação muito afectuosa com a sua Dinamarca.

Aquando do seu octogésimo aniversário foi homenageado em Copenhaga com um concerto que ficou memorável pela sua espectularidade e por em diversos momentos fazer a orquestra desmanchar-se a rir!

Mais ainda, por ter feito com que a consagrada flautista Michala Petri que o acompanhou nas Czardas de Monti, perdesse o fôlego necessário para tocar, por ser incapaz igualmente de conter o riso.





Bom, mas o que terá tudo isto que ver com o título que dei a este post?


Tem que ver com o facto de Borge ter neste momento seguidores à sua altura, e refiro-me naturalmente à dupla Igudesman & Joo composta por dois músicos igualmente virtuosos:

Quanto ao violinista, o russo Aleksey Igudesman é, para além de um executante extraordinário, um reconhecido compositor, com obras que já constam dos repertórios de algumas das mais prestigiadas orquestras, quer de câmara, quer sinfónicas.

Quanto ao pianista, Richard Hyung-ki Joo, britânico de origem coreana, foi vencedor de uma das edições do prestigiado Concurso de Piano Stravinsky, tendo sido solista nas principais salas mundiais, tocando com os mais conhecidos e consagrados maestros.

Ora esta dupla actua hoje e amanhã em Portugal, mais propriamente no Festival Internacional de Música de Espinho, que de ano para ano, se vem tornando cada vez mais interessante.


E os bilhetes respectivos custam entre os 3 e os 10 euros!


Não sei se já estão todos vendidos, mas quem puder assistir ao espectáculo deste duo, decerto que testemunhará um momento musical verdadeiramente notável.


Vejam, por exemplo, este excerto da sua actuação com Gidon Kremer e a sua famosíssima Kremerata Báltica, num momento musical absolutamente incomum.





O espectáculo que hoje e amanhã será apresentado em Espinho reproduz o concerto gravado já em DVD com o título “A Little Nightmare Music”.


Dessa produção que vem sendo apresentada ao vivo por todo o mundo, junto algo que muito provavelmente se verá em Espinho, onde eu tenho imensa pena de não poder estar! Trata-se de Mozart, apresentado aqui em Roterdão, da mesma forma que o duo o executou durante os célebres concertos Promenade de 2008.





De três a a dez euros….

terça-feira, junho 22, 2010

Perfil

A foto que mostro a seguir é do passado mês de Abril.




E mostra o Presidente dos Estados Unidos no funeral da quase centenária activista dos direitos humanos Dorothy Height!

A seguinte também é do mês de Abril deste ano.



E mostra os Reis de Espanha assistindo ao serviço funebre do antigo presidente do Comité Olimpico Internacional Juan Antonio Samaranch.

A seguinte é um pouco mais antiga, é de 2008.



E mostra o Presidente francês Sarkozy à saída do funeral, do também nonagenário, cantor Henri Salvador!

Entretanto, transcrevo do site da TVI algo que vi ser transmitido por aquela estação de televisão:

«O que um Chefe de Estado deve fazer é diferente daquilo que deve ser feito pelos amigos ou deve ser feito pelos conhecidos. Devo dizer que nunca tive o privilégio na minha vida, se me recordo, de alguma vez conhecer ou encontrar José Saramago», declarou o Presidente da República.

Cavaco Silva referiu que na sua qualidade de chefe de Estado emitiu uma «uma nota oficial prestando homenagem à obra literária de José Saramago e ao seu contributo para a projecção da cultura portuguesa no Mundo», enviou uma coroa de flores e promulgou o decreto de declaração de dois dias de luto nacional.

«Hoje de manhã o meu chefe da Casa Civil e o meu chefe da Casa Militar apresentaram sentidas condolências aos familiares de José Saramago», acrescentou.

Interrogado sobre se os restos mortais do Nobel Português devem ir para o Panteão Nacional, disse tratar-se de uma matéria da competência da Assembleia da República.
Recordou ter sido o Parlamento que decidiu a recente trasladação para o Panteão dos restos mortais de Aquilino Ribeiro, o que aconteceu décadas depois da sua morte.

O Presidente da República justificou ainda a sua permanência de férias em S. Miguel, apesar da morte de Saramago, com a importância que para ele tem a palavra dada.
«Todos os portugueses sabem que desde quinta-feira à noite estou nos Açores, em S. Miguel, cumprindo uma promessa que fiz há muito tempo a toda a minha família, filhos e netos, de lhes mostrar as belezas desta região», declarou.





Sinceramente não estou admirado com a ausência física de Cavaco Silva das cerimónias fúnebres de José Saramago. Acho que é uma atitude que está verdadeiramente de acordo com o que já nos habituou!

Dá-se contudo o facto de Saramago ser um escritor laureado com o Prémio Nobel, prestigiado em todo o mundo e Cavaco Silva ser actualmente Presidente da República!

Ora, Cavaco Silva transmitiu-nos com o seu argumentário, uma noção de serviços mínimos protocolares a que se sente obrigado nestas circunstâncias e uma ideia de quais são as suas opções prioritárias.

Cavaco, de facto, não possui uma noção do que é ser Chefe de Estado idêntica à de Obama, Juan Carlos ou Sarkozy.

O Presidente Cavaco mantém-se igual ao que foi o Primeiro-Ministro Cavaco, infelizmente!

Apetece-me perguntar a Sua Excelência, qual será o nível de relevância que terá de possuir um cidadão português, para que o actual Chefe de Estado, perante um momento tão sagrado e definitivo como é o da morte, se digne comparecer pessoalmente para manifestar os seus respeitos?

Fica-me ainda a dúvida, face às palavras do Presidente, sobre se, eventualmente neste caso, o falecido fosse seu amigo, o seu comportamento teria sido o mesmo?

Tudo isto confirma, no entanto, o que já era conhecido sobre o perfil do Presidente Cavaco Silva!

E, por isso, não me parece que discutir esta questão, a poucos meses das eleições presidenciais, seja irrelevante.

A forma infeliz como tratou o caso das supostas “escutas” em Belém, a incoerência que revelou aquando da aprovação da Lei relativa ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, são apenas reflexos da sua fragilidade no cargo, denotando que se mantém um homem de horizontes muito limitados, confundindo uma postura de altivez e arrogância com uma postura de estadista.



Não consigo deixar de recordar alguns factos que ocorreram quando foi primeiro-ministro e que são reveladores das suas falhas básicas de percepção sobre a transversalidade da cultura na sociedade e na vida:

- Foi o seu Governo que entendeu o livro de Saramago "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" como um delito de opinião, tendo agido relativamente a ele, com a inconsciência despudorada de quem não tem a noção de que, em democracia, tal delito não existe. Foi precisamente esta atitude absurda e discriminatória que levou a que Saramago resolvesse fixar-se em Lanzarote!

