sexta-feira, abril 06, 2012

A insustentável leveza da irresponsabilidade


Em 29 de Março foi aprovado em Conselho de Ministros o decreto-lei que suspende as reformas antecipadas. Foi a Belém, teve a assinatura do Presidente da República e muito poucos dias depois, em 5 de Abril (quinta-feira santa) já estava publicado em Diário da República.


Sinceramente nunca tinha visto tal rapidez!

Lamentavelmente num assunto de tal interesse público nunca tinha visto tanto secretismo!

Toda esta atuação conjunta de Governo e Presidência roça a clandestinidade e revela a má consciência de todos os atores políticos que produziram esta medida!

Temos, afinal, a gestão do País entregue a quem?

A pessoas que se portam como crianças que fazem travessuras às escondidas dos adultos?

A gente que adota atitudes que mais parecem próprias de malfeitores que atacam pelas costas e se esgueiram furtivamente pelas traseiras?

De facto, tudo isto revela irresponsabilidade, imaturidade e infelizmente maldade consciente!

Numa altura em que o desemprego sobe em flecha e em que os mais velhos estão sempre na primeira linha dos dispensáveis, fechar-lhes mais uma porta para a resolução dos seus problemas é, para além de uma estupidez técnica, de uma crueldade e de uma insensibilidade inqualificáveis!

Numa altura em que é feito um orçamento retificativo, numa situação social tão difícil e excecional como a que vivemos fica claro que o reforço dos meios para a Segurança Social não é prioridade para este Executivo, ao contrário da atitude que tem para com a Banca que tem tido toda a disponibilidade do Governo Português para ver reforçada a sua sustentabilidade!

O reforço de verbas orçamentais para pagamento de pensões aos bancários deve-se apenas à incompetência na elaboração do orçamento para 2012, a mais um lapso do Ministério das Finanças e não a um qualquer impulso governamental em prol da justiça social.

Se depois de quase um ano no poder, houvesse ainda algumas dúvidas, ficaria agora perfeitamente clara a perspetiva deste Governo sobre os mais desprotegidos e a que ponto pode chegar a mesquinhez da sua atuação!

Na verdade, este Governo e este Presidente comportam-se como aqueles caseiros a quem se entrega uma propriedade para cuidar e que pouco tempo depois começam a atuar como se a propriedade fosse deles!

Para se exercer o Poder é indispensável que se possua uma estrutura moral e de carácter que evite que o deslumbramento do mando não suba à cabeça e origine comportamentos perturbados e irracionais.

Esta atitude de tomar uma medida errada e injusta à socapa, fazendo coincidir a sua divulgação pública com uma quinta-feira santa, para que o seu impacto e conhecimento sejam menorizados, mostra que os atuais responsáveis políticos têm perfeita consciência da gravidade do mal que estão a fazer aos cidadãos, mostra que não se importam com o seu próprio Povo e evidencia que não possuem as características mínimas de maturidade e sentido de responsabilidade para ocuparem os lugares para que foram investidos!
 

domingo, fevereiro 05, 2012

The Star is Back...

Drogas, álcool, dramas passionais, escândalos financeiros, maridos homossexuais, um talento excepcional… Bom… Judy Garland voltou…




Não voltou através da série de filmes Andy Hardy que eu vi na minha infância e que estiveram para os adolescentes de então, como a Partridge Family esteve para as gerações seguintes, ou mais tarde o Fame, ou actualmente o Glee, que tanto sucesso vai fazendo junto dos teenagers!




Voltou através da peça de Peter Quilter “O fim do Arco Íris”! E claro, que a receita de sucesso é precisamente a mesma que fez do filme sobre Edith Piaf um campeão de bilheteira: Acentuam-se os sinais de decadência física e mental, realçam-se as mudanças extremas de humor, estimula-se no espectador o sentimento de compaixão e coloca-se um conjunto de canções magníficas, que não deixam ninguém indiferente!

Explorada cruelmente durante toda a sua vida,  serve agora de galinha dos ovos de ouro para empresários teatrais de todo o mundo! É a sina de Garland mesmo após a sua morte!

Estreada primeiro em Sidney há já seis anos, foi-o mais recentemente em Londres e depois em mais de 30 cidades de todo o mundo, incluindo Lisboa desde a semana passada. Tem sido um êxito em toda a parte. Na Broadway estreará em Março com a atriz protagonista da capital inglesa.


Não vi ainda a peça e não vou portanto pronunciar-me sobre ela. Apenas realço o facto de que em Londres, Sidney, Madrid ou Rio de Janeiro as atrizes escolhidas para protagonista serem bastante experiente e com uma idade aproximada à da personagem, ao passo que em Lisboa a escolhida por La Féria é a jovem cantora e atriz Vanessa com cerca de 30 anos! E confesso, que esta aposta arriscada me faz sentir bastante curioso…!

Mas do que trata a peça? O enredo é completamente ficcionado, tomando como base a estadia de Judy Garland na capital britânica, seis meses antes de morrer! Estava-se no final de 1968, e as cenas passam-se num quarto do Savoy, onde efetivamente esteve hospedada e no Talk of the Town onde se apresentou!

Nessa altura Judy já estava bastante doente, com um cancro no fígado e mantinha-se dependente de vários medicamentos e do álcool. Mantinha igualmente inalterada a sua energia em palco e a sua vontade de viver.

 Entram nela três personagens: Duas reais, a de Judy e a do seu noivo e futuro marido Mickey Deans (um gerente de um bar gay de Nova Iorque, muito mais jovem que a cantora) e uma personagem ficcionada, a do pianista homossexual Anthony Chapaman.

Aliás, a relação de Judy com o mundo gay não aparece na peça por acaso, já que é uma das características mais marcantes da sua vida e da sua carreira. A comunidade gay idolatrava-a e três dos seus maridos eram homossexuais (o último inclusivé, com quem contraiu matrimónio apenas 3 meses antes de falecer).



Com Vicente Minnelli, o seu segundo marido, o casamento acabou quando Judy se apercebeu, durante as filmagens do filme "O Pirata dos meus sonhos" que o marido estava mais interessado em Gene Kelly do que nela. Este facto, levou-a à primeira tentativa de suicidio!



Com Mark Herron, que foi o promotor de uma complicada digressão pela Austrália, ela arriscou o casamento, mesmo sabendo que ele, na altura,  vivia com outro homem. O matrimónio acabou quando ela o apanhou na cama com o jardineiro e correu atrás dele de facalhão em punho! Judy tinha azar quer com os maridos, quer com os empregados!



Mas a história de casamentos com gays na familia já era antiga pois o seu pai, também ator e cantor, era igualmente homossexual e por causa dessa situação foi mesmo obrigado a sair com a mulher e filhas da terra onde viviam para evitar um escândalo de grandes proporções!

E se este tipo de situações já era antigo na família, a tradição manteve-se para as gerações mais novas, um "protegido" de Judy, o cantor e compositor de sucesso Peter Allen, também homossexual, acabou por tornar-se no primeiro marido da sua filha Liza Minnelli...

Entretanto, regressemos à sua apresentação na prestigiada “Talk of The Town” (que não era nenhuma boite de quinta categoria, como refere o programa da peça aqui em Lisboa) e que era aguardada pelo público londrino com enorme expetativa pois, devido ao seu estado de saúde, tanto poderia corresponder a apenas uma noite, como prolongar-se pelas cinco semanas previstas.

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E, de facto, Judy, após uma gloriosa noite de estreia, com Ginger Rodgers e Zsa Zsa Gabor a assistir entusiasmadas, conseguiu cumprir integralmente o seu contrato e ainda fazer uma digressão pela Suécia e pela Dinamarca, até Março de 1969 !

Judy, que morreria em 22 de Junho de 1969 de uma dose excessiva de um medicamento para dormir chamado Seconal, apesar de doente e precocemente envelhecida, conseguia ainda arrebatar o público.

É de uma das suas atuações no TALK OF THE TOWN o seguinte registo audio:


  

Judy Garland foi lançada pela sua mãe aos 3 anos na vida artística e aos dez anos surpreendeu Louis B. Mayer e toda a MGM com o seu timbre já de mulher adulta e enorme amplitude vocal!

Sua mãe aceitou um contrato em que Judy era paga miseravelmente, mesmo quando dava milhões de dólares a ganhar aos Estúdios.

O seu salário no Feiticeiro de Oz era pouco superior ao valor que era pago aos donos do cãozinho Tótó que era seu companheiro no filme e na série de nove filmes Andy Hardy nunca ultrapassou os 350 dólares semanais!

