terça-feira, junho 03, 2008

Alguma coisa terá que ser feita!!!!

No passado domingo, a propósito de algumas deslocações da selecção de futebol, vi autênticos mares de gente, de todas as idades enrolados em bandeiras nacionais e com manifestações ruidosas, a que os jornalistas chamavam de patriotismo.

No domingo passado também, desloquei-me à feira do Livro e, dado ter lido algo de preocupante sobre o Pavilhão Carlos Lopes, resolvi passar por lá.


Na verdade, pude constatar no local que este edifício se encontra abandonado e que a zona das colunatas, quer à esquerda, quer à direita, se encontra agora entaipada por chapas metálicas. Além disso os vidros das janelas laterais começam a ficar partidos.

Penso que as chapas se destinam a evitar que o interior seja ainda mais vandalizado do que já se encontra.


Pergunto-me pois que patriotismo é o nosso? Que povo é que nós somos e que prioridades possuímos enquanto Nação? Será que não valeria a pena pensarmos mais nas cores nacionais quando o nosso património histórico se encontra em perigo, do que quando há jogos de futebol?

E inevitavelmente comparo o que vejo diariamente por toda a Lisboa:







que demonstra uma degradação vastissima, sem se vislumbrar nada para a reverter, com o que vi por exemplo em Varsóvia, onde uma Capital que foi arrasada pela Guerra


viu ressurgir o seu centro histórico, pela vontade dos seus dirigentes e pelo amor do seu povo.
Esse centro histórico foi completamente reconstruído ao pormenor, tendo-se recorrido, para melhor perfeição da obra, a planos que datavam da Idade Média.




Ora Lisboa, que não foi destruída pela Guerra de 1939-1945, não deveria estar como está, se tivesse tido, por parte dos seus dirigentes capacidade e vontade... e também, diga-se em abono da verdade, o mínimo de exigência e de amor por parte dos seus cidadãos.
Lisboa, tal como outras cidades portuguesas, não teria fazer o esforço extraordinário, que várias urbes da Europa central fizeram para se recuperar, bastar-lhe-ía ter cuidado normalmente do seu legado histórico. Tão só!
Mas não o fez! Nem parece querer fazer! E isto perante a indiferença quase geral de um povo.
O que nos fará diferentes a nós, que temos atitudes tão diversas das dos restantes povos, que quer no ocidente, quer no leste europeu, tiveram este glorioso empenho em preservar e recuperar de forma tão admiravel as suas cidades e monumentos, após a hecatombe da Segunda Guerra Mundial?
Junto mais duas fotos, que retratam os mesmos locais de Varsóvia. Primeiro destruído e depois já reconstruído.



foto tirada do mêsmo angulo da anterior



Nesta foto vêm-se os pedaços da coluna partida, que foram utilizados depois para reerguer a nova.




Quando há vontade a obra faz-se! E para mim uma obra destas é o paradigma do patriotismo e de uma cidadania adulta, consciente e civilizada.

Quando há alguns meses visitei o nosso Palácio da Ajuda, que não só nunca foi acabado, como viu ocorrer um incêndio em 1974, do qual ainda não se recompôs, fiquei extremamente triste com o que encontrei no seu interior: mobiliário degradado, tecidos de parede sujos e corroídos, cortinados sujíssimos, manchas de humidade enormes nalguns tectos e paredes.


Uma das fachadas do Palácio da Ajuda, a que sofreu o incêndio

Acabei por fazer uma espécie de “visita de médico” ao Palácio, pois até senti vergonha das caras estarrecidas de alguns estrangeiros que naquele momento testemunharam tal “miséria.

E aí, recordei novamente Varsóvia, porque é, talvez a par de Dresden, um dos exemplos mais radicais de destruição e de reconstrução que conheço.

E em Varsóvia, o Palácio, tal como 95% da cidade estava destruído.
Palácio real em Varsóvia, reduzido quase a pó em 1945
Contudo, num esforço excepcional povo polaco fez renascer das cinzas o seu símbolo histórico e hoje o Palácio está como novo. Quer exteriormente:

Palácio Real reconstruído
Quer no que se refere ao seu interior:







Sinceramente, vou achando que o nosso “patriotismo” não anda lá muito bem canalizado e que talvez fosse tempo de ser voltado para coisas mais importantes.
Tenho verificado, que por aqui, na Blogosfera há um conjunto de blogs muitissimo bons, que se têm empenhado dedicadamente na denúncia e na proposição de medidas para as cidades portuguesas.
Contudo, serão decerto ainda muito poucos, para a dimensão do problema que se constata existir.

