domingo, janeiro 22, 2012

Etta James partiu

A poucos dias de completar 74 anos Jamesetta Hawkins, mais conhecida por Etta James faleceu.
Padecia de Alzheimer há cerca de dois anos e no final do ano passado foi-lhe diagnosticada uma forma de leucemia muito agressiva. Nascida em Los Angeles, começou a cantar aos 5 anos na Igreja Batista frequentada pela sua ama e aí foi adquirindo treino vocal. Nunca conheceu o seu pai e a sua mãe, que era pródiga em se ir apaixonando por vários homens, foi deixando-a entregue a sucessivas amas que felizmente perceberam os seus dotes vocais e lhe proporcionaram o contacto com o mundo da música. Aos 14 anos formou um grupo musical amador "The Peaches" que, ao fim de algum tempo, conseguiu gravar um disco que surpreendentemente viria, em 1955, a chegar ao primeiro lugar do top de R&B, com a canção "Dance with me, Henry", a qual 30 depois, seria de novo relançada ao ser incluída na banda sonora de "Regresso ao Futuro". Nessa mesma altura acabaria, ainda adolescente, por seguir os passos da sua progenitora, tendo-se igualmente tornado mãe solteira. Isso, contudo não a impediria de continuar a cantar tendo em 1960 assinado um contrato com a editora Chess Records e obtido um enorme sucesso com a canção "At Last", que passou a ser um "tema obrigatório" nas festas de casamento e de noivado nos Estados Unidos! Vêmo-la aqui, cantando esta canção, numa das suas últimas atuações: Entretanto em 2008 no filme Cadillac Records, que conta a história da ascenção e queda da "Chess Records", Etta James aparece retratada por Beyoncé, havendo contudo no argumento uma série de inexatidões que muito desagradaram à cantora que apesar disso, nessa altura, se conteve nos comentários. No entanto a "gota de água" surgiu quando a mesma Beyoncé foi convidada para a festa de investidura de Barak Obama para interpretar a canção que o Presidente revelou ser a sua preferida: "At Last"! Aí a polémica estalou com Etta James, em público e em várias ocasiões a não poupar nem o Presidente Americano, nem Beyoncé dizendo que nem um nem outro prestavam e... outras coisas bem piores...! O que nem o público, nem a imprensa sabiam é que nessa altura Etta James já estava seriamente afetada pela doença de Alzheimer. No entanto Beyoncé, que estava a par da situação, as únicas respostas que lhe deu publicamente foi continuar a cantar as suas canções, homenageando-a sempre que possível! Etta James que ganhou cerca de 30 prémios, entre os quais seis Grammys, teve uma vida complexa e dificil! O uso de drogas levou-a algumas vezes até à prisão e a entradas e saídas consecutivas de centros de reabilitação! Foi contudo, uma das cantoras de jazz mais populares de sempre nos Estados Unidos, tendo gravado a maior parte dos standards do jazz e do R&B e chegando mesmo a gravar um CD nos últimos meses de vida, já bastante debilitada. Esse disco "The Dreamer" é a sua despedida assumida, um verdadeiro canto do cisne, onde se percebem quer as suas qualidades, quer as fragilidades impostas pela sua saúde! Foi posto à venda em Agosto passado! Aqui vai uma das canções desse disco de que mais gosto: Se Bryan Adams terá exagerado quando disse que Etta tinha a melhor voz do mundo, o certo é que ela e o seu repertório influenciaram vários cantores quer nos Estados Unidos, quer no Reino Unido: De Janis Joplin a Christina Aguilera, de Rod Stewart a Amy Winehouse, Joss Stone e Adele. Mas, o mais curioso é que, apesar de todo o reconhecimento pelos seus pares, a sua projecção à escala mundial, fora dos Estados Unidos e fora dos círculos do jazz, só aconteceu em meados da década de noventa devido a... um anúncio da Coca-Cola Diet: Mas o melhor mesmo é ouvir a canção completa, que penso eu ser a melhor forma de homenagear esta grande cantora que agora nos deixou:

sexta-feira, janeiro 20, 2012

Elis - Cadeira Vazia

Passaram ontem 30 anos que Elis nos deixou. A sua cadeira ficou para sempre vazia!

domingo, janeiro 15, 2012

Os novos tenores

Quando se fala em tenores a maioria das pessoas tem ainda muito presentes na memória Pavarotti, Carreras e Domingo!