A MGM e a mãe dominavam a sua vida por completo, fazendo-a trabalhar como uma escrava e obrigando-a a tomar anfetaminas para emagrecer, o que fazia com que tivesse que tomar depois barbituricos para dormir, e de madrugada estimulantes para que acordasse e conseguisse trabalhar sem descanso mais de14 horas por dia!

Ao contrário das restantes estrelas da MGM, Judy mais talento do que beleza e Louis Mayer chamava-lhe a "corcundinha". Era também mais gordinha do que deveria, por isso apertavam-na com cintas e  ligaduras para que parecesse mais esbelta.

Foi assim aliás que filmou o "Feiticeiro de OZ" e alguns outros filmes. Para além de lhe prejudicarem a saúde para sempre, eventualmente por ignorância, provocaram-lhe deliberadamente danos irreversíveis na sua autoestima, para mais facilmente a controlarem.

Ora, para além desta loucura de vida para uma criança, a partir de certa altura Louis B. Mayer, que tinha habitualmente na sua cama Lana Turner e Deanna Durbin, com a conivência da sua própria mãe de Judy, fazia-lhe um insistente e chantageante assédio sexual, que ao não ter tido sucesso, levou o dono da MGM a fazer tudo para que a vida dela fosse um inferno, pondo inclusive os seus amigos da Máfia a invadir-lhe a casa e fazer-lhe constantes ameaças de morte.

Aos 18 anos e com este terrível ambiente, Judy optou por abandonar a sua mãe, casando com David Rose, bastante mais velho do que ela, o que momentaneamente a fez sentir-se mais segura.



Contudo, um ano depois, ao ficar grávida, Louis Mayer, a sua mãe e até o seu próprio marido, impuseram-lhe que fizesse um aborto para não prejudicar o ritmo de trabalho a que estava obrigada contratualmente!

Judy sentiu-se então mais sozinha do que nunca e terá ficado traumatizada para sempre! O casamento acabou, tal como o relacionamento com a sua mãe e, juntamente com as drogas de que dependia, veio o álcool… para ficar!



Tendo passado a vida encerrada em estúdios a filmar ou preparar cenas ou concertos, toda a sua vida financeira era dirigida por terceiros.

Primeiro pela sua mãe, que se aproveitou ao máximo do dinheiro de Judy e depois pelos seus maridos..

Muito do que ganhou escapou assim ao seu controle, o que fez com que fosse apanhada de surpresa pelas autoridades fiscais, a meio da década de 50, com uma divida de muitas centenas de milhares de dólares relativos a impostos não pagos em 1951 e 1952, anos que se seguiram à tumultuosa separação entre Garland e  Minnelli.

Nessa altura, quem geriu as suas finanças foi David Begelman, que era seu agente artístico e de outras figuras importantes do showbusiness americano como por exemplo Marilyn Monroe, Woody Allen, Richard Burton, Peter Sellers, Gregory Peck, Henry Fonda e Rock Hudson.

Veio-se a saber posteriormente que fora Begelman que desviara o seu dinheiro e que inclusive lhe extorquiu largos milhares de dólares dizendo-lhe que a Máfia possuía fotos da cantora a entrar inconsciente para o Hospital. Essas fotos seriam enviadas para os jornais, caso Judy não pagasse o valor que pretendiam!

 Também esse dinheiro foi parar à conta de Begelman, sendo a chantagem da Máfia uma pura invenção sua em que Judy, credulamente, acreditou!

Estes factos, aliados ao prejuízo comercial do filme “A Star is Born” em que resolveu investir financeiramente (apesar da crítica o considerar uma obra-prima do cinema) tornou-a cada vez mais instável psicologicamente e vulnerável aos medicamentos e à bebida.


Os concertos quer nos Estados Unidos quer em Londres e os discos, acabaram por ser a sua principal fonte de sobrevivência! Quando em 1964 lhe foi oferecido pela CBS o contrato mais valioso de sempre da televisão americana, de 24 milhões de dólares, para fazer várias temporadas de um show televisivo semanal, Judy pensou que os seus problemas ficariam resolvidos.



No entanto, apesar do show ser magnifico e ter ganho um Emmy para o melhor programa musical da televisão, a partir de certa altura não conseguiu manter as audiências iniciais, pois a concorrente NBC, lançou precisamente no mesmo horário a série Bonanza! A consequência disso foi o cancelamento do Judy Garland Show logo no final da primeira temporada!.

 

Para Judy Garland este foi mais um golpe nas suas finanças e foi sobretudo um golpe profundo do na sua já muito débil  auto-estima!

E para isso contribuíram igualmente as dificuldades que ía encontrando no mundo do cinema!

Depois de, ao fim de 15 anos, se ter libertado das amarras que a prendiam à MGM, nos anos seguintes, apesar de ser contratada para vários filmes acabaria por ser substituída devido a problemas derivados ao consumo excessivo dos medicamentos!

Apesar disso, os seus poucos trabalhos no cinema acabariam por ser reconhecidos com duas nomeações para os Oscars, que contudo nunca viria a ganhar:

Em 1954 com “A Star is Born” (com o qual ganhou no entanto um Globo de Ouro para melhor atriz)!





E em 1961 com “Julgamento de Nuremberga”!



O avançar da idade, o que para as atrizes faz escassear os papéis no cinema, e o facto de ser pública a sua dependência de medicamentos e de álcool foram-se tornando motivos de desinteresse e desconfiança dos realizadores…

Conta Patty Duke uma das protagonistas da película “O Vale das Bonecas”, que Judy foi contratada pela 20th Century Fox para esse filme pois, não só algumas personagens eram inspiradas em vários aspetos da sua vida, mas também porque o papel que lhe estava destinado era feito exatamente à sua medida de atriz e cantora, Foi portanto uma imposição do Estúdio, o que não agradou nada ao realizador Mark Robson.

No entanto, como Robson não podia dizer que não ao Estúdio, segundo Patty Duke, teve para com Judy um comportamento de absoluto desrespeito : Durante os testes de filmagem e de guarda-roupa mandava-a estar no Estúdio às 6h30 da manhã e punha à sua disposição todo o tipo de bebidas e nenhuma comida. Acabava por só a chamar ao começo da noite, quando tinha a certeza de que ela já teria bebido para além da conta!

Ao fim de algum tempo Judy deixou de aparecer todas as madrugadas e sempre que ele percebia que ela não estava, chamava-a de forma a que todos se apercebessem da sua ausência! Acabou por ser despedida por não respeitar os horários e substituída por Susan Hayward.

Logo no início deste post fiz uma referência a série juvenil Glee onde aparece uma personagem homossexual, cuja foto apresento a seguir e, a esse propósito, volto a reportar-me a alguns factos que estão intrinsecamente ligados à vida de Judy Garland


 Se Judy tinha problemas com os Estúdios de cinema, a verdade é que no campo musical ela tinha imenso sucesso que fazia encher as salas de concerto e vender os seus discos. Tinha no entanto que defrontar-se com críticas ferozes da direita conservadora, que afirmava que os seus espetáculos estavam sempre cheios de homossexuais ou, como dizia William Goldman, no seu livro “The Season”: “de rapazes com ar delicado vestindo calças muito justas”!!!

A revista Time criticou-a duramente, pois devido a esse facto considerava os espetáculos de Judy  impróprios para famílias!



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Em entrevista à CBS ela teve que se defender dessa acusação dizendo apenas que cantava para pessoas, fossem elas o que fossem.

Contudo, a partir daí resolveu passar a atuar também em night-clubs gay, numa época em que a homossexualidade era violentamente reprimida pela polícia!



E foi num desses locais que veio a conhecer o seu quinto marido! Talvez por essa atitude amistosa face aos homossexuais,  a expressão “amigo de Dorothy” tornou-se nos anos 60 o nome de código que substituía a expressão “homossexual”.

Dorothy era, como se sabe, a personagem interpretada por Judy no Feiticeiro de Oz, onde cantava a célebre canção “Somewhere over the rainbow”. E do mesmo modo as cores do arco íris (rainbow) vieram a tornar-se a imagem símbolo daquela comunidade!

Em simultâneo, aquando das rusgas a esses bares, sob o pretexto de venderem bebidas sem autorização (o município não lhes concedia licença de venda para bebidas alcoólicas) os gerentes, ao ser-lhes pedida a identificação, afirmavam sempre chamar-se “Judy Garland”.