Como uma parte muito considerável dos nossos concidadãos parece não estar muito sensibilizada para estas questões, julgo que os que se preocupam com estas matérias terão que redobrar os seus esforços de sensibilização dos dirigentes que nos couberam em sorte . Mas como?

Permito-me dar uma sugestão! Talvez ingénua, talvez absurda, ou talvez não!

Lá vai:

Dado que o mundo dos blogs é hoje em dia campo de consulta obrigatória de jornalistas e de políticos, porque não todos os bloguistas reservarem um dia da semana para dedicarem a esta temática?

Mostrando fotos de prédios degradados, fazendo relatos, ou até mesmo simplesmente dizendo frases simples, como por exemplo:

Senhores políticos, Lisboa está a descaracterizar-se e a cair aos bocados, nós estamos atentos e se não fizerem nada, para parar com esta insanidade, não iremos votar vós nas próximas eleições.

E isto, quem fala de Lisboa, fala do Porto, de Faro, da Guarda, de Setúbal, de Tomar, de Bragança…. Fala de todo o país de norte a sul.

Se centenas ou milhares de bloguistas iniciarem um simples movimento destes, talvez possa haver algum eco e algum efeito poderá surgir.
Seja isto ou seja o que for, algo terá que ser feito! Vai sendo já quase uma vergonha nacional, andar nas nossas ruas e ver o estado dos nossos monumentos!

sexta-feira, maio 30, 2008

A vida e morte de Luisa Rosa de Aguiar

Nasceu numa família de poucos recursos, tornou-se rica e célebre! Foi idolatrada!

Em criança, salvou-se de morrer soterrada porque se escondeu dentro de um forno de pão!

Em adulta, salvou-se de morrer afogada no Douro porque lhe alcançaram um remo a que se agarrou!

Depois de conviver com reis e imperadores por toda a Europa, morreu pobre, em Lisboa, e a sua sepultura encontra-se esquecida, debaixo dos alicerces de um edifício na Rua do Alecrim!

Por casamento tinha adquirido o sobrenome por que ficaria conhecida: Todi.

Luísa Todi, é de quem venho falar hoje!

Luisa Todi



Luísa foi a terceira filha de um modesto professor de música que, com 5 bocas para alimentar, resolveu deixar a cidade de Setúbal e partir para Lisboa onde arranjou trabalho como copista de orquestra no teatro do Bairro Alto.

Nascida em 1753, conta-se que se terá salvo do terramoto de 1755 por se ter escondido dentro de um forno de pão que lhe serviu de protecção.

Com a vinda do seu pai para Lisboa, Luísa e as suas 2 irmãs conhecem a realidade teatral e deixam-se deslumbrar por ela. Todas virão a ser actrizes e cantoras de primeira grandeza!

Luísa estreia-se num pequeno papel de Tartufo de Moliére, enquanto a sua irmã, Cecília, tinha o papel principal.

Com a vinda a Lisboa de uma companhia italiana de Ópera, Luísa e o 1º violino da respectiva Orquestra apaixonaram-se e casaram. Tomou assim Luísa o apelido de seu marido, Saverio Todi!

Depois de um período de 6 anos a residir no Porto, com a preparação obtida por intensas aulas de canto e muitas actuações, inicia a sua carreira fora do País.

Primeiro em Londres, ainda algo imatura e com um sucesso muito limitado, mas depois por Espanha e Paris onde triunfa.

Aí, em Paris, participa nos Concertos Espirituais, que se realizavam regularmente no Palácio das Tulherias e logo na sua primeira apresentação causa uma impressão tal que a notícia se espalha como fogo na alta sociedade francesa, que acorre em massa às récitas seguintes que se esgotam imediatamente.

Palácio das Tulherias - O pavilhão central era a zona de concertos



Passa igualmente a ser presença regular em Versalhes onde faz os chamados Concertos da Rainha.