- Foi nesse mesmo seu Governo, que impune e alegremente, o seu Secretário de Estado da Cultura, Pedro Santana Lopes, ao mesmo tempo que, por razões economicistas, extinguia a orquestra da RDP, afirmava gostar muito do concerto de violino de Chopin, obra que simplesmente não existe!

- Que o próprio Cavaco Silva, à época, para além dos frequentes erros de dicção que evidenciava, revelou não saber quantos Cantos têm os Lusíadas, a principal obra de referência da nossa Literatura e da gesta do povo português no feito mais glorioso da sua História!

Na verdade, só uma flagrante estreiteza cultural, aliada a uma presunção sem limites, permite a alguém dizer de si mesmo, sem corar: “Eu nunca me engano e raramente tenho dúvidas!”.

Num país civilizado, um político dissesse esta frase ou não seria considerado sério, ou não poderia ser levado a sério! Que amplitude de visão do mundo e da vida se pode esperar de alguém com limitações de pensamento tão graves como estas?

Lamento sinceramente que, em cinco anos de mandato, este Presidente não se tenha sabido colocar acima de diferenças políticas e ideológicas e dado ao trabalho de promover uma aproximação apaziguadora com um homem, que apesar de ser seu adversário político, se tornou, através do seu talento, no principal embaixador da cultura e da lingua portuguesa no Mundo.

Lamento mais ainda, que perante a morte e o que ela representa, os sentimentos mais primários de desprezo por um adversário político se tenham sobreposto ao que deveria ser a grandeza de alma que se espera de um Chefe de Estado.

Se queria estar ausente dos actos fúnebres de Saramago, ao menos que mantivesse um silêncio inteligente sobre este assunto!

Quando da esquerda e da direita se vai ouvindo o epíteto de mesquinho ou de inábil, relativamente a Cavaco Silva, eu acho que, mais do que isso, ele é simplesmente incapaz de perceber e de exercer com a nobreza e a elevação necessárias o cargo que ocupa!

Como ficou óbvio, eu não sou um apoiante de Cavaco Silva que, ao contrário do que a sua propaganda tem feito crer, desde sempre, não é nenhum "mago das Finanças", ele é tão só um dos muitos professores de Finanças Públicas que existem neste país e apenas mais um dos muitos medíocres Ministros das Finanças que tivemos em Portugal!

Cavaco teve a sorte de, em 1985, conseguir o poder na sequência da morte de Mota Pinto, já quando a crise financeira provocada por um Governo do seu Partido, fora resolvida pelo Governo do Bloco Central, e numa altura em que choveram milhões da CEE, que só viriam a servir para construir autoestradas, subsidiar o abandono da agricultura e o abate da frota pesqueira!

Em consequência de muitos milhões desperdiçados, geridos de forma descontrolada e incapaz, quando 10 anos depois, Cavaco Silva abandona o Governo, deixa a economia de rastos, centenas de empresas falidas, muitos de milhares de trabalhadores com salários em atraso e um défice de 5,8% do PIB!

No meu entendimento, nem as suas características pessoais, nem a sua folha de serviço como primeiro-ministro, nem as suas posições mais recentes, demonstram as qualidades e o perfil necessários para ser o Presidente de Todos os Portugueses.

Não aprecio o seu trabalho passado, nem me consigo ver representado por alguém com uma estatura tão mediocre, que mesmo no Palácio de Belém não consegue passar do nível da marquise da Rua do Possolo!

Não votei, nem votarei nunca nesta pessoa, apesar de, aparentemente, ter aligeirado o seu ar carrancudo e mudado o slogan do "Deixem-nos trabalhar" para o "Deixem-nos estar de Férias"!

Como nota final não posso deixar de lembrar que nos seus discursos mais inflamados e aplaudidos, o actual lider do PSD, a que pertence Cavaco Silva, insiste sempre em que os políticos deverão ser os primeiros a dar o exemplo!

Ora se assim é, agora que propõe alterações às Leis do Trabalho, decerto que não se irá esquecer de propor que, desde que esteja de férias, o trabalhador nunca as terá que alterar, a não ser por razões que tenham que ver com a sua família ou com os seus amigos....

quinta-feira, junho 17, 2010

Tertúlias

Ontem ao jantar, um dos temas de conversa foi o profissionalismo na vida artística!

Ora hoje, após regressar às minhas vivências blogosféricas, deparo com um magnifico trabalho, onde se fala precisamente do expoente máximo desse profissionalismo!

Desejo, assim, sugerir a todos os que habitualmente passam por este espaço que não deixem de visitar um dos meus blogs favoritos o TERTÚLIAS, pois encontrarão nele, como é habitual, um texto fantástico, neste caso, sobre uma verdadeira lenda do canto lírico (e do profissionalismo levado aos limites do impossível) que é Kathleen Ferrier



Há cerca de seis anos atrás a BBC, realizou um documentário homenagear essa verdadeira lenda do canto lírico e da vida britânica.

Um documentário interessante, recheado de depoimentos excelentes e baseado nas muitas cartas que a cantora foi escrevendo ao longo da sua vida!

Tinha contudo a infelicidade ter como voz que lia essas a cartas a da divertida e extraordinária comediante (Patricia Routledge), quando afinal a homenageada teve uma vida que foi tudo menos uma comédia!

Confesso-vos que esse facto fez com que eu me desconcentrasse completamente do documentário por não me conseguir distanciar do humor espantoso de “Keeping Up Appearances” que Routledge soube tão bem encarnar.



Vejo agora, no TERTÚLIAS, uma homenagem belíssima, comovente e condigna a Kathleen Ferrier.

E por isso, esqueça-se que existe esse documentário, pois neste trabalho encontra-se tudo, sobre esta extraordinária cantora, que viveu momentos de verdadeira excepção e que por isso mesmo é considerada como um verdadeiro símbolo do que de melhor existe no carácter britânico.

Como bem explicará o nosso anfitrião do TERTÚLIAS, Kathleen Ferrier foi um contralto extraordinário.




A sua voz, situada nesse registo normalmente pouco ductil, tinha contudo uma maleabilidade e um timbre que eram um verdadeiro vendaval de emoções.

As qualidades artísticas extraordinárias que pareciam elevar-se ainda mais, nos momentos mais difíceis da sua vida, tornaram-na uma referência incontornável, quer no mundo da Ópera, quer para o cidadão comum.