 

Judy de quem John Kennedy foi um amigo constante, recebia inúmeros telefonemas do Presidente que invariavelmente lhe pedia que cantasse algo e foi desde criança até à sua morte um dos talentos musicais mais marcantes do século XX.

A sua vida terminou de uma forma triste e muito precocemente e, como se percebeu desde logo, deixou um  vazio imenso



 

Milhares de pessoas mobilizaram-se para as cerimónias fúnebres, prestando-lhe uma homenagem e que parou Nova Iorque e que depois culminou na chamada rebelião gay de Stonewall!




Feito o funeral e colocado o seu corpo numa campa provisória (uma gaveta aberta com o caixão exposto ao tempo), ficaria abandonada mais de um ano até que o jornal National Enquirer noticiou o assunto que se tornou um escândalo público.

Filhos e marido fizeram comunicados: Os filhos pensaram que o marido trataria do túmulo de Judy e o marido, que se queixava de não ter dinheiro, afirmava-se convencido de que os filhos já teriam tratado do assunto!

Finalmente, depois deste embaraço público da família, o corpo de Judy acabou por ser transladado para um túmulo definitivo, simples mas decente!



Espero que apesar do aproveitamento desta figura trágica, mas fascinante, que foi Judy Garland a peça de teatro “O Fim do Arco-Iris” lhe faça a devida justiça!

domingo, janeiro 22, 2012

Etta James partiu

A poucos dias de completar 74 anos Jamesetta Hawkins, mais conhecida por Etta James faleceu.
Padecia de Alzheimer há cerca de dois anos e no final do ano passado foi-lhe diagnosticada uma forma de leucemia muito agressiva. Nascida em Los Angeles, começou a cantar aos 5 anos na Igreja Batista frequentada pela sua ama e aí foi adquirindo treino vocal. Nunca conheceu o seu pai e a sua mãe, que era pródiga em se ir apaixonando por vários homens, foi deixando-a entregue a sucessivas amas que felizmente perceberam os seus dotes vocais e lhe proporcionaram o contacto com o mundo da música. Aos 14 anos formou um grupo musical amador "The Peaches" que, ao fim de algum tempo, conseguiu gravar um disco que surpreendentemente viria, em 1955, a chegar ao primeiro lugar do top de R&B, com a canção "Dance with me, Henry", a qual 30 depois, seria de novo relançada ao ser incluída na banda sonora de "Regresso ao Futuro". Nessa mesma altura acabaria, ainda adolescente, por seguir os passos da sua progenitora, tendo-se igualmente tornado mãe solteira. Isso, contudo não a impediria de continuar a cantar tendo em 1960 assinado um contrato com a editora Chess Records e obtido um enorme sucesso com a canção "At Last", que passou a ser um "tema obrigatório" nas festas de casamento e de noivado nos Estados Unidos! Vêmo-la aqui, cantando esta canção, numa das suas últimas atuações: Entretanto em 2008 no filme Cadillac Records, que conta a história da ascenção e queda da "Chess Records", Etta James aparece retratada por Beyoncé, havendo contudo no argumento uma série de inexatidões que muito desagradaram à cantora que apesar disso, nessa altura, se conteve nos comentários. No entanto a "gota de água" surgiu quando a mesma Beyoncé foi convidada para a festa de investidura de Barak Obama para interpretar a canção que o Presidente revelou ser a sua preferida: "At Last"! Aí a polémica estalou com Etta James, em público e em várias ocasiões a não poupar nem o Presidente Americano, nem Beyoncé dizendo que nem um nem outro prestavam e... outras coisas bem piores...! O que nem o público, nem a imprensa sabiam é que nessa altura Etta James já estava seriamente afetada pela doença de Alzheimer. No entanto Beyoncé, que estava a par da situação, as únicas respostas que lhe deu publicamente foi continuar a cantar as suas canções, homenageando-a sempre que possível! Etta James que ganhou cerca de 30 prémios, entre os quais seis Grammys, teve uma vida complexa e dificil! O uso de drogas levou-a algumas vezes até à prisão e a entradas e saídas consecutivas de centros de reabilitação! Foi contudo, uma das cantoras de jazz mais populares de sempre nos Estados Unidos, tendo gravado a maior parte dos standards do jazz e do R&B e chegando mesmo a gravar um CD nos últimos meses de vida, já bastante debilitada. Esse disco "The Dreamer" é a sua despedida assumida, um verdadeiro canto do cisne, onde se percebem quer as suas qualidades, quer as fragilidades impostas pela sua saúde! Foi posto à venda em Agosto passado! Aqui vai uma das canções desse disco de que mais gosto: Se Bryan Adams terá exagerado quando disse que Etta tinha a melhor voz do mundo, o certo é que ela e o seu repertório influenciaram vários cantores quer nos Estados Unidos, quer no Reino Unido: De Janis Joplin a Christina Aguilera, de Rod Stewart a Amy Winehouse, Joss Stone e Adele. Mas, o mais curioso é que, apesar de todo o reconhecimento pelos seus pares, a sua projecção à escala mundial, fora dos Estados Unidos e fora dos círculos do jazz, só aconteceu em meados da década de noventa devido a... um anúncio da Coca-Cola Diet: Mas o melhor mesmo é ouvir a canção completa, que penso eu ser a melhor forma de homenagear esta grande cantora que agora nos deixou:

sexta-feira, janeiro 20, 2012

Elis - Cadeira Vazia

Passaram ontem 30 anos que Elis nos deixou. A sua cadeira ficou para sempre vazia!

domingo, janeiro 15, 2012

Os novos tenores

Quando se fala em tenores a maioria das pessoas tem ainda muito presentes na memória Pavarotti, Carreras e Domingo!


A geração que se lhes seguiu apesar da sua qualidade e prestígio no mundo operático ficou ainda na sombra daqueles 3 nomes, que serão difíceis esquecer.

Falo, por exemplo, de José Cura, Marcelo Alvarez, Roberto Alagna e Rolando Villazon que, por razões várias, não conseguiram a projeção dos anteriores!

Chegou entretanto uma nova geração que possui as qualidades vocais e interpretativas para chegar ao “grande público” tal como os “três tenores” conseguiram.

Para já, esses “jovens” já se consagraram nos palcos das principais salas de Ópera do Mundo. Veremos o que o futuro tem reservado às suas carreiras e ao contributo que elas conseguirão dar à divulgação deste género musical!

Deixo aqui os nomes dos que estão a conseguir maior notoriedade, algumas breves notas biográficas sobre eles e, mais importante ainda, vídeos com atuações, onde se poderá avaliar a qualidade das suas vozes!

Começo pelo mais jovem, Joseph Calleja, que nesta semana completará 34 anos!



De origem maltesa, começou a cantar aos 16 anos e aos 21 anos já tinha vencido dois concursos de canto internacionais. O seu CD “O tenor maltez” lançado há seis meses chegou ao segundo lugar dos discos mais vendidos na Alemanha e ao primeiro lugar da US Billboard Classical Traditional.

Quer pela crítica europeia, quer pela norte-americana é considerado um dos mais promissores tenores do século XXI, causando uma impressão tal que chegam a considerá-lo como o sucessor dos legendários tenores Björling, Gigli, e inclusive de Caruso!




Seguidamente refiro o italiano Vittório Grigolo, talvez o mais mediático de todos os cantores da sua geração, que completará no próximo mês 35 anos.





A sua notoriedade, em abono da verdade, deve-se mais ao facto de ter sido um dos elementos fundadores do agrupamento Il Divo que entretanto abandonou, do que à sua superioridade vocal face aos restantes.

Iniciou-se a cantar aos quatro anos e aos nove anos, numa consulta de oftalmologia, enquanto esperava, ao ouvir alguém cantar noutro apartamento do edifício, resolveu brindar todos os pacientes do consultório com a sua versão da Avé Maria de Schubert, deixando toda a gente boquiaberta, incluindo o pai do oftalmologista que se encontrava presente e que lhe conseguiu uma audição para o coro infantil da Capela Sistina, tendo-se desde logo tornado seu solista!

O seu estilo de actuação (os críticos chegam a dizer que parece um cachorro irrequieto em busca permanente de atenção), o seu primeiro álbum (In the Hands of Love) feito no estilo Pop/Opera, o ar de artista rock que exibe no dia-a-dia e a sua participação em corridas de automóveis são características que lhe tem trazido alguma notoriedade, mas as suas capacidades vocais incomuns naturalmente que também têm ajudado e têm sobretudo contribuído para dissipar o habitual preconceito que existe no mundo da Ópera perante este tipo de ecletismo.