Todi, nessa altura, começa a receber convites irrecusáveis de toda a parte e o empresário dos Concertos Espirituais, para a prender, cria um fenómeno de diversão, que depois veio a ser utilizado futuramente para promover a popularidade de outras cantoras:

Convida para os seus Concertos Espirituais a grande cantora alemã Gertrude Elisabeth Mara .


Simultaneamente, com esse convite, põe a circular o boato de que existe uma enorme rivalidade entre ambas e fá-las actuar alternadamente nos seus Concertos.

O público acorre em avalanche, os críticos apenas sabem dizer que ambas são magníficas e chegam a formar-se dois partidos, Os Todistas e Os Maritistas.

O assunto torna-se o principal tema de debate nos salões da capital francesa. No final, Luísa Todi acaba por vir a ser considerada pelos franceses como “A Cantora da Nação”.


Luisa Todi considerada pelos franceses como a "Cantora da Nação"



Contudo, Paris e Itália, onde também actuava regularmente, já não chegavam para Luísa Todi que, sendo uma admiradora da Imperatriz Catarina II da Rússia, parte para aquele país, mesmo sem ter contrato, bastando-lhe a palavra do director dos Teatros Russos, de que poderia fazer dois espectáculos para a Imperatriz.

Diz-se que o espectáculo de despedida de Paris foi um acontecimento nunca visto e não mais repetido. Houve uma loucura colectiva na aquisição dos ingressos, que atingiram preços astronómicos e no final da sua apresentação, com as flores e os presentes recebidos (entre os quais inúmeras jóias), Luísa Todi encheu completamente duas salas.

A sua estadia em São Petersburgo foi também um sucesso (as duas récitas inicialmente previstas transformaram-se em quatro anos de permanência), mas foi um sucesso algo atribulado! Logo após o primeiro espectáculo, Catarina II ficou tão impressionada, que nomeou Todi professora de canto das princesas imperiais criando a inimizade do até então conselheiro musical da corte russa, o compositor italiano Giuseppi Sarti.

Giuseppi Sarti



Para tentar desmoralizar Todi junto da Imperatriz, Sarti teve a ideia de chamar à Rússia o castrati mais famoso da época, chamado Marchesi, que foi considerado o sucessor do grande Farinelli.

A ideia era colocar os dois lado a lado, de forma a que o famoso Il Marchesino, como era chamado o cantor, fizesse sombra a Luísa Todi numa Ópera do próprio Sarti.

Marchesi



No entanto, o que Sarti conseguiu foi uma récita extraordinária e tanto Catarina, como toda a Corte, acabaram por ficar deslumbrados com os dois cantores e até com o próprio compositor.

A partir daí Sarti deixou Luísa em paz, contudo os problemas desta continuaram!

Apesar de ganhar fortunas na Rússia, o marido de Luísa perdia todo o dinheiro ao jogo e a Luísa não restava outra solução, senão pedir cada vez mais e mais dinheiro a Catarina.

Como é natural, Catarina II acabou por pôr termo à situação e Luísa Todi e seu marido partem rumo à Alemanha e a França.

Em Bona é homenageada com uma actuação pelo jovem pianista Ludwig van Beethoven e após uma temporada em Paris e novas actuações na Alemanha instala-se em Veneza, com um contrato no Teatro San Samuele.

Teatro San Samuele em Veneza



Logo na sua primeira récita começa por deixar boquiaberta a assistência ao apresentar-se em palco com as jóias, colar e tiara que lhe haviam sido oferecidos por Catarina da Rússia, mas mais surpreendidos ficaram todos os presentes, assim que começou a cantar, fazendo de imediato com que público e a crítica se rendessem completamente à sua voz, de tal modo que a temporada lírica italiana de 1790-1791 ficou conhecida como "o Ano da Todi".

Durante essa estadia em Veneza, a saúde dos seus olhos deteriora-se gravemente, vendo-se obrigada a interromper as actuações para enorme consternação do público.

Em sua homenagem, foram feitos centenas de poemas, gravaram-se efígies da cantora, tendo havido reacções populares que tocaram as raias do histerismo colectivo.

No seu regresso ao teatro, são os próprios admiradores que o decoram e iluminam, e ao entrar em cena tem todo o público de pé, emocionado, num aplauso que parecia não mais acabar.

Para essa récita, houve tanta gente a querer ouvir Luísa, que o Teatro teve de ficar de portas abertas para que pudesse ser ouvida no largo fronteiro e nas ruas laterais, onde foi escutada em religioso silêncio.