Os seus registos de canções tradicionais ficaram tão famosos, que um deles Blow the wind southerly se tornou “sagrado”, a ponto de ser ”intocável” para a maioria dos cantores britânicos.

Mas, como vos digo vão até ao TERTÚLIAS e irão ver um trabalho memorável.

Finalmente, deixo-vos como aperitivo, uma das árias que eu mais gosto pela Kathleen Ferrier . De Orfeu e Euridice de Gluck “ Che faro senza Euridice”, ”, que foi exactamente a sua última apresentação em público.



Levada directamente daquela récita para o Hospital, viveria apenas mais três semanas.

Poucos dias antes de falecer, uma da enfermeiras disse-lhe, meio a brincar, que ficaria muito feliz se ela cantasse esta ária e, para espanto de todos, ela cantou um pequeno trecho com a mesma força e sensibilidade que tinha normalmente em palco.

Era como se a sua voz esplendorosa estivesse separada do seu corpo, numa celebração à vida que a memória da sua arte eternamente representa.

terça-feira, maio 18, 2010

Heranças

Em Setembro de 2008 coloquei aqui um post sobre Piaf, tendo dito então que haveria ainda mais para dizer, quer sobre dela, quer também por causa dela.

Nessa altura, num dos comentários que me fizeram, o da sempre simpática Verdinha do “je vois la vie en vert”, fui alertado para um dueto, gravado no programa de televisão francês “DUETOS IMPOSSÍVEIS” onde se conjugavam as vozes de Piaf, com a da jovem, mas já consagrada Isabelle Boulay, em “Non Je Ne Regrette Rien”



Esta observação veio exactamente de encontro ao ângulo de abordagem, que desde essa altura tinha pensado para a minha segunda incursão sobre o tema Edith Piaf.

É que na verdade Edith Piaf elevou-se a um estatuto tal que, aquando do seu desaparecimento, ficou um vazio que todos lamentaram e que muitos tentaram (em vão) preencher.

Quem pegaria então na herança artística de Edith Piaf?

Bom, mas ao falarmos da "herança" de Piaf, é inevitável falar de um dos aspectos mais polémicos do final da sua vida, o do eventual apetite pela sua outra herança, a material.

Piaf, na juventude, tivera uma filha, Marcelle, que faleceu com meningite aos dois anos de idade. Isto significaria portanto que o seu segundo marido, aparecido numa altura em que já era óbvia a doença fatal de Piaf, se tornaria o herdeiro legítimo de todos seus bens.

Falo de Theo Sarapo, cujo verdadeiro nome era Theophanis Lamboukas





Theophanis Lamboukas



Um ano antes da sua morte Edith conhecera e casara com Theo, um jovem de origem grega, com menos 20 anos que ela. E o mínimo que se disse na altura é que se tratava de um casal “inesperado”.




Para a maioria do público, este casamento era visto sobretudo como um “golpe do baú” dado por um jovem a uma senhora famosa, com idade para ser sua mãe. Uma mulher doente e carente a quem a vida e a saúde tinham envelhecido acentuadamente.

Para os amigos da cantora a coisa ainda parecia mais séria, pois estavam perfeitamente convencidos que aquele casamento não tinha qualquer sentido.

E isto porque Theophanis Lamboukas, que era um talentoso cabeleireiro parisiense, era não só muito mais jovem que ela, mas também por ser conhecida a sua homossexualidade.

É que, apesar de ser um homem discreto quanto à sua vida intima, Lamboukas tivera, durante algum tempo, um envolvimento intimo com o secretário da própria Edith Piaf, Claude Figus, que era claramente um homossexual assumido. E isso era sabido pela própria Piaf e por todo o seu círculo de amigos!





Piaf entre Theo e Claude Figus

Este casamento surpreendente, realizado de acordo com o rito ortodoxo grego, atraiu todas as atenções e todas as dúvidas, até mesmo as da própria Edith que, segundo confidenciou mais tarde a sua amiga e colaboradora Danielle Bonel, na própria manhã do casamento se questionava sobre se deveria levar o casamento adiante, já que temia que todos se fossem rir dela, achá-la uma velha patética, ao casar com um rapaz, tão jovem e tão inesperadamente diferente!


Piaf com Danielle Bonel, sua governanta e amiga por mais de 20 anos


Bonel ter-lhe-á dito que deveria seguir o seu coração e para não se importar com o que os outros pensassem dela. Isso bastou-lhe!

O casamento realizou-se no meio de uma imensa curiosidade pública e, pouco depois, todos os que a rodeavam viriam a perceber que aquele casamento foi o melhor que poderia ter acontecido a Piaf naquela fase da sua vida.

Face às criticas que ouvia sobre o seu estranho casamento, Piaf ía dizendo com humor: “Estão-me sempre a criticar por eu aparecer tantas vezes despenteada, pois bem, caso-me agora com um cabeleireiro e não quero saber de mais nada”

Theophanis Lamboukas, a quem ela passou a chamar de Theo Sarapo (Sarapo em termos fonéticos corresponde à expressão grega “Eu amo-te”), não terá sido o amor romântico da sua vida, mas foi para ela um grande amigo, que a amou verdadeiramente e nele ela sentiu o pai, o irmão e o filho, que gostaria de ter tido!

Theo, foi de facto, tudo o que ela precisava em termos de afecto, carinho e conforto no penoso último ano da sua vida.

Claro que à semelhança do que fez com Ives Montand e Moustaky com quem viveu e com Aznavour que foi seu motorista, ela quis transformar Theo num artista!

Ela reconheceu nele vocação quer para cantor, quer para actor, até porque ele próprio na adolescência tentara iniciar uma carreira de cantor concorrendo a vários concursos musicais da época!

Assim, Piaf fez com que o jovem tivesse aulas de canto e de representação, o que lhe valeu alguns pequenos papéis no cinema.

Para além disso, daí em diante levou-o consigo para cantar em dueto, em quase todos os seus espectáculos em que actuou.

Um dos seus compositores e amigos Michel Emer fez de propósito para esse efeito uma canção que se tornou um enorme sucesso: “A quoi ça sert l’amour.”



Foi um casamento curto, Piaf faleceria em Outubro de 1963, precisamente no dia em que completava um ano de matrimónio com Theo, devido a complicações sérias do seu cancro de fígado!

A herança material que Theo Sarapo recebeu acabou por ser 7 milhões de francos de dívidas!

Dívidas devidas essencialmente a quebras de contrato, que por razões de saúde Edith não pôde cumprir, e derivadas da manutenção de cuidados que nunca deixaram de lhe ser prestados, por uma equipa de colaboradores que nunca quis dispensar.

