
Trata-se de uma das figuras literárias do século XX que mais admiro.
Penso que a melhor homenagem que podemos fazer a um escritor é divulgar a sua obra.
É o que me proponho hoje fazer, com um texto que, apesar de ser muito conhecido, e ser aparentemente dirigido a certas figuras de uma determinada época do nosso país, mantém-se ainda perfeitamente actual.
O texto, que reproduzo seguidamente, foi retirado dos seus "Contos Exemplares", publicado em 1962, e chama-se:
"O Retrato de Mónica"
"Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da "Liga Internacional das Mulheres Inúteis", ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.
Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem--se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.
Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.
De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.
A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, "qualquer distracção pode causar a morte do artista". Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.
Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.
Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.
O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.
É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.
E por isso Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora das suas virtudes, admiradora de seus silêncios e de seus discursos. Admiradora da sua obra, que está ao serviço dela, admiradora do seu espírito, que ela serve.
Pode-se dizer que em cada edifício construído neste tempo houve sempre uma pedra trazida por Mónica.
Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima e toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.
Não é o desejo do amor que os une. O que os une é justamente uma vontade sem amor.
E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio, o mais firme fundamento do seu poder."
Amigo Com Senso,
ResponderEliminarÉ sempre com imenso prazer que visito o seu extraordinário Blog.
Aqui aprende-se e "bebe-se" cultura.
Eu admiro particularmente Sophia, nem sei bem explicar porquê. Tinha algo que me continua a seduzir: o seu porte, a sua maneira diferente de olhar, de estar, a sua poesia, enfim toda a sua escrita que me continua a deslumbrar.
Grata por recordá-la.
Um abraço.
P.S. Hoje, num outro canto-meu, também coloquei uma alusão a Sophia, aquando da inauguração
do seu busto, na Graça, em Lisboa.
p+rotePara mim, a Sophia é uma referência constante; é de longe, de todos os escritores, aquele que mais vezes referi no meu blog, quer com transcrições, quer com palavras de admiração.
ResponderEliminarE vai continuar a ser.
É um prazer renovado voltar a encontrar-te por aqui...
Abraço grande.
Também para mim, Sophia é um dos grandes vultos do século XX. Mulher, mãe, escritora, poeta, democrata... tudo desempenhou com a maior perfeição.
ResponderEliminarBem-haja!
Um abraço
Uma Grande Senhora!
ResponderEliminarBem hajas pela lembrança.
Abraço!
Olá
ResponderEliminarConheço, evidentemente, a Sophia de Mello Breyner Andersen mas nunca li nada dela e este trecho agradou-me.
Esta escritora vai então fazer parte da lista de autores cujos livros vou levar durante as férias.
Obrigada !
Beijinhos
Verdinha
Grande Sophia. O texto que reproduzes é magnífico. Eu encanto-me sempre com a poesia, mesmo a sabida de cor!
ResponderEliminarO que importa mesmo é ser-se visto, que é o mesmo que estar-se vivo, que é o contrário de estar-se morto!...
ResponderEliminarE cada vez mais a vida é vivida para muitos como um negócio!...
Perante essa liga de homens e mulheres inúteis, apetece dizer o mesmo que Jorge Palma: “deixa-me rir”!..
Meu caro amigo
ResponderEliminarTratar da minha saúde iclui uns tratamentos que estou fazendo, que terminam amanhã. Segue-se outro tipo de tratamentos (em termas), que começam na próxima semana; por isso vou ausentar-me domingo ou 2ª.feira. De acordo com os resultados obtidos, ver-se-á o que fazer de seguida.
O tempo livre de que disponho é, logicamente, pouco, mas estou a aproveitá-lo para uma última (desta série...) visitinha aos amigos, para agradecer todo o carinho que me dispensaram, agora, e sempre.
A minha disposição de espírito é positiva (sou assim por natureza), mas às vezes aparece assim uma sombrazita - sabe como é... - que me esforço por afastar.
"Tudo passa" - é isso que nunca podemos esquecer.
Muito obrigada pela sua amizade e carinho.
Desejo que a vida lhe corra o melhor possível, sem problemas de maior.
Um abraço carinhoso e beijinhos
Mariazita