segunda-feira, agosto 24, 2009

A propósito de uma notícia

Ainda a Campanha Eleitoral não começou e já estou a ficar farto de tanta hipocrisia e mediocridade!
Sinceramente já cansa ouvir Manuela Ferreira Leite e Paulo Portas, falarem de Pequenas e Médias Empresas.
Não porque as PMEs não sejam importantes para o nosso país, muito pelo contrário. Mas porque os pressupostos ideológicos que defendem, de redução do Estado a um papel minimalista e de liberalização completa da economia, numa sociedade onde se movem livremente empresas gigantescas, são já em teoria, os piores inimigos de qualquer PME.
Por outro lado, também fiquei "engalinhado" com a justificação dada pelo PS para ter tornado mais liberal a legislação do trabalho, alegando que isso contribuiria, para tornar a nossa economia mais competitiva.... Uma lógica dessas é não só incompatível com o ideário socialista, mas também se for levada ao seu limite acaba até por justificar o trabalho escravo.
Para piorar tudo isto os partidos à Esquerda limitam-se a repetir slogans, ainda que sob novas formas, e parecem mesmo apreciar "o quanto pior melhor", na convicção de que o voto de protesto lhes dará mais lugares no Parlamento e nas Câmaras.
O cansaço, com a demagogia e a óbvia falta de honestidade política, que parece contagiar toda a classe política, têm-me feito hesitar sobre que tipo de intervenção posso e devo ter aqui neste meu espaço e até sobre que voto hei-de ter nas legislativas!
No entanto uma notícia que ouvi hoje na TSF levou-me, de imediato a querer desabafar um pouco sobre alguns assuntos!
Dessa notícia, de hoje, da TSF (jornalista Cláudia Arsénio) com o título: Empresários que viajam em comitivas oficiais não desenvolvem negócios no mercado visitado . Transcrevo alguns trechos:

"Os empresários portugueses, que têm viajado com o Presidente da República e com o Primeiro-Ministro não aproveitam para desenvolver negócios com empresários locais, mas com outros empresários da comitiva, revela um estudo universitário divulgado, na edição desta segunda-feira, pelo Jornal de Notícias (JN).

Em vez de estabelecer contactos com empresários dos países que estão a visitar, a maioria dos empresários portugueses prefere manter as redes de negócio dentro da própria visita oficial.

Ou seja, os empresários aproveitam as visitas organizadas pelo Presidente da República e pelo primeiro-ministro para desenvolver negócios com outros empresários da comitiva.

Esta é uma das conclusões de um estudo realizado por André Caiado, da Faculdade de Economia do Porto, que analisou 12 visitas oficiais, entre 2005 e 2008.
.................................................

O estudo refere ainda que os empresários não se preparam tanto como deviam e podiam, por exemplo, tentar estabelecer contactos com antecedência nos países que vão visitar.
Aliás, segundo este estudo, os aspectos menos valorizados das visitas oficiais foram a necessidade de adquirir informação sobre concorrentes, celebrar contratos e adaptar ou planear a criação de produtos ou serviços para o mercado visitado. "


Esta situação, que certamente, não deixará surpreendido Cavaco Silva, não é senão um dos muitos sinais de atraso e falta de lucidez de uma boa parte do nosso empresariado.

Já lá vão longos anos, quando andei a estudar Gestão de Empresas, que nos era ensinado que a má preparação dos nossos empresários era uma das principais causas do nosso atraso.

Empresas mal geridas, empresários mais preocupados em ter bons carros e boas casas do que em investir nas suas empresas, produzem um tecido empresarial fraco e uma economia débil.

Estes factores de há muito que eram conhecidos e há muito que urgia uma mudança!

E diga-se o que se disser dos políticos, eles, umas vezes melhor, outras pior, têm cumprido a sua missão.

Conseguiram fazer-nos entrar na União Europeia, e com essa entrada, foram chovendo fundos comunitários, para projectos vários, na industria, na agricultura, nas pescas e no comércio, cujo âmbito temporal foi sucessivamente alargado pelos vários governos.

Da Europa veio dinheiro que financiou acções de formação para tudo e mais alguma coisa.

Muitas vezes essas acções foram conduzidas por associações empresariais, de acordo com os interesses e necessidades que definiram, e afinal acabamos por verificar que pouco efeito tiveram na atitude dos empresários.

Empresários que, entretanto, passaram a ser chamados de “empreendedores”, mas que se comportam na prática como mero “patronato”, já que apontam sempre, em todas as circunstâncias, como a solução prioritária para os seus problemas “uma maior flexibilização das leis laborais”!