Sarapo tentou manter a questão da herança de dívidas em segredo, propondo-se pagá-las até ao último cêntimo. Contudo o segredo não se manteve por muito tempo, já que apenas dois meses após a morte de Piaf, mais precisamente na véspera de Natal de 1963, o tribunal mandou despejar Theo Sarapo da casa de ambos.

É apenas nessa altura que a opinião pública começa a olhar para Sarapo de forma diferente, percebendo, através do luto sentido e prolongado que ele manteve e do modo digno como ele lidava com as dificuldades e até com a crueldade que lhe era imposta pela situação, que aquele rapaz não era afinal o oportunista que a imprensa e o público tinham imaginado.

Veio-se a saber depois, que ele próprio tinha uma fortuna pessoal considerável, dado a sua família possuir uma cadeia de salões de beleza, bastante lucrativa e que portanto nunca precisou do dinheiro de Piaf para nada!

Passado algum tempo Theo volta a gravar, com uma voz mais perfeita do que a que apresentara ao lado de Piaf, não tendo contudo conseguido ir mais longe na sua carreira já que, em Agosto de 1970, morre num aparatoso acidente de automóvel, em que é projectado para a berma de uma estrada à saída da pequena cidade de Panazol, onde agoniza, até ser levado ao hospital, sendo aí dado como falecido. Tinha 34 anos!

Theo está sepultado no Pére Lachaise partilhando o mesmo túmulo com Piaf e a sua pequena filha Marcelle!




Obviamente, que se em vida a questão da herança de Piaf foi alvo de muita controvérsia devido ao seu casamento com Theo, depois da sua morte, tornou-se incontornável falar-se da sua herança artística, ou seja, sobre quem poderia dar continuidade à chamada “chanson realiste”!

Com o desaparecimento de Piaf, muitos sentiram a necessidade de preencher esse vazio.

Os meios intelectuais desejavam que surgisse alguém com o mesmo carisma, a mesma expressividade dramática de Piaf.

Surgia então um nome de uma jovem muito talentosa, que tal como Piaf fora amiga de Jean Cocteau (o escritor morreu no mesmo dia em que Piaf faleceu, exactamente ao ter conhecimento da morte da artista).

No entanto, essa jovem conhecida artisticamente por Gribouille (o seu nome verdadeiro era Marie-France Gaîté) , pela sua própria personalidade detestava ser comparada com quem quer fosse e muito menos viver à sombra de um mito da canção francesa. Infelizmente, também não viveu muito! Em 1968, com apenas 26 anos partiu vítima de uma mistura fatal de medicamentos e álcool!



Havia também a opinião dos compositores que haviam escrito para Piaf.

Margueritte Monot havia falecido pouco tempo antes de Piaf e Charles Dumont, que inicialmente não gostava de Piaf, tivera em tempos uma canção guardada na gaveta que, a dada altura, decidiu entregar a uma jovem chamada Rosalie Dubois.

Essa canção chamava-se “Non Je Ne Regrette Rien”. Contudo, Rosalie teve um grave acidente de automóvel, pouco antes de poder gravar a canção, e os amigos de Dumont e Piaf acabaram por convencê-los a encontrar-se e a canção acabou por ser entregue a Piaf, tornando-se Dumont um dos seus autores de referência.

Retirada provisoriamente dos palcos Rosalie haveria de regressar, ter alguns sucessos, mas o certo é que ninguém acabou por ver nela a desejada sucessora de Piaf, nem mesmo o próprio Charles Dumont, que entretanto acabou por fazer outras escolhas.



Mas o que pensava o público, que era afinal quem mais sentia a falta de Piaf!

Estava-se numa época em que os concursos para jovens talentos já eram moda e neles inevitavelmente apareciam sempre candidatas a novas Piaf.

Houve duas que sobressaíram, quer num concurso promovido pela editora Barclay (estranhamente inspirado nas apostas das corridas de cavalos), quer sobretudo num famoso concurso televisivo de 1965, o Tele Dimanche!

Uma, vinda do sul de França, que conhecia o reportório de Piaf de trás para a frente. Tinha uma voz espantosa, mas ficou em segundo lugar no concurso. Chamava-se e chama-se Mireille Mathieu e o agente artístico Johnny Stark , que assistiu a esse concurso, percebeu que ela poderia ser mais do que um remake de Piaf, podia ser ela mesma e ter um grande sucesso!

Fê-la gravar um disco e apesar dos críticos a considerarem uma cantora provinciana, ela conseguiu logo nesse seu primeiro trabalho, vender mais de um milhão de cópias e tornar-se mesmo um sucesso internacional.

A canção principal desse disco chamava-se Mon Credo:



Entretanto, se Mireille ficou em segundo lugar, em primeiro ficou uma outra jovem, também especialista, desde criança, em cantar as canções de Piaf e que nas tardes de domingo deixava impressionados com a sua bela voz os membros da Associação de Amigos de Edith Piaf, entretanto criada para homenagear a sua memória.

Georgette Lemaire, cujo timbre parecia uma reencarnação de Piaf era o nome dessa jovem, para quem Charles Dumont veio depois a compor.

Georgette não viria a ter projecção internacional, mas tinha uma rivalidade imensa com Mireille Mathieu e um enorme sucesso em França que lhe valeria, mais tarde, ser objecto de homenagens e reconhecimentos especiais por parte do Estado Francês, pelas mãos de Jack Lang e de François Miterrand.



Entretanto, no final dos anos 60 aparece uma outra jovem chamada Betty Mars, cujas semelhanças vocais com Piaf eram ainda mais impressionantes.

Em 1972 ela e Georgette apresentaram-se no concurso nacional francês para a escolha da canção para a Eurovisão. Dessa vez foi Georgette que foi preterida em favor de Betty. A canção chamava-se Come Comedie (clicar AQUI para ver o vídeo).

Devido à semelhança extraordinária da sua voz com a de Edith Piaf, Betty Mars é escolhida como a voz da jovem Piaf, para interpretar as canções nunca gravadas pela “Môme” no filme “Piaf” de Guy Cazaril (1974), dobrando a voz da actriz Brigitte Ariel.

Betty Mars tinha aspirações legitimas, já que tinha uma voz excelente e era uma mulher lindíssima! Acabou por nunca ser aceite como ela própria, aparecendo aos olhos do público e da crítica como uma Piaf fora de tempo.

Enquanto foi novidade encheu salas em França e mesmo em Las Vegas, depois acabou por lhe restar cantar em pequenos bares. O facto de ter uma voz idêntica à de Piaf, acabou por ser a origem do seu sucesso e do seu declínio. Tendo entrado em depressão, acabou, com pouco mais de 40 anos por saltar do janela do seu apartamento para a morte.