A geração que se lhes seguiu apesar da sua qualidade e prestígio no mundo operático ficou ainda na sombra daqueles 3 nomes, que serão difíceis esquecer.

Falo, por exemplo, de José Cura, Marcelo Alvarez, Roberto Alagna e Rolando Villazon que, por razões várias, não conseguiram a projeção dos anteriores!

Chegou entretanto uma nova geração que possui as qualidades vocais e interpretativas para chegar ao “grande público” tal como os “três tenores” conseguiram.

Para já, esses “jovens” já se consagraram nos palcos das principais salas de Ópera do Mundo. Veremos o que o futuro tem reservado às suas carreiras e ao contributo que elas conseguirão dar à divulgação deste género musical!

Deixo aqui os nomes dos que estão a conseguir maior notoriedade, algumas breves notas biográficas sobre eles e, mais importante ainda, vídeos com atuações, onde se poderá avaliar a qualidade das suas vozes!

Começo pelo mais jovem, Joseph Calleja, que nesta semana completará 34 anos!



De origem maltesa, começou a cantar aos 16 anos e aos 21 anos já tinha vencido dois concursos de canto internacionais. O seu CD “O tenor maltez” lançado há seis meses chegou ao segundo lugar dos discos mais vendidos na Alemanha e ao primeiro lugar da US Billboard Classical Traditional.

Quer pela crítica europeia, quer pela norte-americana é considerado um dos mais promissores tenores do século XXI, causando uma impressão tal que chegam a considerá-lo como o sucessor dos legendários tenores Björling, Gigli, e inclusive de Caruso!




Seguidamente refiro o italiano Vittório Grigolo, talvez o mais mediático de todos os cantores da sua geração, que completará no próximo mês 35 anos.





A sua notoriedade, em abono da verdade, deve-se mais ao facto de ter sido um dos elementos fundadores do agrupamento Il Divo que entretanto abandonou, do que à sua superioridade vocal face aos restantes.

Iniciou-se a cantar aos quatro anos e aos nove anos, numa consulta de oftalmologia, enquanto esperava, ao ouvir alguém cantar noutro apartamento do edifício, resolveu brindar todos os pacientes do consultório com a sua versão da Avé Maria de Schubert, deixando toda a gente boquiaberta, incluindo o pai do oftalmologista que se encontrava presente e que lhe conseguiu uma audição para o coro infantil da Capela Sistina, tendo-se desde logo tornado seu solista!

O seu estilo de actuação (os críticos chegam a dizer que parece um cachorro irrequieto em busca permanente de atenção), o seu primeiro álbum (In the Hands of Love) feito no estilo Pop/Opera, o ar de artista rock que exibe no dia-a-dia e a sua participação em corridas de automóveis são características que lhe tem trazido alguma notoriedade, mas as suas capacidades vocais incomuns naturalmente que também têm ajudado e têm sobretudo contribuído para dissipar o habitual preconceito que existe no mundo da Ópera perante este tipo de ecletismo.

Entretanto, se da sua apresentação e sucesso nos principais palcos do mundo (foi o tenor mais jovem que alguma vez pisou o alla Scala de Milão) tem resultado uma opinião unânime sobre as suas potencialidades, é verdade também que é comum a ideia de que ainda tem que amadurecer mais um pouco para chegar ao seu melhor…




Refiro agora o único dos cantores que já tive oportunidade de ver ao vivo (quase há dez anos), trata-se de Juan Diego Florez.



Tendo completado na semana passada 39 anos de idade, este cantor natural do Perú, começou muito jovem por se interessar pela música ligeira e pela música tradicional do seu País. Contudo, ainda adolescente tornou-se membro e solista do Coro Nacional do Perú.

Aos 20 anos partiu para os Estados Unidos onde estudou com Marilyn Horne e participou em produções estudantis, tendo-se estreado 3 anos depois profissionalmente em Itália.

Pavarotti, extasiou-se de tal forma com a sua voz que o considerava como o seu sucessor natural.

Florez, com a sua interpretação “Ah mes amis” da La Fille du Régiment de Donizetti, terminou com mais de setenta anos de tradição de não encores no “alla Scala” de Milão, ao conseguir os nove dificílimos Dós de peito que essa ária exige, que foram seguidos de uma prolongada ovação do público e exigência de regresso ao palco.

Ele mais tarde repetiria este feito no Metropolitan Opera House em 2008, o primeiro cantor a quem foi exigido um encore desde 1994.