Apoios às PME, são, actualmente, o clamor de alguns dos nossos partidos políticos… Podem-se certamente criar mais alguns…. Mas na verdade esse clamor é apenas, e só, mero oportunismo político, em época de campanha.

Ao longo dos anos o Estado, através de todos os Governos, tem vindo a criar programas, incentivos, isenções e ajudas.

Visite-se, por exemplo, o site do IAPMEI, e também o conjunto de programas existentes no âmbito da União Europeia, a maior parte de aplicação entre 2007 e 2013 e ver-se-á, a quantidade de opções já existentes ao dispor dos empresários.

Mas para isso é preciso que eles queiram mudar algo e saibam o que devem mudar, saibam para onde querem ir!

E depois que se dêem ao incómodo de informar-se (as associações têm aí um papel importante), e que estejam dispostos assumir os custos dos riscos com a mudança.

Enfim, que queiram mexer-se, não ficando à espera que um qualquer subsídio lhes caía do céu!

Ser empresário implica, face ao mercado ser criativo (e não limitar a imaginação a contornar as leis fiscais), e implica, face à sua organização interna, ter bons instrumentos de gestão, nomeadamente uma boa contabilidade analítica e saber fazer bom uso dela…

Em tempos estive profissionalmente envolvido num projecto público, com fundos europeus, para a modernização de um determinado sector económico. Havia uma subsidiação fortíssima que chegava a atingir os 70% a fundo perdido e, mesmo assim, foi necessário andar a bater porta a porta para que alguns, poucos, aderissem!

Tal como em muitos outros aspectos da nossa sociedade, o nosso progresso depende de uma mudança de mentalidades, o que é algo que pode levar gerações.

Mas será que não há sucesso empresarial no nosso País?

Claro que há!

Para além dos habituais nomes sonantes de Belmiros e Amorins, veja-se por exemplo o caso do sector vinicola, onde por todo o país vão aparecendo jovens bem preparados, muito deles pertencentes a famílias com peso tradicional no sector, criando produtos de qualidade e já com reconhecimento internacional!

E ao ver esse sucesso nesse sector específico, atente-se nas razões pelas quais noutras actividades agricolas, explorações há longo tempo decadentes em mãos nacionais, se tornam rentáveis com a chegada de investidores estrangeiros.

É, talvez aqui, na agricultura, que se tornam mais visiveis as diferenças sociais e de sucesso, ou insucesso, consoante a respectiva origem familiar! Consoante houve ou não a capacidade das novas gerações, adquirirem conhecimentos e de as antigas gerações conseguirem dimensões nas propriedades que lhes permitam adequadas economias de escala.

Por isso mesmo a agricultura é um caso à parte, porque para além da necessária modernização, das questões técnicas e de imprevisibilidade natural, há ainda a considerar as questões fundiárias, de actividade cooperativa e de emparcelamento.

Mas também há, sucessos na indústria e serão esses os casos que devem ser divulgados!Não como trunfo de campanha eleitoral de quem governa, pois o que os industriais bem sucedidos obtiveram, conseguiram-no com a sua persistência e a sua luta, …. Mas sim como um exemplo para os restantes.

Entretanto, o que vamos sabendo de alguns gestores bancários, ultimamente muito falados, dá-nos a perceber que a qualidade técnica e ética do nosso empresariado é muito mais problemática do que muitos de nós julgávamos e que a fraqueza do nosso "tecido empresarial" não se encontra apenas restrita ao mundo dos pequenos negócios.

Este estudo hoje vindo a lume no JN e na TSF, só nos faz confirmar mais profundamente essa percepção.

Esteja quem estiver no Governo, a Economia do País só virá a ser competitiva, após um esforço monumental na Educação, que produza empresários, mais cultos, mais preparados, com horizontes mais alargados. E disso, só após, algumas gerações Portugal colherá os frutos!

Fazer campanhas eleitorais ao pé de produtores de batata com queixas de falta escoamento, porque as cadeias de distribuição optam por batatas estrangeiras, é um péssimo serviço prestado ao país e à agricultura.

No século XXI, produtores de batatas, ou de sapatos, ou de mobílias, são empresários, e sejam pequenos ou grandes, têm que saber ir à procura dos compradores, têm que possuir estratégias de marketing, têm que ser mais do que simples, lavradores, sapateiros ou carpinteiros.

E se não o souberem ser, por falta de preparação ou de meios, aí torna-se decisivo o papel das suas associações, para os encaminhar, para lhes prestar assessoria, para lhes dar a formação adequada… Fazer desfiles de tractores não resolve o problema! Nem o deles nem o da nossa economia em geral.