Entretanto, se da sua apresentação e sucesso nos principais palcos do mundo (foi o tenor mais jovem que alguma vez pisou o alla Scala de Milão) tem resultado uma opinião unânime sobre as suas potencialidades, é verdade também que é comum a ideia de que ainda tem que amadurecer mais um pouco para chegar ao seu melhor…




Refiro agora o único dos cantores que já tive oportunidade de ver ao vivo (quase há dez anos), trata-se de Juan Diego Florez.



Tendo completado na semana passada 39 anos de idade, este cantor natural do Perú, começou muito jovem por se interessar pela música ligeira e pela música tradicional do seu País. Contudo, ainda adolescente tornou-se membro e solista do Coro Nacional do Perú.

Aos 20 anos partiu para os Estados Unidos onde estudou com Marilyn Horne e participou em produções estudantis, tendo-se estreado 3 anos depois profissionalmente em Itália.

Pavarotti, extasiou-se de tal forma com a sua voz que o considerava como o seu sucessor natural.

Florez, com a sua interpretação “Ah mes amis” da La Fille du Régiment de Donizetti, terminou com mais de setenta anos de tradição de não encores no “alla Scala” de Milão, ao conseguir os nove dificílimos Dós de peito que essa ária exige, que foram seguidos de uma prolongada ovação do público e exigência de regresso ao palco.

Ele mais tarde repetiria este feito no Metropolitan Opera House em 2008, o primeiro cantor a quem foi exigido um encore desde 1994.

Refiro que já em 2003 ele nos havia maravilhado em São Carlos com esta e outras das suas interpretações.




Por último, trago aqui um cantor cuja voz acho extrordinária a todos os níveis. Trata-se do cantor alemão Jonas Kaufmann.



Com 42 anos de idade e tendo passado já por vários problemas de saúde, primeiro na própria voz em 1995, e mais recentemente de ordem oncológica,  foi considerado em 2011 o cantor do ano nos Estados Unidos.

Possui uma amplitude de voz que simultâneamente tem a sombra e a profundidade dos barítonos, mas com a extensão que lhe permite chegar às notas mais agudas, sendo por isso mesmo considerado por muitos como o sucessor natural de Plácido Domingo, que é, aliás, um dos seus mais entusiasticos admiradores.

Começou os seus estudos musicais aos 8 anos e, após se ter formado em Matemática, aos 24 iniciou a sua carreira profissional na Ópera, tendo percorrido a partir daí os principais palcos do mundo, com um reportório que vai de Verdi a Wagner, demonstrando uma versatilidade que, de facto, também só é comparável à de Domingo.



Espero que esta minha seleção de árias tenha sido interessante e esclarecedora do meu entusiasmo por estes novos excelentes representantes do canto lírico!

quinta-feira, janeiro 12, 2012

A dignidade dos professores perante a indiferença das autoridades

Foi no Brasil, na cidade de Natal, que aconteceu este discurso simples, genuíno e frontal, perante as autoridades que ficaram sem palavras...

Foi no Brasil, mas também aqui, em Portugal,  a Escola Pública sofre com idêntica falta de investimento, com a precaridade do vínculo dos professores que não só não veem respeitada a sua nobre e importante função, mas também não possuem as condições adequadas a um ensino de qualidade.

Para que melhor se entenda a emotividade do discurso desta jovem professora, talvez seja bom saber que no Brasil a proporção do salário de um professor para um deputado é de 1 para 30, e que p.e. dentro das regras em que se movem, os professores brasileiros estão proibidos de se alimentar nas cantinas escolares, pois isso é considerado desvio de bens.

Penso que política, na sua mais pura natureza, é isto que esta professora faz: Falar dos problemas concretos da Pólis, não de meras abstrações, ou de estatísitcas, onde as pessoas são menos importantes que os números.

E uma política corajosa, pois fala cara a cara com quem tem o poder para mudar as coisas e não o faz, porque a verdade é que quer no Brasil, quer em Portugal a Educação não é, de facto, uma prioridade!


Vale a pena ver! Esta jovem professora é um exemplo, para os seus colegas, para os seus alunos e, no fundo, para todos nós!

domingo, janeiro 01, 2012

Feliz Ano Novo

Enquanto que a RTP nos brinda com o prenúncio do que irá ser 2012 para os portugueses, transmitindo uma coisa onde aparece um senhor de capachinho chamado Tony Carreira, pergunto-me a mim próprio porque é que uma estação de serviço público que quer apostar na música ligeira portuguesa não mostra algo feito pelo André Sardet, pelo Amor Electro, pelos Mesa, pelo Rodrigo Leão… etc, etc,etc…

Entretanto, enquanto que Elisabete Matos se prepara para dentro de poucos minutos entrar no palco do São Carlos, pergunto-me igualmente porque é que a cantora lírica com maior projecção no mundo não é suficientemente divulgada ao público português!

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Do mesmo modo também me questiono porque as únicas vozes líricas que alguma vez foram escolhidas para a fase final do mais importante Concurso de canto do mundo, o Cardiff Singers of the World, são também ausentes permanentes do serviço público de televisão: Falo de Ana Paula Russo (aqui cantando "una voce poco fa")



e de Dora Rodrigues (aqui interpretando a ária que apresentou no próprio concurso "Meine Lippen sie kussen so heiss")!



Pergunto-me, sabendo qual seja a resposta, mas mesmo assim deixo aqui a questão que há alguns anos me deixava perplexo, mas que hoje em dia me deixa simplesmente desiludido e com vontade de emigrar!

Termino, é claro, desejando a todos um 2012 com muita saúde, já que desejar um bom ano à maioria dos portugueses é quase anedótico, porque todos já sabemos que o ano irá ser possívelmente ainda pior do que as nossas programações televisivas têm sido!

domingo, novembro 27, 2011

FADO



Obtido o reconhecimento do Fado como Património Imaterial da Humanidade, encaro este género musical, que não é particularmente rico, como algo que todos os portugueses sentem, com maior ou menor intensidade, enquanto elemento de pertença cultural ao nosso País, mesmo que não gostem de o ouvir.

Quando era muito jovem sentia-me tão distante do Fado, quanto o Fado me parecia próximo de um regime político que eu não conseguia respeitar nem suportar.

Contudo, ao crescer, apercebi-me que o Fado era bem mais do que um instrumento utilizado por um regime opressivo para anestesiar as consciências, era algo que estava muito fundo na nossa cultura e forma de estar!

Assim, comecei a olhá-lo de uma outra forma, quando ouvi as inesquecíveis interpretações de Amália sobre a lírica de Camões e quando, ainda adolescente, me vi a milhares de quilometros de casa, num outro continente! Aí a recordação de alguns fados fez-me entender melhor a minha origem e que marcas culturais eu trazia comigo!



Percebi então que o Fado fazia indelevelmente parte das minhas raízes! Não sou, apesar disso, um adepto fervoroso deste género musical, mas não deixo de reconhecer a sua importância e, em muitos casos, a sua elevação estética e gosto mesmo muito de alguns fados embora ache outros, talvez a maioria, algo de muito pobre e chato (como diz o célebre “Marinheiro Americano” da magnifica Hermínia Silva) e até mesmo patético!



E se gosto de alguns fados é porque nesses encontro um apelo emocional muito interessante, mais pelo génio de alguns dos seus intérpretes (Amália e Carlos do Carmo, principalmente) e pela inovação que conseguiram impor, do que pela manutenção da suas tradições mais puristas, que tenderiam a levá-lo à mumificação!



É que na verdade existem, desde que Amália começou a quebrar tradições, não se limitando às melodias tradicionais e mesmo à sua lingua materna, duas formas de olhar o Fado bem diversas!



Nesta distinção da UNESCO não consigo perceber pois o que é que exactamente ganhou, se a corrente minoritária que vê o Fado enquanto género musical que evolui, se a corrente maioritária nos meios fadistas que pretende ver o Fado como peça histórica conservada em formol, se simplesmente a enorme qualidade técnica que houve na elaboração deste projecto.

Seja como for, a equipa que o elaborou é merecedora das maiores felicitações!

Quanto ao Fado em si, creio que não ficará nem melhor nem pior, talvez consiga entretanto mais algumas linhas na Imprensa internacional dos próximos dias e haja mais alguns amantes de World Music curiosos sobre ele! Uns gostarão, outros não, como é natural!