Para além de todas as gravações que editou, que infelizmente não foram muitas, encontra-se no youtube, o som inédito de uma actuação ao vivo desta cantora, que me parece ser ilustrativa das suas qualidades e das suas parecenças com Piaf.



Mas, para além das possíveis sucessoras, afinal nunca encontradas, a vida e a carreira de Piaf deram origem a profissionais que se dedicam quase exclusivamente a explorar o seu repertório. Como é o caso da francesa Raquel Bitton e da canadiana Claudette Dion (a irmã mais velha de Céline), ambas fazendo sucesso no outro lado do Atlântico, apesar de possuirem um talento pouco mais do que mediano.

Em toda a parte do mundo há sempre alguém que canta o repertório de Piaf. Desde as mais prestigiadas artistas a perfeitas desconhecidas.

Piaf deu origem também a vários filmes e a espectáculos magníficos, sendo para mim o melhor de todos o criado pela extraordinária Bibi Ferreira, que não procura em nenhum momento ser uma imitadora ou uma herdeira de Piaf.

Bibi, aliás, é tão magnifica como Piaf… Basta conhecê-la… E, se após este post imenso, ainda restar alguém com vontade de passar por aqui, um dia destes Bibi será a figura a tratar por este espaço! É inevitável!

Entretanto, em Portugal também há e houve lugar para se tentar ser Piaf.

Perdoe-me a excelente Wanda Stuart que agora vai desempenhando esse papel, mas eu não gostaria de deixar de referir que a RTP ganhou um prémio internacional em 1993/1994 no Festival de Montreux, com um concerto de uma cantora portuguesa chamada Ariane, totalmente dedicado a Piaf.

Trata-se de uma cantora com mais de 30 anos de carreira e a quem não foram dadas todas as oportunidades que merecia.

Recentemente gravou um CD intitulado Libertad, onde apresenta dois temas de Piaf. Apesar de em vários momentos o sotaque a trair um pouco, tem uma voz que merece atenção:



FINALMENTE, julgo que faz sentido perguntar o pensaria Edith Piaf de tudo isto?

Ela também tinha as suas preferências musicais e talvez seja nessas preferências que se encontra a resposta óbvia para saber quem lhe sucedeu como simbolo da música francesa!

Sucedeu, não no lugar que Piaf deixou vazio para sempre, mas no prestigio e na qualidade que asseguraram a continuidade do interesse da canção francesa através do mundo!

Conta a sua amiga Danielle Bonel, que a acompanhou nas últimas semanas de vida, no seu retiro da Riviera, que Piaf já bastante doente, ouvia repetidamente os mesmos discos, todos eles do mesmo artista! Tinha-os todos, aliás! Emocionava-se a ouvi-lo e simultaneamente sentia-se mais confortada!

É com uma canção desse artista, que penso ter elevado a canção francesa ao mesmo patamar em que Piaf a deixou, que hoje termino! Chamava-se ele Jacques Romain Georges Brel!

sexta-feira, abril 30, 2010

Recordações




A foto acima mostra uma senhora de 70 anos que reside num modesto apartamento nos subúrbios de Londres, agarradinha ao seu peluche de estimação e certamente a muitas das suas recordações.

Vive de uma magra pensão e do auxílio de alguns dos poucos amigos que a vida lhe deixou.

A situação nada teria de especial, se não fosse dar-se o caso desta senhora ter sido nos anos 60 uma das cantoras mais famosas do Reino Unido, a mais bem paga de todas elas, sendo, para além do mais, considerada ainda uma das mulheres mais belas daquela década.

Lembro-me dela e da impressão que a sua beleza me causou quando a vi pela primeira vez na televisão em 1965!



Descoberta na sua pequena cidade natal de Ilford, aos 16 de idade pelo maestro americano radicado em Londres, Bert Ambrose, que 20 anos antes já havia descoberto Vera Lynn, a jovem Kathy teve em Ambrose, desde essa altura, um mentor e um tutor. E foi ele, 40 anos mais velho que ela que, a partir desse momento, dirigiu a sua carreira e até mesmo a sua vida!

Kathy Kirby tinha de facto uma voz e uma presença notáveis, sendo reconhecida por todas as suas colegas da altura, Sandie Shaw, Lulu, Cila Black e Dusty Springfield, como a melhor de todas.



Bert Ambrose não só lhe escolhia o repertório, como o penteado e as roupas. Embora Kathy fosse extraordinariamente talentosa, é de reconhecer que foi Ambrose que construiu de forma muito inteligente o seu sucesso!

Nalguns aspectos foi mesmo extraordinariamente bem sucedido. Por exemplo ao moldar a figura da jovem cantora à figura de mulher que mais admirava: Marylin Monroe!

E de facto não era difícil fazê-lo, as parecenças eram notáveis, excepto no facto de Kathy ter uma capacidade vocal que Marylin não possuia!




No entanto, se a voz de Kathy era excepcional o já sexagenário, Ambrose tinha alguma dificuldade em reconhecer a valia das novas tendências musicais que despontavam, encaminhando por isso o repertório de Kathy para um tipo de música, que ele próprio tocava com a sua orquestra e que era em grande parte constituída pelos standards americanos de Rodgers, Hammerstein, Berlin, Gershwin e Arlen entre outros! Mesmo assim Kathy haveria de ficar conhecida pela “Golden Girl” da POP!




Começando por relacionar-se com ela como um pai trata uma filha, protegendo-a e encaminhando-a, Ambrose depressa se tornou num apaixonado ciumento que lhe limitava as saídas de casa, não a deixando sequer ficar na posse de qualquer quantia em dinheiro.

Com cachets semanais de mais de 40.000 libras, Kathy Kirby e Bert Ambrose estavam instalados num luxuoso apartamento de Mayfair, a zona mais exclusiva de Londres, decorado com o maior requinte, ficando Kathy rodeada de empregados que lhe satisfaziam todos os pedidos, pelo que ela não precisava de se preocupar com dinheiro.



E ela, de facto, não se preocupava, tinha obtido tudo o que desejava, fazia o que mais gostava na vida, que era cantar, e confiava cegamente em Ambrose o que viria depois a revelar-se como a sua maior desgraça!



Ambrose era infelizmente viciado em jogo, tendo nesse vício desbaratado os milhões e milhões de libras que Kathy ganhou, esgotando não só toda a sua fortuna, mas também contraíndo dívidas enormes, como seu procurador.

Ambrose, ao morrer repentinamente em 1971, deixou Kathy desorientada profissionalmente e perante uma realidade terrível e desconhecida, ao dar-se conta pela primeira vez de que estava na miséria.