Luisa Todi ostentando a tiara e o colar oferecidos por Catarina II



Actua ainda noutras cidades italianas e em Madrid, até que regressa ao Porto onde actua até aos 50 anos, altura em que o marido morre e ela deixa de cantar, passando a vestir, para sempre, luto carregado.

Seis anos mais tarde, aquando das invasões napoleónicas, Luísa e as filhas, seguindo a restante população do Porto, fogem e, ao mesmo tempo que se dá o desastre da Ponte da Barcas, Luísa cai ao rio, do barco onde estava, levando com ela um saco com todo o seu dinheiro e a maior parte das suas jóias.

Desastre da Ponte das Barcas



A sua criada estende-lhe um remo do barco, Luísa salva-se, mas perde no Douro todos os haveres que transportava. Restam-lhe algumas jóias que ficaram em poder duma filha, entretanto ferida a tiro pelos soldados invasores.

Este ferimento não permitiu que continuassem a fuga e Luísa, as filhas e a criada resolvem entregar-se aos franceses. Mas é o próprio General Soult que, ao vê-la, reconhece-a como a “Cantora da Nação” e toma-a sob a sua própria protecção pessoal.


Pouco tempo depois Luísa parte para Lisboa, onde viverá o resto dos seus dias.

As poucas jóias que lhe sobraram dão-lhe para se instalar numa casa modesta no Bairro Alto e para poder comer.

Esquecida pelo público português, tem de vez em quando visitas dos seus amigos estrangeiros, que gostam de a rever. A pouco e pouco, também esses irão desaparecer.

Aos 60 anos perde a visão de um dos olhos e, 9 anos depois, ficará totalmente cega.

E é assim, só, pobre e na escuridão que esta mulher que já convivera com as personalidades mais importantes do mundo, termina os seus dias. Tem quase 81 anos quando morre em Lisboa, sendo sepultada no cemitério então adjacente à Igreja da Encarnação ao Chiado.

Igreja da Encarnação ao Chiado, Lisboa



Diz-se que terá sido enterrada sem identificação, mas parece que não é bem assim:

Transcrevo agora o que foi dito, a este propósito, pelo biografo da artista, Mário Moreau:

“A zona da igreja onde Luísa Todi foi sepultada deixou, mais tarde, de fazer parte do templo e veio a ser ocupada por uma chapelaria que teve o nº 78 da Rua do Alecrim.

Diversos autores têm escrito que a cantora foi sepultada sem qualquer indicação do local.

Há, porém, razões para supor que tal não corresponda à verdade. De facto, o jornal República publicou um artigo em que se menciona uma afirmação do então dono da referida chapelaria.

Esse senhor, de nome Artur Santos, declarou peremptoriamente ter visto, durante umas obras de levantamento do soalho da loja, a pedra tumular de Luísa Todi. A inscrição estava um pouco sumida, mas não tanto que não permitisse ver nitidamente o nome da cantora.

Foi ainda o referido comerciante quem conseguiu evitar que um dos operários destruisse a pedra com uma picareta. Na época ainda se esboçou a ideia de recuperar a pedra tumular e de dar à grande artista uma sepultura condigna. Mas, como já seria de esperar, nada se fez nesse sentido.

Por nossa parte, entendemos que os fins em vista continuam a justificar amplamente as necessárias pesquisas, por pouco provável que alguém possa considerar o bom êxito do empreendimento e sejam quais forem as objecções que se possam levantar. Em qualquer país que prezasse devidamente os seus maiores vultos já há muito se teria realizado tal tarefa. Na nossa terra, porém, até agora não se conseguiu muito mais do que um sorriso irónico e um encolher de ombros.

Isso não nos impede de renovar aqui a pergunta já feita na República há mais de sessenta e quatro anos: estará a Câmara Municipal de Lisboa interessada na recuperação da pedra tumular de Luísa Todi e em dar à nossa grande artista a sepultura que ela merece?”


terça-feira, maio 27, 2008

Uma vida extraordinária

A propósito da exposição sobre a obra de Le Corbusier que está patente em Lisboa lembrei-me de… Josephine Baker!



Penso que ainda muitos se lembrarão dela!

Uns, como uma artista muito “avançada”para a sua época, outros como uma mulher extravagante e corajosa, outros ainda como uma mulher de escândalos!