Refiro que já em 2003 ele nos havia maravilhado em São Carlos com esta e outras das suas interpretações.




Por último, trago aqui um cantor cuja voz acho extrordinária a todos os níveis. Trata-se do cantor alemão Jonas Kaufmann.



Com 42 anos de idade e tendo passado já por vários problemas de saúde, primeiro na própria voz em 1995, e mais recentemente de ordem oncológica,  foi considerado em 2011 o cantor do ano nos Estados Unidos.

Possui uma amplitude de voz que simultâneamente tem a sombra e a profundidade dos barítonos, mas com a extensão que lhe permite chegar às notas mais agudas, sendo por isso mesmo considerado por muitos como o sucessor natural de Plácido Domingo, que é, aliás, um dos seus mais entusiasticos admiradores.

Começou os seus estudos musicais aos 8 anos e, após se ter formado em Matemática, aos 24 iniciou a sua carreira profissional na Ópera, tendo percorrido a partir daí os principais palcos do mundo, com um reportório que vai de Verdi a Wagner, demonstrando uma versatilidade que, de facto, também só é comparável à de Domingo.



Espero que esta minha seleção de árias tenha sido interessante e esclarecedora do meu entusiasmo por estes novos excelentes representantes do canto lírico!

quinta-feira, janeiro 12, 2012

A dignidade dos professores perante a indiferença das autoridades

Foi no Brasil, na cidade de Natal, que aconteceu este discurso simples, genuíno e frontal, perante as autoridades que ficaram sem palavras...

Foi no Brasil, mas também aqui, em Portugal,  a Escola Pública sofre com idêntica falta de investimento, com a precaridade do vínculo dos professores que não só não veem respeitada a sua nobre e importante função, mas também não possuem as condições adequadas a um ensino de qualidade.

Para que melhor se entenda a emotividade do discurso desta jovem professora, talvez seja bom saber que no Brasil a proporção do salário de um professor para um deputado é de 1 para 30, e que p.e. dentro das regras em que se movem, os professores brasileiros estão proibidos de se alimentar nas cantinas escolares, pois isso é considerado desvio de bens.

Penso que política, na sua mais pura natureza, é isto que esta professora faz: Falar dos problemas concretos da Pólis, não de meras abstrações, ou de estatísitcas, onde as pessoas são menos importantes que os números.

E uma política corajosa, pois fala cara a cara com quem tem o poder para mudar as coisas e não o faz, porque a verdade é que quer no Brasil, quer em Portugal a Educação não é, de facto, uma prioridade!


Vale a pena ver! Esta jovem professora é um exemplo, para os seus colegas, para os seus alunos e, no fundo, para todos nós!

domingo, janeiro 01, 2012

Feliz Ano Novo

Enquanto que a RTP nos brinda com o prenúncio do que irá ser 2012 para os portugueses, transmitindo uma coisa onde aparece um senhor de capachinho chamado Tony Carreira, pergunto-me a mim próprio porque é que uma estação de serviço público que quer apostar na música ligeira portuguesa não mostra algo feito pelo André Sardet, pelo Amor Electro, pelos Mesa, pelo Rodrigo Leão… etc, etc,etc…

Entretanto, enquanto que Elisabete Matos se prepara para dentro de poucos minutos entrar no palco do São Carlos, pergunto-me igualmente porque é que a cantora lírica com maior projecção no mundo não é suficientemente divulgada ao público português!

video

Do mesmo modo também me questiono porque as únicas vozes líricas que alguma vez foram escolhidas para a fase final do mais importante Concurso de canto do mundo, o Cardiff Singers of the World, são também ausentes permanentes do serviço público de televisão: Falo de Ana Paula Russo (aqui cantando "una voce poco fa")



e de Dora Rodrigues (aqui interpretando a ária que apresentou no próprio concurso "Meine Lippen sie kussen so heiss")!



Pergunto-me, sabendo qual seja a resposta, mas mesmo assim deixo aqui a questão que há alguns anos me deixava perplexo, mas que hoje em dia me deixa simplesmente desiludido e com vontade de emigrar!

Termino, é claro, desejando a todos um 2012 com muita saúde, já que desejar um bom ano à maioria dos portugueses é quase anedótico, porque todos já sabemos que o ano irá ser possívelmente ainda pior do que as nossas programações televisivas têm sido!