Este caso, tornou-se de imediato, num foco de atenção para os “média” britânicos, já nessa altura ávidos de escândalos!

As televisões chegaram ao ponto de entrar no seu apartamento, enquanto os funcionários do tribunal retiravam os móveis de casa de Kathy e filmá-la sentada no chão da sua casa vazia, chorando voltada para a parede!

Sem ter dinheiro, nem para onde ir, submersa em sentimentos de desgosto e vergonha profundos, tentou instalar-se anonimamente num pequeno hotel. Contudo, a gerência, ao fim de dois dias, dado que era pública a situação financeira de Kathy, pediu-lhe uma caução monetária para assegurar a sua permanência. Desprovida de meios, Kathy foi levada pela polícia e presente a um juiz, que perante o seu evidente estado de descontrolo emocional a mandou internar num hospital psiquiátrico!



A jovem cantora que pouco tempo antes tinha sido a principal convidada da Rainha na Royal Variety Performance , não soube mais do que se isolar de tudo e de todos com pânico pela humilhação pública que a situação lhe provocava, de tal forma que acabou mesmo por ser mais uma sem-abrigo nas ruas de Londres, sendo vista várias noites a dormir encolhida sob o abrigo da porta de uma loja dos arredores da cidade!

Nos meses que se seguiram, Kathy já com o apoio de dois ou três amigos, conseguiu descansar fora das luzes dos holofotes mediáticos, por forma a poder recompor-se e seguir a sua vida!

No entanto, quando novas propostas lhe foram feitas para prosseguir a sua carreira, verificou-se então que não estava em condições de continuar.

A utilização de medicamentos para a depressão e o seu uso pouco controlado não lhe davam a lucidez e a capacidade necessárias para seguir a disciplina dos ensaios, tanto para gravações, como para a apresentação em espectáculos.

Anos mais tarde, a meio da década de 70, ainda não totalmente recomposta, voltaria a actuar, embora esporadicamente em pequenos bares e num obscuro programa televisivo, onde demonstrou manter a sua excelente voz, havendo registo de actuações notáveis com canções que nunca viria a gravar, como My way, Maybe this time ou New York, New York.

Contudo, os tempos eram outros, ela já não era mais a jovem Marylin britânica e o que lhe era pedido era sobretudo a aparição gratuita em galas de beneficência.

Retirou-se definitivamente em 1983 e refugiou-se no seu pequeno apartamento em Kensington de onde raramente sai.

Entretanto, a sua presença na música e a sua vida dramática não foram esquecidos por muitos que a admiraram nos anos 60. Em 2006 foi editado um livro sobre a sua vida e foi recentemente publicado um DVD onde ela dá uma pequena entrevista e são apresentados depoimentos de vários colegas como Marc Almond e Sandie Shaw!

Igualmente encontra-se em preparação um Musical sobre a sua história, que se prevê estrear brevemente no West End, com o nome de “Secret Love”, exactamente o nome da canção que foi o seu primeiro grande sucesso!



Questionada sobre se contava com o apoio da sua família, ligada actualmente a poderosos proprietários da comunicação social e a figuras importantes do Partido Conservador, Kathy confidenciou que de vez em quando recebia um telefonema e presentes simpáticos e que, pela época do Natal, lhe enviavam postais que, contudo, nunca traziam o endereço do remetente!

Lamenta o afastamento da família, que nunca mais a quis ver e, sobretudo, o facto de nem sequer lhe terem comunicado o falecimento da sua mãe… não fosse ela querer aparecer no funeral!

Escrevo hoje sobre Kathy Kirby porque foi uma cantora que nunca esqueci e cuja sorte me causou uma impressão muito profunda!

Tinha de facto uma presença em palco excepcional, e recordo que no Festival da Eurovisão de 1965 era dada como favorita, como vencedora antecipada…. No entanto acabou por ficar em segundo lugar, para grande pena minha, que nunca achei grande graça à canção vencedora Poupée de Cire Poupée de Son da France Gall!

Nesse ano Kathy fora escolhida pela BBC para ser a interprete única de um concurso de canções chamado “A Song for Europe”. Canções que foram submetidas a votação popular para a escolha da canção que o Reino Unido levaria ao Festival Eurovisivo .

O disco que saíu nessa altura rodou centenas de vezes no meu velho gira-discos!



Kathy que, curiosamente para mim, não foi muito divulgada em Portugal era indubitavelmente uma referência importante na época para a música ligeira e, talvez por isso mesmo, as duas cantoras portuguesas que nos anos 60 rivalizavam na atenção do público português, Madalena e Simone, não quiseram deixar de gravar versões das suas canções. Curiosamente ambas do concurso “A Song For Europe”.

Veremos assim a versão original de I Belong, canção que Kathy levou à Eurovisão seguida da respectiva versão portuguesa por Madalena Iglésias.





Nos dois vídeos seguintes teremos depois a versão original da canção My only love apresentada igualmente no concurso britânico, seguida da respectiva versão portuguesa por Simone de Oliveira.






Na entrevista que consta do DVD que agora saíu Kathy parece conformada com a vida e confortada sobretudo com as boas memórias que possui. As más já há muito que a deixaram de a atormentar... Ainda bem!

sexta-feira, abril 09, 2010

Longevidade

Gary Barlow, Manic Street Preachers, Pet Shop Boys, KT Tunstall and Rufus Wainwright são alguns dos nomes que participaram num projecto musical comum, que foi editado à poucos meses.

Trata-se de um disco, com canções criadas por jovens músicos para uma cantora que já não gravava em estúdio há 20 anos!

E já era tempo de voltar!

Tem 73 anos, uma longevidade vocal invulgar e é verdadeiramente uma lenda viva da música de expressão inglesa, tendo uma carreira de permanente sucesso há já mais de 55 anos.

O CD aí está!




Ao ouvi-lo o que mais me impressiona não é propriamente a qualidade das canções, que até são interessantes sem serem excepcionais, mas sim a manutenção de uma qualidade vocal que Dame Shirley Bassey mantém com 73 anos de idade.

Este seu novo disco foi lançado em Novembro passado, e nesse mesmo mês, num espectáculo realizado no Royal Albert Hall as novas gerações de músicos e de público revelaram que o impacto que esta cantora provoca é ainda verdadeiramente excepcional, seja com este novo trabalho, seja com os êxitos do passado (para os quais, como verão, os contributos de novas formas de expressão musical, são completamente desnecessários, ou até mesmo descabidos) .