Mas o que tem Le Corbusier que ver com La Baker, como os franceses lhe chamavam?

Tem o simples facto de um dia, no já longínquo ano de 1929, no navio que transportava Josephine Baker da América do Sul para a Europa, se ter verificado que em vez de uma Josephine Baker estavam lá duas!!!! Passo a explicar:

Um jovem arquitecto, nascido na Suiça e que na época já tinha o seu estúdio na Rua de Sévres em Paris, sabendo que a artista, que muito admirava, viajava no mesmo navio que ele, resolveu pintar-se de negro e, vestindo apenas de uma tanguinha de penas, quis surpreender a já famosa artista.

A surpresa de se ver representada, numa das suas “vestes” mais famosas, por um jovem e elegante admirador, o mais tarde famoso Le Corbusier, foi tanta que, não só fez com se tornassem amigos, mas também…que viessem a iniciar uma intensa relação amorosa, segundo constam as crónicas da época




Josephine Baker foi mulher de muitos e “badalados” amores e, tal como aconteceu com Le Courbusier, quase sempre ao nível da genialidade.

Alexander Calder, Pablo Picasso, Georges Simenon, E.E. Cummings foram todos eles seus admiradores e em várias fases da sua vida acabaram por se tornar seus amantes.

Este pequeno episódio da viagem transatlântica da cantora e do seu admirador, que recordei a propósito da exposição em Lisboa do grande arquitecto Le Courbusier, acaba por ser afinal um bom pretexto para falar, ainda que de forma resumida dessa figura extraordinária de mulher do Século XX.

Durante a minha infância, o nome dela era-me vagamente familiar, contudo quando no final da década de 60 os jornais noticiaram que Josephine Baker doente e já na casa dos sessenta, fora despejada da sua propriedade em França, e iria voltar aos palcos para poder manter-se a si e às 14 crianças de todas as raças que tinha adoptado, eu comecei a reparar nela e na sua história com mais atenção.




Josephine Baker nasceu em Saint Louis no Missouri (USA), pertencia a uma família de lavadeiras e o seu destino ainda criança foi também o de ser lavadeira… Até ao dia em que uma das “senhoras”, para quem trabalhava, lhe atirou com água a ferver para as mãos, como castigo por Josephine, segundo ela, gastar demasiado sabão.

Um emprego seguinte, de camareira de uma artista de teatro e a posterior substituição de uma corista que adoecera, foi quanto bastou para aos 16 anos chegar à Broadway.

Aí, as suas caretas de olhos vesgos e as suas danças de pernas arqueadas nunca fizeram grande sucesso, mas ao ser escolhida para ir até Paris participar na Revue Negre, a sua sorte mudou!



Em 1925, em Paris, uma negra, de seios nus, vestindo apenas uma tanga de bananas ou de penas, dançando freneticamente e cantando com uma voz forte e diferente das cantoras brancas da época só podia dar em escândalo. Mas foi um escândalo com muito sucesso



Tanto sucesso que passou fronteiras, e era chamada para actuar em toda a Europa e na América do Sul.

Um sucesso que chamava multidões e que, simultaneamente, arrepiava os mais conservadores. Em Viena, numa Igreja próxima do Teatro onde actuou, os sinos tocaram à hora da sua chegada, para que a população não saísse de casa, não se fosse dar o caso de ficar "contaminada" com a sua presença.

Em Paris, um tradicional pai de família americano, não sabendo ao que ía, levou a mulher e a filha a ver o espectáculo de Josephine no Casino de Paris e, ao intervalo, já saía esbaforido, arrastando as duas, conforme conta nas suas memórias a filha, de seu nome Nancy e que depois de casada viria a ter o apelido Reagan.




Para Josephine, no entanto, nada importava o que diziam dela!

Era a mulher de quem se falava sempre, fosse pelos seus espectáculos, fosse pelos seus namorados, fosse pelo seu leopardo domesticado (Chiquita) que gostava de trazer por uma trela nas ruas de Paris e que ela até gostava de levar ao teatro.

Entretanto Josephine, sempre irreverente mas muito lúcida, havia tomado uma decisão, ainda jovem: Só voltar a actuar no seu País natal quando os Teatros fossem racialmente integrados.