Penso que esta candidatura pretendeu sobretudo dar ânimo ao ego nacional, mais do que obter qualquer coisa de substancial, mas a vida é mesmo assim... Os mexicanos que também obtiveram o reconhecimento dos seus Mariachis fizeram entrar na sala um grupo de músicos que exibiram a sua arte, os portugueses, que não tinham músicos na sala puseram o telemóvel de António Costa com o “toque” do “Estranha Forma de Vida” que estava carregado! Estranha, a nossa forma de vida, mas que afinal se tornou Património Imaterial da Humanidade!

domingo, maio 08, 2011

Regresso temporário para uma modesta opinião, possivelmente minoritária

Faço hoje um breve retorno à blogosfera, sendo que possuo uma quase impossibilidade de vir até aqui regularmente

Neste período em que estive ausente a crise ganhou força e tornou-se tema obrigatório!

Todos os dias, em todos os meios de comunicação social, há análises e comentários, certamente mais interessantes e melhor informados do que os meus poderiam ser, pelo que hoje limitar-me-ei falar de um "fait-divers"!

Foi recentemente produzido e começou a ser divulgado um vídeo, julgo que patrocinado pela Câmara de Cascais:



Acho-o curioso, vejo o entusiasmo que suscita, mas sinceramente não o partilho, pois a verdade é que o acho tristemente lamentável!

Como em todos os Países do mundo existem grupos radicais e gente parva. É o que acontece na Finlândia com o chamado “Partido dos Verdadeiros Finlandeses”.



Tomar a parte pelo todo, que é o que está implícito no vídeo, é algo pouco sensato e espero que não seja uma prática que se generalize, pois lembremo-nos que o nome de Portugal estará nos próximos dias associado mediaticamente a figuras como o “Jel” e o “Falâncio”!



É verdade que em 1940, após a “Guerra de Inverno” com a URSS, a Finlândia foi ajudada por vários países ocidentais, nomeadamente por Portugal, com um carregamento de 19902 latas de sardinha, ananases, cobertores e cereais, cujo valor total a preços actuais corresponderia a cerca 200.000 Euros. Um esforço simbólico, mas significativo, de um povo que era e ainda é o mais pobre da Europa Ocidental.

Não creio que o espírito de actos humanitários do povo português, feitos com genuína generosidade, possa admitir que eles venham a ser transformados posteriormente em instrumentos de arremesso para serem jogados à cara de quem foi ajudado.

Vir lembrar o que aconteceu, com o intuito de "cobrar favores” é algo de demasiado deselegante e, digamos assim, até mesmo “rasca” (para utilizar um termo agora em moda), sendo no meu entender ofensivo para a memória de quem no século passado se empenhou em ajudar com genuino afecto, ainda que modestamente, um outro povo.



Somos um País que deu vários contributos para a humanidade e que o mundo conhece. Não é preciso andar a lembrar o que de positivo fizemos para sugerir uma eventual superioridade ou grandeza histórica.

A grandeza de Portugal não precisa de spots publicitários!

Spots onde há, para além do mais, o mau gosto de fazer uma comparação numérica entre os judeus salvos por Aristides Sousa Mendes e os salvos por Oscar Schindler, em paralelo com a qualidade futebolistica do Ronaldo português com o Ronaldo brasileiro.

Spots onde há o ridículo de colocar entre as nossas proezas ciêntificas a invenção do pastel de nata e o absurdo de, neste contexto, referir que no século XVIII o rendimento do Rei de Portugal era 30 vezes superior ao do Rei de Inglaterra.

Será que quem imaginou este "desfile" das nossas "grandezas" não pensou no risco de nos virem recordar dos nossos muitos "pecados":

O imenso tráfico esclavagista que fizemos durante séculos, a tenebrosa Inquisição com que o Estado Português conviveu de mãos dadas, a expulsão dos judeus, cujo reconhecimento como cidadãos nacionais de pleno direito fomos os últimos a concretizar na Europa (já no século XX) uma feroz ditadura de 48 anos, a anacrónica teimosia colonial que tantos milhares de mortos custou, a maior taxa de analfabetismo da Europa Ocidental, etc, etc….

O que penso que poderemos fazer, caso a Finlândia, venha a ser um entrave à concretização do empréstimo ao nosso País, é procurar activamente boicotar os produtos finlandeses, nomeadamente a NOKIA, aqui e em toda a parte onde possamos ter alguma influência.

Quanto a acções como esta, sinceramente creio que só produzirão o efeito contrário ao pretendido. A mentalidade que lhe está subjacente revela que há aqui gente algo confusa quanto à importância que alguns créditos históricos têm relativamente ao seu crédito financeiro para o futuro !

sexta-feira, outubro 01, 2010

FRANGO

Vou partir dentro de poucas horas para uma breve estadia na cidade de Valência, a terceira cidade de Espanha.

E estando aqui tão perto é para mim estranho que não seja mais conhecida no nosso País aquela que é considerada a “voz de Valência”. Falo de Francisco, de seu nome completo Francisco González Sarriá. Uma voz verdadeiramente excepcional.



As versões mais populares e conseguidas dos Hinos da Comunidade de Valência e das festas da cidade as “Fallas” estão na sua voz.

Não será apenas Francisco que é pouco conhecido em Portugal, o mesmo acontece com a maioria dos intérpretes espanhóis que infelizmente desde os anos 70 deixaram de passar nas nossas rádios e televisões.

Bom, mas a verdade é que mesmo em Espanha Francisco, apesar de ser muito conhecido e prestigiado, não é propriamente um artista comercializável.

Vindo de uma família muito pobre e tendo uma voz poderosíssima o seu caminho artístico iniciou-se na música ligeira, quando seria óbvio que estava talhado para uma carreira no canto lírico.

Acabou assim por lhe acontecer o inevitável, no mundo da música popular:

Foi quase sempre um peixe fora de água, com poucos autores capazes de escrever para a sua voz. Uma voz que, infelizmente, para editoras, autores e boa parte do público parece ter surgido já fora tempo!

Vejamo-lo aqui no inicio da sua carreira, com pouco mais de 20 anos e uma voz excepcionalmente madura para a sua idade, numa altura em que já usava o seu nome próprio “Francisco” como nome artístico, isto após ter iniciado a sua carreira sob o nome de FRANGO, nome retirado das iniciais do seu nome próprio e do seu apelido paterno.



Apesar de não conseguir ser popular junto do público da sua própria idade e de vender poucos discos, em regra acabava por vencer todos os concursos para cantores, sendo igualmente o único artista a ganhar por duas vezes o Festival da OTI…. O que, diga-se de passagem, não é propriamente uma credencial de peso.

Remeteu-se pois a cantar versões de canções de outros artistas, normalmente bem escolhidas, mas tendo com isso sucessos limitados, em segunda mão, digamos assim.

Quando, após anos de estudo com Monserrat Caballé, tornou-se num dos seus alunos preferidos, acedendo então ao canto lírico, ao lado da própria Caballé em vários recitais por toda a Espanha.

Contudo,o preconceito do meio operático e do respectivo público, nunca deu as oportunidades necessárias a este cantor que vinha da música ligeira, fechando os olhos às suas qualidades.

Este acolhimento frio retirou-lhe a vontade de prosseguir por esse caminho, aonde apenas ocasionalmente faz incursões.

É um daqueles casos de artista que levará toda a vida a ser considerado como uma promessa para um futuro que nunca mais chega. Um artista com muito prestígio, que é aplaudido de pé sempre que actua, mas que não vende, nem é considerado como estando na música ligeira ou no campo clássico…

Acontece... Já aconteceu com outros cantores, desde Claudio Villa em Itália a Luis Piçarra em Portugal e é um desperdício!

Deixo estes dois vídeos, onde as suas qualidades como cantor são por demais óbvias e merecedoras de serem divulgadas no nosso País:





E até à segunda quinzena de Outubro!

terça-feira, setembro 21, 2010

Um dia

Há algo que têm em comum um vasto conjunto de personalidades públicas:

O actor Charlton Heston, protagonista de, entre outros de "Os 10 Mandamentos":




A anterior Monarca holandesa, a Rainha Juliana, cuja actuação pública e social foi sempre considerada exemplar:



O compositor Maurice Ravel, o autor do celebérrimo "Bolero" mas também, entre outras obras, da "Rapsódia Espanhola" e de "Daphne e Chloé" :




A fadista Lucília do Carmo, a inesquecível criadora de "Maria Madalena" e de tantos outros êxitos que imortalizam este género musical português:




O actor Charles Bronson, um dos principais actores de "Era uma vez no Oeste" e de muitos outros filmes de acção:




A escritora Enid Blyton, extraordinária autora de literatura infanto-juvenil, nomeadamente dos célebres livros dos "Cinco" e dos "Sete"




O ex-Presidente do Governo Espanhol Adolfo Suarez que ajudou o Rei Juan Carlos a fazer a transição pacífica do seu país para a Democracia.