Cresci a ouvir esta voz, pois tenho praticamente a idade da carreira de DSB e, hoje em dia, com as potencialidades que o youtube nos oferece resolvi, para encerrar este curto post, encontrar uma sua interpretação que pudesse traduzir toda a dimensão das suas qualidades vocais e interpretativas

Foi muito difícil a escolha, e entre centenas de hipóteses possíveis, resolvi escolher propositadamente uma das suas actuações mais recentes, realizada à apenas 2 anos atrás, onde esta excepcional cantora, na altura com 71 anos de idade, demonstra mais uma vez que é um verdadeiro fenómeno absolutamente inimitável!


domingo, março 14, 2010

Jean Ferrat



Morreu ontem um dos meus cantores favoritos! Tinha quase oitenta anos!
Foi um cantor políticamente empenhado, mas também um autor/compositor de belíssimas e inesquecíveis canções de amor, como esta com um poema de Louis Aragon !




O seu empenhamento político ligado ao ideário comunista foi sempre lúcido embora se perceba a sua origem por razões de pura afectividade.
Vivendo a sua família perto de Versalhes, o seu pai, de origem judia, foi deportado pelos ocupantes alemães para Auchwitz, e Jean que conseguiu escapar devido à ajuda da resistência comunista, ficou escondido e à sua guarda desde os 11 anos até ao final da Guerra!
O seu apoio ao Partido Comunista Francês, do qual nunca foi militante, era empenhado mas liberto de amarras, sendo muitas vezes crítico quer daquela organização política francesa, quer das acções sovieticas.
Outra das suas mais belas canções "Camarade" constitui uma crítica notória à invasão da República Checoslovaca em 1968, pelas tropas do Pacto de Varsóvia.





Após uma longa doença oncológica, Jean Ferrat descansa agora em Paz!

sexta-feira, março 05, 2010

Juventude



Infelizmente, nas últimas semanas nem o meu próprio blog tenho tido disponibilidade de visitar, até que me dei conta hoje de que já passava um mês sem ter acrescentado qualquer contribuição para este espaço.

Não irei falar sobre música, ao contrário do que é habitual nos últimos tempos! O tema hoje é bem mais desagradável!

Hoje, o que venho abordar, prende-se com a actualidade portuguesa que foi marcada esta semana pelo suicidio de uma criança de 12 anos vítima de "bullying" numa escola do norte de Portugal.


Como todos nós, também frequentei ambientes estudantis e a violência escolar não é nada de novo, contudo o grau de agressividade que actualmente existe é francamente assustador.

Há algo de muito errado na nossa organização social para que possam acontecer casos como os que vêm sendo descritos na nossa comunicação social.


O tema da educação de jovens tem sido matéria que ao longo da minha vida sempre constituiu matéria de reflexão e debate com os meus amigos, pois todos sabemos que nem os bébés trazem livro de instruções, nem para se ser pai é necessário um curso, tal como é exigido, por exemplo, para quem conduz um automóvel.

A banalização da violência na televisão e nos jogos para adolescentes não é, infelizmente objecto da devida atenção pelos pais.


A educação contra a descriminação racial, social, religiosa ou sexual está completamente ausente da maior parte das famílias e os resultados estão à vista.


Para mim a escola é um local onde se obtém instrução, devendo a EDUCAÇÃO ser assumida necessariamente pela família, mas o facto triste é que pais e mães parecem querer que sejam os professores os verdadeiros encarregados de educação preocupando-se mais com o que fazem as princesas do Mónaco e o Cristiano Ronaldo, do que com os problemas das suas filhas e filhos.

Sou portanto, algo descrente relativamente ao que estas novas gerações irão fazer no futuro, mas aprendi também que não se pode perder a esperança e ceder ao negativismo!

Uma coisa é certa! A Escola tem que ser um local seguro e não um campo de tortura para as nossas crianças!

Espero pois que este caso, e outros que estão a ser relatados pela imprensa, façam levar as autoridades escolares a tomar medidas e os pais a reflectir na educação que dão aos seus filhos.

Lembro entretanto, a este propósito, algumas reflexões que fiz com um amigo, que me questionou primeiramente sobre as convicções da nossa geração sobre a juventude actual, para depois, com a ironia fina que o caracteriza, me demonstrar, que a minha perspectiva, por mais convencido que eu esteja da sua razoabilidade, nunca me levará a perceber completamente as gerações mais novas!

Essa incompreensão é algo que faz parte da história, que faz parte da natureza das coisas, que faz parte da vida!

Trancrevo pois 3 mails, dois que recebi e um que escrevi sobre esta matéria, onde a par das minhas convicções, que afinal pouco ou nada importam, ressalta que, apesar de todos os factos negativos que nos emocionam e deixam apreensivos, apesar das nossas críticas e temores fundados, poderemos afinal ter confiança no futuro! Teremos é que nós, os mais "antigos", saber cumprir melhor do que até aqui o nosso papel de educadores!

Aqui vão:

Caro D.

Depois da nossa conversa de há uns dias atrás acerca do estado da nossa juventude, permita-me que lhe envie uns comentários proferidos recentemente a propósito, durante um simpósio realizado em Inglaterra:

- "A nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, despreza a autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Os nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem aos pais e são simplesmente maus.

- “Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque esta juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível.”

-“O nosso mundo atingiu seu ponto crítico. Os filhos não ouvem mais os pais. O fim do mundo não pode estar muito longe.”

-“Esta juventude está estragada até ao fundo do coração. Os jovens são maus e preguiçosos. Eles nunca serão como a juventude de antigamente... A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura."

Parece que o problema é global!....

Melhores cumprimentos


Caro C.

Vi o seu mail de ontem, sobre as questões juvenis, que achei deveras interessante e relativamente ao qual vou agora maçá-lo com algumas elucubrações a esse propósito.

Penso que o texto nos oferece um retrato social, feito por alguém que, mais do que descontente com as perspectivas de futuro, parece estar pessoalmente zangado com os jovens...


Zangou-se e disse verdades? Talvez sim! Possivelmente com algum exagero! Ou talvez não!!!!????

Pelos vistos, como muito bem refere, estamos perante um problema global e que, possivelmente, até assumirá noutras sociedades dimensões ainda mais graves do que aqui.

Bom, mas mais do que lamentar, vociferar ou invectivar a juventude há que saber precisamente o que fazer e o que não fazer.

Procurando as explicações para o que se passa, observo que vivemos numa sociedade que, desde os seus primórdios, se desenvolveu na procura do equilibrio entre a tendência natural do Homem em usar a lei do menor esforço e a necessidade de suprir as limitações que essa sua tendência lhe impunha.

Desde a descoberta do fogo e da roda que se vai caminhando para uma sociedade de bem estar.