E, quando, após ter feito uma reclamação pública por lhe ter sido recusada a entrada no famoso Stork Club de Nova Iorque, foi acusada de comunista e colocada na lista negra, tomou também a decisão de se colocar activamente ao lado dos movimentos pelas liberdades cívicas.

Foi por isso, que se viu Josephine Baker discursando ao lado de Martin Luter King, aquando da manifestação sobre Washington e foi igualmente por essa razão que a viúva de King se deslocou à Europa, em nome do seu movimento, para pedir a Josephine Baker que assumisse a respectiva liderança.

Já doente e a enfrentar graves problemas financeiros, Josephine não pode aceitar o convite, mas a verdade é que ela já tinha feito imenso pela causa da liberdade ao ser membro activo da resistência francesa, na ajuda a fuga de muitos políticos franceses para Argel e no papel de informante dos Aliados, quer nas chancelarias de Paris, quer em vários pontos da Europa.

A sua actividade de resistente anti-nazi, viria a ser reconhecida pelo Governo Francês com as mais altas condecorações do Estado gaulês, assim como pelos restantes Governos Aliados que através dela tiveram acesso a informações preciosas que ía colhendo junto das elites dos países do Eixo, a quem facilmente tinha acesso nos países neutrais por onde passava.



Ajudada pela sua amiga Grace do Mónaco que lhe ofereceu uma Villa, Josephine teve no entanto de continuar a actuar para poder manter o apoio às crianças que tinha tomado a seu encargo, tendo no final dos anos 60 e principio dos anos 70 iniciado uma parceria com Chico Buarque de Holanda, com quem deu inúmeros espectáculos conjuntos na Europa e no Brasil.

Foi na noite anterior, ao último espectáculo de uma temporada que realizou em Paris, que a criadora de J’ai deux amours morreu de um ataque cardíaco em 1975. Tinha 69 anos!

Para Josephine, nem tudo foram rosas, sendo o seu percurso repleto de altos e baixos, mas na verdade teve uma vida extraordinária e penso que ao aproximar-se mais um aniversário do seu nascimento, o que acontecerá no próximo dia 3 de Junho, é mais do que justo deixar aqui um breve registo da sua memória.

sábado, maio 24, 2008

Franz Schubert, Amália Rodrigues, Suzy Paula e.... Eurovisão

Franz Schubert, Amália Rodrigues e Suzy Paula... o que têm em comum?

Bom, aparentemente nada, a não ser que há um nome que faz a ponte entre todos eles!

E esse nome é o da holandesa Lenny Kuhr, nome que certamente não é estranho aos portugueses da minha geração.



Trata-se de uma cantora com uma voz magnifica e que tem um percurso artístico muito interessante.

Lenny Kuhr, que em 1969, era uma muito jovem cantora com 19 anos de idade e apenas dois anos de carreira, ganhou nesse ano o Festival da Eurovisão, ex-equo com outros três concorrentes, interpretando a canção De Troubadour.

Desde aí, Portugal tem estado de algum modo alheio a esta cantora, mas o mais curioso é que ela não se tem alheado de Portugal. Já veremos porquê! Para já façamos um breve percurso pela sua carreira.

A canção que levou à Eurovisão, da sua autoria, fugia completamente ao conceito de canção festivaleira, tendo apesar disso, ou por isso mesmo, um enorme sucesso da crítica e do público!

Julgo que vale sempre a pena revisitá-la pois é uma melodia que não consegue ficar datada. Vê-la-emos aqui na sua apresentação de consagração como vencedora do Festival.


O que se seguiu para Lenny Khur, foi uma carreira internacional, tendo como base Paris. Nessa cidade, durante os anos 70, associou-se ao grande cantor francês Georges Brassens, fazendo durante anos espectáculos conjuntos.

Posteriormente, a sua vida pessoal levou-a ao casamento, à conversão ao Judeísmo e a uma ida para Israel, onde viveu vários anos da década de 80.

A sua carreira entretanto foi-se consolidando, tendo-se tornado num dos nomes mais prestigiados da Holanda, quer através de bem sucedidas interpretações das canções de Franz Schubert, que ficaram belíssimas na sua voz.



Quer através de colaborações com com o guitarrista Freek Dicke.

Num dos seus melhores trabalhos, feito em colaboração com aquele instrumentista, chamado Heilig Vuur, Lenny Kuhr resolve deixar libertar a sua paixão por um género musical que muito admira, o Fado.