Referir-se ao sector agrícola da economia, como “Lavoura”, como faz Paulo Portas, não é um mero acto de charme linguístico, é uma designação que comporta um sentido sociológico muito preciso. Um sentido que nos remete para o passado, para “os bons velhos tempos” em que não havia um mercado aberto e liberal que o próprio Portas ideologicamente defende.

É, portanto, um acto de profunda demagogia e desonestidade intelectual, nas visitas aos “lavradores” tentar aliciar votos dos que mais sofrem com a inadaptação aos novos tempos, para depois ser arauto do liberalismo e da diminuição do papel do Estado, o que coloca sempre os mais fracos, os menos preparados à mercê da lei da selva!

Por tudo isto esta campanha está a revelar-se profundamente desoladora e triste...

Por tudo isto e muito mais, sobre o qual poderia estar aqui a perorar durante horas, estou indeciso ainda sobre o meu voto.

No entanto, quer por razões ideológicas, quer pelo seu péssimo desempenho governamental no passado excluo, desde já Paulo Portas e Manuela Ferreira Leite a qual aliás, num espaço de 20 minutos foi capaz de dizer, na passada semana, que não conhecia o verdadeiro estado das finanças públicas, pois achava que os dados oficiais não transmitiam a gravidade da situação e que contudo podia garantir que não aumentava os impostos!

Acho que a hipocrisia, o descaramento e a inconsciência não são próprios de quem se propõe governar um País.

4 comentários:

  1. diz_traido10:53 da tarde

    Enquanto a promiscuidade entre o sistema político e o empresarial persistir, não haverá ideologia que nos salve. E todos aqueles que de alguma forma tentaram fazer alguma coisa contra o “sistema”, depressa se aperceberam que mais valia afastarem-se. João Cravinho que o diga.
    Quem se mete com eles, leva... recorda-lhe alguma coisa?...
    E quanto à entrevista da “contabilista”, o meu amigo já deveria saber que convém sempre esperar pelo intérprete oficial dela.
    O nosso futebol em tempos teve um tradutor. O psd tem agora um intérprete!... Espera-se pelas 5ª feiras ou consulta-se o blog do intérprete e ficamos esclarecidos.
    Pessoalmente há muito que creio que o que verdadeiramente nos incomoda é que se diga mal de nós no estrangeiro. Ficamos muito incomodados quando somos alvo de noticias de primeira página no por esse mundo fora. Foi assim com o caso Maddie, foi também com o caso dos cegos do hospital de santa Maria, agora com o desabamento da arriba. Quando assim acontece, tratamos logo de mostrar serviço (!?!?!!!).
    Uma humilhação internacional se o resultado das eleições revelasse uma percentagem acima dos 50% de votos brancos e nulos talvez fosse o interruptor que nos faz falta.
    E com este PS da treta, sou bem capaz de me associar ao Movimento pela defesa do voto nulo.

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  2. Percebo-te muito bem, caro amigo, e dou-te inteira razão.
    Embora o meu voto esteja há muito definido e já expliquei várias vezes porquê, não sou de forma alguma um "yes, sir" e reconheço vários tiros nos pés dos actuais governantes.
    Apenas uma coisa me mete medo, é isso é a eleição "directa ou indirecta" de MFL para Primeiro Ministro de Portugal.
    E embora seja totalmente contrário à abstenção, por tudo o que dizes, tende a ser esse, cada vez mais, o partido mais "votado" pelos portugueses, infelizmente.
    Abraço.

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  3. Não posso deixar de dar os parabéns pela exposição dos assuntos.
    Quanto a criatividade e futuro empresarial não deixem de ver esta empresa; ideia; etc.
    http://www.simplefruit.com.pt/
    Quanto a votações só branco mesmo.
    Portugal está F_ _ _ _ _ _ !
    NAUMON

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  4. Querido amigo
    Estou num “cybercafé” espanhol (são aqui, agora, 11,30H). Vim ver o correio, saber notícias das minhas irmãs, e encontrei no Outlook a mensagem do seu comentário deixado na “Casa”.
    Agradeço, de coração, todo o seu carinho, e desejo, igualmente do fundo do coração , que as suas tão merecidas férias lhe tragam a (re)energização
    de que tanto necessita, e que sem dúvida merece.
    Encontrar-nos-emos depois de 31. Não tenciono, pelo menos neste momento, reiniciar actividades bloguísticas em pleno, mas…não vale a pena viver por antecipação…O melhor é aguardar. De qualquer modo far-lhe-ei uma visitinha, depois, com calma.
    Votos de umas excelentes férias, com tudo de bom.
    Um beijinho com toda a minha amizade
    Mariazita

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