O que possuem em comum todos eles, para além de se terem notabilizado pelas suas qualidades, é serem, ou terem sido, vítimas da Doença de Alzheimer, cujo o Dia Internacional se comemora hoje a 21 de Setembro.

A estes nomes poderíamos ainda acrescentar os de antigos primeiros-ministros britânicos como Wiston Churchill, Harold Wilson e Margaret Tatcher, o do Presidente americano Ronald Reagan, o dos realizadores Otto Preminger e Vicent Minnelli, o dos cantores António Prieto (que fez furor nos anos 60 com "La Novia" e "Quando calienta el Sol") e Perry Como, a voz inesquecível de "Try to Remember", "It's Impossible".



São milhões em todo o mundo e em Portugal estimam-se em cerca de 90 mil pessoas, as afectadas por esta doença, que apenas no ínicio do Seculo XX seria devidamente estudada pelo médico que lhe deu o nome. Foi, no entanto, uma doença que sempre existiu e relatos biográficos de pessoas que viveram antes dessa época, revelam já a existência de sintomas tal como hoje os conhecemos nesta doença!

Uma doença que não escolhe nacionalidades, classes sociais ou raças, mas de que só se ouve falar quando é tornado público que alguém muito conhecido foi atingido, como aconteceu com Rita Hayworth, o compositor Aaron Copland, ou o estilista Louis Féraud.



É terrivel, mas a verdade é que nenhum de nós está livre de vir a padecer desta tenebrosa doença, cujas causas se desconhecem e que se instala silenciosa e gradualmente, roubando a pouco e pouco o que distingue um ser humano de um irracional, alterando a personalidade por completo e impedindo até o próprio reconhecimento perante um espelho!

Uma doença degenerativa, irreversível e fatal que acaba por retirar do cérebro os comandos do andar e do falar, que faz esquecer o modo de engolir um alimento, que torna a pessoa completamente incontinente, colocando-a totalmente dependente, mesmo para os mais pequenos gestos do quotidiano, sugando toda dignidade que a vida humana tem de possuir e que, por isso mesmo se torna num inferno arrasador para o dia-a-dia de quem os ama.

Não havendo, no caso de Portugal, qualquer resposta institucional válida para apoiar doentes e famíliares, considero profundamente simplistas e lamentáveis, as afirmações de hoje do Presidente do Instituto de Segurança Social de Portugal, quando afirmou hoje genericamente que as famílias dos idosos que são abandonados nos Hospitais deveriam ser penalizadas criminalmente.

As coisas contudo são bem mais complexas do que este "responsável" afirma!

Eu próprio tenho em casa, a minha Mãe com uma situação de Alzheimer bastante avançada, pois como qualquer outro filho, pretendo adiar até ao limite o seu eventual internamento!

Ora, havendo um subsídio de dependência, para este efeito, foi atribuido pela Segurança Social esse apoio no montante de 94,77 euros, estranhamente o escalão mais baixo desse subsídio, como se a minha mãe não precisasse de apoio para todos os actos do seu quotidiano!

Contudo, só as despesas com medicação ascendem mensalmente a mais de 300 euros e dispendemos mais de um milhar de euros em apoio domiciliário especializado! Todas as consultas médicas têm que ser realizadas em casa, pagando em média 100 euros por consulta!

E não se pense que estas despesas libertam a família de trabalhos. Uma doença de Alzheimer tratada em casa é, pelo contrário, uma missão a tempo inteiro, complexa e desgastante quer física, quer psicológicamente! E, no meu caso, sinto que está longe de ser uma solução perfeita para a própria doente! É, no entanto, o mal menor que podemos ter!

Mas eu, apesar de tudo, até serei um previligiado!

Será que quem tem reformas e salários mínimos pode dar acompanhamento idêntico a uma doença tão exigente como é a Alzheimer? Obviamente que não!

Quando as coisas se tornam impossíveis de gerir em casa pela família, que alternativas tem quem não possui meios para suportar os apoios exteriores que são indispensáveis?

Na verdade, e na prática, é a Segurança Social Portuguesa que abandona os seus cidadãos e é ela em primeira linha que merece ser criticada.

Correndo o risco de ser políticamente incorrecto e até mesmo de parecer insensível, face à situação que eu próprio vivo, não me atrevo a julgar as eventuais atitudes de outros, que com menos meios, vivem problemas idênticos aos meus.

O Senhor Presidente do Instituto da Segurança Social deveria dedicar mais tempo a reflectir sobre estas matérias, avaliar bem as suas prioridades e não fazer juízos morais genéricos sobre pessoas que não conhece e que poderão ter tomado atitudes de desespero, exactamente porque não conseguem ultrapassar o inultrapassável.

Nem todos os casos de abandono de idosos nos hospitais se devem a comportamentos indignos e de crueldade, devem-se muitas vezes à impotência e ao desespero de quem já não consegue lidar com uma situação impossível e procura com isso o seu próprio "mal menor"!

No Dia Internacional do Doente com Alzheimer, a tomada de posição do "responsável" pela Segurança Social foi, no meu modesto entender, profundamente infeliz, transmitindo com ela a ideia de que a Segurança Social Portuguesa nada mais tem para oferecer do que a criminalização do único acto que, em desespero de causa, pode garantir ao doente uma situação de conforto digno e tratamento adequado, à revelia do completo desinteresse da Segurança Social por este problema.

Por muito cruel e desumano que possa ser considerado deixar um idoso, com algum tipo de demência, ou com problemas de saúde graves, num Hospital Público, isso acontece, na maioria dos casos, porque os serviços estatais não têm qualquer alternativa para oferecer em termos de apoios sociais domiciliários ou de cuidados paliativos!

O que sinceramente me parece é que o que custa a "engolir" a esse e outros "responsáveis" é que a atitude de algumas famílias, obriga o Serviço Nacional de Saúde, contra a sua própria vontade, a assumir o papel que de facto lhe competeria se fosse bem pensado e bem gerido.

Também a mim já me pareceu estranho e pouco normal que alguém deixe um idoso num hospital. Depois de passar pelo que estou a passar hoje em dia a minha visão é algo diferente.

Um dia este problema pode bater-nos à porta... poderemos ser nós....

Esperemos entretanto que as prioridades e as mentalidades dos responsáveis pela Saúde e pela Segurança Social no nosso País se alterem profundamente! Esperemos que um dia isso aconteça.... Um dia....

quarta-feira, agosto 25, 2010

Recordando "Dores de Cotovelo" Transatlânticas

Estou sem computador e simultaneamente de partida para férias. Contudo não queria partir sem deixar algo neste meu pequeno espaço… Hoje trago apenas umas breves e simples lembranças dos meus tempos de infância.

O pretexto foi-me dado por um dos canais da Fox que utilizou recentemente um pequeno separador musical onde se ouvia apenas a seguinte frase:“ Que eu quero passar com a minha dor”!

Ora isso trouxe-me à memória muita coisa sobre os primórdios das minhas recordações sobre música.

Essa frase é o segundo verso de uma canção chamada a “Flor e o Espinho” escrita em 1957 por Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito e que viria a ser um imenso sucesso no Brasil, 8 anos mais tarde, pela voz da “divina” Elizeth Cardoso.



“Tire o seu sorriso do caminho, Que eu quero passar com a minha dor” . São os versos, muito bem conseguidos, do começo desta canção que passou completamente despercebida em Portugal, apesar de ter vindo a ser cantada por dezenas e dezenas de cantores brasileiros, podendo-se considerar um verdadeiro standard musical do País Irmão.

A voz que se ouvia na Fox era a de Paulinho Moska:



Contudo, a primeira vez que eu ouvi esta canção foi através de Nora Ney, igualmente uma ilustre desconhecida em Portugal.

As razões deste desconhecimento são muito simples:

Apesar de ter um imenso sucesso no Brasil e de, no inicio dos anos 50, ter criado uma canção que chegou a ser ouvida até à exaustão nas rádios portuguesas: “Ninguém me Ama”; Nora era militante do Partido Comunista Brasileiro, o que portanto não era aceitável para a censura nacional.

Assim, a canção só foi escutada aqui, um pouco mais tarde, pela versão, também magnifica, de Dolores Duran e o sucesso foi extraordinário!