E essa necessidade intrínseca do Homem de conseguir viver com o máximo conforto e com o mínimo de trabalho, revela bem a própria essência da natureza humana e o erro dos Enciclopedistas que, quer por generosidade, quer por cegueira, nos brindaram com a teoria do Bom Selvagem.

O Homem só se esforça por absoluta necessidade, e para isso usa sempre os meios que lhe parecem mais acessíveis para atingir os seus fins.

Só se abandona pois o estado natural de preguiça se se perceber a necessidade do trabalho e inculcar o interesse pela sua realização.

Só se é correcto e equilibrado no relacionamento com os outros quando se conhecem as regras de convivência e se distingue o bem do mal.

Nem o interesse pelo trabalho, nem o conhecimento das regras sociais, nem a distinção entre o bem e o mal surgem do nada no cérebro dos indivíduos. Têm que ser lá colocados por alguém. É esse o papel dos pais.

Estou certo que não é por conhecimento das teorias libertadoras do séc XVIII que muitos pais se abstêm de dar educação aos filhos e os tratam como parceiros numa espécie de co-gestão (quando não de auto-gestão) do seu desenvolvimento.

Penso, isso sim, que na maior parte dos casos não há sequer a consciência da dimensão da responsabilidade inerente a colocar-se um ser humano no mundo.

Quando a cultura dominante era a de que, ter filhos significava manter a continuidade de um determinado percurso familiar, a falta de consciência racional sobre regras de educação era suprida por um empenhamento forte na manutenção de valores tradicionais.

Os pais esforçavam-se por transmitir aos filhos o modelo que conheciam e que queriam que fosse continuado.

Quando a partir dos anos 70 a família deixa de ser o fio condutor da vida de muitos jovens, quando pai e mãe passam de companheiros a competidores e quando a psicanálise se tornou moda, repescaram-se os conceitos de Freud que considerava serem os pais narcisistas por quererem que o seu bebé se viesse a tornar naquilo que eles não tinham conseguido!


Obteve-se então na maior parte das teorizações sobre a educação a justificativa perfeita para o "laissez-faire, laissez-passer" em que, pelos vistos, se tornou a posição dos pais perante os filhos. Cómodo e politicamente correcto!!

O avanço da Psicologia no estudo dos traumas provocados por stress e por "atitudes de "abuso" psicológico e de violência física dos adultos sobre os jovens veio contribuir ainda mais para a certificação científica do abandono dos anteriores métodos educacionais.

Em épocas mais recuadas, não seria o facto destes estudos serem divulgados na comunidade cientifica que influenciaria o comportamento dos indivíduos.

Contudo, com o florescimento do mercado das chamadas revistas femininas e do mercado editorial de publicações especializadas educação infantil, esses estudos tiveram uma divulgação planetária e influenciaram milhões de jovens pais e mães que acabaram por se convencer que os métodos antigos com os quais foram educados estavam errados.

Infelizmente, a falta de preparação para compreender a relatividade desses estudos, traduziu-se na pura substituição de tradições familiares, por novos "clichés" educativos, que simplesmente consideravam os métodos anteriores como traumatizantes e negativos.

As gerações de pais dos anos 70 para cá, aprenderam pois "o que não fazer"!


"O que fazer" ficou assim entregue, em muitos casos, ao destino, ao dia-a-dia, à natureza. Ou seja à lei do menor esforço. O que hoje em dia se traduz por Televisão!!!

Bom, mas enquanto a maioria da classe média e o sistema educativo de massas adoptava alegremente esse comportamento "liberal", as classes altas continuavam a colocar os seus filhos em colégios tradicionais, que mantêm os mesmos métodos e perpetuam esquemas educativos de sempre.

Se esses novos conceitos são assim tão válidos, porque será então que as famílias pertencentes às elites sociais e financeiras mantêm para a educação dos seus filhos uma postura tradicional, diferenciada da restante sociedade?

Penso que a resposta a esta questão poderia elucidar muito boa gente!

Acho que todos os pais, e todos aqueles que o pretendem ser, deveriam ter presentes dois livros notáveis.


Um, "O Senhor das Moscas" que demonstra bem que o ser humano, na fase inicial da vida, se não for educado, usa dos instintos mais primitivos ao confrontar-se com a vida em sociedade.
Outro, "O Admirável Mundo Novo" que revela (ainda que de forma caricatural) que, tal como Pavlov condicionou cães, nós podemos condicionar seres humanos no sentido que desejarmos.

E a educação o que é, senão o condicionamento da vontade da criança, submetida a regras e valores?

E, de facto, por muito que seja politicamente incorrecto dizer, quando não se condiciona, não se educa.

A Liberdade é um valor muito elevado e é um conceito educativo prioritário. Mas isso mesmo implica o ensinar os limites da liberdade própria e o respeito pela liberdade alheia!


Mas o facto é que uma massa maioritária de pais mal preparados passou a confundir Liberdade com o deixar os filhos fazer o que lhes apetece, não percebendo que o ÑÃO tem um poderoso valor educativo!

Disso resulta, portanto, uma total ausência de passagem de valores e de regras, que é o que está na base dos comportamentos referidos no texto que me enviou.

Por vezes, ao assistir a determinados comportamentos apetece-me dizer tudo o que o texto refere.


No entanto, acho que não podemos perder a esperança e pensar até que talvez, apesar dos defeitos dos educadores de hoje em dia, o futuro não será assim tão mau como isso.

Sempre houve incompreensão entre gerações. Eu próprio quando era mais jovem achava que o discurso dos mais velhos sobre nós era fruto do desconhecimento ou da esclerose.

A História e a Literatura estão carregadas de exemplos de lutas geracionais. Quem sabe se o autor do texto e eu próprio não estaremos apenas a perpetuar esse combate!

O futuro dirá!

Este é um tema inesgotável e mais do que interessante. Estou-lhe muito grato por me ter enviado o texto e lamento estar a ocupar o seu precioso tempo com este longo desabafo.

Votos de um bom fim de semana,

Um abraço




Caríssimo D.

Agradeço-lhe o seu e-mail, bastante elucidativo.

Por lapso não referi uma coisa assaz curiosa relativamente aos 4 parágrafos citados durante o referido simpósio;

- o primeiro é de Sócrates (470-399 a.C.)


- o segundo é de Hesíodo (720 a.C.)


- o terceiro é de um sacerdote do ano 200 A.C.


- o quarto estava escrito num vaso de argila descoberto nas ruínas da Babilónia e tem mais de 4000 anos de existência....

A juventude nunca será como a desejaríamos que fosse!....

Votos de um excelente fim de semana

Um abraço.