Admiradora de Amália Rodrigues, compõe a canção Ik Zal Altijd Om Je Blijven Geven (Dar-te-ei sempre), onde a influência do fado se encontra muito presente.




Mas a sua admiração ao fado não se ficaria por aqui, a pouco e pouco ele irá fazer parte integrante do seu repertório!

Primeiro incorpora nele e grava uma versão em holandês do “Fadinho da Ti Maria Benta” de Amália.

Mais tarde, assumindo a sua paixão por este género musical, grava um disco com o nome de FADISTA, em que presta uma bela homenagem à “canção nacional” portuguesa.

Nesse trabalho, além de canções originais, onde a melancolia e a saudade são temas de referência e onde as sonoridades fadistas estão sempre presentes, Lenny Kuhr interpreta, na sua lingua natal, dois fados de Amália, sendo um deles “Solidão” de Frederico de Brito, Ferrer Trindade e David Mourão Ferreira.



Sendo autora de belíssimas melodias e de versos inspirados, os seus maiores sucessos contudo, teve-os inesperadamente em canções completamente fora do percurso normal da sua carreira.

Em 1972, em França, esteve várias semanas no 1º lugar das tabelas de vendas com a versão gaulesa da canção de Roberto Carlos “Jesus Cristo”.

E na Holanda, no inicio da década de 80, tornou-se praticamente um símbolo nacional, com direito a reconhecimento governamental, por causa de uma canção infantil que compôs e interpretou com um conjunto francês de crianças chamado Poppys.

Esta canção viria também, entre nós, a ser muito popular junto do publico mais pequeno, após ter sido gravada em português por….. Suzy Paula.



Lenny Kuhr encontra-se actualmente a celebrar os seus 40 anos de carreira, dando frequentes espectáculos pelos Países Baixos, nos quais já se tornou inevitável a apresentação de “Uma Casa Portuguesa”, o outro fado do seu disco “Fadista”.


Hoje, que é dia de mais um Festival da Eurovisão, parece ser justo trazer à memória dos visitantes deste espaço, esta cantora de facetas tão diversas e com uma sensibilidade tão próxima da dos portugueses.

quinta-feira, maio 22, 2008

EUROVERSÕES

Hoje venho encher o blog de música.

Estamos a poucos dias de mais um Festival da Eurovisão.

Durante muitos anos vivi com muito interesse tudo o que dizia respeito a este concurso de canções. Acompanhava pela rádio, tv e jornais os sucessos e peripécias dos nossos artistas, deleitava-me a ouvir todas as canções concorrentes e acabava invariavelmente com uma angustiazita por a canção portuguesa não ficar com uma classificação de jeito.

Entretanto o Festival já não é o que era e…. eu também não!!!! Mas as memórias desse tempo ainda perduram.

Nessa altura interrogava-me sobre a razão das nossas más classificações. Para tentar encontrar a razão, procurava colocar-me no lugar dos espectadores e dos jurados estrangeiros e a melhor forma de o fazer era ouvir as versões das canções portuguesas que eram distribuídas pela Europa fora!!!

Todos sabemos, que políticas das editoras e mesmo outras “políticas” tiveram influência nos resultados das canções portuguesas. Contudo, depois de ouvir, estas que trago aqui hoje e muitas outras que deixei no baú, acabo por perceber porque nunca fomos muito longe!

Comecemos pelos anos 60, época em que enquanto os outros países nos punham à margem, os nuestros hermanos eram sempre compreensivos e lá deixavam cair uns pontinhos! Talvez por afinidade política, talvez por serem nossos vizinhos, ou talvez porque as versões em castelhano saíram benzinho e cumpriam os objectivos:

Tanto no grupo das alegres





Como no das "dramáticas"



Chegados aos anos 70 percebi que algumas das nossas canções, por muito que apostemos nelas, o melhor é manterem-se apenas na nossa língua:



Nas que nos chegaram a partir dos anos 80, passou-se a apostar mais nos modelos “prontos a ouvir” e nessa medida a coisa lá foi cumprindo o objectivo, sem grandes proveitos, mas pelo menos com dignidade:



Por essa altura, consolidou-se a ideia de que cantar em inglês seria um passaporte para o sucesso internacional, mas a verdade é que as coisas não são automaticamente assim e é sempre conveniente não cair na rima fácil e banal:



Ou cair mesmo em versos de alguma infantilidade:




Chegou-se ainda a tentar até ir até mercados diferentes, fazendo versões em linguas menos familiares aos nossos hábitos, como neste caso em holandês:




Ou neste, em alemão, onde aliás se prova que uma boa canção não precisa de bailarinas e efeitos especiais e que em qualquer lingua se mantém bela:



E por hoje, depois destas memórias soltas postas sob a forma de blog, acho que já cumpri o que prometi e enchi-o de música… mas falta-me ainda a canção portuguesa deste ano… em inglês. Vai já a seguir... com a certeza de que o compositor da canção já está a fazer história neste certame.

O compositor da canção portuguesa é o croata Andrej Babic que foi o autor da canção da Croácia em 2003, da canção Bosnia-Herzegovina em 2005 e da canção da Eslovénia em 2007. Vamos lá a ver se à quarta é de vez...

segunda-feira, maio 19, 2008

Muralha

É um nome conhecido e respeitado em todo o Brasil. E não só!!!!

Vive em São Paulo e é uma das romancistas e dramaturgas de maior sucesso, tanto junto da critica literária e teatral, como junto do público.

Escreveu e já viu levadas à cena 20 peças de Teatro.
Publicou 5 romances e uma biografia.

Traduziu, entre outras, obras de Samuel Becket, Jean-Paul Sartre, Ingmar Bergman, Edward Albee, Peter Shafer.

É autora de séries, mini-series e novelas para a Televisão, como Os Maias, A Muralha, A Casa das Sete Mulheres.

Por 21 vezes recebeu prémios de melhor obra.

Tem 65 anos e… é portuguesa!

Chama-se Maria Adelaide Amaral, nasceu em Valongo e encontra-se no Brasil desde os 12 anos.



Quem teve a felicidade de assistir em Lisboa, no final de 2006, à peça Mademoiselle Channel, brilhantemente interpretada pela Marília Pêra sabe bem da qualidade extraordinária desta autora.



Aliás, esta peça, que representada em Paris na Cómedie des Champs Elysées, pela mesma actriz, deixou espantados críticos e público parisiense pela qualidade e reconhecimento histórico do texto, entusiasmou de tal forma a própria Casa Channel e Karl Lagarfeld, que fizeram questão de ceder à produção do espectáculo 9 modelos originais para serem usados em todas as récitas.



Quem viu na televisão séries como a “A Muralha” ou “A Casa das Sete Mulheres”, sabe bem da riqueza e intensidade dramática das suas obras.

Quem viu a inteligência, o rigor e o sentido dramático das adaptações de “Os Maias” para a Globo ou do “Evangelho Segundo Jesus Cristo” para os palcos, percebe bem a razão de ser de tantos prémios que foram atribuídos a esta nortenha radicada em São Paulo.



Quando no inicio dos anos 90 foi condecorada pelo Estado Português numa cerimónia solene que decorreu num jantar oficial no Convento do Beato, perante a nata política e intelectual nacional, Adelaide Amaral, ao usar da palavra disse que, embora agradecesse a condecoração recebida, a maior homenagem que poderia ter da sua pátria seria ver aqui representadas as suas peças.
Até hoje as suas palavras tiveram pouco eco.




Quando em comentário ao meu anterior post um dos visitantes referiu que o Teatro Nacional não prestigia suficientemente os autores portugueses, lembrei-me desta cerimónia e das palavras de Maria Adelaide.

Tirando Maria do Céu Guerra que em 1993 levou à cena a peça “De Braços Abertos” e a Seiva Trupe no Porto que encenou “Para tão longo Amor”, creio bem que mais nenhuma das peças desta autora foram representadas em Portugal, por portugueses.

Num país onde a qualidade e quantidade de dramaturgia é tão reduzida, talvez não fosse má ideia, que as nossas principais companhias se lembrassem, com alguma frequência, desta nossa compatriota de Valongo, dando a conhecer ao nosso público as suas obras, não apenas porque se trata de uma escritora portuguesa, mas porque as suas obras têm qualidade!

Espero, sinceramente, que não exista uma qualquer “Muralha”, de qualquer natureza, a impedir a, mais que necessária, divulgação de obras de uma portuguesa em Portugal.