Para além de comunista, Nora Ney era uma mulher bonita, elegante e extremamente sofisticada o que a tornava ainda mais perigosa para os nossos censores.



Fazendo-lhe agora a devida justiça, vejamo-la cantando a canção que criou e que teve mais tarde uma verdadeira projecção global, através de inúmeras versões, desde a da italiana Mina à mundialmente famosa de Nat King Cole.



Esta canção escrita pelo “grande” António Maria, em 1952 foi um dos primeiros sucessos de Nora Ney e integrava-se num estilo muito em moda na época: o da chamada canção de “dor de cotovelo”!

Este estilo prestava-se quer a obras de muita qualidade, quer a produtos verdadeiramente Kitch, mas que nem por isso deixavam de ter sucesso.

Algumas vezes para ajudar a obter um efeito mais seguro, utilizava-se o estilo do bolero ou o do tango, o que tornava a “dor de cotovelo” ainda mais pungente… e vendável!

E eu recordo-me muito bem que, nessa linha, vinda também do Brasil, invadiu as nossas rádios uma canção sem grandes pretensões de qualidade, que durante meses foi ouvida de manhã à noite e que depois em Portugal, como sempre acontece, se viria a perder na poeira do tempo:

Refiro-me ao bolero “Faz-me Rir”, canção interpretada por Edith Veiga, que depois a foi repetindo em quase todos os discos que veio a gravar, como se de um talismã se tratasse.



Esta cantora, depois de uma curta carreira, casou e afastou-se da vida artística (temporáriamente, no seu caso), tal como aconteceu com outra cantora que, do lado de cá do Atlântico, interpretava também canções de amores dramáticos, culpas doentias e valentes dores cotovelares e que curiosamente também ficaria associada essencial, mas injustamente, a uma única canção: “Vocês Sabem Lá”.

Falo naturalmente de Maria de Fátima Bravo, que infelizmente quando se retirou,muito jovem, fê-lo de forma definitiva.

Ora na mesma altura em que Edith Veiga perdia as estribeiras com o bolero “Faz-me Rir”, a Maria de Fátima Bravo carregada de culpas, perdia a vergonha e confessava as suas galderices com o tango “Eu sou Pecadora”:



Mas, voltemos a Nora Ney, cujo verdadeiro nome não ajudava muito a quem, na época, se quisesse afirmar no meio artístico.

Iracema era o seu nome de baptismo e começou por fazer carreira cantando apenas em inglês standards do jazz, já que a sua voz, muito grave, de contralto estava completamente fora dos cânones da época!

Disse-se sempre aliás que mais do que uma cantora Nora Ney era uma “diseuse”, contudo talvez essa carácterística fosse uma das chaves do seu sucesso, que foi enorme, tendo sido pioneira em muitas coisas no panorama musical brasileiro:

Foi a primeira brasileira a cantar Rock, foi a que primeiro gravou composições de António Carlos Jobim e foi também a primeira a pisar os palcos da Europa de Leste, incluindo os da antiga União Soviética….

O facto de ser comunista e de a partir de 1964, com a ditadura militar, se ter exilado durante oito anos, terá tido nisso, decerto, alguma importância, contudo lá que foi a primeira a conseguir esse feito, ninguém o pode negar….

Entretanto, no Brasil, Nora Ney será sempre recordada por ter dado voz às mais interessantes composições de António Maria e Fernando Lobo, dentro do estilo da tal “dor de cotovelo”, como esta que a seguir poderemos ouvir:



Dor de cotovelo que em Portugal teve também imensos seguidores, mas dos quais hoje não irei falar, pois julgo ser mais interessante recordar a par de Nora Ney, a voz magnifica e inesquecível de Maria de Fátima Bravo, que cantava, com a sua voz esplêndida, essa dor ao jeito português.

Se uma encontrava razões de preconceito para os seus desencontros amorosos, a outra, depois de ter confessado anteriormente as suas “cabeçadas”, já não se importava mais com o que a sociedade preconceituosa pudesse falar dela:




Enfim, apesar da ironia, com que falo deste género musical, devo dizer que, conforme os anos vão passando, melhor vou reconhecendo que ele era um excelente espelho dos constrangimentos sociais da época, sobretudo para a mulher, quase sempre a maior vítima de discriminações de classe e de preconceitos religiosos.

E, do mesmo modo, confesso que cada vez mais agradáveis ao meu ouvido se vão tornando estas canções, que estão indiscutivelmente ligadas às memórias da minha infância.

Por ser demasiado conhecida, não quis colocar aqui directamente a interpretação original, pela Fátima Bravo, do “Vocês sabem Lá” da dupla Nóbrega e Sousa e Jerónimo Bragança, os quais, aliás, tive o prazer de conhecer pessoalmente.

Mas, clicando neste espaço, poderão escutar este belo símbolo de da dor de cotovelo nacional, na sua versão original de 1958. Uma das melhores, senão talvez a melhor das canções desse género, feitas no nosso País, cantada por uma voz que era sem dúvida excepcional!

Nóbrega e Sousa, a propósito desta canção chegou a confessar-me, meio a brincar, meio a sério, que o seu sucesso foi tão grande e que havia tanta gente a cantá-la tão mal que já nem sequer a conseguia ouvir…

Não se referia decerto ao caso da versão que aqui trago para terminar, como simples curiosidade.

Em meados dos anos 60, Mirene Cardinalli gravou-a, tendo sido na altura editada em vinil, nunca o tendo sido depois em CD.

Como se sabe Mirene perderia a vida em 1969, aos 27 anos de idade e para mim, depois da versão original, esta é, apesar dos fracos arranjos orquestrais, a mais conseguida de todas as versões feitas após Maria de Fátima Bravo.

Por isso mesmo, desejo deixá-la aqui, para que não se perca no esquecimento.



Espero não ter sido demasiado chato com estas memórias antigas e parto, sem dor… e sem computador, para férias!!!!

quarta-feira, julho 21, 2010

Fez anos em Março e eu esqueci-me!

Ontem, ao ler os comentários ao último post do blog Tertúlias, apareceram referências muito interessantes a uma das minhas cantoras favoritas, fazendo-me perceber que estava obviamente em falta com ela, pois deixara passar em claro uma efeméride muito especial da sua vida.

Assim, decidi falar já hoje dessa magnifica voz, que é considerada a última das grandes cantoras do verismo e decerto a que maior longevidade teve na sua carreira.

Falo-vos de Magda Olivero, que completou em 25 de Março passado o seu centésimo aniversário e cujo nome vi pela primeira vez nos jornais, aquando da sua estreia no Metropolitan de Nova Iorque em 1975.





Na verdade o interesse jornalístico de então centrava-se no facto desta cantora se apresentar naquela sala, com a Tosca, numa idade em que a maior parte das cantoras já estão retiradas, ou quando muito no ocaso da carreira. Magda tinha então 65 anos.

Fiquei naturalmente curioso!

A sua aparição no exigente MET parece que não foi fácil, apesar de Magda ser um nome mundialmente conhecido, foi precisa uma insistência enorme da então jovem vedeta da Ópera Joan Sutherland, para que a administração daquela sala aceitasse apresentar uma Flora Tosca de 65 anos.
Os círculos musicais de Nova Iorque mobilizaram-se então para ver o que poderia ser uma de duas coisas, ou fenómeno artístico ou um embaraçoso desastre! E, portanto, fosse como fosse, algo assim na principal sala da cidade seria imperdível.

Os jornais de então relataram que o público nova-iorquino acabou por ficar verdadeiramente estupefacto e rendido ao canto de Magda.

Existe actualmente no youtube um excerto do som dessa sua actuação no MET que comprova a qualidade da sua actuação e a consequente reacção do público!


Relatou na altura o crítico Harold C. Schonberg do New York Times:
“O público gritou e aplaudiu freneticamente, fazendo com que o Maestro Jan Behr mandasse parar a orquestra. Ela teve que se aproximar do centro do palco e durante 20 minutos as palmas e os “Brava” não cessaram. Foi uma das maiores ovações a que o Metropolitan assistiu em toda a sua história!

Cantoras como Olivero têm a capacidade de, apenas com uma expressão do seu rosto ou com um único olhar, fazer com que o espectador sentado no ponto mais longínquo da sala se aperceba de toda a densidade que a obra pretende transmitir.

Fez-se história naquela noite, em que apesar da idade Olivero deu-nos uma Tosca surpreendentemente doce, sensual e feminina. Vocalmente, foi ainda mais excepcional do que seria imaginável. Contida quando era preciso, dramática quando era necessário, a sua voz representa bem mais do que a sua capacidade como cantora, representa a suprema arte do canto. “

Lembro-me de ter lido na imprensa portuguesa um relato deste tipo sobre esta récita, não me recordando sinceramente qual a fonte donde provinha. Contudo, foi dos tais casos que me fez, a partir desse momento, querer acompanhar e saber mais sobre esta cantora.

Ao longo do tempo fui sabendo mais algumas coisas sobre o passado glorioso de Magda Olivero, comprando alguns discos e, sempre que possível, apanhar mais notícias sobre a sua manutenção em actividade! Actividade que dura praticamente até aos dias de hoje.

Embora retirada dos palcos profissionalmente aos 71 anos, continuou a ser solicitada para cantar em Igrejas perto da sua residência e em pequenos saraus particulares.

Dez anos depois de se retirar, aos 81 anos, era assim a sua Avé Maria de Gounoud:


Mais dez anos passados, aos 91 anos de idade, podemos voltar a vê-la aqui cantando como solista numa igreja de Milão, durante a missa que assinalou a passagem do 25º aniversário da morte de Maria Callas.




A carreira desta cantora excepcional iniciou-se em 1933, tendo sido considerada pelo compositor Francesco Cilea a melhor de todas as protagonistas da sua Adriana Lecouvreur, já que segundo todos os que a tiveram oportunidade de a ver ao vivo, tratava-se de uma cantora que para além de transmitir todas as notas da partitura e todos os sentimentos inscritos no libreto, conseguia conjugá-los de tal forma que a ficção posta no palco se transformava num vendaval de sensações para o espectador.

Ela é hoje, com os seus magníficos 100 anos, plenos de vigor e lucidez (o ano passado ainda deu uma pequena conferência e cantou uma pequena ária em público) o único elo vivo que liga aos compositores do inicio do século XX, já que trabalhou directamente com Mascagni, Franco Alfano e Riccardo Zandonai, para além de Cilea, é claro.

Interrompeu a carreira de 1940 a 1950, devido ao seu casamento, mas retomou-a de novo a pedido de Cilea, que já bastante doente desejava voltar a ver a sua Ópera com a sua cantora de eleição.

Cilea morreria infelizmente antes da estreia do espectáculo, mas de novo Olivero voltou a aos palcos, recomeçando a sua actividade com esse papel, em 1951.

Tendo tido uma carreira recheada de sucessos, viveu o seu auge numa época em que todas as atenções mediáticas se voltavam para Maria Callas e, esporadicamente, para a sua rivalidade daquela com Renata Tebaldi.

Foi, apesar disso, no mundo da Ópera, considerada uma verdadeira Diva, que tal como Callas era excelente quer como cantora, quer como actriz.

Devido à sua longa carreira, teve como nenhuma outra, a oportunidade de cantar com várias gerações de grandes cantores, de Gigli a Gobbi, de Del Monaco a Corelli, passando por Plácido Domingo, por exemplo…..

Do mesmo modo foi intérprete, nos palcos de todo o mundo, de muitas das mais disputadas obras do repertório operático: La bohème, La fanciulla del West, La traviata, La Wally, Madame Butterfly, Manon Lescaut, Mefistofele, e Turandot, foram algumas delas.

Afirmava ter um principio básico, que era o de não imitar ninguém e se errasse, corrigiria o erro por si, com o seu próprio estilo… com uma excepção... ao fazer a Traviata inspirava-se sempre em Greta Garbo e se o tenor que lhe calhava para o papel de Alfredo não correspondia exactamente ao perfil que desejava, bastava-lhe fantasiar com o actor Robert Taylor e a “química” ficava garantida.

Termino esta homenagem simples a esta grande cantora com um pequeno vídeo que preparei com uma ária famosa da Ópera Gianni Schicchi, que foi exactamente a primeira Ópera em que participou.

Espero que gostem tanto quanto eu!

sábado, julho 10, 2010

De três a dez euros

Nunca fui um admirador da chamada stand up comedy, confesso contudo que ainda antes que ela aparecesse com esse nome, eu divertia-me imenso ao ver, no início dos anos 60, os programas de televisão de Victor Borge.





Borge, natural de Copenhaga, onde nasceu em 1909, começou a aprender piano aos 3 anos de idade, aos 9 dava o seu primeiro concerto a solo e aos 10 actuava já como solista com a Orquestra Filarmónica de Copenhaga.

Foi um menino prodígio e depois um músico prodigiosamente inovador ao trazer para a música clássica o humor, bastando-lhe para isso guiar-se em experiências vividas.

Músicos que a meio da actuação caíam do seu assento, vira-pautas que se enganavam ou deixavam cair as folhas, abas do piano que se fechavam sobre as mãos do pianista, pautas colocadas ao contrário….


Do universo da música, chamada séria, Borge trouxe-nos todo um mundo de episódios reais que enchiam de humor os seus espectáculos.





As gerações seguintes viram-no decerto nos Marretas e na Rua Sézamo.





Victor Borge foi um virtuoso do piano, que tinha a autoridade moral e artística para olhar para a música a partir dos seus aspectos mais hilariantes dizendo, com alguma razão, que se tivéssemos a televisão sintonizada num concerto de música clássica e lhe retirássemos o som, os músicos iriam parecer absolutamente ridículos.


Tendo começado a fazer humor com a música, ainda antes dos Irmãos Marx, era um seu fervoroso admirador, levando pedaços exemplares dos seus filmes para os seus espectáculos:





Borge, dinamarquês de ascendência judaica, estava na Suécia em 1940 quando os Nazis invadiram a Dinamarca e não hesitou, em partir de imediato em direcção aos Estados Unidos, via Finlândia, tomando o último navio neutral autorizado a zarpar daquele país báltico!


Não sabendo uma única palavra de inglês e apenas com 20 dólares no bolso, o seu enorme talento fez com que rapidamente ganhasse notoriedade, vindo a tornar-se em muito pouco tempo uma das figuras mais queridas do espectáculo americano e de todo o mundo!





Anos mais tarde, ao referir-se à sua fuga, costumava dizer que naquele tempo apenas duas pessoas perceberam exactamente o que se estava a passar no Continente Europeu. Churchill que salvara a Europa e ele que se salvara a si mesmo!


Borge que viria a morrer com aos 91 anos nos Estados Unidos, manteve sempre uma relação muito afectuosa com a sua Dinamarca.

Aquando do seu octogésimo aniversário foi homenageado em Copenhaga com um concerto que ficou memorável pela sua espectularidade e por em diversos momentos fazer a orquestra desmanchar-se a rir!

Mais ainda, por ter feito com que a consagrada flautista Michala Petri que o acompanhou nas Czardas de Monti, perdesse o fôlego necessário para tocar, por ser incapaz igualmente de conter o riso.





Bom, mas o que terá tudo isto que ver com o título que dei a este post?


Tem que ver com o facto de Borge ter neste momento seguidores à sua altura, e refiro-me naturalmente à dupla Igudesman & Joo composta por dois músicos igualmente virtuosos:

Quanto ao violinista, o russo Aleksey Igudesman é, para além de um executante extraordinário, um reconhecido compositor, com obras que já constam dos repertórios de algumas das mais prestigiadas orquestras, quer de câmara, quer sinfónicas.

Quanto ao pianista, Richard Hyung-ki Joo, britânico de origem coreana, foi vencedor de uma das edições do prestigiado Concurso de Piano Stravinsky, tendo sido solista nas principais salas mundiais, tocando com os mais conhecidos e consagrados maestros.

Ora esta dupla actua hoje e amanhã em Portugal, mais propriamente no Festival Internacional de Música de Espinho, que de ano para ano, se vem tornando cada vez mais interessante.


E os bilhetes respectivos custam entre os 3 e os 10 euros!


Não sei se já estão todos vendidos, mas quem puder assistir ao espectáculo deste duo, decerto que testemunhará um momento musical verdadeiramente notável.


Vejam, por exemplo, este excerto da sua actuação com Gidon Kremer e a sua famosíssima Kremerata Báltica, num momento musical absolutamente incomum.





O espectáculo que hoje e amanhã será apresentado em Espinho reproduz o concerto gravado já em DVD com o título “A Little Nightmare Music”.


Dessa produção que vem sendo apresentada ao vivo por todo o mundo, junto algo que muito provavelmente se verá em Espinho, onde eu tenho imensa pena de não poder estar! Trata-se de Mozart, apresentado aqui em Roterdão, da mesma forma que o duo o executou durante os célebres concertos Promenade de 2008.





De três a a dez euros….